{"id":1750,"date":"2014-01-09T22:13:54","date_gmt":"2014-01-09T22:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/formula-do-diabo\/"},"modified":"2014-01-09T22:13:54","modified_gmt":"2014-01-09T22:13:54","slug":"formula-do-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/formula-do-diabo\/","title":{"rendered":"F\u00f3rmula do Diabo"},"content":{"rendered":"<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1749\" src=\"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45.jpg\" alt=\"http:\/\/www.publico.pt\/local-lisboa\/jornal\/hospital-de-faro-acabou-com-as-macas-no-corredor-do-servico-de-urgencia-25922300#\/1\" class=\"caption\" title=\"Macas na Urg\u00eancia\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45.jpg 800w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45-300x200.jpg 300w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45-768x512.jpg 768w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45-630x420.jpg 630w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45-640x426.jpg 640w, https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/365e1c894653db3df15422863ba1cc45-681x454.jpg 681w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/>\n<p>A verdade \u00e9 que os doentes que permanecem em macas, internados ou n\u00e3o nos corredores de servi\u00e7os de urg\u00eancias, recebem cuidados globalmente deficit\u00e1rios. Especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 enfermagem, por muito que os enfermeiros se empenhem, \u00e9 evidente que muitos cuidados b\u00e1sicos de que esses doentes necessitam n\u00e3o s\u00e3o adequadamente prestados ou n\u00e3o s\u00e3o mesmo prestados de todo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>&nbsp;Agrade\u00e7o o convite que o FE me dirigiu para dar o meu contributo a este espa\u00e7o de opini\u00e3o. As ideias que exprimo refletem o sentido que procuro dar ao meu trabalho como enfermeira e s\u00e3o, ao mesmo tempo, desafios \u00e0 reflex\u00e3o e discuss\u00e3o sobre t\u00f3picos que interessam \u00e0 enfermagem.<\/p>\n<p>O tema que escolhi para a minha primeira interven\u00e7\u00e3o tem a ver com a sobrelota\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de Urg\u00eancia, especificamente de doentes que permanecem em macas nos corredores pelas mais diversas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um fen\u00f3meno que aumenta a morbilidade, a mortalidade, os custos e tem outros impactos negativos nas institui\u00e7\u00f5es, nos doentes e no pessoal.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a n\u00edvel internacional. Da Austr\u00e1lia ao Zimbabu\u00e9, existem doentes em excesso nos SU, a come\u00e7ar nas salas de espera e terminando por corredores e cub\u00edculos mais ou menos improvisados onde permanecem em macas durante dias, semanas, meses\u2026<\/p>\n<p>Abundam na rede global editoriais, not\u00edcias, alertas v\u00e1rios sobre o problema, como estes aos quais achei alguma piada:<\/p>\n<p>\u201c\u2026 no hospital X come\u00e7a a ser recorrente estarem 10 a 12 doentes em maca, \u00e0 espera de cama.\u201d (Austr\u00e1lia)<\/p>\n<p>\u201c\u2026 o pessoal teve que criar uma zona com 6 macas, divididas com cortinas, para dar resposta \u00e0 falta de camas em internamento.\u201d (Canad\u00e1)<\/p>\n<p>Na Esc\u00f3cia, uma institui\u00e7\u00e3o oficial publicou inclusivamente um pedido de desculpas pela situa\u00e7\u00e3o escandalosa de os doentes terem esperado 18 horas por cama. Ainda no RU foi divulgado nas not\u00edcias que num determinado hospital os doentes esperaram 4 horas por uma cama e 5% tinham que esperar mais de 8 horas!<\/p>\n<p>Na Irlanda foi criado uma esp\u00e9cie de boletim pol\u00ednico desenvolvido por uma organiza\u00e7\u00e3o de enfermeiros, no qual se anunciam diariamente quantos doentes, em todos os hospitais, est\u00e3o em macas e\/ou cadeiras de rodas, indicando tamb\u00e9m os hospitais que apresentam as situa\u00e7\u00e3o mais e menos favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>H\u00e1 inclusivamente pesquisas que procuraram saber as prefer\u00eancias dos doentes em rela\u00e7\u00e3o ao local em que permanecem em maca, e mais de metade das pessoas preferem ficar num dos cub\u00edculos que alguns servi\u00e7os de urg\u00eancia t\u00eam, em vez de permanecerem no corredor propriamente dito.<\/p>\n<p>Em Portugal, a carta dos direitos do doente internado adverte que \u201cn\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, salvo por per\u00edodo curto nunca superior a 24 horas, a perman\u00eancia de doentes em macas durante o internamento.\u201d A realidade dos \u00faltimos anos n\u00e3o reflete a letra da lei e, entre muitos outros, podemos encontrar tamb\u00e9m refer\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o social a v\u00e1rias dessas situa\u00e7\u00f5es, como:<\/p>\n<p>\u201cMais de quatro mil quedas de doentes em macas\u201d<\/p>\n<p>\u201cDoentes em macas nos corredores no Hospital de Cascais\u201d<\/p>\n<p>\u201cSeguro impressionado com doentes em macas nos corredores\u201d &#8211; Faro<\/p>\n<p>\u201cIdosa viveu tr\u00eas semanas em maca da urg\u00eancia\u201d &#8211; Porto<\/p>\n<p>\u201cServi\u00e7os de internamento cheios obrigam a p\u00f4r doentes nos corredores do Sta. Maria\u201d<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que os doentes que permanecem em macas, internados ou n\u00e3o, nos corredores de servi\u00e7os de urg\u00eancias, recebem cuidados globalmente deficit\u00e1rios. Especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 enfermagem, por muito que os enfermeiros se empenhem, \u00e9 evidente que muitos cuidados b\u00e1sicos de que esses doentes necessitam n\u00e3o s\u00e3o adequadamente prestados ou n\u00e3o s\u00e3o mesmo prestados de todo.<\/p>\n<p>Um dos desafios dos enfermeiros \u00e9 justamente responderem \u00e0s necessidades destes doentes, ao mesmo tempo que atendem novos casos, ainda assim correndo o risco de n\u00e3o prestar os cuidados verdadeiramente urgentes em tempo \u00fatil.<\/p>\n<p>Outro desafio \u00e9 lidar com o facto de que estes s\u00e3o doentes que necessitam de cuidados de internamento, com uma complexidade diferente, de continuidade, cuidados diferentes daqueles para os quais est\u00e1 vocacionado um SU, n\u00e3o usufruem das condi\u00e7\u00f5es que teriam numa enfermaria, quer ao n\u00edvel do <em>ratio<\/em> enf\u00ba doente quer das condi\u00e7\u00f5es de trabalho em zonas superlotadas ou mesmo dos recursos materiais (in)dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Trabalhar nestas condi\u00e7\u00f5es aumenta os riscos para a seguran\u00e7a do doente e dos enfermeiros e a probabilidade de se cometerem erros ou sofrer acidentes, \u00e9 maior com a sobrecarga de trabalho, ambiente confuso, solicita\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas, aumenta o stress e frustra\u00e7\u00e3o dos enfermeiros, com riscos para a sua sa\u00fade f\u00edsica e mental.<\/p>\n<p>A satisfa\u00e7\u00e3o dos doentes, familiares e do pessoal diminui, mas tamb\u00e9m me surpreende ao mesmo tempo que n\u00e3o surjam mais reclama\u00e7\u00f5es acerca das condi\u00e7\u00f5es em que os doentes se encontram; isso talvez se deva ao facto de muitos n\u00e3o terem quem reclame por eles, outros n\u00e3o conseguirem expressar o que sentem, ou ainda porque nem tudo \u00e9 claro para quem n\u00e3o vivencia todos os momentos do dia naquelas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Entre muitas outras limita\u00e7\u00f5es, estes doentes \u201cinternados\u201d nos corredores n\u00e3o t\u00eam acesso a campainhas de chamada, est\u00e3o expostos dia e noite a luzes diretas e correntes de ar, barulho habitual das zonas de circula\u00e7\u00e3o que s\u00e3o os corredores, n\u00e3o t\u00eam acesso a casas de banho; n\u00e3o beneficiam de levante, n\u00e3o podem ter os seus pertences, est\u00e3o privados da fam\u00edlia e visitas; as macas s\u00e3o frequentemente estreitas demais para mobilizar os doentes mais obesos, muitas n\u00e3o t\u00eam trav\u00f5es nas rodas, com colch\u00f5es demasiado finos o que torna o leito desconfort\u00e1vel e de risco pois podem bastar 3 horas para que se desenvolva uma zona de press\u00e3o; o espa\u00e7o ex\u00edguo e a press\u00e3o para receber mais uma maca obrigam a reduzir o espa\u00e7o entre os doentes ao ponto de existir contacto f\u00edsico entre macas; a privacidade \u00e9 relegada para segundo plano.<\/p>\n<p>Muitos destes doentes, sen\u00e3o a maioria, s\u00e3o idosos, fisicamente debilitados e emocionalmente fragilizados, com elevados graus de depend\u00eancia, acabando alguns por falecer sem qualquer dignidade.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es desta sobrelota\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam s\u00f3 a ver com problemas internos dos servi\u00e7os de urg\u00eancias nem com a diminui\u00e7\u00e3o de camas dispon\u00edveis nos internamentos ou com a falta de escoamento dos doentes com alta; tamb\u00e9m n\u00e3o se devem apenas \u00e0 procura em situa\u00e7\u00f5es de urg\u00eancia que eventualmente n\u00e3o justifiquem idas ao hospital, assim como n\u00e3o est\u00e3o relacionadas s\u00f3 com insufici\u00eancias nos cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios ou com a falta de resposta em cuidados de sa\u00fade das alternativas existentes na comunidade. Por\u00e9m, n\u00e3o sendo fatores isolados, a redu\u00e7\u00e3o de camas nos internamentos e do n\u00famero de enfermeiros nas urg\u00eancias, s\u00e3o elementos de uma f\u00f3rmula diab\u00f3lica que permite perpetuar as macas nos corredores e qui\u00e7\u00e1 fazer disso uma situa\u00e7\u00e3o normal, banal.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o papel da enfermagem na resolu\u00e7\u00e3o do problema? N\u00e3o conhe\u00e7o &#8211; mas admito que exista &#8211; alguma tomada de posi\u00e7\u00e3o de algumas organiza\u00e7\u00f5es representativas dos enfermeiros, com sugest\u00f5es para a resolu\u00e7\u00e3o do problema. Se assim n\u00e3o for, penso que \u00e9 altura de a enfermagem se chegar um pouco mais \u00e0 frente e documentar a realidade dos servi\u00e7os de urg\u00eancia em Portugal, propondo, por exemplo, crit\u00e9rios para determinar quais s\u00e3o os doentes menos prejudicados para permanecer em maca: pessoas est\u00e1veis, orientadas, sem estarem a receber cuidados de maior complexidade, sem requererem monitoriza\u00e7\u00e3o permanente de sinais vitais e estado de consci\u00eancia; realizar uma discuss\u00e3o sobre os ratios enf\u00ba doente nos servi\u00e7os de urg\u00eancia, especificamente nos que t\u00eam doentes em macas nos corredores, quer seja em situa\u00e7\u00f5es de pico de aflu\u00eancia, quer seja permanentemente como j\u00e1 vem sendo habitual; discutir amplamente e tamb\u00e9m com os enfermeiros da presta\u00e7\u00e3o de cuidados a redefini\u00e7\u00e3o do papel do enfermeiro nos cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, nos servi\u00e7os de urg\u00eancia e nos servi\u00e7os de internamento.<\/p>\n<p>Como diz o ditado, quem cala consente, &nbsp;eu acrescentaria o \u00f3bvio que \u00e9, independentemente das press\u00f5es e ideologias pol\u00edticas, dos interesses pessoais, econ\u00f3micos e outros lobbies que cerceiam o desenvolvimento do sector p\u00fablico da sa\u00fade, \u00e9 moralmente reprov\u00e1vel que se admita, consinta e pactue com situa\u00e7\u00f5es degradantes para a dignidade das pessoas, que obrigam a aligeirar cada vez mais o peso do c\u00f3digo deontol\u00f3gico na nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade \u00e9 que os doentes que permanecem em macas, internados ou n\u00e3o nos corredores de servi\u00e7os de urg\u00eancias, recebem cuidados globalmente deficit\u00e1rios. Especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 enfermagem, por muito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1749,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[921,85,141,925,922,924,923],"class_list":["post-1750","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-doentes","tag-enfermagem","tag-enfermeiros","tag-macas-na-urgencia","tag-qualidade-em-saude","tag-tempo-de-espera","tag-terceiro-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1750\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}