{"id":1421,"date":"2010-09-19T17:48:39","date_gmt":"2010-09-19T17:48:39","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/reflectindo-sobre-a-enfermagem\/"},"modified":"2021-04-28T15:40:51","modified_gmt":"2021-04-28T15:40:51","slug":"reflectindo-sobre-a-enfermagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/reflectindo-sobre-a-enfermagem\/","title":{"rendered":"Reflectindo sobre a Enfermagem"},"content":{"rendered":"<p>O importante da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas formar um mercado de trabalho, mas formar uma na\u00e7\u00e3o, com gente capaz de pensar<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><strong> Reflectindo sobre a Enfermagem: &#8211; Que pr\u00e1ticas, que desenvolvimento, que futuro?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">INSTITUTO POLIT\u00c9CNICO DE BEJA<br \/>\nESCOLA SUPERIOR DE SA\u00daDE DE BEJA<br \/>\nXIV CURSO DE LICENCIATURA EM ENFERMAGEM<br \/>\n4\u00ba Ano \/ 2\u00ba Semestre<br \/>\nUnidade Curricular: Est\u00e1gio<br \/>\nPrograma de Mobilidade Internacional S\u00f3crates Erasmus<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">V\u00e4xj\u00f6, Su\u00e9cia<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"center\">\n<p align=\"right\">\u00abO importante da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas formar um mercado de trabalho, mas formar uma na\u00e7\u00e3o, com gente capaz de pensar\u00bb<\/p>\n<p align=\"right\">Jos\u00e9 Arthur Giannotti (s.d.)<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesta fase final do nosso percurso acad\u00e9mico enquanto estudantes de Enfermagem, realizar uma reflex\u00e3o cr\u00edtica acerca das v\u00e1rias etapas de forma\u00e7\u00e3o pelas quais vamos passando e nas quais nos vamos entregando vivamente, n\u00e3o \u00e9 algo que nos cause estranheza. Ali\u00e1s, este foi muitas vezes o m\u00e9todo utilizado preferencialmente por n\u00f3s estudantes, mas tamb\u00e9m pelos professores, para assegurar que as experi\u00eancias, os conhecimentos e as compet\u00eancias adquiridas durante o dia-a-dia de contacto directo com os utentes na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem, ficariam sedimentados &#8220;em solo firme&#8221; e prontos a alicer\u00e7ar um desenvolvimento futuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pelo facto de actualmente estarmos a viver uma das mais ricas experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o, proporcionada pelo Programa de Mobilidade Internacional S\u00f3crates Erasmus, consideramos que tamb\u00e9m neste momento se afigura de extrema import\u00e2ncia a realiza\u00e7\u00e3o deste exerc\u00edcio. Estamos convencidos que apenas deste modo ser\u00e1 poss\u00edvel encontrarmos alguma &#8220;acalmia intelectual&#8221;, que nos permita retirar conclus\u00f5es e aprendizagens l\u00facidas dentre o imenso turbilh\u00e3o de viv\u00eancias que temos tido oportunidade de experienciar. As grandes diferen\u00e7as culturais, geogr\u00e1ficas, econ\u00f3micas, organizacionais e formativas existentes entre Portugal e a Su\u00e9cia, levaram-nos a tomar contacto com realidades muito d\u00edspares daquelas com as quais estamos habituados a lidar no nosso pa\u00eds, naquilo que diz respeito aos recursos, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e ao funcionamento dos servi\u00e7os de sa\u00fade e particularmente aos cuidados de enfermagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com a gradual evolu\u00e7\u00e3o dos tempos e o surgimento de novas profiss\u00f5es e especializa\u00e7\u00f5es, os trabalhadores foram-se unindo em torno das mesmas e criando mecanismos legais que permitem proteger a autonomia das actividades que desempenham, para que s\u00f3 as pessoas devidamente creditadas as possam realizar. Tal como em muitas outras profiss\u00f5es, tamb\u00e9m a enfermagem viu nascer em Portugal a Ordem dos Enfermeiros, que desde 1998 regulamenta e fiscaliza o exerc\u00edcio desta profiss\u00e3o. (Ordem dos Enfermeiros, 2010) No nosso entender, o prop\u00f3sito desta associa\u00e7\u00e3o assume actualmente ainda maior relev\u00e2ncia, numa altura em que os recursos econ\u00f3micos s\u00e3o escassos e a sa\u00fade \u00e9 tendencialmente gerida por gestores, sendo por isso necess\u00e1rio garantir que existem mecanismos reguladores que n\u00e3o permitem que outras classes profissionais tentem gradualmente substituir os enfermeiros na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem, mesmo sem terem a forma\u00e7\u00e3o e as compet\u00eancias exigidas a estes profissionais.<\/p>\n<p align=\"justify\">No entanto, para al\u00e9m desta componente mais jur\u00eddica que representa e defende a profiss\u00e3o, em Portugal \u00e9 poss\u00edvel perceber que tamb\u00e9m os pr\u00f3prios enfermeiros manifestam no seu dia-a-dia de relacionamento interdisciplinar, a preocupa\u00e7\u00e3o e o interesse em preservar e salientar os limites das interven\u00e7\u00f5es de outras classes profissionais, em rela\u00e7\u00e3o aos seus, de forma a n\u00e3o colidirem nem transporem a fronteira para aquilo que s\u00e3o as interven\u00e7\u00f5es de enfermagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se esta descri\u00e7\u00e3o assenta perfeitamente no paradigma actual do nosso pa\u00eds, o mesmo n\u00e3o se pode dizer da pr\u00e1tica de enfermagem na Su\u00e9cia. Apesar de n\u00e3o entendermos o sueco e com isso podermos n\u00e3o compreender t\u00e3o facilmente &#8220;nas entrelinhas&#8221;, o que \u00e9 certo \u00e9 que em nenhum momento foi poss\u00edvel observar preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos enfermeiros, face \u00e0 necessidade de preservar a sua autonomia e protagonismo na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem aos utentes. Esta realidade n\u00e3o nos causaria qualquer preocupa\u00e7\u00e3o ou estranheza, caso os enfermeiros fossem os \u00fanicos profissionais a prestar cuidados aos utentes. No entanto, n\u00e3o \u00e9 isso que acontece, verificando-se pelo contr\u00e1rio uma grande interven\u00e7\u00e3o dos assistentes operacionais (auxiliares de ac\u00e7\u00e3o m\u00e9dica), sendo estes os principais prestadores de cuidados aos utentes ao longo do turno. Estamos por isso convencidos que a profiss\u00e3o de enfermagem e aquilo que mais a caracteriza, est\u00e3o aqui sob maior risco de &#8220;desapropria\u00e7\u00e3o&#8221; do que no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se como referimos anteriormente, em Portugal poder\u00e3o ser as quest\u00f5es econ\u00f3micas as principais respons\u00e1veis por eventuais tentativas futuras de alterar a realidade da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem aos utentes, na Su\u00e9cia o factor econ\u00f3mico n\u00e3o \u00e9 certamente o respons\u00e1vel por essas mudan\u00e7as. Temos sim em crer que a exist\u00eancia e a r\u00e1pida expans\u00e3o de uma classe numerosa de profissionais designados de undernurses<sup>1<\/sup>, os quais ocupam um lugar de destaque na proximidade, disponibilidade e assist\u00eancia aos utentes, na esmagadora maioria dos servi\u00e7os nos quais tivemos oportunidade de prestar cuidados, ser\u00e1 o principal factor de risco a ter em conta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Palavra inglesa que neste documento \u00e9 empregue como sin\u00f3nimo de assistentes operacionais.<\/p>\n<p align=\"justify\">No sentido de caracterizar sucintamente esta classe, podemos dizer que a mesma \u00e9 composta por pessoas que realizaram um percurso formativo de cerca de dois anos numa escola profissional, ficando assim legalmente possibilitadas de, no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es, ter:<\/p>\n<p>\uf0b7 acesso a todos os dados do utente, estando ali\u00e1s presentes na passagem de turno;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para escrever no processo electr\u00f3nico do utente;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para requisitar o tipo de alimenta\u00e7\u00e3o para os utentes;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para avaliar os sinais vitais;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para realizar colheitas de sangue e de urina, sob prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para realizar aspira\u00e7\u00e3o de secre\u00e7\u00f5es das vias a\u00e9reas;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para avaliar e &#8220;tratar&#8221; \u00falceras\/ feridas;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para realizar electrocardiogramas, sob prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica;<\/p>\n<p>\uf0b7 autonomia para realizar algalia\u00e7\u00f5es, sob prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Apesar de n\u00e3o termos conseguido apurar se neste pa\u00eds, tal como acontece em Portugal, existe um \u00f3rg\u00e3o regulador da pr\u00e1tica de enfermagem que se preocupe com este tipo de quest\u00f5es, consideramos que alguma da culpa destas mudan\u00e7as deve ser imputada aos enfermeiros. Dizemo-lo porque apesar de continuarem a ser os respons\u00e1veis pelos cuidados prestados aos utentes, n\u00e3o v\u00eaem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o que a t\u00e9nue barreira que separa a sua actua\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da actua\u00e7\u00e3o dos undernurses, seja o facto de poderem colocar cateteres venosos perif\u00e9ricos, preparar e administrar a medica\u00e7\u00e3o e realizar registos de enfermagem informatizados. \u00c9 isto que acontece na grande maioria dos servi\u00e7os que tivemos oportunidade de conhecer. 5<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 claro que n\u00f3s enquanto portugueses e defensores do paradigma actual da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem no nosso pa\u00eds (no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o abordada) olhamos este ponto com preocupa\u00e7\u00e3o. Esta n\u00e3o \u00e9 definitivamente a enfermagem com a qual nos identificamos, nem aquela na qual nos vemos a trabalhar de forma conivente. Ao tomarmos contacto com esta realidade que para n\u00f3s era desconhecida e ao reflectirmos sobre ela, questionamo-nos se as disparidades verificadas entre os dois pa\u00edses ter\u00e1 um fundamento meramente cultural ou se o que se vive actualmente na Su\u00e9cia, representa de algum modo o futuro pr\u00f3ximo da enfermagem no nosso pa\u00eds, visto o primeiro ser considerado mais desenvolvido na \u00e1rea da sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">No sentido de procurar respostas para esta nossa inquieta\u00e7\u00e3o e podermos assim chegar a conclus\u00f5es devidamente fundamentadas que nos fa\u00e7am crescer &#8220;em solo firme&#8221;, decidimos perceber o que pensa um dos mais conceituados te\u00f3ricos de enfermagem da actualidade, Walter Hesbeen. Constat\u00e1mos assim que tamb\u00e9m este autor partilha da nossa preocupa\u00e7\u00e3o no que diz respeito ao crescente envolvimento dos undernurses na presta\u00e7\u00e3o de cuidados aos utentes, nomeadamente no que diz respeito \u00e0s interven\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o delegadas e que s\u00e3o do dom\u00ednio da enfermagem. Hesbeen (2000) afirma mesmo que &#8220;Chegamos assim \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u00abredund\u00e2ncia funcional\u00bb, uma vez que os actos prescritos poderiam ser efectuados pelos prescritores enquanto os outros, pouco t\u00e9cnicos, poderiam ser efectuados por pessoal auxiliar&#8221; (p. 60). O autor vai mesmo mais longe, ao dizer que conheceu &#8220;(\u2026 in\u00fameros gestores que n\u00e3o viam por que haveriam de recrutar pessoal de enfermagem quando, em certos sectores, n\u00e3o havia sen\u00e3o actos de \u00abnursing\u00bb&#8221;. (p. 61)<\/p>\n<p align=\"justify\">Perante tais esclarecimentos, podemos ent\u00e3o concluir que esta diferen\u00e7a encontrada entre os dois pa\u00edses em an\u00e1lise n\u00e3o se prende com factores culturais, uma vez que Hesbeen \u00e9 um autor internacional e manifesta a mesma preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s. Por outro lado, foi tamb\u00e9m poss\u00edvel concluir que a realidade que est\u00e1 a ser vivida presentemente na Su\u00e9cia, n\u00e3o dever\u00e1 representar de modo algum uma antevis\u00e3o daquilo que se espera que seja o futuro da enfermagem em Portugal, nem em nenhuma parte do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para al\u00e9m destas preocupa\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter mais socioprofissional e legal, n\u00e3o podemos ficar alheios a outras preocupa\u00e7\u00f5es que se prendem com as repercuss\u00f5es pr\u00e1ticas deste modelo organizacional e funcional para os pr\u00f3prios utentes. Apesar de n\u00e3o dispormos de resultados mensur\u00e1veis de um ponto de vista de ganhos em sa\u00fade, acreditamos que com a delega\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es de enfermagem nos undernurses, os ganhos em sa\u00fade ser\u00e3o menores que aqueles que se poderiam alcan\u00e7ar com a uma interven\u00e7\u00e3o integral dos enfermeiros neste campo. Dizemo-lo com alguma tranquilidade, porque n\u00e3o raras vezes presenci\u00e1mos que enquanto o enfermeiro permanecia no computador logo ap\u00f3s a passagem de turno, a ler informa\u00e7\u00f5es sobre os utentes e a preparar a medica\u00e7\u00e3o, eram os undernurses que se encarregavam de prestar os cuidados de higiene aos utentes, de ajud\u00e1-los a vestir-se, a alimentar-se, etc, o que dia ap\u00f3s dia acaba por levar a um afastamento f\u00edsico gradual entre o enfermeiro e o utente. Em nossa opini\u00e3o, este modelo de presta\u00e7\u00e3o de cuidados acaba por trazer consigo potenciais consequ\u00eancias negativas para os utentes, como \u00e9 o simples exemplo da impossibilidade do enfermeiro despistar altera\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas durante a higiene do utente, altera\u00e7\u00f5es essas que por ventura poder\u00e3o n\u00e3o ser compreendidas e valorizadas pelos assistentes operacionais. Relacionado com este ponto, outra das consequ\u00eancias \u00e9 o facto de serem apenas estes a avaliar e a tratar as feridas\/ \u00falceras dos utentes, ficando assim os enfermeiros completamente \u00e0 margem deste cuidado, apesar de legalmente continuarem a ser os respons\u00e1veis pelos cuidados prestados aos utentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contudo, n\u00e3o s\u00f3 nos servi\u00e7os de internamento estas situa\u00e7\u00f5es de delega\u00e7\u00e3o &#8220;descuidada&#8221;se verificam. Tamb\u00e9m no Servi\u00e7o de Urg\u00eancia, nomeadamente na sala de emerg\u00eancia (que deveria contar com os profissionais mais qualificados e diferenciados para avaliar e cuidar dos utentes emergentes) os undernurses realizam grande parte das interven\u00e7\u00f5es de enfermagem, enquanto o enfermeiro fica atr\u00e1s do computador a inserir dados no processo do utente. Cabe ent\u00e3o aos assistentes operacionais realizarem a monitoriza\u00e7\u00e3o dos utentes, a avalia\u00e7\u00e3o dos sinais vitais, a colheita de sangue para an\u00e1lises e ainda a execu\u00e7\u00e3o de electrocardiogramas ou de algalia\u00e7\u00f5es quando prescritos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tal como referimos acima, consideramos que esta delega\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es acaba por ser &#8220;descuidada&#8221; e mais uma vez potencialmente prejudicial para o utente, dado que o enfermeiro \u00e9 um profissional bem mais diferenciado que um assistente operacional, sendo por exemplo certamente capaz de relacionar irregularidades na frequ\u00eancia e ritmo card\u00edaco, com um pulso filiforme e com uma respira\u00e7\u00e3o superficial, aquando da avalia\u00e7\u00e3o dos sinais vitais, o que ir\u00e1 orientar as principais interven\u00e7\u00f5es a realizar. Este exemplo demonstra que se o enfermeiro apenas tiver em conta os valores dos sinais vitais fornecidos pelo assistente operacional (que eventualmente at\u00e9 poder\u00e3o estar dentro dos par\u00e2metros normais no que diz respeito ao valor num\u00e9rico que caracteriza cada um deles), acaba por n\u00e3o basear a an\u00e1lise da condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade do utente na plenitude dos dados em que se deveria basear, caso fosse ele pr\u00f3prio a avali\u00e1-los. Desta feita pode da\u00ed surgir um ju\u00edzo incorrecto que influencie a orienta\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es de enfermagem que decida realizar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por tudo aquilo que foi descrito, analisado e discutido at\u00e9 aqui, consideramos que \u00e9 poss\u00edvel concluir que na Su\u00e9cia, nomeadamente nos servi\u00e7os onde prest\u00e1mos cuidados, os utentes acabam por estar sujeitos a uma estrutura organizacional e funcional que n\u00e3o potencia a aquisi\u00e7\u00e3o dos ganhos em sa\u00fade esperados, caso os cuidados fossem prestados predominantemente por enfermeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">Finalizado este primeiro ponto de reflex\u00e3o t\u00e3o importante para n\u00f3s enquanto futuros profissionais numa comunidade cada vez mais global, queremos focar agora a nossa aten\u00e7\u00e3o nos registos de enfermagem informatizados, bem no software utilizado para o efeito. Com a evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia e especialmente num pa\u00eds desenvolvido como a Su\u00e9cia, os recursos tecnol\u00f3gicos e inform\u00e1ticos n\u00e3o s\u00e3o um problema, pelo que os enfermeiros disp\u00f5em de computadores e de softwares que lhes permitem registar os dados recolhidos dos utentes, bem como os cuidados de enfermagem prestados aos mesmos. Tal como acontece no nosso pa\u00eds, tamb\u00e9m os enfermeiros suecos d\u00e3o grande import\u00e2ncia ao registo das suas interven\u00e7\u00f5es, como forma de salvaguardar os cuidados prestados ao longo do turno.<\/p>\n<p align=\"justify\">No entanto, a interac\u00e7\u00e3o que o enfermeiro estabelece com o computador n\u00e3o \u00e9 vista por n\u00f3s de uma forma pac\u00edfica, apontando-lhe como cr\u00edtica o grande volume de tempo que os enfermeiros despendem na utiliza\u00e7\u00e3o do mesmo, ao inv\u00e9s de se encontrarem em presta\u00e7\u00e3o efectiva de cuidados ao utente, o principal alvo das suas interven\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 exagero se dissermos que em qualquer dos servi\u00e7os onde tenhamos prestado cuidados, os enfermeiros passam mais de 50% do turno em contacto com o software inform\u00e1tico. Esta \u00e9 para n\u00f3s uma realidade preocupante, dado que na Su\u00e9cia o enfermeiro est\u00e1 a transformar-se cada vez mais num administrativo que dedica grande parte do seu tempo a escrever e a ler informa\u00e7\u00f5es sobre os seus utentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pelo facto desta ser mais uma das quest\u00f5es que nos preocupam, decidimos confrontar os enfermeiros com esta realidade e percebemos que os mesmos manifestam alguma preocupa\u00e7\u00e3o e vontade de poder ter mais tempo dispon\u00edvel para prestar cuidados aos utentes. Contudo, os mesmos referiram que \u00e9 tamb\u00e9m muito importante obter o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es sobre os utentes, uma vez que na passagem de turno uma parte dessa informa\u00e7\u00e3o acaba por n\u00e3o ser mencionada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao procurar fazer uma compara\u00e7\u00e3o com as pr\u00e1ticas realizadas em Portugal, consideramos que os enfermeiros do nosso pa\u00eds n\u00e3o sentir\u00e3o esta necessidade com tanta prem\u00eancia, uma vez que nas passagens de turno \u00e9 fornecida informa\u00e7\u00e3o bastante completa, que permite aos colegas darem continuidade \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de cuidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">No que diz respeito ao funcionamento do pr\u00f3prio software, conseguimos perceber que este \u00e9 bastante mais complexo que aquele que \u00e9 utilizado por n\u00f3s em Portugal, permitindo a conex\u00e3o entre todos os profissionais de sa\u00fade da regi\u00e3o (at\u00e9 de cl\u00ednicas privadas) e ainda requisitar e ter acesso aos resultados dos exames complementares de diagn\u00f3stico, bem como \u00e0 medica\u00e7\u00e3o prescrita, entre outros, factor que poder\u00e1 ser tamb\u00e9m justificativo de parte do tempo que despendem na sua utiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em rela\u00e7\u00e3o a este ponto e \u00e0 semelhan\u00e7a do que fizemos anteriormente, question\u00e1mo-nos se existir\u00e3o realmente mais ganhos em sa\u00fade com todo este investimento de tempo e de aten\u00e7\u00e3o em torno do computador. Mais uma vez n\u00e3o possu\u00edmos dados objectivos que nos permitam fundamentar a nossa preocupa\u00e7\u00e3o para com a qualidade dos cuidados prestados aos utentes e respectivos resultados, mas pelas diversas situa\u00e7\u00f5es que fomos observando ao longo dos turnos, conseguimos defender a nossa convic\u00e7\u00e3o. \u00c9 disso exemplo o facto dos utentes continuarem a precisar diariamente que lhes sejam prestados os cuidados essenciais \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das suas necessidades b\u00e1sicas de vida e, os enfermeiros, estando ocupados com o computador, acabam por delegar esses cuidados, que deveriam ser de enfermagem, nos assistentes operacionais. Ora aqui mais uma vez se assiste \u00e0quilo que j\u00e1 referimos acima, que \u00e9 um afastamento progressivo do enfermeiro em rela\u00e7\u00e3o ao utente e consequentemente uma diminui\u00e7\u00e3o da qualidade dos cuidados prestados, tendo como certeza que o enfermeiro \u00e9 o \u00fanico profissional habilitado para prestar cuidados de enfermagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro dos exemplos \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que retrata o qu\u00e3o fr\u00e1gil e talvez mal direccionada \u00e9 por vezes esta busca de informa\u00e7\u00f5es acerca dos utentes, uma vez que ao questionar uma enfermeira sobre qual a data da \u00faltima dejec\u00e7\u00e3o de uma utente, esta respondeu n\u00e3o ter conhecimento, tendo de voltar ao computador para consultar. Deste modo pudemos mais uma vez comprovar que as leituras que realizam acerca dos utentes, poder\u00e3o n\u00e3o conduzir aos ganhos em sa\u00fade que os mesmos esperavam, demonstrando esta situa\u00e7\u00e3o que por vezes as informa\u00e7\u00f5es mais simples, mas que ao mesmo tempo s\u00e3o tamb\u00e9m aquelas que suportam a base dos cuidados de enfermagem, n\u00e3o s\u00e3o tidas em conta, influenciando com certeza as interven\u00e7\u00f5es do enfermeiro face \u00e0s diversas actividades de vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para al\u00e9m destas quest\u00f5es de car\u00e1cter mais pr\u00e1tico relacionadas com a presta\u00e7\u00e3o de cuidados, \u00e9-nos ainda dif\u00edcil compreender outros aspectos de car\u00e1cter mais legal, que se prendem nomeadamente com o facto do enfermeiro ser o respons\u00e1vel dos cuidados de enfermagem prestados ao utente ao longo do turno e, ao mesmo tempo, ser tamb\u00e9m um dos profissionais que mais distante est\u00e1 deste (\u00e0 excep\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico), delegando grande parte dos cuidados nos assistentes operacionais. Estamos certos que em Portugal os enfermeiros nunca iriam aceitar tais condi\u00e7\u00f5es, sabendo que a maioria dos cuidados seriam prestados por estes profissionais, devido \u00e0 sua pouca disponibilidade para os utentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">No sentido de dar por conclu\u00eddo este ponto, n\u00e3o quer\u00edamos deixar de reflectir sobre aquele que \u00e9 para n\u00f3s o maior handicap do software inform\u00e1tico utilizado pelos enfermeiros na Su\u00e9cia, que se prende com a n\u00e3o incorpora\u00e7\u00e3o da Classifica\u00e7\u00e3o Internacional para a Pr\u00e1tica de Enfermagem (CIPE). Como sabemos, esta classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 vista em Portugal e em muitos outros pa\u00edses como uma ferramenta essencial para o presente e para o futuro da profiss\u00e3o, pois:<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Establishes an international standard to facilitate description and comparison of nursing practice&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Serves as a unifying nursing language system for international nursing based on state-of-the-art terminology standards&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Represents nursing concepts used in local, regional, national and international practice, across specialties, languages and cultures&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Generates information about nursing practice that will influence decision-making, education and policy in the areas of patient needs, nursing interventions, health outcomes, and resource utilization&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Facilitates the development of nursing data sets used in research to direct policy by describing and comparing nursing care of individuals, families and communities world wide&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Improves communication within the discipline of nursing and across other disciplines&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Encourages nurses to reflect on their own practice and influence improvements in quality of care&#8221;.<\/p>\n<p>(ICN, 2010, p.1)<\/p>\n<p align=\"justify\">Tendo apenas em linha de conta os registos inform\u00e1ticos, podemos ent\u00e3o concluir que a enfermagem na Su\u00e9cia n\u00e3o \u00e9 uma enfermagem virada para as exig\u00eancias do futuro, naquilo que diz respeito \u00e0 necessidade de comprovar objectivamente os ganhos em sa\u00fade decorrentes das interven\u00e7\u00f5es de enfermagem, nem eventualmente naquilo que se prende com a import\u00e2ncia de realizar e promover a investiga\u00e7\u00e3o, que certamente seria facilitada pela utiliza\u00e7\u00e3o desta classifica\u00e7\u00e3o. Cremos portanto que este pa\u00eds, naquilo que diz respeito \u00e0 enfermagem, poder\u00e1 estar a caminhar para uma posi\u00e7\u00e3o de isolamento em rela\u00e7\u00e3o aos restantes pa\u00edses que j\u00e1 adoptaram esta classifica\u00e7\u00e3o, ignorando assim os benef\u00edcios que um desenvolvimento conjunto, partilhado e sustentado poder\u00e1 trazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contudo, no seio de tantas &#8220;imperfei\u00e7\u00f5es&#8221; apontadas por n\u00f3s a esta enfermagem que encontr\u00e1mos na Su\u00e9cia, \u00e9 tamb\u00e9m importante sermos imparciais e saber reconhecer as suas virtudes, na medida em que esta classe profissional se tem sabido adaptar \u00e0s necessidades dos novos tempos, criando um grande n\u00famero de especialidades de enfermagem pelas quais os enfermeiros podem enveredar. Quanto a n\u00f3s, este \u00e9 um dos aspectos em que a enfermagem em Portugal est\u00e1 a um n\u00edvel inferior ao da Su\u00e9cia. N\u00e3o dar\u00edamos tanta relev\u00e2ncia a esta quest\u00e3o, se soub\u00e9ssemos que o futuro da enfermagem no nosso pa\u00eds, tal como a conhecemos, n\u00e3o est\u00e1 em risco. Queremos com isto dizer que acreditamos que se nos continuarmos a cingir \u00e0s especialidades que existem em Portugal, poderemos correr o risco de aos poucos come\u00e7armos a perder campos de ac\u00e7\u00e3o enquanto enfermeiros. Exemplo disso \u00e9 o que j\u00e1 est\u00e1 a acontecer com a proposta e discuss\u00e3o do Plano Estrat\u00e9gico dos Recursos Humanos da Emerg\u00eancia Pr\u00e9-Hospital, que discretamente est\u00e1 a preparar este campo de interven\u00e7\u00e3o para uma diminui\u00e7\u00e3o gradual do n\u00famero de enfermeiros envolvidos na emerg\u00eancia pr\u00e9-hospitalar, sendo estes &#8220;substitu\u00eddos&#8221; por T\u00e9cnicos de Ambul\u00e2ncia de Emerg\u00eancia, formados unicamente para realizar t\u00e9cnicas de &#8220;nursing&#8221;. (INEM, 2010) O pr\u00f3prio sindicato desta classe profissional j\u00e1 veio a p\u00fablico afirmar que:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;(\u2026 estes t\u00e9cnicos s\u00e3o os \u00fanicos que t\u00eam compet\u00eancias pr\u00e9-hospitalares e o INEM \u00e9 o \u00fanico que det\u00e9m ambul\u00e2ncias profissionais com equipas compostas por estes t\u00e9cnicos. O facto de a carreira n\u00e3o existir origina car\u00eancia de t\u00e9cnicos devidamente habilitados, pelo que o INEM recorreu \u00e0 requisi\u00e7\u00e3o de enfermeiros para suprir as necessidades, sendo que estes n\u00e3o t\u00eam as compet\u00eancias nem as habilita\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para fazer parte de uma equipa de ambul\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">(Gamboa, 2008:1)<\/p>\n<p align=\"justify\">No sentido de refor\u00e7ar a import\u00e2ncia e a contemporaneidade desta nossa preocupa\u00e7\u00e3o, voltamos a consultar Hesbeen (2000), que sobre este assunto afirma que:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;(\u2026 n\u00e3o se pode perder de vista que as pr\u00f3prias t\u00e9cnicas m\u00e9dicas evoluem. Tornam-se assim cada vez menos invasivas. Por isso, s\u00e3o menos traumatizantes e precisam de uma vigil\u00e2ncia p\u00f3s-operat\u00f3ria ou p\u00f3s-interven\u00e7\u00e3o diferente e sobretudo de um per\u00edodo de internamento menor. (\u2026 As t\u00e9cnicas m\u00e9dicas v\u00e3o assim alterar profundamente o panorama hospitalar no qual, a longo prazo, o internamento ter\u00e1 quase desaparecido. Mesmo com esta evolu\u00e7\u00e3o, defendemos que o hospital ter\u00e1 sempre necessidade de pessoal de enfermagem, mas o seu n\u00famero e as suas fun\u00e7\u00f5es ser\u00e3o alterados. (\u2026 Por conseguinte, conv\u00e9m iniciar sem demora uma viragem que permita mostrar o interesse real da presen\u00e7a de enfermeiros em outras estruturas que n\u00e3o sejam o hospital.&#8221; (pp. 61-62)<\/p>\n<p align=\"justify\">Dito isto, julgamos que ficou demonstrado que n\u00e3o s\u00f3 de &#8220;imperfei\u00e7\u00f5es&#8221; se reveste a enfermagem na Su\u00e9cia, sendo por isso tamb\u00e9m poss\u00edvel e desej\u00e1vel que aprendamos com estas novas apostas de sucesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aproximando-nos de um dos \u00faltimos pontos de reflex\u00e3o contidos neste documento, debru\u00e7amo-nos agora sobre a autonomia da enfermagem enquanto profiss\u00e3o com um corpo de saberes cient\u00edficos pr\u00f3prio. Em rela\u00e7\u00e3o a este assunto, podemos afirmar que no nosso pa\u00eds \u00e9 poss\u00edvel perceber uma preocupa\u00e7\u00e3o generalizada por parte da classe dos enfermeiros, em manter e procurar aumentar ainda mais essa autonomia, tendo por base a descoberta e fundamenta\u00e7\u00e3o de novos conhecimentos baseados em evid\u00eancias cient\u00edficas. Ao contr\u00e1rio desta corrente ambiciosa e progressista vivida em Portugal, na regi\u00e3o da Su\u00e9cia que tivemos oportunidade de conhecer, fic\u00e1mos com a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o que esta n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que atinge os enfermeiros no seu dia-a-dia. Por um lado, como j\u00e1 referimos, o desinteresse pela CIPE evidencia a priori alguma despreocupa\u00e7\u00e3o com este tipo de quest\u00f5es e, por outro, mesmo durante a presta\u00e7\u00e3o de cuidados aos utentes, esta classe profissional demonstra grande subservi\u00eancia \u00e0 classe m\u00e9dica, num acto de completa desvaloriza\u00e7\u00e3o da sua autonomia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tendo em conta todos os exemplos que temos vindo a descrever e a analisar at\u00e9 aqui, facilmente se percebe que a enfermagem neste pa\u00eds v\u00ea as suas interven\u00e7\u00f5es predominantemente reduzidas a algumas actividades interdependentes, uma vez que aquelas que deveriam ser as suas interven\u00e7\u00f5es aut\u00f3nomas de enfermagem s\u00e3o delegadas noutros. Este modelo funcional que afasta o enfermeiro do utente, acaba por se constituir como uma barreira que dificulta a identifica\u00e7\u00e3o de problemas reais ou potenciais e a consequente elabora\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos de enfermagem, limitando ainda mais a realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es aut\u00f3nomas por parte do enfermeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dos in\u00fameros servi\u00e7os que tivemos oportunidade de conhecer, consideramos que aquele em que a subservi\u00eancia atinge o seu expoente m\u00e1ximo \u00e9 o Centro de Sa\u00fade, no qual grande parte dos enfermeiros assume sorridentemente a fun\u00e7\u00e3o de assistente dos m\u00e9dicos nas suas consultas. Limitam-se na grande maioria das vezes a executar as prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, a tratar de parte das quest\u00f5es administrativas referentes aos utentes e, por vezes, at\u00e9 a receber o pagamento das consultas. Esta realidade \u00e9 um completo desvio daquilo que \u00e9 a mais pura ess\u00eancia da enfermagem, uma vez que &#8220;O ser humano esteve desde sempre no centro da aten\u00e7\u00e3o dos enfermeiros.&#8221; (Vieira, 2008:80) Ao inv\u00e9s disso, estes enfermeiros est\u00e3o apenas focados nos actos t\u00e9cnicos, n\u00e3o fazendo uso da globalidade dos conhecimentos adquiridos ao longo do seu percurso de forma\u00e7\u00e3o, em prol da sa\u00fade dos utentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">O presente modelo organizacional e funcional destes Centros de Sa\u00fade n\u00e3o permite a todos os enfermeiros terem os seus pr\u00f3prios utentes na comunidade, nem mesmo realizar planeamento em sa\u00fade com vista a promover a sa\u00fade e prevenir determinadas doen\u00e7as. Assiste-se deste modo a uma enfermagem pouco ou nada criativa\/ aut\u00f3noma, que interv\u00e9m de forma meramente reactiva aos est\u00edmulos externos que lhe s\u00e3o fornecidos pelos m\u00e9dicos e pelos utentes, uma vez que a compar\u00eancia destes \u00faltimos nos Centros de Sa\u00fade, se deve, na maioria das vezes, a motivos de doen\u00e7a ou a obriga\u00e7\u00f5es legais para com os agentes empregadores (consultas de rotina) e n\u00e3o a ac\u00e7\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e de preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as realizadas pelos enfermeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">Deste modo, e sabendo que pelo conceito de Cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rio se entendem todos os cuidados dirigidos a uma popula\u00e7\u00e3o, indiv\u00edduo e\/ ou fam\u00edlia, com o intuito de promover a sua sa\u00fade e prevenir o surgimento de doen\u00e7as, podemos concluir facilmente que os Centros de Sa\u00fade onde prest\u00e1mos cuidados, apresentam uma componente quase nula no que respeita a este n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o, contrariando aquilo que deveria ser o seu principal foco de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por este motivo, mas tamb\u00e9m por tudo aquilo que foi discutido ao longo da reflex\u00e3o e pelas conclus\u00f5es a que fomos chegando de uma forma sustentada, consideramos que se n\u00e3o fosse a grande variedade de especialidades que permitem aos enfermeiros da Su\u00e9cia explorar novos campos de ac\u00e7\u00e3o (ainda que por vezes desviando-se um pouco daquilo que \u00e9 a ess\u00eancia dos cuidados), a enfermagem neste pa\u00eds encontrar-se-ia completamente &#8220;\u00e0 deriva&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto elabor\u00e1mos esta frase, question\u00e1mo-nos vezes sem conta sobre o porqu\u00ea de n\u00f3s, enquanto estudantes portugueses, apontarmos todas estas cr\u00edticas \u00e0 enfermagem, ao passo que nenhum de entre as dezenas de enfermeiros suecos que conhecemos, ter manifestado qualquer preocupa\u00e7\u00e3o face \u00e0 realidade do seu dia-a-dia na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem (\u00e0 excep\u00e7\u00e3o do tempo despendido com os registos inform\u00e1ticos de enfermagem). Ap\u00f3s reflectirmos um pouco em torno desta quest\u00e3o e de termos contactado tamb\u00e9m com alguns estudantes de enfermagem suecos, pudemos por fim perceber que as grandes diferen\u00e7as existentes entre os nossos pontos de vista e a nossa capacidade cr\u00edtica, tem como origem as pr\u00f3prias diferen\u00e7as verificadas entre os percursos formativos advogados em cada pa\u00eds. Apesar de n\u00e3o termos frequentado nenhuma aula do curso de enfermagem enquanto estivemos a realizar o per\u00edodo de Erasmus, tivemos oportunidade de obter e analisar o Plano de Estudos deste Curso da Universidade de V\u00e4xj\u00f6, que relativamente aos conhecimentos e compreens\u00e3o que o aluno dever\u00e1 apresentar no final do curso, refere que este deve:<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Demonstrate knowledge of the subject\u2019s scientific basis and insight into current research and development work as well as knowledge about the relationship between science and well-tried experience and this relationship\u2019s meaning for carrying out the profession&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Demonstrate knowledge about the planning, managing and co-ordinating of work practices in health care&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Demonstrate knowledge about social conditions that influence the health of children, women and men&#8221;;<\/p>\n<p>\uf0b7 &#8220;Demonstrate knowledge of relevant legislation&#8221;.<\/p>\n<p>(V\u00e4xj\u00f6 University, 2006:2)<\/p>\n<p>Tendo em conta os itens supracitados, compreende-se que a componente cient\u00edfica \u00e9 aquela que \u00e9 mais valorizada ao longo do curso, ficando um pouco de parte a preocupa\u00e7\u00e3o com os conte\u00fados referentes \u00e0quilo que s\u00e3o as bases e os princ\u00edpios da enfermagem, t\u00e3o essenciais ao desenvolvimento de um esp\u00edrito cr\u00edtico, como aquele que \u00e9 por n\u00f3s apresentado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Agora que damos por conclu\u00edda esta reflex\u00e3o, queremos afirmar que apesar de podermos ter deixado transparecer a ideia de que esta experi\u00eancia de aprendizagem internacional nos deixou desiludidos e que tivemos poucos ganhos enquanto futuros enfermeiros, dado todas as cr\u00edticas que apont\u00e1mos, o que \u00e9 verdade \u00e9 que o nosso sentimento \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio. Dizemo-lo porque consideramos que soubemos em todos os momentos tirar partido das experi\u00eancias que fomos vivenciando, quer daquelas que se afiguraram para n\u00f3s como os bons exemplos, quer atrav\u00e9s de uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre aquelas que consider\u00e1mos serem os exemplos menos positivos da pr\u00e1tica da enfermagem neste pa\u00eds. Como resultado de todos estes processos intelectuais que realiz\u00e1mos, terminamos este per\u00edodo com um sentimento de sucesso e com um refor\u00e7o da confian\u00e7a que depositamos quer em n\u00f3s pr\u00f3prios, quer nos enfermeiros portugueses. N\u00e3o temos agora quaisquer d\u00favidas em classificar estes \u00faltimos como uns dos melhores na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem hol\u00edsticos, ainda que tenham de lidar diariamente com condi\u00e7\u00f5es de trabalho dif\u00edceis, marcadas por escassez de recursos, quando comparamos com os existentes na Su\u00e9cia. Para al\u00e9m disso, os enfermeiros nacionais t\u00eam de cuidar diariamente de uma popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 possuidora de uma cultura reivindicativa e baixa auto-estima, o que por vezes faz transparecer para a opini\u00e3o p\u00fablica nacional e internacional, que o sistema de sa\u00fade e os profissionais portugueses t\u00eam qualidade inferior aos dos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quanto a n\u00f3s, esta \u00e9 agora uma falsa verdade!<\/p>\n<h4><strong> BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h4>\n<p>Gamboa, M, J (2008, Setembro 23). Relat\u00f3rio de audi\u00eancia n.\u00ba 97\/X-3.\u00aa \u2013 Proposta de carreira de t\u00e9cnicos de ambul\u00e2ncia de emerg\u00eancia. Lisboa: Assembleia da Rep\u00fablica<\/p>\n<p align=\"justify\">Hesbeen, W. (2000). Cuidar no Hospital: Enquadrar os cuidados de enfermagem numa perspectiva de cuidar. (M\u00aa Isabel Baptista Ferreira, trads.). Loures: Lusoci\u00eancia (Obra original publicada em 1997)<\/p>\n<p align=\"justify\">Instituto Nacional de Emerg\u00eancia M\u00e9dica (INEM). (2010, Abril 26). Plano estrat\u00e9gicos dos recursos humanos da emerg\u00eancia pr\u00e9-hospitalar. Consultado em: 2010, Junho 21. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.portaldasaude.pt\/NR\/rdonlyres\/7E0D0D20-59C5-4002-BEBD-D28D2BBC924C\/0\/PlanoEstrategicoRecursosHumanosEmergenciaPreHospitalar.pdf<\/p>\n<p align=\"justify\">International Council of Nurses (ICN). (2010, Abril 27). Vision, Goals &amp; Benefits of ICNP. Consultado em: 2010, Junho 20. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.icn.ch\/pillarsprograms\/vision-goals-a-benefits-of-icnpr\/<\/p>\n<p align=\"justify\">Ordem dos Enfermeiros (2010). A Ordem. Consultado em: 2010, Junho 20. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ordemenfermeiros.pt\/ordem\/Paginas\/Historiada<\/p>\n<p align=\"justify\">OE.aspx<\/p>\n<p align=\"justify\">V\u00e4xj\u00f6 University. (2006, Novembro 7). Study programme syllabus &#8211; Study programme in Nursing, 180 Higher Education Credits. V\u00e4xj\u00f6: V\u00e4xj\u00f6 University<\/p>\n<p>Vieira, M. (2008). Ser enfermeiro \u2013 da compaix\u00e3o \u00e0 profici\u00eancia (2\u00aa ed). Lisboa: Editora Unipessoal<\/p>\n<p align=\"right\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O importante da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas formar um mercado de trabalho, mas formar uma na\u00e7\u00e3o, com gente capaz de pensar<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2220,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[285,85,215,116,95],"class_list":["post-1421","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-de-autor","tag-educacao","tag-enfermagem","tag-ensino","tag-pratica","tag-reflexao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1421"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2424,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1421\/revisions\/2424"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}