{"id":1425,"date":"2010-09-19T17:57:16","date_gmt":"2010-09-19T17:57:16","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/sexualidade-pos-parto-a-outra-face-da-maternidade\/"},"modified":"2021-05-04T09:31:28","modified_gmt":"2021-05-04T09:31:28","slug":"sexualidade-pos-parto-a-outra-face-da-maternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/sexualidade-pos-parto-a-outra-face-da-maternidade\/","title":{"rendered":"Sexualidade p\u00f3s-parto: a outra face da maternidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"line-height: 1.3em;\">A sexualidade p\u00f3s-parto \u00e9\u00a0uma \u00e1rea em desenvolvimento, constituindo um campo importante nas interven\u00e7\u00f5es de Enfermagem<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><strong>T\u00edtulo<\/strong><\/h4>\n<p>Sexualidade P\u00d3S-PARTO: a outra face da maternidade<\/p>\n<p>POSTPARTUM SEXUALITY: THE OTHER FACE OF MATERNITY<\/p>\n<p><em>Nursing n\u00ba260<\/em><\/p>\n<h4><strong>Autora<\/strong><\/h4>\n<p>Florbela Maria Marmou Bia<\/p>\n<p>Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilita\u00e7\u00e3o, Centro hospitalar Barreiro Montijo, EPE- Servi\u00e7o de Medicina Interna<\/p>\n<p>Mestre em Sexualidade Humana<\/p>\n<h4><strong>RESUMO:<\/strong><\/h4>\n<p>O nascimento de um filho e todas as mudan\u00e7as decorrentes podem propiciar problemas de cariz sexual dif\u00edceis de ultrapassar. O per\u00edodo p\u00f3s-parto embora seja uma fase de transi\u00e7\u00e3o implica novos equil\u00edbrios, adapta\u00e7\u00f5es e uma nova integra\u00e7\u00e3o da sexualidade. Os pap\u00e9is tradicionais: ser m\u00e3e e ser mulher podem ser dif\u00edceis de conjugar. Igualmente, o per\u00edodo p\u00f3s-parto pode levar \u00e0 falta de identifica\u00e7\u00e3o do papel de &#8221; mulher sexuada&#8221; podendo este passar despercebido com manifesto decl\u00ednio da sexualidade. A procria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica nem a principal motiva\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o sexual entre os seres humanos. A conjuga\u00e7\u00e3o dos afectos e a possibilidade de partilhar sentimentos e prazer pela intimidade dos corpos s\u00e3o factores importantes a considerar. O enfermeiro tem um papel importante, uma vez que \u00e9 fundamental dar orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas necess\u00e1rias \u00e0 mulher\/parceiro e propiciar momentos de reflex\u00e3o no sentido de facilitar esta fase de transi\u00e7\u00e3o. As altera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-parto bem como as suas implica\u00e7\u00f5es na sexualidade devem ser conhecidas para que os casais possam viver esta experi\u00eancia de um modo gratificante. Se a mulher possuir um bom relacionamento conjugal e familiar e um bom suporte social, estas altera\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser minimizadas e mais facilmente ultrapassadas.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Sexualidade p\u00f3s-parto; Orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas; Papel do enfermeiro.<\/p>\n<h4><strong>ABSTRAT:<\/strong><\/h4>\n<p>The birth of a child and all the related changes can provide some sexual problems difficult to overcome. Even though the postpartum period is a transition phase it implies news balances, adaptations and a new integration of sexuality. The traditional roles: being a mother and a wife may be difficult to match. Likewise the postpartum period can lead to a lack of identification of the role of \u201csexual woman\u201d and it can happen that it goes unnoticed but with a notorious decline in sexuality. Procreation itself isn\u00b4t the only non the main reason for sexual intercourse among human beings. A combination of affection, the possibility to share feelings and o pleasure though the intimacies of their bodies are important factors tom take into account. The nurse has an important role, as it is fundamental to give practical orientation that every women7partner needs and provide moments of reflection in order to make easier this transition phase. All the postpartum changes, as well as it implications in sexuality, must be acknowledged so that couple can go live through this experience in a rewarding way. If the woman has a good marital and familiar relationship and a good social support, these changes can be minimized and easily overcome.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> Postpartum sexuality; practical orientation; the nurse\u00b4s role.<\/p>\n<h4><strong>Introdu\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/h4>\n<p>Durante algum tempo, faltou o reconhecimento profissional dos servi\u00e7os de sa\u00fade perante as preocupa\u00e7\u00f5es sexuais p\u00f3s-parto, pois concentravam-se exclusivamente no apoio \u00e0 crian\u00e7a. Hoje em dia, h\u00e1 uma necessidade crescente em abordar o funcionamento sexual da mulher neste per\u00edodo. A adequa\u00e7\u00e3o sexual a esta nova realidade \u00e9 influenciada por m\u00faltiplas vari\u00e1veis. \u00c9 precisamente o funcionamento sexual, as vari\u00e1veis que podem interferir e o aconselhamento depois do nascimento que ir\u00e3o ser abordados nos cap\u00edtulos que se seguem, tendo sempre presente o papel do enfermeiro.<\/p>\n<p>A sexualidade p\u00f3s-parto \u00e9\u00a0uma \u00e1rea em desenvolvimento, constituindo um campo importante nas interven\u00e7\u00f5es de Enfermagem. A literatura evidencia que os valores morais deram origem a uma s\u00e9rie de cren\u00e7as e mitos que conduzem e determinam comportamentos caracter\u00edsticos face \u00e0 sexualidade p\u00f3s-parto.<\/p>\n<p>Assim, este artigo tem como meta principal actualizar conhecimentos relativamente \u00e0 sexualidade neste per\u00edodo. Numa perspectiva mais singular dar ao leitor est\u00edmulos para ajudar a mulher\/parceiro a viver uma conjugalidade feliz e harmoniosa. Espera-se, ainda, que possa servir de aprecia\u00e7\u00e3o a outros profissionais de sa\u00fade que poder\u00e3o usufruir do conhecimento obtido no presente trabalho de revis\u00e3o.<\/p>\n<p>Como profissionais de sa\u00fade, confrontamo-nos diariamente com d\u00favidas, ang\u00fastias e receios, aos quais, nem sempre, somos capazes de dar resposta.<\/p>\n<p>Precisava de falar com algu\u00e9m que n\u00e3o fosse o meu marido. Sabe, quando tenho rela\u00e7\u00f5es sexuais, parece que a minha vagina est\u00e1 mais larga\u2026 at\u00e9 entra ar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes penso que o meu marido n\u00e3o gosta de fazer amor comigo, agora parece que a vagina j\u00e1 n\u00e3o aperta como antes.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 n\u00e3o me liga como antes. Tudo muda\u2026<\/p>\n<p>T\u00e3o depressa n\u00e3o penso nisso\u2026<\/p>\n<p>O confronto com estes coment\u00e1rios, todos eles provenientes de mulheres no p\u00f3s-parto, indicia, desde logo, a nossa insipi\u00eancia sobre as especificidades no aconselhamento sexual.<\/p>\n<p>Torna-se, portanto, importante descodificar cren\u00e7as err\u00f3neas, mitos e falsos conceitos, uma vez que \u00e9 do conhecimento geral que estes deterioram a viv\u00eancia de uma sexualidade feliz e harmoniosa.<\/p>\n<p>A metodologia usada no presente trabalho resultou da rela\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de conhecimentos que foram sedimentados ao longo do meu percurso profissional, da frequ\u00eancia do Mestrado em Sexualidade Humana e da an\u00e1lise cr\u00edtica da bibliografia consultada.<\/p>\n<p>O artigo que se segue \u00e9 constitu\u00eddo por partes distintas. Inicialmente, procederei \u00e0 descri\u00e7\u00e3o da sexualidade materna ao longo dos tempos, de seguida far-se-\u00e1 refer\u00eancia a alguns factores que interferem na sexualidade p\u00f3s-parto. Posteriormente, real\u00e7arei o papel do enfermeiro nas orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas da Sexualidade P\u00f3s-parto e por \u00faltimo surgem as considera\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n<h4><strong>Sexualidade P\u00d3S-PARTO: ser m\u00e3e e ser mulher<\/strong><\/h4>\n<p>A sexualidade materna ao longo dos tempos<\/p>\n<p>Na Antiguidade, Arist\u00f3teles acreditava que a reprodu\u00e7\u00e3o fazia parte de um dos instintos primordiais que levavam o homem e a mulher a associar-se mutuamente, considerando a forma\u00e7\u00e3o de casais com vista \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o uma fun\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 esp\u00e9cie humana. Hierarquiza a rela\u00e7\u00e3o entre os g\u00e9neros, de modo que o homem domina e a mulher \u00e9 dominada. A fun\u00e7\u00e3o da mulher seria a educa\u00e7\u00e3o dos filhos e a administra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>Segundo a B\u00edblia, a culpa oriunda do pecado cometido por Ad\u00e3o e Eva foi transmitida como heran\u00e7a para toda a humanidade. Deus tinha destinado a procria\u00e7\u00e3o aos seus primeiros semelhantes, contudo, de uma forma mec\u00e2nica, sem prazer e sem pecado. O sexo era a causa do pecado original, por isso a humanidade herdou esta natureza intrat\u00e1vel do instinto carnal, como tamb\u00e9m a vergonha consequente do coito. A maternidade foi o castigo dado ao pecado de Eva: \u201cDar\u00e1s \u00e0 luz com dor\u201d. Em Tim\u00f3teo pode ler-se: \u201cN\u00e3o permito que nenhuma mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem\u201d. Ela deve guardar sil\u00eancio porque Ad\u00e3o foi criado primeiro e depois surgiu Eva. Ad\u00e3o n\u00e3o foi seduzido, Eva foi seduzida, transformando-se em transgressora<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Os s\u00e9culos XIV a XVIII foram quatro s\u00e9culos marcados pela persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Estas eram acusadas de adult\u00e9rio, quando casadas, e de atra\u00edrem o dem\u00f3nio para com elas copular<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, descobriu-se que a mulher era f\u00e9rtil e participava na fecunda\u00e7\u00e3o com contribui\u00e7\u00e3o igual \u00e0 do homem. O parto era um tema tabu e a mulher gr\u00e1vida ignorava o que lhe ia acontecer. As mulheres casadas n\u00e3o deveriam ouvir falar das suas fun\u00e7\u00f5es genitais<sup>3<\/sup>. Paradoxalmente, a maternidade era, ao mesmo tempo, idealizada e motivo de vergonha. O sexo no matrim\u00f3nio continuava unicamente procriativo.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX, o mundo come\u00e7ou a reagir com ind\u00edcios de um novo tempo. A origem do homem tinha uma nova interpreta\u00e7\u00e3o: era o evolucionismo de Charles Darwin, concebendo o div\u00f3rcio definitivo entre a sexualidade e a reprodu\u00e7\u00e3o; al\u00e9m de a distinguir da procria\u00e7\u00e3o, separa-a do pecado e um conceito novo surge, vinculando-a ao prazer<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Sigmund Freud aparece no meio deste cen\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o de conceitos sobre o homem e a sociedade. Freud enfatizou o prazer com ou sem inten\u00e7\u00e3o de procriar e ainda acusou a ideia de pecado como causador de muitas doen\u00e7as e dist\u00farbios no ser humano<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>Com a inven\u00e7\u00e3o da p\u00edlula, no in\u00edcio dos anos 60 do s\u00e9culo XX, surge a possibilidade da mulher controlar a sua pr\u00f3pria fecundidade e desfrutar do prazer da sexualidade sem risco de uma gravidez n\u00e3o desejada. Hoje em dia s\u00e3o direitos fundamentais do ser humano, reconhecidos internacionalmente e integrados na Lei dos mais variados pa\u00edses<sup>5<\/sup>. Em Portugal, estas garantias foram refor\u00e7adas pela Lei n\u00ba 120\/99, de 11 de Agosto<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>Ao longo dos tempos geraram-se, assim, muitos tabus na sexualidade humana. A gesta\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0um dos per\u00edodos de maior dificuldade de abordagem, principalmente devido \u00e0 repress\u00e3o e \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da sexualidade neste per\u00edodo da vida do casal <sup>7<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Factores que interferem na sexualidade p\u00f3s-parto<\/strong><\/h4>\n<p>A sexualidade feminina \u00e9\u00a0um fen\u00f3meno complexo, com determinantes multifactoriais, podendo a actividade sexual ser desencadeada por motiva\u00e7\u00f5es n\u00e3o necessariamente sexuais, envolvendo factores psicol\u00f3gicos, socioculturais e relacionais<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>1.2.1 Factores f\u00edsicos<\/strong><\/h4>\n<p>Pavimento p\u00e9lvico<\/p>\n<p>A passagem do feto pela vagina durante o parto natural, mesmo num per\u00edneo intacto, pode levar a impactos p\u00e9lvico-perineais na mulher<sup>9<\/sup>.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o da anatomia p\u00e9lvico-perineal da mulher depende de tr\u00eas sistemas sin\u00e9rgicos: um sistema de suspens\u00e3o constitu\u00eddo por ligamentos, um sistema coesivo composto de f\u00e1scia, tecido conjuntivo localizado entre as diferentes v\u00edsceras, e um sistema muscular constitu\u00eddo essencialmente pelos m\u00fasculos elevadores do \u00e2nus. O parto altera o equil\u00edbrio delicado desses tr\u00eas mecanismos: estiramento das estruturas ligamentares, les\u00f5es ao n\u00edvel das f\u00e1scias, desenvolvendo altera\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica dos \u00f3rg\u00e3os e no t\u00f3nus dos m\u00fasculos do per\u00edneo<sup>9<\/sup>.<\/p>\n<p>No momento do parto, os m\u00fasculos localizados na regi\u00e3o anal alargam-se com a distens\u00e3o que ultrapassa os nove cent\u00edmetros em vez dos quatro a cinco cent\u00edmetros habituais. Esta distens\u00e3o \u00e9 acompanhada de um alongamento obrigat\u00f3rio (e, por vezes, de uma les\u00e3o muscular), das f\u00e1scias elevadoras e das f\u00e1scias construtoras. A tonicidade perineal encontra-se alterada devido a uma distens\u00e3o excessiva e a um relaxamento das fibras musculares perineais, podendo provocar uma perda de sensibilidade local<sup>37<\/sup>. Qualquer altera\u00e7\u00e3o no t\u00f3nus dos m\u00fasculos que formam o pavimento p\u00e9lvico pode vir a ser causa de vaginismo ou anorgasmia durante o coito<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p>Segundo Leroy, especialista em reeduca\u00e7\u00e3o perineal, nem sempre h\u00e1 recupera\u00e7\u00e3o a 100 por cento da tonicidade muscular da zona p\u00e9lvica<sup>11<\/sup>. Apesar de a cesariana n\u00e3o representar baixo risco, a gravidez pode ser a respons\u00e1vel pela dessolidariza\u00e7\u00e3o das f\u00e1scias, devido ao efeito do peso e volume uterino<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>A passagem do feto provoca estiramento da face anterior da vagina, local da f\u00e1scia de Halban, podendo ser respons\u00e1vel por anorgasmia secund\u00e1ria ou dificuldade em obter orgasmo<sup>12<\/sup>. Apesar da sua participa\u00e7\u00e3o no orgasmo, n\u00e3o nos podemos esquecer que seria ilus\u00f3rio imaginar que chega ter \u201cum per\u00edneo t\u00f3nico\u201d para a mulher atingir um orgasmo<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>As les\u00f5es internas da vagina s\u00e3o, regra geral, superficiais e cicatrizam rapidamente, no entanto, pode haver rasgaduras dos pequenos e grandes l\u00e1bios que, apesar de dolorosas, tamb\u00e9m cicatrizam depressa devido \u00e0 boa vasculariza\u00e7\u00e3o local. Nas les\u00f5es perineais evidentes s\u00e3o vis\u00edveis rasgaduras mais ou menos graves, ou n\u00e3o evidentes com destrui\u00e7\u00e3o do n\u00facleo central do per\u00edneo, mesmo com conserva\u00e7\u00e3o da integridade cut\u00e2nea. Isto explica o porqu\u00ea da aus\u00eancia de correla\u00e7\u00e3o evidente entre traumatismo aparente e sequelas funcionais<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>S\u00e3o necess\u00e1rias cerca de tr\u00eas a seis semanas para que a episiotomia e as lacera\u00e7\u00f5es que ocorreram na vagina e\/ou no per\u00edneo cicatrizem<sup>13<\/sup>. Outros autores referem que, por volta da terceira semana, a sutura perineal est\u00e1 cicatrizada e assintom\u00e1tica<sup>14<\/sup>.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica sexual do p\u00f3s-parto ultrapassa as fronteiras da mec\u00e2nica e da cirurgia obst\u00e9trica<sup>15<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Hormona<\/strong><\/h4>\n<p>A gravidez, o parto e o per\u00edodo p\u00f3s-parto provocam varia\u00e7\u00f5es hormonais profundas compar\u00e1veis \u00e0 adolesc\u00eancia e \u00e0 menopausa, embora num per\u00edodo de tempo mais curto, portanto mais agudo<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o hormonal \u00e9\u00a0feita atrav\u00e9s de um sistema de \u201cfeedback\u201d muito bem afinado. O hipot\u00e1lamo \u00e9 o centro de comando global que envia uma hormona de liberta\u00e7\u00e3o (GnRH ou hormona de liberta\u00e7\u00e3o de gonadotrofinas) para a hip\u00f3fise. Este \u00e9 o sinal para a hip\u00f3fise libertar duas hormonas: FSH (hormona fol\u00edculo-estimulante) e LH (hormona luteinizante). Estas denominam-se gonadotrofinas, ou seja, hormonas que controlam a fun\u00e7\u00e3o das gl\u00e2ndulas sexuais ou g\u00f3nadas. Concentra\u00e7\u00f5es elevadas de estrog\u00e9nios e progestag\u00e9nios no sangue inibem a liberta\u00e7\u00e3o de gonadotrofinas, enquanto que concentra\u00e7\u00f5es baixas de hormonas sexuais estimulam a hip\u00f3fise para aumentar a sua produ\u00e7\u00e3o de hormonas<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m, um conjunto dos mecanismos hormonais e neurais que est\u00e3o envolvidos na fisiologia da lacta\u00e7\u00e3o, designadamente os estrog\u00e9nios, progesterona, cortisol, hormona lactog\u00e9nea placent\u00e1ria, insulina e prolactina. Estas hormonas actuam concertadamente para a estimula\u00e7\u00e3o da lacta\u00e7\u00e3o<sup>44<\/sup>. Depois do parto, os valores de estrog\u00e9nio e progesterona diminuem de forma radical, paralelamente, os valores de prolactina aumentam<sup>12,18<\/sup>.<\/p>\n<p>O d\u00e9fice de estrog\u00e9nio e progesterona e o aumento de prolactina s\u00e3o factores de redu\u00e7\u00e3o da resposta sexual na mulher no p\u00f3s-parto, contribuindo para a insuficiente congest\u00e3o e lubrifica\u00e7\u00e3o vaginal<sup>12, 13, 18<\/sup>. Os estrog\u00e9nios s\u00e3o respons\u00e1veis pela elasticidade e viscosidade da pele e da mucosa vaginal. O seu d\u00e9fice leva \u00e0 dispareunia por secura vaginal e, consequentemente, a uma diminui\u00e7\u00e3o da libido a longo prazo<sup>19<\/sup>.<\/p>\n<p>A prolactina tem um papel muito importante na excita\u00e7\u00e3o sexual p\u00f3s-parto, sendo esta um factor de estimula\u00e7\u00e3o sexual<sup>20, 21<\/sup>. Os picos da prolactina podem actuar no hipot\u00e1lamo, inibindo a secre\u00e7\u00e3o do GnRh<sup>16, 22<\/sup>. Na aus\u00eancia dessa hormona, a secre\u00e7\u00e3o do leite n\u00e3o acontece; contudo, mesmo com n\u00edveis altos de prolactina durante o terceiro trimestre, a secre\u00e7\u00e3o do leite n\u00e3o ocorre sen\u00e3o depois do parto, devido ao efeito bloqueador dos n\u00edveis altos de estrog\u00e9nios<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p>A percentagem das mulheres que n\u00e3o amamentam e voltam a menstruar aumenta linearmente at\u00e9\u00a0\u00e0\u00a0d\u00e9cima segunda semana, per\u00edodo em que setenta por cento ter\u00e3o reiniciado a menstrua\u00e7\u00e3o. Entre as mulheres que amamentam, a retoma da menstrua\u00e7\u00e3o \u00e9 mais tardia. Cerca de setenta por cento das mulheres ter\u00e3o menstruado em torno da trig\u00e9sima sexta semana p\u00f3s-parto<sup>16<\/sup>. A ovula\u00e7\u00e3o retorna aproximadamente trinta a sessenta dias ap\u00f3s o parto; oitenta a noventa por cento ovulam no primeiro ciclo. Na aus\u00eancia da menstrua\u00e7\u00e3o, cem por cento das mulheres permanecem anovulat\u00f3rias tr\u00eas meses e, noventa e seis por cento, seis meses ap\u00f3s o parto<sup>23<\/sup>. Nas mulheres que amamentam, a prolactina \u00e9 respons\u00e1vel pela persist\u00eancia da anovul\u00e7\u00e3o<sup>16, 22<\/sup>.<\/p>\n<p>As queixas associadas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o mais comuns na mulher que amamenta ou no caso de existir um longo per\u00edodo entre o parto e a primeira rela\u00e7\u00e3o sexual<sup>44<\/sup>. As mudan\u00e7as hormonais associadas \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o provocam baixo n\u00edvel de estrog\u00e9nios. Para algumas mulheres, isso pode resultar em secura vaginal e rela\u00e7\u00f5es sexuais desconfort\u00e1veis<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p>As respostas fisiol\u00f3gicas ao coito e \u00e0\u00a0amamenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o comuns, uma vez que incluem a erec\u00e7\u00e3o do mamilo, dilata\u00e7\u00e3o venosa mam\u00e1ria, aquecimento da mama e contrac\u00e7\u00f5es uterinas<sup>16<\/sup>. As ejec\u00e7\u00f5es do leite (esguichando ou gotejando) podem ser causadas pela excita\u00e7\u00e3o sexual bem como pela amamenta\u00e7\u00e3o. As car\u00edcias \u00e0 mama e a estimula\u00e7\u00e3o do mamilo ocorrem na amamenta\u00e7\u00e3o tal como nos preliminares do sexo<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Uma atitude positiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0amamenta\u00e7\u00e3o tem sido associada ao conforto na sexualidade. Do mesmo modo, sentimentos adversos \u00e0\u00a0amamenta\u00e7\u00e3o t\u00eam sido associados a uma avers\u00e3o \u00e0 nudez e \u00e0 sexualidade. As m\u00e3es que amamentam relataram, muitas vezes, a presen\u00e7a de excita\u00e7\u00e3o sexual durante a fun\u00e7\u00e3o.A excita\u00e7\u00e3o sexual, incluindo o orgasmo, associada \u00e0 suc\u00e7\u00e3o do beb\u00e9 tamb\u00e9m foi relatada por algumas mulheres<sup>7, 24<\/sup>, gerando, muitas vezes, culpa e ansiedade<sup>20<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Sistema neuronal<\/strong><\/h4>\n<p>A revis\u00e3o da literatura mostra que existe uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre os neurotransmissores e a sexualidade, sendo que os mecanismos neuronais est\u00e3o envolvidos na fisiologia da sexualidade. Muitos autores<sup>25, 26, 27<\/sup> relatam que a sexualidade come\u00e7a no c\u00e9rebro, uma vez que os estudos indicam que determinadas \u00e1reas cerebrais s\u00e3o activadas durante a resposta sexual.<\/p>\n<p>O sistema l\u00edmbico \u00e9\u00a0respons\u00e1vel pelas emo\u00e7\u00f5es e est\u00e1\u00a0directamente relacionado com a sexualidade. Nas pessoas que s\u00e3o sexualmente saud\u00e1veis, as imagens er\u00f3ticas activam as regi\u00f5es l\u00edmbicas e paral\u00edmbicas, que se pensa serem importantes para a motiva\u00e7\u00e3o sexual, e \u00e1reas parietais (entre outras), que modulam respostas emocionais e motoras. Neste processo, existem, ainda, regi\u00f5es inibidoras espec\u00edficas que desactivam tais respostas<sup>28<\/sup>.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os sexuais do homem e da mulher s\u00e3o enervados pelo sistema nervoso simp\u00e1tico (D <sub>10<\/sub> a L<sub>2<\/sub>)<sup>1<\/sup> e parassimp\u00e1tico (S<sub>2<\/sub> a S<sub>4<\/sub>). O plexo p\u00e9lvico tem liga\u00e7\u00f5es com as vias sagradas (S<sub>2<\/sub> a S<sub>4<\/sub>) atrav\u00e9s dos nervos p\u00e9lvicos motores e sensitivos. Os neur\u00f3nios motores lombo-sagrados recebem est\u00edmulos oriundos do Sistema Nervoso Central sob a forma de imagens mentais ou de estimula\u00e7\u00e3o sensorial n\u00e3o-t\u00e1ctil<sup>27<\/sup>. A actividade sexual com orgasmo leva \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da neurotransmiss\u00e3o central, resultando numa melhor fun\u00e7\u00e3o psicofisiol\u00f3gica <sup>29<\/sup>.<\/p>\n<p>Os neurotransmissores, como a serotonina, a dopamina e a acetilcolina podem ter ac\u00e7\u00e3o positiva ou negativa sobre a sexualidade, no que diz respeito \u00e0\u00a0sua influ\u00eancia sobre a resposta sexual. Sabe-se, por exemplo, que a utiliza\u00e7\u00e3o de drogas que aumentem a disponibilidade da serotonina pode levar a altera\u00e7\u00f5es sexuais, como diminui\u00e7\u00e3o do desejo sexual e perturba\u00e7\u00f5es da excita\u00e7\u00e3o e orgasmo<sup>30<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>1.2.2 Factores psicol\u00f3gicos<\/strong><\/h4>\n<p>O per\u00edodo p\u00f3s-parto \u00e9\u00a0considerado um per\u00edodo de elevado risco psicol\u00f3gico na vida da mulher. Nos primeiros seis meses ap\u00f3s o parto, a incid\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas \u00e9\u00a0superior \u00e0\u00a0de outros per\u00edodos da vida, nomeadamente a gravidez.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0a distinguir os dist\u00farbios do humor, que incluem a melancolia da maternidade, o denominado baby blues, que se caracteriza por um dist\u00farbio de labilidade transit\u00f3ria de humor entre o terceiro e o quinto dia ap\u00f3s o parto, geralmente tem remiss\u00e3o espont\u00e2nea<sup>31<\/sup>.<\/p>\n<p>Algumas mulheres manifestam estados depressivos nos primeiros tr\u00eas meses ap\u00f3s o parto. A sintomatologia pode ser disfar\u00e7ada por uma dimens\u00e3o ansiosa, irritabilidade e alguma agressividade at\u00e9\u00a0ent\u00e3o n\u00e3o habituais<sup>32<\/sup>. O conflito entre o casal e a poss\u00edvel deteriora\u00e7\u00e3o da sua rela\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o parto poder\u00e3o estar tamb\u00e9m associados \u00e0 depress\u00e3o, nesta fase<sup>33<\/sup>.<\/p>\n<p>A maioria das depress\u00f5es ocorre durante o per\u00edodo p\u00f3s-parto<sup>20<\/sup>. O nascimento tem repercuss\u00f5es em todo o sistema familiar que envolve a mulher, especialmente na interac\u00e7\u00e3o com o seu beb\u00e9. Na g\u00e9nese da depress\u00e3o p\u00f3s-parto tem import\u00e2ncia a aus\u00eancia de suporte familiar, em particular do companheiro e de figuras femininas significativas (familiares ou amigas) e ainda a inexist\u00eancia de ajuda pr\u00e1tica efectiva<sup>34<\/sup>.<\/p>\n<p>A preval\u00eancia de depress\u00e3o p\u00f3s-parto no nosso pa\u00eds (entre os 2 e 5 meses) foi avaliada numa \u00e1rea urbana, tendo sido estimada em 13,11 por cento<sup>36<\/sup>. A depress\u00e3o ocorre com maior frequ\u00eancia nos prim\u00edparas<sup>34<\/sup>.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, Figueiredo<sup>33<\/sup> refere que, nos primeiros seis meses ap\u00f3s o parto, as altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas na mulher s\u00e3o superiores \u00e0s de outros momentos da sua vida, sendo que as prim\u00edparas t\u00eam cerca de duas vezes mais probabilidades de desenvolverem perturba\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas do que as mult\u00edparas.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o constitui um importante preditivo da redu\u00e7\u00e3o do desejo, satisfa\u00e7\u00e3o sexual e frequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sexuais no p\u00f3s-parto<sup>35<\/sup>. Num estudo de Augusto et al<sup>36<\/sup>, o adiar das rela\u00e7\u00f5es sexuais foi associado a problemas ou preocupa\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas da mulher.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, est\u00e1\u00a0presente em pelo 10 a 20 por cento das mulheres nos seis primeiros meses p\u00f3s-parto, elevando-se esta taxa para 20 por cento em mulheres com hist\u00f3ria de depress\u00e3o p\u00f3s-parto anterior<sup>37<\/sup>.<\/p>\n<p>A psicose p\u00f3s-parto tamb\u00e9m pode ocorrer, no entanto, \u00e9 considerada mais rara, afectando uma a duas em cada mil mulheres, apresentando uma maior incid\u00eancia em prim\u00edparas<sup>38<\/sup>. \u00c9 igualmente importante a distin\u00e7\u00e3o destes dist\u00farbios do humor no p\u00f3s-parto, pois podem trazer consequ\u00eancias a longo prazo, afectando o desenvolvimento social e psicol\u00f3gico da crian\u00e7a<sup>39<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Outros\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Sociedade, cultura, cren\u00e7as e tabus<\/p>\n<p>Como j\u00e1\u00a0 foi referido anteriormente, muitas atitudes e pr\u00e1ticas s\u00e3o o resultado de tradi\u00e7\u00f5es e tabus sociais. Entre muitas sociedades h\u00e1 um forte tabu sexual durante o p\u00f3s- parto e o per\u00edodo de lacta\u00e7\u00e3o<sup>40<\/sup>.<\/p>\n<p>Para a maior parte das civiliza\u00e7\u00f5es, a proibi\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sexuais ap\u00f3s o parto durava at\u00e9\u00a0ao desmame, frequentemente muito tardio<sup>41<\/sup>. Na P\u00e9rsia antiga, qualquer rela\u00e7\u00e3o sexual antes do 40\u00ba dia ap\u00f3s o parto era punida com a morte, quer do homem quer da mulher<sup>42<\/sup>. Na tradi\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica, o homem n\u00e3o deve ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com a sua mulher durante a menstrua\u00e7\u00e3o (cerca de 10 dias) e ap\u00f3s o parto (no m\u00e1ximo de 40 dias), embora as rela\u00e7\u00f5es sejam permitidas quando as perdas sangu\u00edneas cessarem. \u00c9 considerado que o sexo na presen\u00e7a de sangue vaginal \u00e9 prejudicial e a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida apenas quando a mulher est\u00e1 limpa<sup>43<\/sup>.<\/p>\n<p>Muitas destas cren\u00e7as permaneceram at\u00e9\u00a0aos nossos dias, no entanto, existem algumas tend\u00eancias para a mudan\u00e7a, pois surgiu informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mais rigorosa acerca do risco colocado pela actividade sexual pr\u00e9 e p\u00f3s-natal, tendo estes tabus sido consideravelmente postos de parte na \u00faltima metade do s\u00e9culo XX <sup>20<\/sup>.<\/p>\n<p>Por outro lado, as culturas ocidentais aproximam-se e concentram-se na crian\u00e7a<sup>40<\/sup>, esperando que a rec\u00e9m m\u00e3e tenha retornado ao normal depois da consulta p\u00f3s-parto<sup>2.<\/sup> As necessidades da mulher s\u00e3o desvalorizadas em fun\u00e7\u00e3o do rec\u00e9m-nascido e nem sempre tem a ajuda e o apoio de que necessita.<\/p>\n<h4><strong>Adapta\u00e7\u00e3o a novos pap\u00e9is<\/strong><\/h4>\n<p>No sexto m\u00eas p\u00f3s-parto, a qualidade do papel da m\u00e3e est\u00e1\u00a0fortemente relacionada com as medidas de sexualidade<sup>35<\/sup>. O ajustamento \u00e0s mudan\u00e7as do papel social (papel de m\u00e3e, papel profissional) na adapta\u00e7\u00e3o ao papel materno, satisfa\u00e7\u00e3o conjugal, fadiga e a amamenta\u00e7\u00e3oinfluenciam a viv\u00eancia da sexualidade do casal<sup>35, 45<\/sup>. A dicotomia da imagem da esposa como m\u00e3e em contraste com sua imagem de objecto sexual pode reduzir o desejo sexual de ambos os parceiros<sup>20<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Conjugalidade<\/strong><\/h4>\n<p>A sexualidade \u00e9\u00a0crucial para a comunica\u00e7\u00e3o e a afirma\u00e7\u00e3o do amor, confian\u00e7a e compromisso no casal. O sucesso matrimonial e a felicidade dependem muito de um relacionamento sexual seguro e satisfat\u00f3rio<sup>46,47<\/sup>, todavia a rela\u00e7\u00e3o sexual do casal pode nunca recuperar ap\u00f3s o nascimento de um beb\u00e9.<\/p>\n<p>As dificuldades sexuais sentidas por m\u00e3es recentes e\/ou pelo seu parceiro podem causar ang\u00fastia (\u201cdistress\u201d) devido, em parte, \u00e0 influ\u00eancia da sexualidade na qualidade de vida, no bem-estar f\u00edsico, mental e conjugal. Esta \u00faltima quest\u00e3o tem muitas implica\u00e7\u00f5es, como falta de comunica\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o acerca do relacionamento sexual de cada um e, consequentemente, pode levar a maiores problemas conjugais<sup>24,45<\/sup>.<\/p>\n<h4><strong>Orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas na Sexualidade P\u00f3s-parto<\/strong><\/h4>\n<p>O enfermeiro, como membro da equipa de sa\u00fade, tem um papel fundamental no aconselhamento e esclarecimento de d\u00favidas, com o objectivo de prevenir problemas e ang\u00fastias decorrentes deste per\u00edodo cr\u00edtico que \u00e9\u00a0o p\u00f3s-parto. Para tal, \u00e9 necess\u00e1rio que esteja permanentemente actualizado e formado na \u00e1rea da sexualidade humana.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0ainda t\u00e9cnicos de sa\u00fade com falta de conhecimentos e escassas capacidades cl\u00ednicas para transmitir informa\u00e7\u00e3o pertinente sobre sexualidade p\u00f3s-parto aos seus pacientes<sup>17<\/sup>. As mulheres sexualmente activas e as mulheres com disfun\u00e7\u00e3o sexual que procuram ajuda para este tipo de problema foram de 15,7 por cento e 18,2 por cento, respectivamente<sup>30<\/sup>.<\/p>\n<p>Barret et al<sup>9<\/sup> referem que apenas 15 por cento das mulheres no p\u00f3s-parto relatam ter discutido os problemas sexuais com os profissionais de sa\u00fade. A maioria das mulheres falam de contracep\u00e7\u00e3o, mas raramente abordam a rela\u00e7\u00e3o sexual<sup>48<\/sup>. Mesmo quando as mulheres sentem necessidade de ajuda ou conselhos por causa de um problema sexual, apenas uma minoria procura os profissionais de sa\u00fade<sup>48<\/sup>.<\/p>\n<p>Acresce, ainda, referir a escassa aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0s mudan\u00e7as na sexualidade, \u00e0 sua magnitude. A falta de forma\u00e7\u00e3o envolvendo os factores que podem contribuir para estas mudan\u00e7as, cuja sexualidade parece ser particularmente vulner\u00e1vel <sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>A falta de conhecimento sobre a pr\u00f3pria sexualidade, a desinforma\u00e7\u00e3o sobre a fisiologia da resposta sexual, problemas de ordem pessoal e sobretudo conflitos conjugais s\u00e3o capazes de desencadear s\u00e9rios problemas emocionais nas mulheres e, consequentemente, alterar a sua resposta sexual<sup>49<\/sup>. Assim sendo, a informa\u00e7\u00e3o\/aconselhamento sexual ou a terapia sexual poder\u00e3o reverter ou atenuar os problemas.<\/p>\n<p>A desmistifica\u00e7\u00e3o da normalidade, a flutua\u00e7\u00e3o do interesse sexual e satisfa\u00e7\u00e3o no p\u00f3s-parto, as sugest\u00f5es para posi\u00e7\u00f5es alternativas ao coito e op\u00e7\u00f5es n\u00e3o coitais para a express\u00e3o da intimidade, do afecto e do prazer m\u00fatuo, que podem enriquecer bastante a qualidade da experi\u00eancia da maternidade e os la\u00e7os familiares e maritais.<\/p>\n<p>As mulheres podem descobrir formas de apreciar prazer. Estas podem ser ensinadas a observar os \u00f3rg\u00e3os genitais e reconhecer a multiplicidade de sensa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, obviamente sem contrariar o seu sistema de valores. Para que o prazer er\u00f3tico seja desenvolvido, \u00e9 importante ter em considera\u00e7\u00e3o os facilitadores para o desenvolvimento do potencial org\u00e1stico, incluindo automanipula\u00e7\u00e3o e autoprazer<sup>50<\/sup>.<\/p>\n<p>Apesar de as mulheres serem capazes de obter orgasmo atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o sexual<sup>51<\/sup>, a estimula\u00e7\u00e3o do cl\u00edtoris surge principalmente para desencadear o orgasmo, mesmo durante a rela\u00e7\u00e3o<sup>52<\/sup>. Esta pr\u00e1tica \u00e9 considerada como um aspecto normal do funcionamento sexual feminino. No entanto, a capacidade de ter orgasmos atrav\u00e9s da masturba\u00e7\u00e3o, ou seja, orgasmos n\u00e3o coitais, pode ser a causa de ang\u00fastia pessoal de muitas mulheres que n\u00e3o conseguem obter orgasmos atrav\u00e9s do coito<sup>51<\/sup>.<\/p>\n<p>Apesar das redu\u00e7\u00f5es na intensidade da resposta sexual em todas as fases do ciclo sexual, a mulher mant\u00e9m a sua capacidade org\u00e1stica, desde que estejam preservadas a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o entre os parceiros e feitas as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao processo de envelhecimento, bem como a regularidade de um desempenho sexual efectivo<sup>53<\/sup>.<\/p>\n<p>Os casais devem ser informados que o prazer aumenta com a varia\u00e7\u00e3o no toque, sendo esta uma forma de evitar a habitua\u00e7\u00e3o, fen\u00f3meno decorrente da cont\u00ednua estimula\u00e7\u00e3o no mesmo local, que causa a activa\u00e7\u00e3o total dos receptores nervosos, incapacitando-os de transmitir novas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mulher deve saber que a rela\u00e7\u00e3o deve proporcionar prazer podendo, como consequ\u00eancia, ser org\u00e1stica. \u00c9 importante que a mulher saiba que prazer n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de orgasmo. A mulher pode sentir-se realizada sem obten\u00e7\u00e3o de orgasmo. O cl\u00edtoris funciona como um gatilho que difunde o orgasmo pela plataforma org\u00e1stica, da qual a vagina faz parte, resultando em contrac\u00e7\u00f5es vaginais. N\u00e3o existe orgasmo vaginal e cl\u00edtoriano sendo que, na realidade, o orgasmo \u00e9 um s\u00f3.<\/p>\n<p>O exame f\u00edsico ser\u00e1\u00a0importante para avaliar os sinais e sintomas neurol\u00f3gicos, cicatrizes que indiquem cirurgias anteriores e patologias end\u00f3crinas. Em situa\u00e7\u00f5es raras, podem observar-se ader\u00eancias prep\u00facio-clitorianas e \u201cfimose do cl\u00edtoris\u201d, que ir\u00e3o dificultar a resposta org\u00e1stica<sup>54<\/sup>.<\/p>\n<p>Os exerc\u00edcios de Kegel devem ser iniciados antes da alta hospitalar<sup>13<\/sup>. Muitas gr\u00e1vidas, que n\u00e3o restringiram o peso aos tradicionais 10 quilos, acham a obesidade p\u00f3s-parto um verdadeiro problema. Apesar de uma dieta inicial ser prudente, \u00e9 mais realista deixar a mulher fixar os seus objectivos. Uma dieta nutritiva, exerc\u00edcio, descanso, relaxamento, todos s\u00e3o necess\u00e1rios para uma boa recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica<sup>46<\/sup>.<\/p>\n<p>O marido \u00e9\u00a0 tradicionalmente relegado para um papel secund\u00e1rio e tangencial, pelo que deve acompanhar a mulher e ser inserido na presta\u00e7\u00e3o de cuidados ao rec\u00e9m-nascido. Apesar de n\u00e3o ser o cerne deste trabalho, h\u00e1 a referir a escassez de estudos relativamente \u00e0s viv\u00eancias sexuais dos jovens pais. O homem vai ter de se situar, novamente, na din\u00e2mica familiar, uma vez que o rec\u00e9m-nascido mobiliza a aten\u00e7\u00e3o da companheira<sup>12<\/sup>. O pai pode sentir-se exclu\u00eddo desta rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, especialmente se a mulher amamenta. O jovem pai, no caso de ter assistido ao parto, pode ter sido perturbado pelo aspecto da vulva da sua esposa com sangue, penetrada por dedos desconhecidos, distendida para deixar passar o beb\u00e9, cortada e rasgada. Se o pai esteve ausente, tudo se passa no seu imagin\u00e1rio, o que nem sempre \u00e9 mais f\u00e1cil do que a realidade.<\/p>\n<p>A mulher deve ser informada acerca dos cuidados perineais, deve ser aconselhada a observar-se e a familiarizar-se com a vulva modificada, permitindo uma avalia\u00e7\u00e3o objectiva da les\u00e3o (no caso de esta existir) ou dilata\u00e7\u00e3o imaginada. Se a mulher se conhecer ao n\u00edvel f\u00edsico, poder\u00e1 mais facilmente acalmar o seu companheiro sobre a manuten\u00e7\u00e3o da sua capacidade er\u00f3tica<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m\u00a0 \u00e9\u00a0importante avaliar as altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas. A depress\u00e3o p\u00f3s-parto constitui uma vari\u00e1vel psicol\u00f3gica de peso, pelo que o enfermeiro deve detectar precocemente este risco e, se necess\u00e1rio, fazer o encaminhamento da mulher para uma consulta espec\u00edfica na \u00e1rea. As mulheres devem ser aconselhadas a contactar os t\u00e9cnicos de sa\u00fade se os sentimentos de depress\u00e3o persistirem al\u00e9m do quinto dia<sup>55<\/sup>.<\/p>\n<p>Quando se faz uma abordagem das consequ\u00eancias de uma doen\u00e7a sobre o funcionamento sexual, importa ter em considera\u00e7\u00e3o os seus efeitos f\u00edsicos directos e os seus aspectos psicol\u00f3gicos associados<sup>25<\/sup>.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o da esfera sexual deve incidir sobre<sup>57<\/sup>:<\/p>\n<p>&#8211; A dimens\u00e3o funcional, ou seja, as capacidades neurofisiol\u00f3gicas residuais inerentes \u00e0 resposta sexual e reprodu\u00e7\u00e3o (potencialidades que o sujeito tem);<\/p>\n<p>&#8211; Os padr\u00f5es de comportamento sexual j\u00e1\u00a0experimentados ap\u00f3s a ocorr\u00eancia do problema, o grau de satisfa\u00e7\u00e3o sexual, a din\u00e2mica relacional e comunicacional com o parceiro\/a (o que o sujeito faz com o que tem);<\/p>\n<p>&#8211; O tipo de cren\u00e7as e expectativas pessoais\/conjugais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0sexualidade, estere\u00f3tipos, valores, pap\u00e9is, auto-conceito e imagem corporal (o que o sujeito pensa e de que forma o faz);<\/p>\n<p>-Que mudan\u00e7as ocorreram na rela\u00e7\u00e3o do casal e que comportamentos foram experimentados para a sua resolu\u00e7\u00e3o?<br \/>\nAs respostas a estas quest\u00f5es permitem apurar a exist\u00eancia ou n\u00e3o de problemas potenciais e\/ou reais. Neste contexto, h\u00e1 ainda o estudo do estado f\u00edsico geral, a exist\u00eancia de patologia psiqui\u00e1trica, o uso de medicamentos ou outras subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, os m\u00e9todos anticoncepcionais e o planeamento familiar. Outro aspecto igualmente importante, que nunca deve ser esquecido \u00e9 a exist\u00eancia de motiva\u00e7\u00e3o v\u00e1lida para o tratamento<sup> 57, 58, 59<\/sup> e a participa\u00e7\u00e3o e envolvimento dos dois parceiros neste processo.<\/p>\n<p>Pode-se averiguar a hist\u00f3ria de masturba\u00e7\u00e3o e tratamento de infertilidade prolongada, a hist\u00f3ria do relacionamento do casal, a educa\u00e7\u00e3o com mensagens anti-sexuais, a hist\u00f3ria familiar, o relacionamento com os progenitores, as fantasias sexuais e escolha dos parceiros, as fantasias sexuais paraf\u00edlicas, a sensibilidade \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o e o tipo de relacionamento actual<sup>60<\/sup>.<\/p>\n<p>Os dados colhidos, tendo em conta as quest\u00f5es supracitadas, s\u00e3o a base de informa\u00e7\u00e3o que permite seleccionar objectivos, estrat\u00e9gias e interven\u00e7\u00f5es, eliminando ou minorando as dificuldades ou disfun\u00e7\u00f5es sexuais.<\/p>\n<h4><strong>Conclus\u00e3o:<\/strong><\/h4>\n<p>A sexualidade materna, numa sociedade conservadora como a nossa, \u00e9\u00a0um assunto, muitas vezes, evitado pelos pacientes e pelos profissionais de sa\u00fade. Iniciam-se, assim, muitos problemas sexuais e experi\u00eancias negativas durante a gravidez e depois do parto, que se tornam dif\u00edceis de tratar.<\/p>\n<p>Embora a concep\u00e7\u00e3o actual de sexualidade seja mais abrangente, a sexualidade depois do parto \u00e9 fortemente influenciada por m\u00faltiplos aspectos. O impacto adverso das perturba\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas no bem-estar materno, na rela\u00e7\u00e3o conjugal e no desenvolvimento do beb\u00e9 s\u00e3o factos a considerar. \u00c9 de extrema import\u00e2ncia detectar e prevenir o mais precocemente, situa\u00e7\u00f5es de risco, de modo a contribuir para que as mulheres usufruam desta etapa t\u00e3o especial com alegria e sexualidade saud\u00e1vel. A literatura demonstra, ainda, o forte pendor dos factores f\u00edsicos, a influ\u00eancia da sociedade, cultura, cren\u00e7as e tabus e a adapta\u00e7\u00e3o a novos pap\u00e9is.<\/p>\n<p>O enfermeiro tem, assim, a miss\u00e3o de ajudar a mulher\/parceiro na busca da felicidade sexual, transmitindo informa\u00e7\u00e3o que vise a mudan\u00e7a de comportamentos e a adop\u00e7\u00e3o de estilos de vida saud\u00e1veis.<\/p>\n<h4><strong>BIBLIOGRAFIA:<\/strong><\/h4>\n<div align=\"left\">\n<table id=\"table1\" border=\"0\">\n<tbody>\n<tr valign=\"top\">\n<td height=\"2\">1. Badinter E. Existe el amor maternal?. Barcelona: Paidos-Pomaire; 1981.<\/td>\n<\/tr>\n<tr valign=\"top\">\n<td height=\"2\">2. Muraro RM. A mulher no terceiro mil\u00e9nio. 6\u00aaed. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos; 2000.<\/td>\n<\/tr>\n<tr valign=\"top\">\n<td height=\"2\">3. Cabral JT. A sexualidade no mundo ocidental. 2\u00aa ed. 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