{"id":9552,"date":"2025-07-14T06:33:57","date_gmt":"2025-07-14T06:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/dificuldades-nao-travam-raparigas-mocambicanas-obrigadas-a-serem-maes\/"},"modified":"2025-07-14T06:33:57","modified_gmt":"2025-07-14T06:33:57","slug":"dificuldades-nao-travam-raparigas-mocambicanas-obrigadas-a-serem-maes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/dificuldades-nao-travam-raparigas-mocambicanas-obrigadas-a-serem-maes\/","title":{"rendered":"Dificuldades n\u00e3o travam raparigas mo\u00e7ambicanas &#8216;obrigadas&#8217; a serem m\u00e3es"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>&#8220;Quando tive o meu filho foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas depois vieram as dificuldades&#8221;, conta \u00e0 Lusa, sentada \u00e0 porta de casa, com o beb\u00e9 Kayon, ao colo, no bairro da Mafalala, centro da capital mo\u00e7ambicana e onde a estrela do futebol Eus\u00e9bio nasceu.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\">\u00a0<\/div>\n<p>Um filho que n\u00e3o foi planeado j\u00e1 que, como tantas milhares de outras adolescentes mo\u00e7ambicanas, contracetivos n\u00e3o s\u00e3o prioridade: &#8220;Foi uma grande li\u00e7\u00e3o, nunca mais vou cometer esse erro na minha vida&#8221;.<\/p>\n<p>A vida de Diana Manhi\u00e7a \u00e9 reflexo de um relat\u00f3rio global das Na\u00e7\u00f5es Unidas que aponta Mo\u00e7ambique como o pa\u00eds com a quarta maior taxa de natalidade na adolesc\u00eancia, em raparigas de 15 a 19 anos, em todo o mundo, antevendo ainda a duplica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em 25 anos.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio &#8220;Situa\u00e7\u00e3o da Popula\u00e7\u00e3o Mundial 2025&#8221;, apresentando h\u00e1 uma semana em Maputo pelo Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Popula\u00e7\u00e3o (FNUAP), diz que a taxa de natalidade na adolesc\u00eancia, de 2001 a 2024, atingiu 158 em cada mil raparigas mo\u00e7ambicanas.<\/p>\n<p>&#8220;Foi muito dif\u00edcil, principalmente na escola. Tive que enfrentar bullying, mau-olhado. Aquilo para mim foi um grande desafio. Mas com o apoio dos meus pais consegui at\u00e9 l\u00e1, ao final do ano&#8221;, recorda a adolescente, que trata do filho sozinha, com o apoio apenas dos pais, na mesma casa, onde vivem seis pessoas numa d\u00fazia de metros quadrados.<\/p>\n<p>A muito custo, o pai do seu filho, ent\u00e3o de 23 anos, assumiu a crian\u00e7a, mas &#8220;nunca cuidou como deve ser&#8221;. Depois do nascimento n\u00e3o ficaram juntos e n\u00e3o recebe qualquer pens\u00e3o. O \u00fanico apoio vem dos pais, apesar do receio que foi revelar a gravidez, que tentou esconder at\u00e9 \u00e0 \u00faltima.<\/p>\n<p>&#8220;Desafio foi dizer ao meu pai que estava gr\u00e1vida. Demorei cerca de seis meses (&#8230;) Felizmente o meu pai recebeu a informa\u00e7\u00e3o como deve ser, como eu n\u00e3o esperava&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Na rua, e na escola, \u00e9 que a realidade foi diferente, com os &#8220;olhares e cr\u00edticas dos vizinhos que aumentavam com o crescimento da barriga&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A minha barriga saiu aos sete meses (&#8230;) A minha m\u00e3e notou, o meu pai n\u00e3o&#8221;, recorda, admitindo que sabia de planeamento familiar, mas que tinha &#8220;medo&#8221; de colocar um implante contracetivo, ap\u00f3s ouvir alegadas dificuldades vividas por outras mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;Arrependi-me&#8221;, desabafa, para rapidamente assumir que tr\u00eas meses depois de o filho nascer colocou logo o implante. Algo que, assume, deveria ter feito antes: &#8220;Faria sem pensar duas vezes, nem uma vez&#8221;.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da FNUAP estima que a popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana ronde este ano os 35,6 milh\u00f5es de pessoas, sendo 44% com idade at\u00e9 14 anos e apenas 3% acima de 65 anos. Em Mo\u00e7ambique, o relat\u00f3rio aponta 25 anos como o prazo para duplica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Alheia \u00e0s estat\u00edsticas, Diana alimenta a vontade de ser enfermeira e apesar de a gravidez a ter feito chumbar no 10.\u00ba ano, nunca deixou a escola, por insist\u00eancia do pai, que tamb\u00e9m a ajudou a montar uma pequena barraca.<\/p>\n<p>&#8220;Um sonho? Ser enfermeira, porque quero ajudar muita gente. Tratar bem as pessoas&#8221;, conta, assumindo: &#8220;Quero ser uma boa enfermeira&#8221;.<\/p>\n<p>Todos os dias levanta-se \u00e0s 05:00 para cozinhar badjias (salgado frito) que serve com p\u00e3o, no quintal, \u00e0 porta de casa, e apas (p\u00e3o achatado), que vende junto \u00e0 escola.<\/p>\n<p>Ao final da manh\u00e3 deixa o filho no sal\u00e3o de barbearia do pai.<\/p>\n<p>&#8220;Depois me preparo e vou para a escola, na Estrela Vermelha. Entro \u00e0s 12:00&#8221;, diz, com as m\u00e3os ainda cheias de massa, enquanto olha para o rel\u00f3gio, com a hora de sair para as aulas a chegar.<\/p>\n<p>Apesar da vida &#8220;muito dif\u00edcil&#8221; que assume levar, e do apoio total dos pais, espera do filho que &#8220;n\u00e3o cometa os mesmos erros&#8221;, no planeamento familiar que n\u00e3o fez.<\/p>\n<p>&#8220;Vou contar sobre os m\u00e9todos contracetivos, para que ele [&#8230;] n\u00e3o brinque mal, para sofrer as consequ\u00eancias de ter um filho cedo&#8221;, diz, enquanto assume, a medo, o desejo de lhe dar um irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Quero ter ele com tempo e hora. Para que ele n\u00e3o passe nenhuma dificuldade do que o primeiro passou. Tem de ser tudo com tempo&#8221;, assegura.<\/p>\n<p>O estudo do FNUAP sugere que apenas uma em cada tr\u00eas mulheres mo\u00e7ambicanas tem capacidade para tomar decis\u00f5es sobre o n\u00famero de filhos, pela dificuldade no acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade sexual e reprodutiva, al\u00e9m de que em m\u00e9dia uma crian\u00e7a em cada fam\u00edlia resulta de gravidez n\u00e3o planeada. Aponta tamb\u00e9m o elevado \u00edndice de uni\u00f5es prematuras, que afetam quase metade das raparigas (48%) e que d\u00e3o \u00e0 luz pela primeira vez antes dos 18 anos.<\/p>\n<p>Hort\u00eansia Zefanias, 21 anos, tamb\u00e9m faz vida no bairro da Mafalala e carrega ao colo os dois filhos. Engravidou do primeiro aos 17 anos e s\u00f3 contou \u00e0 m\u00e3e, que vive em Inhambane, depois do parto: &#8220;N\u00e3o foi f\u00e1cil. Tentei aborto, n\u00e3o deu certo&#8221;.<\/p>\n<p>Interrompeu a escola no 10.\u00ba ano e hoje mora com o companheiro, que depende de biscates nas obras, a sogra e o cunhado, na mesma casa. Se antes nunca quis saber de m\u00e9todos contracetivos, as dificuldades a isso a obrigaram e dois filhos depois colocou um implante.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sem filhos, agora, acho que estaria a trabalhar. J\u00e1 teria conclu\u00eddo a escola&#8221;, lamenta, ao mesmo tempo que garante: &#8220;Somos felizes, apesar das dificuldades&#8221;.<\/p>\n<p>De filhos &#8220;est\u00e1 bem assim&#8221; e voltar \u00e0 escola \u00e9 objetivo, sonhando em ser uma &#8220;empreendedora&#8221;, at\u00e9 porque trabalhava numa barraca antes de engravidar.<\/p>\n<p>E sobre os filhos, ainda beb\u00e9s, assume que ter\u00e1 a conversa sobre o planeamento familiar, quando chegar a hora: &#8220;Ensinar o bom caminho, que n\u00e3o sejam que nem eu (&#8230;). Irem \u00e0 escola e trabalharem&#8221;.<\/p>\n<p>No mesmo quintal de Hort\u00eansia, numa casa de chapas igual a tantas outras, vive C\u00edntia, de 16 anos, a mais velha de tr\u00eas irm\u00e3os. Na altura nem imaginava, mas foi Hort\u00eansia, que trata por cunhada, que lhe deu a not\u00edcia: Tinha ent\u00e3o 14 anos e estava gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tinha barriga, s\u00f3 apareceu com quatro meses. Ela \u00e9 que me descobriu. Tive medo de falar para a minha m\u00e3e&#8221;, relata, nervosa, com a filha Anaya ao colo.<\/p>\n<p>O namorado, ent\u00e3o de 17 anos, negou que fosse o pai e pouco depois Hort\u00eansia deixou a escola. M\u00e9todos contracetivos era algo em que n\u00e3o pensava e rapidamente, ainda crian\u00e7a, a vida mudou e as brincadeiras passaram a responsabilidade, como lavar roupa e limpezas, para ter dinheiro para o enxoval.<\/p>\n<p>Agora tenta acabar o 9.\u00ba ano e assume o objetivo de cuidar da filha, sem pensar em namorados ou em mais filhos.<\/p>\n<p>O objetivo: &#8220;Lutar pela minha fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p>A filha tem apenas dois anos, mas C\u00edntia pensa no futuro e sobretudo nos &#8220;erros&#8221;: &#8220;Vou-lhe pedir para saber como fazer as coisas com o parceiro dela&#8221;.<\/p>\n<p>Em Mo\u00e7ambique, segundo o estudo do FNUAP, a taxa de fertilidade \u00e9 de 4,6 filhos por mulher, m\u00e9dia que Em\u00edlia Rodrigues, ou &#8216;Maimuna&#8217;, no bairro da Mafalala, conhece bem.<\/p>\n<p>Engravidou pela primeira vez aos 17 anos, hoje tem 35 anos e quatro filhas, de tr\u00eas pais diferentes, o que a obrigou a deixar a escola no 5.\u00ba ano. A \u00faltima foi h\u00e1 cerca de 10 anos, nenhuma programada mas sempre com o desejo, j\u00e1 gr\u00e1vida, de nascer rapaz.<\/p>\n<p>&#8220;Era muito brincalhona&#8221;, recorda, depois de usar restos de madeira para colocar a chaleira gasta ao lume, para fazer o ch\u00e1 para as mais novas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 que para ter essas todas, eu queria ter um rapaz. A cada gravidez nascia uma rapariga&#8221;, conta, recordando o aviso que recebeu do irm\u00e3o, que a ajuda em casa: &#8220;Menina, para l\u00e1 de nascer [engravidar]&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Essa barriga n\u00e3o \u00e9 minha&#8221;, foi a resposta que se cansou de ouvir dos companheiros, obrigando-a fazer pela vida.<\/p>\n<p>Entre biscates, o apoio da m\u00e3e e do irm\u00e3o, &#8216;Maimuna&#8217; colocou o implante, algo com que nunca se preocupou, e o desejo de ter um rapaz ficou para tr\u00e1s, at\u00e9 ver. As filhas t\u00eam 17, 14, 12 e 10 anos, todas frequentam a escola e as mais velhas j\u00e1 colocaram implante contracetivo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 s\u00f3 se prevenirem&#8221;, pede, enquanto mant\u00e9m um lamento, ter deixado de estudar: &#8220;Arrependo-me, gostava de voltar. A escola \u00e9 um caminho&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com\/mundo\/2821419\/dificuldades-nao-travam-raparigas-mocambicanas-obrigadas-a-serem-maes#utm_source=rss-ultima-hora&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=rssfeed\" class=\"info\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Leia na \u00edntegra em <b>Not\u00edcias ao Minuto<b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando tive o meu filho foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas depois vieram as dificuldades&#8221;, conta \u00e0 Lusa, sentada \u00e0 porta de casa, com o beb\u00e9 Kayon, ao colo, no bairro da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9553,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1121],"tags":[],"class_list":["post-9552","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-profissao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9552\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9553"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}