{"id":669,"date":"2007-07-01T07:36:42","date_gmt":"2007-07-01T07:36:42","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/determinantes-psico-sociais-da-depressao-no-idoso\/"},"modified":"2021-05-04T10:10:49","modified_gmt":"2021-05-04T10:10:49","slug":"determinantes-psico-sociais-da-depressao-no-idoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/determinantes-psico-sociais-da-depressao-no-idoso\/","title":{"rendered":"Determinantes Psico-Sociais da Depress\u00e3o no Idoso"},"content":{"rendered":"<p>Aos olhos da sociedade em geral o envelhecimento e o ser velho \u00e9 ainda encarado de forma negativa. Socialmente, o \u201cser velho\u201d significa um conjunto de perdas, sentimentos de desapego, vazio e falta de identidade de pap\u00e9is.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"center\">\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Nursing n\u00ba 222<\/em><\/p>\n<h4><strong> Autor:<\/strong><\/h4>\n<p>Hugo Daniel Salgueiro<\/p>\n<p>Licenciado em Enfermagem \u2013 Centro de Sa\u00fade de Arraiolos;<\/p>\n<p>P\u00f3s-graduado em Sa\u00fade na Adolesc\u00eancia;<\/p>\n<p>Mestrando em Psicogerontologia<\/p>\n<h4><strong>Resumo:<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Do ponto de vista das perturba\u00e7\u00f5es da sa\u00fade mental nos idosos, a depress\u00e3o \u00e9 aquela que surge com maior frequ\u00eancia. O idoso est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de perdas cont\u00ednuas. Por vezes diminui\u00e7\u00e3o do suporte s\u00f3cio-familiar, perdas do estatuto profissional e at\u00e9 econ\u00f3mico, algum decl\u00ednio f\u00edsico, maior frequ\u00eancia de doen\u00e7as, tudo factores que podem ser associados ao aparecimento de estados depressivos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O idoso enquanto ser humano que \u00e9 possui v\u00e1rias dimens\u00f5es (social, psicol\u00f3gica, f\u00edsica e espiritual) todas elas interligadas e imposs\u00edveis de serem analisadas uma por uma, independentes das outras. O ser humano, idoso ou n\u00e3o, \u00e9 um ser hol\u00edstico. Tamb\u00e9m a etiologia da depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 una mas sim bio-psico-social.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Abstract:<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Depression is the most frequent disease at the point of view of the elder mental health disturbed. The elder are in a continuous lost situation. Sometimes lower social and family support, professional and economic status lost, some physical decline, additional number of diseases, all factors that could be associated with depression states appear.<\/p>\n<p align=\"justify\">The elder while Human Being, possess various dimensions (social, psychological and spiritual) all connected and impossible of being analysed one by one, independent of each other. The Human Being, elder or not, are an holistic being. Also the depression etiology is not unique, but bio-psycho-social.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aos olhos da sociedade em geral o envelhecimento e o ser velho \u00e9 ainda encarado de forma negativa. Socialmente, o \u201cser velho\u201d significa um conjunto de perdas, sentimentos de desapego, vazio e falta de identidade de pap\u00e9is. Estas sensa\u00e7\u00f5es de perda est\u00e3o ligadas a uma s\u00e9rie de factores sociais, ambientais e culturais. Por exemplo, o facto de se passar de uma situa\u00e7\u00e3o activa, no campo do trabalho, para uma situa\u00e7\u00e3o de reforma. Assim, as pessoas s\u00e3o como que condenadas ou obrigadas a viver a sua velhice com uma auto-\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 -estima baixa, \u201c(&#8230;) ver reduzido seu vigor, sua alegria de viver e sua utilidade social.\u201d (Schachter-Shalomi e Miller;1996:4). A sociedade n\u00e3o valoriza o idoso\/velho, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 subvalorizado. Dever-se-ia ao inv\u00e9s dar-lhes um valor inestim\u00e1vel, mais que n\u00e3o fosse pela acumula\u00e7\u00e3o de todas as experi\u00eancias de uma vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por outro lado, a pessoa que est\u00e1 a envelhecer depara-se igualmente com uma s\u00e9rie de perdas a n\u00edvel biol\u00f3gico. S\u00e3o pessoas em que as doen\u00e7as cr\u00f3nicas tendem a aumentar, bem como uma s\u00e9rie de depend\u00eancias que adv\u00e9m quer destas doen\u00e7as quer do pr\u00f3prio envelhecimento normal. H\u00e1 assim uma maior vulnerabilidade e fragilidade na popula\u00e7\u00e3o idosa, n\u00e3o s\u00f3 devido a um aspecto psicol\u00f3gico, social e cultural, mas tamb\u00e9m biol\u00f3gico.<\/p>\n<p align=\"justify\">A sa\u00fade mental pode ser entendida, de uma forma muito sucinta, como o equil\u00edbrio ps\u00edquico que resulta de uma interac\u00e7\u00e3o entre a pessoa e a realidade. Realidade esta, entendida como o meio envolvente no qual o indiv\u00edduo se move e que lhe permite desenvolver as suas potencialidades e satisfazer as suas necessidades b\u00e1sicas. Este equil\u00edbrio surge quando o indiv\u00edduo consegue adaptar-se \u00e0s novas situa\u00e7\u00f5es com que se depara.<\/p>\n<p align=\"justify\">Birren e Renner citados por Fontaine (2000:159) referem que para que aconte\u00e7a um processo patol\u00f3gico, neste caso concreto do ponto de vista mental, podem verificar-se as seguintes caracter\u00edsticas: \u201c(&#8230;) degrada\u00e7\u00e3o da auto-estima (&#8230;) decl\u00ednio da adapta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade (&#8230;) a diminui\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio do ambiente (&#8230;) a perda da autonomia (&#8230;) o aparecimento de desequil\u00edbrios da personalidade (&#8230;) um decl\u00ednio da capacidade de mudan\u00e7a (&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Do ponto de vista das perturba\u00e7\u00f5es da sa\u00fade mental nos idosos, a depress\u00e3o \u00e9 aquela que surge com mais frequ\u00eancia, sendo, como refere Spar e La Rue (1998:39) \u201c(&#8230;) motivo de mais de 60% das admiss\u00f5es em unidades de psiquiatria geri\u00e1trica\u201d. De forma semelhante Lapid e Rummans (2003) dizem que a depress\u00e3o aumenta com o aumento do envelhecimento dos indiv\u00edduos. N\u00e3o se quer com isto dizer que o estado depressivo teve o seu in\u00edcio ap\u00f3s os 65 anos, mas como a longevidade \u00e9 cada vez maior, \u00e9 natural que a depress\u00e3o acompanhe a pessoa que previamente j\u00e1 sofreu algum epis\u00f3dio depressivo. Tamb\u00e9m Burns e Hallwell (2003:37) referem que \u201cas desordens psiqui\u00e1tricas mais comuns nos idosos s\u00e3o a depress\u00e3o e a dem\u00eancia\u201d. A sua frequ\u00eancia \u00e9 maior no g\u00e9nero feminino (Gonz\u00e1lez;1993) e tem tend\u00eancia para a cronicidade, como nos refere Llewellyn-Jones et al (1999:206) \u201c(&#8230;) \u00e9 frequente a depress\u00e3o ser cr\u00f3nica (&#8230;) e associar-se a incapacidade significativa (&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Podemos entender a depress\u00e3o como uma perturba\u00e7\u00e3o do humor caracterizada, de uma forma geral, por um sentimento de uma profunda tristeza e desespero, que tem consequ\u00eancias enormes para o doente uma vez que \u00e9 respons\u00e1vel por uma incapacidade de funcionamento do ponto de vista f\u00edsico, mental e social. Alonso (2003) refere-nos mesmo que a depress\u00e3o \u00e9 a primeira causa de incapacidade no mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00e3o caracter\u00edsticas da depress\u00e3o um sistem\u00e1tico estado de mau humor; perda de interesse ou de satisfa\u00e7\u00e3o; pouca energia e menos actividade; pouca concentra\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o; baixa auto-estima e auto-confian\u00e7a; ideias de culpa e pessimistas sobre o futuro; ideias suicidas; perturba\u00e7\u00f5es do sono; falta de apetite&#8230; (Hale;2000). O mesmo autor (2000:50) diz que \u201ca gravidade da depress\u00e3o \u00e9, em grande parte, uma quest\u00e3o do n\u00famero e da intensidade dos sintomas caracter\u00edsticos\u201d. Actualmente, para uma correcta defini\u00e7\u00e3o e diagn\u00f3stico da depress\u00e3o utilizam-se os crit\u00e9rios expostos no DSM-IV e CID10. Muito mais h\u00e1 a dizer neste sentido, contudo a tem\u00e1tica do presente trabalho leva-nos para uma outra direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00e1 se fez alus\u00e3o que o idoso est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de perdas cont\u00ednuas, por vezes diminui\u00e7\u00e3o do suporte s\u00f3cio-familiar, perdas do estatuto profissional e at\u00e9 econ\u00f3mico, algum decl\u00ednio f\u00edsico, maior frequ\u00eancia de doen\u00e7as, tudo factores que podem ser associados ao aparecimento de estados depressivos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O idoso enquanto ser humano que \u00e9 possui v\u00e1rias dimens\u00f5es (social, psicol\u00f3gica, f\u00edsica e espiritual) todas elas interligadas e imposs\u00edveis de serem analisadas uma por uma, independentes das outras. O ser humano, idoso ou n\u00e3o, \u00e9 um ser hol\u00edstico. Tamb\u00e9m a etiologia da depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 una mas sim bio-psico-<\/p>\n<p align=\"justify\">-social. Tal como as dimens\u00f5es do ser humano, tamb\u00e9m as da depress\u00e3o (que est\u00e3o intimamente ligadas ao pr\u00f3prio ser humano) n\u00e3o podem ser analisadas independentes umas das outras. Na tentativa de falar apenas da determinante social e psicol\u00f3gica poder-se-\u00e1 correr o risco de relegar para segundo plano a determinante biol\u00f3gica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Freud, citado por Ballone (2004) referia que os transtornos mentais poderiam ser divididos em dois: os que a pessoa traz consigo para a vida e aqueles que a vida lhe traz.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os primeiros reportam-se \u00e0 import\u00e2ncia do perfil psicol\u00f3gico e mental pr\u00e9vio do idoso, \u00e0 exist\u00eancia de uma personalidade pr\u00e9-m\u00f3rbida. Neste sentido, se a pessoa possui uma fragilidade emocional dos seus tra\u00e7os afectivos, e mesmo perante circunst\u00e2ncias ambientais favor\u00e1veis ao equil\u00edbrio interno, o processo adaptativo poderia n\u00e3o ser conseguido podendo despoletar um estado depressivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para grande parte dos idosos, os temas preferidos de conversa s\u00e3o aqueles que os levam a reviver o passado. A mem\u00f3ria dos actos recentes aparece empobrecida, enquanto o passado long\u00ednquo de crian\u00e7a est\u00e1 fresco, vivo e rico de detalhes. A recorda\u00e7\u00e3o vem ocupar o vazio de uma exist\u00eancia que perdeu vitalidade, ou que tentou encontrar outras formas de investimento. Esta tend\u00eancia do eu actual inspirando-se no eu antigo, vem compensar as fragilidades do actual, porque a sua depend\u00eancia aos outros aumenta. O envelhecimento ser\u00e1 tanto mais dif\u00edcil, quanto maior for o sentimento de abandono, de rejei\u00e7\u00e3o e de isolamento. Quanto mais o indiv\u00edduo, enquanto crian\u00e7a, sentiu rejei\u00e7\u00e3o e inseguran\u00e7a, menor \u00e9 a confian\u00e7a de base e menos el\u00e1stica vai ser a capacidade de vincula\u00e7\u00e3o a objectos substitu\u00edveis. Isto leva a dificuldades a n\u00edvel individual e relacional, que aumentam no momento do envelhecimento. Assim os idosos poder\u00e3o ter dificuldades em elaborar os lutos e perdas, sobretudo nesta altura da vida em que a morte est\u00e1 mais pr\u00f3xima, podendo predispor o indiv\u00edduo para um desequil\u00edbrio interno e consequente perturba\u00e7\u00e3o mental.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim podemos falar de duas vias patentes no envelhecimento. A via elaborativa e o desejo de viver em que o indiv\u00edduo mant\u00e9m um potencial de vincula\u00e7\u00e3o suficientemente gratificante para manter o desejo de viver. O idoso aceita a mudan\u00e7a e faz face \u00e0s diferentes crises com que se depara. Por outro lado, a via regressiva entre a vida e a morte, onde a elasticidade relacional diminui e o indiv\u00edduo centra-se nele pr\u00f3prio, mostrando ou n\u00e3o car\u00eancias afectivas antigas. Nesta situa\u00e7\u00e3o podemos encontrar aquilo a que se chama de recuo narc\u00edsico em que h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o da vida relacional e diminui\u00e7\u00e3o de trocas com o mundo \u00e0 sua volta, onde h\u00e1 perdas de prazeres ligados ao funcionamento do corpo, a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o da imagem corporal, perdas reais de objectos (familiares e amigos), a recorda\u00e7\u00e3o do passado&#8230; podendo entrar num estado depressivo. (Bayle;2000)<\/p>\n<p align=\"justify\">As pessoas mais velhas lidam frequentes vezes com feridas narc\u00edsicas estando a auto-estima e a auto-\u00a0\u00a0 -sufici\u00eancia em risco permanente. De acordo com Kaplan et al (1997:78) \u201ca manuten\u00e7\u00e3o da auto-estima \u00e9 uma tarefa importante da velhice (&#8230;) pode ser promovida por v\u00e1rios factores: 1) seguran\u00e7a econ\u00f3mica (&#8230;) 2) pessoas apoiadoras (&#8230;) 3) sa\u00fade psicol\u00f3gica (&#8230;) 4) sa\u00fade f\u00edsica (&#8230;) quando todos ou qualquer um desses factores s\u00e3o adversamente afectados, a pessoa idosa \u00e9 incapaz de manter a auto-estima; disso podem resultar tens\u00e3o, ansiedade, frustra\u00e7\u00e3o, raiva e depress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se o indiv\u00edduo viveu sempre desadaptadamente, ent\u00e3o no envelhecimento tamb\u00e9m ir\u00e1 ter dificuldade em adaptar-se e encontrar o equil\u00edbrio. Utilizamos defesas psicol\u00f3gicas para nos adaptarmos \u00e0s v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es com que nos deparamos. Kaplan (1997:80) chama de defesas maduras aos \u201c(&#8230;) mecanismos normais de adapta\u00e7\u00e3o (&#8230;)\u201d, tais como a supress\u00e3o (decis\u00e3o consciente ou inconsciente de n\u00e3o pensar sobre determinado assunto), a antecipa\u00e7\u00e3o da realidade (permite que a pessoa planeie o futuro), o altru\u00edsmo e o humor. Por seu lado existem mecanismos de defesa encontrados nos indiv\u00edduos n\u00e3o adaptados como \u00e9 o caso da nega\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o dos est\u00edmulos, projec\u00e7\u00e3o&#8230; (Kaplan;1997). As defesas psicol\u00f3gicas que possu\u00edmos, nesta altura tendem a falhar, ou, como nos refere Ballone (2004) \u201cas puls\u00f5es e paix\u00f5es reprimidas ao longo da vida n\u00e3o encontram mais na velhice a energia suficiente para mant\u00ea-las em repress\u00e3o e eclode na consci\u00eancia um triste e amargo culto do passado, com as suas frustra\u00e7\u00f5es, seus pecados, ang\u00fastias e seus rancores\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aquilo que a vida nos traz \u00e9, na linguagem actual, a determinante social. \u00c9 necess\u00e1rio compreendermos aquilo a que podemos chamar de situa\u00e7\u00e3o existencial do idoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma fase marcante da vida de uma pessoa \u00e9 a altura da reforma. H\u00e1 at\u00e9 quem pense que \u00e9 nesta altura em que se d\u00e1 a transi\u00e7\u00e3o da idade adulta para a velhice. Esta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 feita \u00e0 luz dos mitos e preconceitos da velhice, como sendo uma fase improdutiva e de cariz negativo, o que, na realidade, n\u00e3o o \u00e9!<\/p>\n<p align=\"justify\">O que \u00e9 certo \u00e9 que algumas vezes os indiv\u00edduos s\u00e3o reformados porque atingem um patamar et\u00e1rio, delimitado somente pela idade cronol\u00f3gica. S\u00e3o exclu\u00eddos da produ\u00e7\u00e3o, por vezes, contra vontade. Nesta altura v\u00e3o para casa e \u201cn\u00e3o t\u00eam nada para fazer\u201d. Houve uma mudan\u00e7a radical nos h\u00e1bitos de vida. O indiv\u00edduo que at\u00e9 ent\u00e3o tinha de cumprir hor\u00e1rios, cuidar da sua apar\u00eancia para ir trabalhar, criar e manter contactos com outros indiv\u00edduos, responsabilidades profissionais&#8230; deixa de ter de se preocupar com isto e cai num vazio. A pessoa reformada pode, perfeitamente, ter uma ocupa\u00e7\u00e3o cheia de significado para si. \u00c9 imperativo que a sociedade reconhe\u00e7a o valor laborativo e ocupacional das pessoas mais velhas e, quando tal acontece, o pr\u00f3prio idoso sente-se mais incentivado e estimulado a desenvolver actividades diversas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para al\u00e9m da diminui\u00e7\u00e3o dos contactos sociais, inerentes ao pr\u00f3prio estatuto de reformado, observa-se por vezes que a pr\u00f3pria fam\u00edlia perpetua esta situa\u00e7\u00e3o. Exemplo de tal constata-se quando o indiv\u00edduo mais velho \u00e9 colocado numa posi\u00e7\u00e3o de forma a incomodar o menos poss\u00edvel a din\u00e2mica familiar. Em algumas fam\u00edlias ainda persiste a ideia que o idoso necessita de repouso e assim \u00e9 colocado numa depend\u00eancia da casa que esteja isolada ou ent\u00e3o, no canto da sala, para n\u00e3o ser incomodado!<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma outra determinante social tem a ver com a protec\u00e7\u00e3o social. Numa \u00e9poca de cada vez maior consumismo, as despesas dos idosos s\u00e3o em grande parte direccionadas para a ind\u00fastria farmac\u00eautica. As pens\u00f5es de reforma mostram-se insuficientes tendo em conta as necessidades identificadas. Depois de se gastar o dinheiro com os medicamentos, consultas m\u00e9dicas, alimenta\u00e7\u00e3o e outros produtos b\u00e1sicos, pouco ou nada sobra para investir noutros campos como o lazer e bem-estar. Existe uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o em poupar o pouco dinheiro que resta e assim muitos idosos sobrevivem em vez de viver.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eventos stressantes, como o div\u00f3rcio, acidentes traum\u00e1ticos ou as pr\u00f3prias perdas de familiares e amigos podem ser predisponentes a estados depressivos. \u00c9 normal o sentimento de tristeza surgir ap\u00f3s uma perda. Passa-se por processo de luto e, se n\u00e3o for patol\u00f3gico, conseguimos seguir com a nossa vida em diante. Contudo entra aqui em linha de conta, novamente, a personalidade pr\u00e9-m\u00f3rbida, ou seja, se j\u00e1 houver uma certa tend\u00eancia depressiva \u00e9 normal que a pr\u00f3pria depress\u00e3o venha a instalar-se. \u201cA depress\u00e3o \u00e9 uma resposta inadequada \u00e0 perda\u201d (Kaplan;1997:82).<\/p>\n<p align=\"justify\">A institucionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 outro factor que pode vir a desencadear estados depressivos. A ida do idoso para o lar d\u00e1-se, na grande maioria dos casos, ap\u00f3s a perda do c\u00f4njuge. Para al\u00e9m desta perda, ao entrar na institui\u00e7\u00e3o o idoso deixa a sua casa, deixa de ter os seus hor\u00e1rios, deixa de tomar conta de si. Foi para o lar, provavelmente, porque perdeu a sua autonomia e \u00e9 dependente de terceiros. Todas estas perdas fazem com que haja uma sensa\u00e7\u00e3o de diminui\u00e7\u00e3o do que podemos chamar locus de controlo sobre o ambiente externo. O indiv\u00edduo deixar de poder controlar o que se passa \u00e0 sua volta e, a percep\u00e7\u00e3o de tal facto aumenta a sua vulnerabilidade e pode predispor \u00e0 depress\u00e3o (Pa\u00fal;1997).<\/p>\n<p align=\"justify\">A tudo isto at\u00e9 aqui referido surge associado, com frequ\u00eancia, sintomatologia ansiosa. Existem autores que admitem que a depress\u00e3o surge, tamb\u00e9m, como complica\u00e7\u00e3o frequente dos transtornos ansiosos. De igual forma, Hale (2000:49) refere que \u201c(&#8230;) hoje se reconhece o conceito de um misto de ansiedade e de depress\u00e3o\u201d e Patel et al (2001:83) diz que \u201ca ansiedade coexiste frequentemente com a depress\u00e3o (&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesta altura e devido a todas estas condicionantes, o indiv\u00edduo que est\u00e1 a envelhecer pode come\u00e7ar a ter uma percep\u00e7\u00e3o mais acentuada do processo de envelhecimento que se est\u00e1 a desenvolver e, aceit\u00e1-lo ou n\u00e3o! Esta percep\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente a manifesta\u00e7\u00e3o subjectiva das modifica\u00e7\u00f5es sofridas pelo indiv\u00edduo a n\u00edvel som\u00e1tico e funcional. Quando a pessoa mais velha olha para um espelho v\u00ea o aparecimento de rugas na pele, nota que tem cabelo branco ou at\u00e9 menos cabelo, h\u00e1 um decl\u00ednio da massa e for\u00e7a muscular, aparecem problemas de vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o&#8230; a esta constata\u00e7\u00e3o do envelhecimento do pr\u00f3prio, pode associar-se um forte apego ao passado, altura em que tendo em conta as determinantes da sociedade ocidental, o indiv\u00edduo era bonito, forte e produtivo. A altera\u00e7\u00e3o da imagem corporal pode levar assim a uma troca da identidade pessoal. \u00c9 necess\u00e1rio que o indiv\u00edduo a envelhecer consiga viver com as transforma\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ocorrendo, quer a n\u00edvel f\u00edsico, psicol\u00f3gico ou social. O idoso tem que fazer o luto da sua imagem antiga, aceitar a nova imagem e perceber que \u00e9 apenas mais um ciclo de vida que se fecha dando in\u00edcio a outro. \u00c9 necess\u00e1rio uma auto-valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim \u00e9 f\u00e1cil concordar que quando n\u00e3o existe a aceita\u00e7\u00e3o do envelhecimento, quer devido a determinantes impostas pela sociedade ou como no caso concreto apresentado da imagem corporal, o equil\u00edbrio interno do indiv\u00edduo est\u00e1 alterado, logo existe uma maior probabilidade de vir a sofrer transtornos na sua sa\u00fade mental. \u00c9 assim que o idoso, considerado como um peso social, frustra-se com a subtrac\u00e7\u00e3o do seu espa\u00e7o existencial, anteriormente vivido com plenitude e sucesso. Experimenta uma profunda reac\u00e7\u00e3o de perda sem nada a substituir o objecto perdido: o seu valor como pessoa. Desta forma, mesmo indiv\u00edduos relativamente equilibrados emocionalmente durante a vida pregressa, com a velhice tendem a descompensar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong> REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>\n<p align=\"justify\">AITKEN, Lucy C.; BALDWIN, Robert C. \u2013 The Management of Depression in the Elderly \u2013 in The Management of Depression, edited by Stuart Checkley, Blackwell Science, p. 397.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">ALONSO, I. Zarragoitia (2003) \u2013 La Depresi\u00f3n en la Tercera Edad \u2013 in <a href=\"http:\/\/Geriatrianet.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Geriatrianet.com<\/a> \u2013 Revista Electr\u00f3nica de Geriatria e Gerontologia, Vol. 5, N\u00ba 2, ISSN 1575-3166<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">ALONSO, I. Zarragoitia (2005) \u2013 Elementos Depresivos en Ancianos Ubicados en Casa de Abuelos \u2013 in <a href=\"http:\/\/Geriatrianet.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Geriatrianet.com<\/a> \u2013 Revista Electr\u00f3nica de Geriatria e Gerontologia, Vol. 7, N\u00ba 1, ISSN 1575-3166.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">ANDREWS, Gavin (2001) \u2013 Deve Tratar-se a Depress\u00e3o como uma Doen\u00e7a Cr\u00f3nica? \u2013 in Psiquiatria na Pr\u00e1tica M\u00e9dica, Editora de Revistas e Livros Lda, Vol. 14, N\u00ba 2, Mar\u00e7o Abril\/Abril, Lisboa, pp. 75-78.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">BAYLE, Filomena (2002) \u2013 O Idoso em 2000: actualidades e perspectivas na interven\u00e7\u00e3o psicossocial \u2013 Loul\u00e9, Instituto Universit\u00e1rio D. Afonso III.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">BALLONE, G. J. (2002) \u2013 Depress\u00e3o no Idoso \u2013 in Psiqweb \u2013 Psiquiatria Geral, internet dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.psiqweb.med.br\/geriat\/depidoso.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> http:\/\/www.psiqweb.med.br\/geriat\/depidoso.html<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">BALLONE, G. J. (2004) \u2013 Altera\u00e7\u00f5es emocionais no envelhecimento \u2013 in Psiqweb \u2013 Psiquiatria Geral, internet dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.psiqweb.med.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> www.psiqweb.med.br<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">BURNS, Alistair; HALLWELL, Christopher (2002) \u2013 Reconhecer a Depress\u00e3o no Idoso \u2013 in Nursing, N\u00ba 163, Fevereiro, pp. 37-41.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">FONTAINE, Roger (2000) \u2013 Psicologia do Envelhecimento\u2013 Lisboa, Climepsi Editores, 1\u00aaedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">GONZ\u00c1LEZ, P. Dominguez (1993) \u2013 Depresi\u00f3n \u2013 in Pathos \u2013 Monograf\u00edas de Patolog\u00eda Peral, Psiquiatria Y Atenci\u00f3n Primaria, N\u00ba 97, Tomo II, Janeiro.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">HALE, Anthony S. (2000) \u2013 A Depress\u00e3o \u2013 in Psiquiatria na Pr\u00e1tica M\u00e9dica, Editora de Revistas e Livros Lda, Vol. 13, N\u00ba 2, Mar\u00e7o\/Abril, Lisboa, pp. 49-54.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">KALES, Helen C. Et al (1999) \u2013 Health Care Utilization by Older Patientes with Coexisting Dementia and Depression \u2013 in Am. J. Psychiatry, N\u00ba 156, April, pp. 550-556.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J.; GREBB, Jack A. (1997) \u2013 Comp\u00eandio de Psiquiatria: ci\u00eancias do comportamento e psiquiatria cl\u00ednica \u2013 Porto Alegre, Artes M\u00e9dicas, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">LAPID, Maria I.; RUMMANS, Teresa A. (2003) \u2013 Evaluation and Management of Geriatric Depression in Primary Care \u2013 in Mayo Clin. Proc., N\u00ba 78, pp. 1423-1429.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">LLEWELLYN-JONES, Robert H. et al (1999) \u2013 Interven\u00e7\u00e3o Multifacetada com Cuidados Partilhados para a Depress\u00e3o em Idade Avan\u00e7ada, Efectuada em Lares: estudo aleatorizado e controlado \u2013 in Psiquiatria na Pr\u00e1tica M\u00e9dica, Editora de Revistas e Livros Lda, Vol. 12, N\u00ba 6, Novembro\/Dezembro, Lisboa, pp. 206-214.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">PATEL, Vikram et al (2001) \u2013 A Depress\u00e3o em Pa\u00edses em Vias de Desenvolvimento: li\u00e7\u00f5es colhidas no Zimbabwe \u2013 in Psiquiatria na Pr\u00e1tica M\u00e9dica, Editora de Revistas e Livros Lda, Vol. 14, N\u00ba 2, Mar\u00e7o\/Abril, Lisboa, pp. 83-87.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">PA\u00daL, Maria Constan\u00e7a (1997) \u2013 L\u00e1 Para o Fim da Vida \u2013 idosos, fam\u00edlia e meio ambiente \u2013 Coimbra, Livraria Almedina.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">RAJ, Ashok (2005) \u2013 Depress\u00e3o no Idoso \u2013 in Post Graduate Medicine, Vol.23, N\u00ba1, Janeiro, pp. 7-17.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">SCHACHTER-SHALOMI, Zalman e MILLER, Ronald S. (1996) \u2013 Mais velhos Mais S\u00e1bios &#8211; uma vis\u00e3o nova e profunda da arte de envelhecer \u2013 Rio de Janeiro, Campus Editora, cap\u00edtulos 1 e 2.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">SPAR, James E.; LA RUE, Asenath (1998) \u2013 Guia de Psiquiatria Geri\u00e1trica \u2013 Lisboa, Climepsi Editores, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Mar\u00e7o.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">SOUSA, Liliana et al (2004) \u2013 Envelhecer em Fam\u00edlia: os cuidados familiares na velhice \u2013 Porto, Ambar, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Novembro.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p align=\"justify\">WATTS, Artur (1989) \u2013 Vivendo com a Depress\u00e3o \u2013 in Psiquiatria na Pr\u00e1tica M\u00e9dica, Editora de Revistas e Livros Lda, Vol. 2, N\u00ba 4, Outubro\/Dezembro, Lisboa, pp.5-8.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos olhos da sociedade em geral o envelhecimento e o ser velho \u00e9 ainda encarado de forma negativa. 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