{"id":2024,"date":"2015-04-12T23:42:43","date_gmt":"2015-04-12T23:42:43","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/nao-o-fazemos-por-menos\/"},"modified":"2015-04-12T23:42:43","modified_gmt":"2015-04-12T23:42:43","slug":"nao-o-fazemos-por-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/nao-o-fazemos-por-menos\/","title":{"rendered":"N\u00e3o o fazemos por menos"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2023\" src=\"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"664\" srcset=\"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b.jpg 1000w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b-300x199.jpg 300w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b-768x510.jpg 768w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b-633x420.jpg 633w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b-640x425.jpg 640w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/f9497fd571bc02c428d532daf8447a8b-681x452.jpg 681w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p> Portugal tem apresentado taxas de <strong>infe\u00e7\u00f5es hospitalares<\/strong> acima da m\u00e9dia europeia com custos muito elevados.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>No \u00e2mbito de um dos tr\u00eas Desafios Gulbenkian definidos no relat\u00f3rio Um Futuro para a Sa\u00fade, foi assumido por 12 hospitais p\u00fablicos com a Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian e em parceria com o Institute for Health Care Improvement dos Estados Unidos, o compromisso para reduzir em 50%, em tr\u00eas anos, a ocorr\u00eancia de infe\u00e7\u00f5es hospitalares. <\/p>\n<p> As \u201cinfe\u00e7\u00f5es hospitalares\u201d ou \u201cnosocomiais\u201d designam-se atualmente por <span style=\"text-decoration: underline;\">infe\u00e7\u00f5es associadas aos cuidados de sa\u00fade<\/span> (IACS\u2019s) e s\u00e3o adquiridas durante a presta\u00e7\u00e3o desses cuidados, em v\u00e1rios locais como hospitais, centros de sa\u00fade, unidades de cuidados continuados, lares para idosos, cl\u00ednicas, \u00e9tc.<\/p>\n<p> As bact\u00e9rias, v\u00edrus, fungos e parasitas est\u00e3o no ambiente e na pele e mucosas, vias respirat\u00f3rias e aparelho gastro intestinal. Os microrganismos que vivem no corpo ajudam na prote\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m podem causar infe\u00e7\u00e3o tal como os que s\u00e3o transmitidos do exterior, quando h\u00e1 desequil\u00edbrio entre a flora e as defesas, existe ambiente para o micr\u00f3bio se desenvolver, h\u00e1 uma porta de sa\u00edda, h\u00e1 um meio de transmiss\u00e3o e h\u00e1 uma porta de entrada. A transmiss\u00e3o pode ser por contacto f\u00edsico direto (pessoa) ou indireto (instrumentos, alimentos, instrumentos, medicamentos, materiais, \u00e1gua\u2026), via a\u00e9rea e got\u00edculas, e por vetores (pouco importantes nas IACS\u2019s).<\/p>\n<p> Tem sido estimado que 5 a 10% das admiss\u00f5es hospitalares possam desenvolver IACS\u2019s, situa\u00e7\u00e3o que em unidades de alto risco pode atingir 1\/3 dos doentes e uma mortalidade de 44%.<\/p>\n<p> As IACS,s s\u00e3o um problema de seguran\u00e7a, com custos pessoais, econ\u00f3micos, sociais; nos hospitais implicam maior ocupa\u00e7\u00e3o de camas, maior afeta\u00e7\u00e3o de pessoal, realiza\u00e7\u00e3o de mais exames complementares de diagn\u00f3stico e terap\u00eautica, gastos com mais antimicrobianos e outros medicamentos, sofrimento, incapacidade e s\u00e3o uma das maiores causas de morte em todo o mundo. N\u00e3o conhe\u00e7o dados relativos a este problema nos enfermeiros (as IACS\u2019s incluem as infe\u00e7\u00f5es contra\u00eddas pelos profissionais durante a presta\u00e7\u00e3o de cuidados), mas h\u00e1 v\u00e1rios casos de infe\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias, gastroenterites (com clostridium difficile inclusive), conjuntivites, pneumonias e outras infe\u00e7\u00f5es das vias a\u00e9reas,\u2026&nbsp; <\/p>\n<p> A exist\u00eancia de antibi\u00f3ticos \u00e9 uma <strong>falsa seguran\u00e7a<\/strong>. Os pr\u00f3prios antibi\u00f3ticos podem contribuir para aumentar o risco de desenvolvimento se infe\u00e7\u00f5es e estirpes multirresistentes. O Reino Unido acaba de lan\u00e7ar o alerta para a possibilidade de, no caso de surgir uma super bact\u00e9ria para a qual n\u00e3o haja antibi\u00f3ticos, morrerem milhares de pessoas com procedimentos cir\u00fargicos relativamente simples.<\/p>\n<p> Tamb\u00e9m o <strong>ambiente de cuidados<\/strong> &#8211; cada vez mais complexo, com procedimentos mais invasivos, mais medica\u00e7\u00e3o imunodepressora, uso excessivo de antibi\u00f3ticos,\u2026 condi\u00e7\u00f5es de trabalho e algumas pr\u00e1ticas institu\u00eddas &#8211; representa um risco acrescido para desenvolver IACS,s.<\/p>\n<p> O risco, embora mais elevado em doentes imunodeprimidos, j\u00e1 infetados, a utilizar antibi\u00f3ticos, submetidos a t\u00e9cnicas invasivas, mais dependentes, de idade avan\u00e7ada, com doen\u00e7a cr\u00f3nica,\u2026 existe em todos os momentos dos cuidados. <\/p>\n<p> Os programas de controlo de infe\u00e7\u00e3o s\u00e3o importantes e todos os princ\u00edpios primordiais emanados do CDC se aplicam a todos os doentes, independentemente do diagn\u00f3stico m\u00e9dico, dos fatores de risco, do presum\u00edvel estado infecioso.<\/p>\n<p> As tend\u00eancias epidemiol\u00f3gicas identificam as infe\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias, da corrente sangu\u00ednea, das feridas operat\u00f3rias e as pneumonias associadas ao uso de ventila\u00e7\u00e3o invasiva como as mais prevalentes. \u00c9 sobre estas \u00e1reas que incidir\u00e1 o programa \u201cSTOP infe\u00e7\u00e3o hospitalar\u201d. Tudo o que se fizer nestas \u00e1reas ter\u00e1 impactos positivos em todas as outras \u00e1reas n\u00e3o abrangidas.<\/p>\n<p> <span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>O que se fez, o que se faz e o que falta fazer<\/strong><\/span><\/p>\n<p> As IACS\u2019s t\u00eam uma origem multifatorial; a sua abordagem ter\u00e1 que ser multidimensional.<\/p>\n<p> O foco tem sido a preven\u00e7\u00e3o na transmiss\u00e3o dos micr\u00f3bios: precau\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas como higiene das m\u00e3os, precau\u00e7\u00f5es de isolamento, limpeza e desinfe\u00e7\u00e3o, ambiente e dispositivos, e na triagem de res\u00edduos. N\u00f3s, enfermeiros, n\u00e3o estamos perante nenhuma novidade. Todas estas preocupa\u00e7\u00f5es fazem parte do nosso trabalho, quer nos cuidados diretos, quer na gest\u00e3o do ambiente. J\u00e1 quando Florence Nightingale foi para a atual Istambul assistir feridos de guerra, e se deparou com um hospital onde a mortalidade atingia uma taxa de 42%, introduziu mudan\u00e7as no ambiente, melhorou as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, de limpeza, ilumina\u00e7\u00e3o natural, ventila\u00e7\u00e3o, controle de odores, esgotos, lavandaria, cozinha, defendendo a import\u00e2ncia da limpeza e higiene, e reduziu para 2,2% a mortalidade. <\/p>\n<p> Temos hoje, no \u00e2mbito das pol\u00edticas institucionais, projetos, normas, orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, folhetos, cartazes, etc., mas talvez ainda n\u00e3o tenhamos ultrapassado a dist\u00e2ncia entre o que se pretende fazer, o que se diz que se faz, o que se pode e deve fazer, e o que realmente se faz.<\/p>\n<p> Ao n\u00edvel da forma\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade, quando se come\u00e7ou a levantar a quest\u00e3o das IACS\u2019s houve muita forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica, mas talvez n\u00e3o tenhamos adotado as melhores estrat\u00e9gias de sensibiliza\u00e7\u00e3o a todos os profissionais para uma maior ades\u00e3o \u00e0s normas propostas, no sentido de tomarem consci\u00eancia dos riscos que o n\u00e3o cumprimento das recomenda\u00e7\u00f5es representam para si, para os outros profissionais e para os doentes.<\/p>\n<p> Foram implementadas medidas simples que salvam vidas: esta frase \u00e9-nos muito familiar e est\u00e1 associada \u00e0 import\u00e2ncia da higiene das m\u00e3os. As m\u00e3os dos profissionais de sa\u00fade sofrem uma coloniza\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria e tornam-se o ve\u00edculo mais comum de transporte de microrganismos do pr\u00f3prio doente para zonas do corpo normalmente est\u00e9reis, ou de outros doentes e do ambiente. Assim, a higiene das m\u00e3os \u00e9 uma precau\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, largamente comprovada e amplamente divulgada nos servi\u00e7os, mas ainda com margem para melhorias. <\/p>\n<p> Ao mesmo tempo que se colocou na agenda dos servi\u00e7os a quest\u00e3o da higiene das m\u00e3os, divulgaram-se as recomenda\u00e7\u00f5es de boas pr\u00e1ticas para minimizar o risco no uso de dispositivos invasivos: crit\u00e9rios rigorosos para a sua utiliza\u00e7\u00e3o, cuidados na coloca\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o, e retirada dos mesmos o mais precocemente poss\u00edvel. No entanto, e apesar dos riscos conhecidos, nem sempre os pressupostos que garantem a maior seguran\u00e7a s\u00e3o respeitados; seria extenso o rol de exemplos que poderia enumerar sobre a sua utiliza\u00e7\u00e3o f\u00fatil e manuten\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria.<\/p>\n<p> Ainda com vista \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e controle da transmiss\u00e3o de micr\u00f3bios, foram enfatizados os cuidados a ter na limpeza e desinfe\u00e7\u00e3o de dispositivos m\u00e9dicos, no uso correto de antibi\u00f3ticos, na descontamina\u00e7\u00e3o de equipamentos, na higieniza\u00e7\u00e3o ambiental hospitalar, no uso de EPI\u2019s, uso e recolha de perfurantes e cortantes, boas pr\u00e1ticas na recolha e transporte de esp\u00e9cimes, isolamento correto, triagem e acondicionamento de res\u00edduos, transporte de doentes, controle de visitas\u2026 entre outras, que talvez beneficiassem com uma monitoriza\u00e7\u00e3o que permitisse aferir at\u00e9 que ponto existe espa\u00e7o para melhorar. <\/p>\n<p> <strong>Por\u00e9m, e apesar das medidas referidas, continuamos com taxas elevadas de infe\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p> Talvez falte assumir que a presen\u00e7a de infe\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m reflexo de outros problemas do sistema e do processo de presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade que aumentam o risco de desenvolvimento de IACS\u2019s, que, enquanto n\u00e3o forem discutidos e resolvidos, continuaremos a arrepiar caminho no combate \u00e0s infe\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p> Assumir isso implica percorrer o sistema desde o patamar das pol\u00edticas de sa\u00fade, passando pela administra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, pela gest\u00e3o dos servi\u00e7os e a gest\u00e3o cl\u00ednica, pelos problemas da lideran\u00e7a, do poder e da autoridade, pela estrutura dos servi\u00e7os, a disponibilidade e qualidade de recursos, o doente e o processo de cuidados, as compet\u00eancias e atitudes dos profissionais de sa\u00fade, a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, etc., tudo aspetos que se interligam, e sobre as quais h\u00e1 muita reflex\u00e3o a fazer e quest\u00f5es por responder:<\/p>\n<p><\/p>\n<ul>\n<li>Que progressos se fizeram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades decorrentes do estado cl\u00ednico do doente e ao processo de cuidados de enfermagem?<\/li>\n<li>Como tem sido aproveitado o potencial que os enfermeiros especialistas t\u00eam de mobilizar as suas compet\u00eancias e desempenhar um papel fundamental n\u00e3o s\u00f3 na preven\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o destas infe\u00e7\u00f5es, como na promo\u00e7\u00e3o das melhores condi\u00e7\u00f5es para minimizar o seu desenvolvimento?<\/li>\n<li>Quando \u00e9 que o sistema de cuidados de sa\u00fade assume que \u00e9 muito vantajoso valorizar o papel do enfermeiro e os cuidados de enfermagem pois s\u00e3o estes os profissionais que est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o chave para, junto do doente, prestar cuidados \u2013 cuidados de repara\u00e7\u00e3o e cuidados de manuten\u00e7\u00e3o &#8211; que permitem aumentar os mecanismos de defesa do doente e as suas capacidades f\u00edsicas e ps\u00edquicas, o ajudam a manter o melhor funcionamento do corpo, protegendo-o de infe\u00e7\u00f5es?<\/li>\n<\/ul>\n<p> Os cuidados de enfermagem s\u00e3o fundamentais: aut\u00f3nomos ou interdependentes, todos s\u00e3o importantes na promo\u00e7\u00e3o; na preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, secund\u00e1ria, terci\u00e1ria, e de iatrogenias; na reabilita\u00e7\u00e3o, na palia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> <strong>Os cuidados de enfermagem aut\u00f3nomos s\u00e3o primordiais para minimizar o risco de contrair infe\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/strong> <\/p>\n<p> S\u00e3o cuidados necess\u00e1rios, por exemplo, para uma adequada <strong>nutri\u00e7\u00e3o e hidrata\u00e7\u00e3o<\/strong>, aspetos que, quando negligenciados contribuem, entre outros problemas, para a debilidade do sistema imunit\u00e1rio, enfraquecimento muscular, atraso no processo de cicatriza\u00e7\u00e3o, desidrata\u00e7\u00e3o\u2026 com implica\u00e7\u00f5es no risco de infe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> A alimenta\u00e7\u00e3o e hidrata\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u00e1reas que requerem a interven\u00e7\u00e3o do enfermeiro, quer nos cuidados diretos, quer na supervis\u00e3o das tarefas que delega a auxiliares, estudantes, volunt\u00e1rios ou familiares. N\u00e3o se trata apenas de \u201cdar comer aos doentes\u201d, \u201cdar \u00e1gua\u201d. Trata-se de uma \u00e1rea espec\u00edfica e requer enfermeiros para a sua gest\u00e3o, quer na identifica\u00e7\u00e3o de necessidades como intoler\u00e2ncias, nas restri\u00e7\u00f5es em doentes diab\u00e9ticos, pausas alimentares impostas por tratamentos ou exames, alimenta\u00e7\u00e3o por via artificial, na transi\u00e7\u00e3o, adequa\u00e7\u00e3o das dietas,\u2026 no planeamento dos cuidados como a gest\u00e3o de hor\u00e1rios, administra\u00e7\u00e3o correta dos alimentos, posicionar corretamente o doente, dar tempo para o doente deglutir, estar atendo \u00e0 aspira\u00e7\u00e3o de conte\u00fado alimentar para a \u00e1rvore traqueobr\u00f4nquica, orientar familiares, auxiliares, volunt\u00e1rios, ensinar, treinar para o autocuidado,\u2026, na avalia\u00e7\u00e3o de todo o processo, particularmente em doentes dependentes. <\/p>\n<p> Apesar da import\u00e2ncia destes (e doutros) cuidados de enfermagem, muitas vezes, pelas mais diversas raz\u00f5es,<span style=\"text-decoration: underline;\"> o enfermeiro n\u00e3o assume a lideran\u00e7a que deve ter no processo de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p> <strong>Lavar-se, levantar-se, mover-se e deslocar-se<\/strong> s\u00e3o tamb\u00e9m exemplo de necessidades que se relacionam com o risco de infe\u00e7\u00e3o e onde \u00e9 essencial o cuidado de enfermagem aut\u00f3nomo.<\/p>\n<p> Algo t\u00e3o rotineiro e \u00f3bvio como a higiene do doente \u00e9, por exemplo, uma das \u00e1reas em que existe toda a vantagem em que os cuidados sejam prestados com cuidado, sejam completos, n\u00e3o sejam abreviados, mecanizados,\u2026. Haver\u00e1 contamina\u00e7\u00e3o bacteriana e por fungos originada na cavidade oral? Ser\u00e3o as m\u00e3os dos doentes tamb\u00e9m um ve\u00edculo de transporte de micr\u00f3bios entre zonas do seu pr\u00f3prio corpo, em doentes dependentes, muitas vezes agitados? Poder\u00e1 a deficiente higiene da pele e genitais favorecer o desenvolvimento de condi\u00e7\u00f5es para ocorrer infe\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p> A <strong>mobilidade<\/strong> requer a interven\u00e7\u00e3o do enfermeiro, na ajuda, no incentivo, no ensino, no treino, na vigil\u00e2ncia\u2026 s\u00e3o in\u00fameros os benef\u00edcios da mobilidade e muitos deles com implica\u00e7\u00f5es no risco de infe\u00e7\u00e3o: conjuntamente com uma hidrata\u00e7\u00e3o adequada, o enfermeiro pode ajudar minimizar a estase de secre\u00e7\u00f5es br\u00f4nquicas no doente que n\u00e3o se mobiliza adequadamente ou que tem a sua ventila\u00e7\u00e3o comprometida pela dor que n\u00e3o est\u00e1 devidamente controlada; a mobilidade contribui para melhor a circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea, a respira\u00e7\u00e3o, ajuda a promover maior autonomia e bem-estar, a prevenir \u00falceras por press\u00e3o,\u2026 Nos idosos mais debilitados, o sistema respirat\u00f3rio requer uma aten\u00e7\u00e3o maior na fluidifica\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o e aspira\u00e7\u00e3o de secre\u00e7\u00f5es, no ensino ao doente sobre t\u00e9cnica de tossir e respira\u00e7\u00e3o profunda, nos cuidados na alimenta\u00e7\u00e3o \u2013 tempo, cansa\u00e7o, descompensa\u00e7\u00e3o card\u00edaca, aspira\u00e7\u00e3o de v\u00f3mito, engasgamento,\u2026<\/p>\n<p> Todos estes cuidados aut\u00f3nomos de enfermagem que exemplifiquei e muitos outros aparentemente simples, mas essenciais, concorrem para minimizar as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas que favorecem a infe\u00e7\u00e3o. Ainda assim, sendo t\u00e3o importantes, ficam, n\u00e3o raras vezes, e por diversas raz\u00f5es, aqu\u00e9m do desej\u00e1vel. Os cuidados associados \u00e0s fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas b\u00e1sicas, ainda (ou cada vez mais?) tendem a ser desvalorizados, mas esse n\u00e3o \u00e9 o caminho da enfermagem. Para al\u00e9m do muito que somos capazes de fazer, n\u00e3o podemos abandonar o corpo, a pessoa, tudo o que a rodeia no momento em que n\u00e3o tem capacidade nem conhecimentos para se valer a si mesma. Por\u00e9m, h\u00e1 que tomar consci\u00eancia que a excel\u00eancia dos cuidados tem a ver, n\u00e3o apenas com o que se faz, mas como se faz. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que o enfermeiro possa realizar o seu trabalho sem press\u00e3o constante, despendendo o tempo necess\u00e1rio a cada tarefa, n\u00e3o abreviando os gestos, privilegiando o modo mais adequado a cada caso, incluindo a componente emocional e social na rela\u00e7\u00e3o; \u00e9 preciso que possa respeitar a melhor sequ\u00eancia dos cuidados, que consiga vigiar adequadamente os sinais de infe\u00e7\u00e3o; que promova o repouso e conforto do doente, que tenha condi\u00e7\u00f5es para controlar adequadamente a dor; que possa ajudar a manter e estimular a autoestima e o autocuidado; que possa prestar os cuidados mais adequados para manter a integridade cut\u00e2nea e a perfus\u00e3o tecidular perif\u00e9rica; que possa fazer uma gest\u00e3o adequada da medica\u00e7\u00e3o e prestar cuidados adequados ao doente em estado cr\u00edtico,\u2026 <\/p>\n<p> Os enfermeiros especialistas tem ainda conhecimentos e compet\u00eancias para intervir no controle das IACS\u2019s atrav\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o de registos, da sua an\u00e1lise, interpreta\u00e7\u00e3o, mobilizando os resultados para propor mudan\u00e7as de acordo com as tend\u00eancias identificadas e a efic\u00e1cia das medidas adotadas; para tal \u00e9 preciso que existam condi\u00e7\u00f5es para o correto registo e transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, que visa subsidiar a gest\u00e3o, a investiga\u00e7\u00e3o e o processo de presta\u00e7\u00e3o de cuidados. <\/p>\n<p> Estes profissionais s\u00e3o competentes para incentivar a implementa\u00e7\u00e3o das melhores pr\u00e1ticas, para a forma\u00e7\u00e3o dos outros profissionais e estudantes, informar e ensinar a popula\u00e7\u00e3o, e para impulsionar a mudan\u00e7a do status quo relativamente ao problema das IACS\u2019s.<\/p>\n<p> Mas, para que os enfermeiros se sintam valorizados e envolvidos na resolu\u00e7\u00e3o do problema das \u201cinfe\u00e7\u00f5es hospitalares\u201d \u00e9 necess\u00e1rio cultivar uma filosofia institucional virada para uma genu\u00edna valoriza\u00e7\u00e3o das pessoas que trabalham, criando mecanismos formais e informais de participa\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o de todos na mudan\u00e7a de algumas pr\u00e1ticas que s\u00e3o desajustadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es de boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p> Dever\u00e3o tamb\u00e9m ser diagnosticadas, com a colabora\u00e7\u00e3o direta dos profissionais no terreno, as necessidades de melhoria nos diversos contextos de cuidados de modo a adequar as pr\u00e1ticas \u00e0 melhor evid\u00eancia cient\u00edfica.<\/p>\n<p> H\u00e1 que adaptar as estruturas f\u00edsicas \u00e0s necessidades, n\u00e3o permitindo a sobrelota\u00e7\u00e3o dos lugares em corredores e cub\u00edculos onde permanecem doentes internados durante dias e semanas, com aus\u00eancia de luz natural ou ventila\u00e7\u00e3o adequada, nem a aglomera\u00e7\u00e3o de doentes imunodeprimidos.<\/p>\n<p> Ter\u00e1 que se equacionar, nos contextos de presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade, quais ser\u00e3o os melhores mecanismos promotores da ades\u00e3o \u00e0s boas pr\u00e1ticas atendendo \u00e0s necessidades de forma\u00e7\u00e3o, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, \u00e0s estruturas e recursos dos servi\u00e7os, \u00e0s cren\u00e7as e atitudes dos implicados no processo de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p> \u00c9 tempo de valorizar a situa\u00e7\u00e3o individual do doente e garantir a satisfa\u00e7\u00e3o das suas necessidades, intervindo de forma integral de modo a prevenir a infe\u00e7\u00e3o. \u00c9 tempo de deixar os jogos de poder, os interesses pessoais, as demonstra\u00e7\u00f5es de import\u00e2ncia e outros tiques para tr\u00e1s. \u00c9 tempo de deixar que os enfermeiros desempenhem<span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"> o seu papel na equipa de sa\u00fade, especificamente dos especialistas que integram, de forma completa e atualizada na sua \u00e1rea de especialidade, a problem\u00e1tica da infe\u00e7\u00e3o associada aos cuidados de sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00c9 tempo de assumir que s\u00e3o necess\u00e1rias mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho<\/strong> para que se d\u00ea o devido relevo \u00e0 import\u00e2ncia da boa sa\u00fade e higiene dos profissionais de sa\u00fade. A boa sa\u00fade f\u00edsica e mental \u00e9 sentirem-se em equil\u00edbrio e com energia necess\u00e1ria e suficiente para desempenharem bem as suas fun\u00e7\u00f5es. <strong>\u00c9 tempo de acautelar os riscos decorrentes da sobrecarga de trabalho<\/strong>, quando n\u00e3o s\u00e3o afetados enfermeiros em n\u00famero suficiente para uma adequada presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem (perante uma higieniza\u00e7\u00e3o das m\u00e3os inadequada, conjugada com volume maior de trabalho, maior \u00e9 o risco de transmiss\u00e3o de infe\u00e7\u00e3o porque quanto maior for a dura\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de cuidados, maior a contamina\u00e7\u00e3o das m\u00e3os; quanto maior a press\u00e3o para realizar demasiadas tarefas em tempo insuficiente, maior a tend\u00eancia de n\u00e3o respeitar integralmente as precau\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas). N\u00e3o basta uma boa higiene das m\u00e3os se n\u00e3o houver m\u00e3os suficientes para prestar todos os cuidados de que a pessoa necessita para se defender das infe\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta ter tempo para administrar medicamentos, canalizar acessos, fazer pensos, \u2026, se n\u00e3o se tem disponibilidade para cuidar o doente na sua totalidade. <\/p>\n<p> Os enfermeiros t\u00eam que ter n\u00edveis de bem-estar elevados para que possam estar dispon\u00edveis para o Outro de uma forma terap\u00eautica; n\u00e3o \u00e9 adequado que o enfermeiro tenha uma sobrecarga de trabalho que lhe cause exaust\u00e3o, irritabilidade, que o obrigue a despachar trabalho, a \u201cvirar frangos\u201d, a \u201cdar banhos\u201d mecanicamente e em linha de montagem, com toda a carga psicol\u00f3gica, frustra\u00e7\u00e3o e potencial de desumaniza\u00e7\u00e3o e embrutecimento que isso acarreta; com todo o gesto mec\u00e2nico que se desenvolve, com o abreviar dos cuidados e o arrepiar caminho para despachar trabalho.<\/p>\n<p> N\u00e3o o fazemos por menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal tem apresentado taxas de infe\u00e7\u00f5es hospitalares acima da m\u00e9dia europeia com custos muito elevados.<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":2023,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1026,1024,1025],"class_list":["post-2024","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-controlo-de-infeccao","tag-cuidados-de-enfermagem","tag-infeccao-hospitalar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2024","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2024"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2024\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2024"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2024"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2024"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}