{"id":1295,"date":"2010-03-10T23:54:37","date_gmt":"2010-03-10T23:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/analise-das-praticas-uma-estrategia-de-construcao-de-saberes-da-pratica-dos-cuidados-de-enfermagem\/"},"modified":"2021-05-04T09:35:04","modified_gmt":"2021-05-04T09:35:04","slug":"analise-das-praticas-uma-estrategia-de-construcao-de-saberes-da-pratica-dos-cuidados-de-enfermagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/analise-das-praticas-uma-estrategia-de-construcao-de-saberes-da-pratica-dos-cuidados-de-enfermagem\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise das Pr\u00e1ticas, uma Estrat\u00e9gia de Constru\u00e7\u00e3o de Saberes da Pr\u00e1tica dos Cuidados de Enfermagem"},"content":{"rendered":"<p>O projecto englobou enfermeiros docentes e enfermeiros dos contextos onde se prestam cuidados de enfermagem, atrav\u00e9s do desenvolvimento de parcerias intra e inter-organizacionais.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Sinais Vitais n\u00ba80<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">\n<p><strong>Andreia Sofia dos Santos Bernardo<\/strong><\/p>\n<p>Licenciada em Enfermagem<\/p>\n<p><strong>Idalina Delfina Gomes<\/strong><\/p>\n<p>Licenciada em Enfermagem<\/p>\n<p><strong>Maria Paula Portela de Almeida<\/strong><\/p>\n<p>Licenciada em Enfermagem<\/p>\n<h4><strong>Resumo<\/strong><\/h4>\n<p>Tomando como ponto de partida a integra\u00e7\u00e3o entre o campo da forma\u00e7\u00e3o e das situa\u00e7\u00f5es de trabalho, reflecte-se na an\u00e1lise das pr\u00e1ticas como uma estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o de saberes que tenha como centro o doente e fam\u00edlia, na pr\u00e1tica de cuidados de enfermagem.<\/p>\n<h4><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Assiste-se, hoje, cada vez mais, a uma integra\u00e7\u00e3o entre o campo da forma\u00e7\u00e3o e das situa\u00e7\u00f5es de trabalho, ou seja, uma forma\u00e7\u00e3o centrada nos locais da pr\u00e1tica onde se produzem os cuidados com o fim de identificar problemas, construir solu\u00e7\u00f5es e definir projectos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como refere Le Boterf (1988) os planos de forma\u00e7\u00e3o tendem a articular-se estreitamente com o plano estrat\u00e9gico da empresa e orientam-se para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas e realiza\u00e7\u00e3o de projectos. Deste modo, torna-se necess\u00e1rio identificar nas empresas as situa\u00e7\u00f5es- problema poss\u00edveis de serem resolvidas atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o. Isto leva a que na forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de adultos se valorizem cada vez mais as modalidades que favorecem a capacidade dos actores produzirem o seu pr\u00f3prio conhecimento, pois este constr\u00f3i-se tamb\u00e9m a partir da revis\u00e3o das atitudes pr\u00f3prias do indiv\u00edduo e dos seus valores em fun\u00e7\u00e3o de toda a sua aprendizagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 neste contexto que o Departamento dos Recursos Humanos da Sa\u00fade em 1997, deu in\u00edcio ao projecto designado \u201cEnsino de Enfermagem: Processos e Percursos de Forma\u00e7\u00e3o\u201d com o objectivo de promover a n\u00edvel nacional um amplo debate sobre filosofias e modelos curriculares em enfermagem que permitissem desenvolver din\u00e2micas inovadoras nos desenhos curriculares das Escolas Superiores de Enfermagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">O projecto englobou enfermeiros docentes e enfermeiros dos contextos onde se prestam cuidados de enfermagem, atrav\u00e9s do desenvolvimento de parcerias intra e inter-organizacionais. \u00c9 assim que se desenvolve no terreno uma parceria entre a Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende (ESEMFR) e o Hospital de Pulido Valente (HPV) Servi\u00e7o Universit\u00e1rio de Medicina Interna e Gastrenterologia, Medicina III, piso 1. Atendendo aos interesses de ambos os parceiros, optou-se pelo desenvolvimento de pr\u00e1ticas de forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. A finalidade do projecto situou-se na reconstru\u00e7\u00e3o do processo de cuidados em torno do tema \u201cplaneamento de alta\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A concep\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do projecto inseria- se numa metodologia cuja l\u00f3gica era formar, formando-se, atrav\u00e9s da problematiza\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o cr\u00edtica das pr\u00e1ticas, numa tentativa de desenvolver novos modos de ac\u00e7\u00e3o entre teoria\/pr\u00e1tica e forma\u00e7\u00e3o que permitissem reinventar pr\u00e1ticas baseadas nos valores que regem a profiss\u00e3o; fazendo com que essa mesma pr\u00e1tica fosse uma fonte de produ\u00e7\u00e3o de saberes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Procur\u00e1mos investir numa estrat\u00e9gia de investiga\u00e7\u00e3o\/ ac\u00e7\u00e3o, visando a solu\u00e7\u00e3o de problemas concretos, organizando, experimentando, aferindo estrat\u00e9gias na medida dos resultados, rompendo com modos de funcionamento mais rotineiros e impeditivos de uma reflex\u00e3o criadora. Destacamos a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de reflex\u00e3o semanais (realizados \u00e0s quintas feiras), denominados an\u00e1lise das pr\u00e1ticas, por termos percebido que o n\u00e3o nos deixarmos absorver pelo quotidiano, pelo peso das rotinas, questionando os afazeres di\u00e1rios \u00e9 o ponto fulcral para autoforma\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de saberes.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Questionamo-nos ent\u00e3o: Como \u00e9\u00a0que a partir da an\u00e1lise das pr\u00e1ticas se podem construir saberes?<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Como refere Perrenoud (1993) a pr\u00e1tica \u00e9 pedra de toque das compet\u00eancias, mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio question\u00e1-las. Analisar as pr\u00e1ticas \u00e9 dissec\u00e1-las, desmont\u00e1-las, reflectir criticamente sobre o que se faz, p\u00f4r-seem causa, confrontar ideias, discernir fundamentos,verificar resultados conseguidos e agir em conformidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tudo o que fazemos parte de um conhecimento que pode ser te\u00f3rico, mas que temos que adaptar \u00e0s situa\u00e7\u00f5es concretas e m\u00faltiplas que se nos deparam.Por vezes, temos convic\u00e7\u00f5es \u00edntimas que s\u00f3 se alterame consolidam como saber, quando oferecidas \u00e0 cr\u00edticade outras pessoas.<\/p>\n<p align=\"justify\">No fundo \u00e9\u00a0isto que v\u00e1rios autores, tal como Piaget (1976) no seu livro Psycologie et P\u00e9dagogie, designam como constru\u00e7\u00e3o do saber (in Walter, 1998).<\/p>\n<p align=\"justify\">O nosso contexto profissional \u00e9\u00a0 cuidar de pessoas e fam\u00edlias com problemas de sa\u00fade e n\u00e3o s\u00f3, em que o saber da experi\u00eancia n\u00e3o chega. Como diz Walter (1998, p29), n\u00e3o \u00e9 suficiente aplicar protocolos, \u00e9 preciso compreender gestos e situa\u00e7\u00f5es e, sobretudo, \u00e9 importante poder adaptar o acto a realizar \u00e0s necessidades espec\u00edficas da pessoa doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">A sabedoria popular afirma: Da discuss\u00e3o nasce a Luz. Assim, os saberes constru\u00eddos a partir da pr\u00e1tica constituem-se conhecimento socialmente reconhecido,transmiss\u00edvel e transfer\u00edvel para contextos id\u00eanticos,tal como refere Couceiro (1996). A mesma autora,diz que o distanciamento cr\u00edtico, possibilitado pelareflex\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o, conduz a uma segunda compreens\u00e3o. Importa perceber como o que foi referido se relaciona com a defini\u00e7\u00e3o de Walter (1988) acerca dosaber em enfermagem. Para esta autora, este saber\u00e9 a capacidade de descodificar, para al\u00e9m do queest\u00e1 expl\u00edcito (sintoma, express\u00e3o oral), o que esta impl\u00edcito no pedido da pessoa doente, dando-lhe aresposta adequada. Constitui pois a elabora\u00e7\u00e3o deum diagn\u00f3stico de enfermagem e respectiva resposta,ou seja, interven\u00e7\u00e3o de enfermagem. \u00c9 um saberhol\u00edstico apoiado num processo mental sist\u00e9mico quepermite cuidar da pessoa na sua globalidade de formapersonalizada, concreta, coerente, adaptada, eficaz eevolutiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os cuidados individualizados e a participa\u00e7\u00e3o do doente s\u00e3o hoje um dogma central em enfermagem. As pol\u00edticas e estrat\u00e9gias de sa\u00fade reorientam-se no sentido de terem cada vez mais como centro o cidad\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1\u00a0uma nova perspectiva de cidadania que leva a um movimento a favor da participa\u00e7\u00e3o dos doentes que est\u00e3o cada vez mais informados. Gomes (2002, p.212) num estudo de \u00e2mbito qualitativo em que procurou compreender a operacionaliza\u00e7\u00e3o do conceito de parceria nos cuidados aos doentes idosos, concluiu, entre outros, que o papel passivo dos doentes est\u00e1 a mudar. Estes querem passar de um papel tradicionalmente mais passivo, para um papel mais activo. Refere ainda esta autora ser imprescind\u00edvel que os enfermeiros se descentrem de si pr\u00f3prios para conseguirem tornar o doente parceiro e n\u00e3o ca\u00edrem, assim, no erro de Narciso que foi protagonista de uma paix\u00e3o incontrolada por si pr\u00f3prio recusando-se ao Outro, pois o homem s\u00f3 se complementa numa rela\u00e7\u00e3o de alteridade com o Outro, sem a qual ele n\u00e3o seria dotado de exist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">An\u00e1lise das pr\u00e1ticas como, porqu\u00ea, para qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Foi com base nestes pressupostos que o objectivo central da reflex\u00e3o cr\u00edtica das pr\u00e1ticas, que realiz\u00e1mos, se fundamentou no cuidado centrado no doente e fam\u00edlia. Como vem expresso na Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes, da Direc\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade (1999), s\u00f3 se conseguir\u00e1 um maior grau de humaniza\u00e7\u00e3o dos cuidados se os mesmos se centrarem no doente, fam\u00edlia e comunidade que s\u00e3o a justifica\u00e7\u00e3o plena do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Consideramos que como enfermeiros, o nosso C\u00f3digo, os doentes e sobretudo as nossas consci\u00eancias, nos obrigam a prosseguir a excel\u00eancia no exerc\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 assim, da compet\u00eancia dos enfermeiros a constru\u00e7\u00e3o de um processo de cuidados centrado na pessoa doente de modo a compensar o preju\u00edzo das fun\u00e7\u00f5es limitadas pela doen\u00e7a, procurando suprir a disfun\u00e7\u00e3o f\u00edsica, afectiva ou social que acarreta (Colli\u00e9re, 1989, p.241). As pr\u00e1ticas de cuidados de enfermagem t\u00eam como objecto de ac\u00e7\u00e3o\/transforma\u00e7\u00e3o o doente\/fam\u00edlia, mas o agir n\u00e3o \u00e9 cego, isto \u00e9, no acto est\u00e1 inscrita a intencionalidade, o significado dessa ac\u00e7\u00e3o que acaba por dar sentido aos procedimentos que se fazem (Boutinet, 1990). Da\u00ed a necessidade de questionarmos as nossas pr\u00e1ticas, tendo em conta, como refere Rebelo (1996), os tr\u00eas contextos de ac\u00e7\u00e3o: do sujeito enfermeiro, da ac\u00e7\u00e3o e o contexto da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Deste modo, no espa\u00e7o da an\u00e1lise das pr\u00e1ticas, realizado no servi\u00e7o reunimo-nos informalmente, com os enfermeiros escalados nesse turno, discutindo, por vezes, com base em necessidades sentidas pela gest\u00e3o e j\u00e1 preparadas pela mesma, ou apelando a que os pr\u00f3prios enfermeiros escolham uma situa\u00e7\u00e3o concreta, dum doente, que gostassem de ver discutida. Assim, analisamos os diversos registos existentes e procuramos, em conjunto, explicitar os crit\u00e9rios de tomada de decis\u00e3o, procurando sobretudo encontrar a resposta concreta que, como enfermeiros podemos dar \u00e0quela pessoa\/fam\u00edlia, que vive um problema de sa\u00fade \u00fanico para si. As decis\u00f5es tomadas s\u00e3o postas em pr\u00e1tica pelo enfermeiro a quem o doente est\u00e1 atribu\u00eddo, e a interven\u00e7\u00e3o na ac\u00e7\u00e3o \u00e9 discutida posteriormente na passagem de ocorr\u00eancias, conseguindo muitas vezes, ver-se de imediato os resultados da mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por outro lado, tendo em conta a fus\u00e3o necess\u00e1ria entre pensamento\/ac\u00e7\u00e3o, a leitura e discuss\u00e3o de textos, servem de base a algumas dessas reflex\u00f5es. Outras vezes, incidentes cr\u00edticos ocorridos podem constituir a base desta an\u00e1lise, bem como os sentimentos vividos nessas situa\u00e7\u00f5es (ocasionalmente com a participa\u00e7\u00e3o de outros profissionais). A constru\u00e7\u00e3o conjunta de protocolos tem sido outra forma de pensar as pr\u00e1ticas e modificar comportamentos, fazendo emergir novos saberes. A dramatiza\u00e7\u00e3o foi igualmente uma das metodologias utilizadas. Este espa\u00e7o \u00e9 tamb\u00e9m fundamental para se decidirem ou discutirem projectos em desenvolvimento ou a desenvolver.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para que a informa\u00e7\u00e3o chegue a todos repetimos as sess\u00f5es em v\u00e1rias quintas-feiras, para abranger todos os elementos da equipa e para que todos possam ter oportunidade de dar a sua opini\u00e3o, discutir, apropriar-se do pr\u00f3prio projecto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estas sess\u00f5es s\u00e3o formalmente avaliadas atrav\u00e9s de question\u00e1rio, mas tamb\u00e9m oralmente no final de cada sess\u00e3o. Os resultados s\u00e3o observ\u00e1veis atrav\u00e9s\u00a0da avalia\u00e7\u00e3o do desempenho.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Procedimento para identifica\u00e7\u00e3o dos conhecimentos que emergiram da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Para identificar os conhecimentos que emergiram da pr\u00e1tica realiz\u00e1mos a an\u00e1lise dos question\u00e1rios. Estes s\u00e3o constitu\u00eddos por quatro perguntas abertas cujos objectivos s\u00e3o conhecer os aspectos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos que emergiram, os aspectos mais significativos da sess\u00e3o, as mudan\u00e7as no desempenho consequentes da mesma e a import\u00e2ncia destas reflex\u00f5es para o desenvolvimento da equipa. Analis\u00e1mos cerca de 62 question\u00e1rios de 19 sess\u00f5es, realizadas de 3 de Maio de 2001 at\u00e9\u00a014 de Mar\u00e7o de 2002.<\/p>\n<p align=\"justify\">As tem\u00e1ticas abordadas foram: a utiliza\u00e7\u00e3o da musicoterapia, lidar com doentes impopulares\/dif\u00edceis, avalia\u00e7\u00e3o do impacto do planeamento de alta no doente e fam\u00edlia, discuss\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es concretas de doentes com diversas patologias, discuss\u00e3o sobre a adapta\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de trabalho por respons\u00e1vel no servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para analisarmos os dados colhidos, recorremos \u00e0\u00a0an\u00e1lise de conte\u00fado. As categorias de conhecimento identificadas foram:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Abordagem hol\u00edstica;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Escutar o doente;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Compreens\u00e3o do doente e da din\u00e2mica familiar;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Participa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nos cuidados;<br \/>\n&#8211; M\u00e9todo de organiza\u00e7\u00e3o de trabalho por enfermeiro respons\u00e1vel;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Planeamento da alta;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Registos personalizados.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Podemos dizer que, fundamentalmente, este tipo de forma\u00e7\u00e3o induziu os enfermeiros a reconhecerem-se nos seus pr\u00f3prios saberes. Permitiu reconhecer e valorizar as pequenas grandes coisas que constituem o cuidado de Enfermagem e que s\u00e3o fundamentais para prestarmos cuidados centrados no doente, e deste modo, ir ao seu encontro e responder \u00e0s suas necessidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, a partir da reflex\u00e3o cr\u00edtica das nossas pr\u00e1ticas encontr\u00e1mos o sentido da abordagem hol\u00edstica, ou seja, pass\u00e1mos a entender a pessoa como um ser \u00fanico com um projecto de vida tamb\u00e9m \u00fanico, o que faz com que pensemos no impacto que os nossos cuidados v\u00e3o ter no doente e fam\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9, pois, fundamental ao abordarmos o doente, termos em considera\u00e7\u00e3o a sua hist\u00f3ria de vida, os seus valores e cren\u00e7as, assim como experi\u00eancias anteriores que possam influenciar a sua concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade\/doen\u00e7a e recupera\u00e7\u00e3o (por exemplo, satisfazer o desejo de pintar o cabelo de uma doente em fim de vida). Para isso \u00e9 imperiosa uma colheita de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se limite a um question\u00e1rio standardizado e, muitas vezes inapropriado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do doente. Consciencializ\u00e1mos, a import\u00e2ncia de escutar o doente\/ fam\u00edlia, ouvir, observar antes de actuar, pois s\u00f3 assim conheceremos as suas d\u00favidas, receios, preocupa\u00e7\u00f5es e expectativas, e o poderemos envolver na tomada de decis\u00f5es e consequentemente no seu processo terap\u00eautico. Outra \u201cexig\u00eancia\u201d do cuidado centrado no doente \u00e9 o reconhecimento de pressupostos, preconceitos e sentimentos que possam influenciar a pr\u00e1tica de cuidados para que possamos compreender o doente, respeitando-o, mesmo se os nossos valores n\u00e3o estiverem de acordo com os dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma das dimens\u00f5es a que atribu\u00edmos cada vez mais import\u00e2ncia \u00e9 a da compreens\u00e3o da din\u00e2mica familiar e do envolvimento da fam\u00edlia na presta\u00e7\u00e3o de cuidados, pelo ambiente de seguran\u00e7a que proporciona ao doente. Deste modo, a fam\u00edlia \u00e9 um aliado importante do enfermeiro na recupera\u00e7\u00e3o do doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Perante isto, entendemos a necessidade de um hor\u00e1rio de visitas alargado, na medida em que a perman\u00eancia destas \u00e9 essencial a um maior envolvimento da fam\u00edlia na presta\u00e7\u00e3o de cuidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma vez que centrarmo-nos no doente implica termos em aten\u00e7\u00e3o a continuidade do seu projecto de vida, a prepara\u00e7\u00e3o da alta \u00e9 decisiva para o seu futuro, para que possa fazer face \u00e0s suas dificuldades. Estas reflex\u00f5es deram tamb\u00e9m um forte contributo para a necessidade de articula\u00e7\u00e3o com os outros recursos da comunidade (centros de sa\u00fade, lares, etc.) de forma a haver continuidade dos cuidados ap\u00f3s a alta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, o centro de sa\u00fade tornou-se um recurso indispens\u00e1vel na mobiliza\u00e7\u00e3o para a continuidade dos cuidados. De modo a permitir esta continuidade de cuidados, os registos t\u00eam de ser individualizados e personalizados.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 fundamental melhorar a qualidade dos mesmos, de forma a dar visibilidade aos cuidados prestados. Assim, percebemos que, no dia-a-dia, o plano de cuidados do doente e o relat\u00f3rio oral s\u00e3o instrumentos preciosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Que implica\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica, para o doente\/fam\u00edlia?<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Podemos afirmar que, hoje, a equipa de enfermagem conhece melhor a pessoa que, por estar doente, vive esse per\u00edodo da sua exist\u00eancia no servi\u00e7o, precisando da compet\u00eancia do enfermeiro. As quest\u00f5es relacionais, sociais e t\u00e9cnicas aparecem intimamente ligadas, pois os cuidados de enfermagem come\u00e7aram a ser pensados, n\u00e3o para o turno, mas antevendo as mudan\u00e7as poss\u00edveis no estado do doente. A postura da equipa \u00e9 mais activa e din\u00e2mica na procura de solu\u00e7\u00f5es para o doente e fam\u00edlia. Esta, procura ser aut\u00f3noma nas decis\u00f5es, com vista ao bem estar dos doentes que cuida. Agora h\u00e1 outros argumentos e fundamentos para se negociar com a equipa multidisciplinar o projecto de cuidados dos doentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta forma de estar levou \u00e0\u00a0necessidade de adaptar uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o dos cuidados \u2013 m\u00e9todo de trabalho por enfermeiro respons\u00e1vel. Neste, cada doente tem um enfermeiro de refer\u00eancia a quem cabe a responsabilidade de efectuar o planeamento dos cuidados a prestar, desde a admiss\u00e3o at\u00e9 \u00e0 alta.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Importa agora perguntar: Qual a opini\u00e3o dos enfermeiros, sobre os efeitos destas sess\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Transcrevemos em seguida algumas frases significativas acerca do que os enfermeiros dizem deste tipo de forma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Reflex\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o na ac\u00e7\u00e3o, espa\u00e7o de partilha de conhecimentos e sentimentos<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Nem sempre temos a oportunidade de reflectir sobre o que fazemos e o que sentimos, sobre os nossos medos, d\u00favidas e reunir esfor\u00e7os no sentido de melhorar os cuidados de enfermagem e contribuir para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Na fase em que me encontro, de integra\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o a um novo mundo as sess\u00f5es de quinta-feira ganham muita import\u00e2ncia por se tratar de um espa\u00e7o de partilha com os outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Aprendi que nem tudo o que \u00e9 forma\u00e7\u00e3o \u00e9 aborrecido, o que me permitiu uma maior abertura e recep\u00e7\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 A principal mudan\u00e7a do meu comportamento foi a reflex\u00e3o no acto.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Refor\u00e7o do Trabalho de Equipa<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Contribui para a solidifica\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o das equipas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Fomenta o trabalho em equipa sem provocar atritos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Sentimento de crescimento acentuado a n\u00edvel pessoal e profissional.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Foi interessante observar o envolvimento dos enfermeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Possibilita o desocultar das nossas ac\u00e7\u00f5es e a percep\u00e7\u00e3o da intencionalidade das mesmas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 As sess\u00f5es das quintas feiras foram importantes, no sentido de conseguir compreender melhor um doente\/fam\u00edlia espec\u00edfico e tentar mudar a minha actua\u00e7\u00e3o perante este.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Conseguir visualizar o doente como um todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Gostar cada vez mais de ser enfermeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Destaco o projecto de planeamento de alta e a forma como este me levou a aperfei\u00e7oar o meu desempenho, centrando-o no doente (personalizando-o mais).<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Procurou-se, assim, com este trabalho de forma\u00e7\u00e3o induzir que os enfermeiros se reconhecessem nos seus pr\u00f3prios saberes. Nesta perspectiva, a forma\u00e7\u00e3o baseou-se fundamentalmente numa l\u00f3gica de transforma\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, em vez de optar por ac\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o programadas destinadas a suprimir as car\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">Verific\u00e1mos que as sess\u00f5es de an\u00e1lise das pr\u00e1ticas s\u00e3o muito importantes, na medida em que permitem reflectir sobre o desempenho profissional com o objectivo de melhorar constantemente a presta\u00e7\u00e3o de cuidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">A reflex\u00e3o de determinados comportamentos e atitudes \u00e9 fundamental para compreendermos as nossas dificuldades e assim tentar super\u00e1-las. A partilha de conhecimentos e de sentimentos possibilita a uniformiza\u00e7\u00e3o do trabalho em equipa e consequentemente a coes\u00e3o\/uni\u00e3o da mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Temos outra perspectiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0forma\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, questionamos e distinguimos melhor a utilidade das ac\u00e7\u00f5es escolarizadas, mas, sobretudo descobrimos a import\u00e2ncia da capacidade formativa das situa\u00e7\u00f5es vividas no trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">Deste modo, os saberes mobilizados poder\u00e3o ser traduzidos em saberes nome\u00e1veis que permitam passar de uma pr\u00e1tica emp\u00edrica a uma pr\u00e1tica cient\u00edfica e reconhecida, que n\u00e3o se fique pela experi\u00eancia intuitiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contudo, para que seja poss\u00edvel praticar modalidades de forma\u00e7\u00e3o que permitam aos formandos aprenderem atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o e das situa\u00e7\u00f5es de trabalho, \u00e9 necess\u00e1rio que esta valorize a experi\u00eancia dos trabalhadores e crie condi\u00e7\u00f5es para que eles participem nas tomadas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para finalizar gostar\u00edamos de deixar esta reflex\u00e3o:<\/p>\n<p align=\"justify\">Nunca tenha medo de experimentar coisas novas. Foram amadores que constru\u00edram a Arca e foram profissionais que constru\u00edram o Titanic (An\u00f3nimo)<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">BOUTINET, J. (1990): Anthropologie du Project, Paris, Pouf.<\/p>\n<p align=\"justify\">COLLI\u00c8RE, M.F. (1989), Promover a vida. Da pr\u00e1tica das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Lisboa, Sindicatodos Enfermeiros Portugueses.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORREIA (1996): Forma\u00e7\u00e3o e trabalho: contributos para uma transforma\u00e7\u00e3o dos modos de os pensar na sua articula\u00e7\u00e3o. In:Actas do VI Col\u00f3quio Nacional \u201cForma\u00e7\u00e3o, Saberes Profissionaise Situa\u00e7\u00f5es de Trabalho\u201d, Lisboa, Universidade Nova.<\/p>\n<p align=\"justify\">COUCEIRO, Maria do Loreto Paiva (1998): Autoforma\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas profissionais dos professores, Revistade Educa\u00e7\u00e3o, Lisboa: Departamento de Educa\u00e7\u00e3oda Faculdade de Ci\u00eancias e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, VII:2, pp. 53-60.<\/p>\n<p align=\"justify\">CROZIER, M.; FRIEDBERG, E (1997): L\u2019acteur et le syst\u00e8me, Paris, Ed. Seuil.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOMES, Idalina ; REBELO, Teresa ; ALMEIDA, Paula (2000): A Prepara\u00e7\u00e3o da Alta: Um modo de continuidade de Cuidados de Enfermagem, in Minist\u00e9rio da Sa\u00fade: Departamento dos Recursos Humanos da Sa\u00fade, Ensino de Enfermagem. Processos e Percursos de Forma\u00e7\u00e3o Balan\u00e7o de Um Projecto, Lisboa, Outubro pp.152-157.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOMES, Idalina Delfina (2002) : O Conceito de parceria no processo de cuidados aos doentes idosos : O erro de Narciso, Disserta\u00e7\u00e3oapresentada no \u00e2mbito do Mestrado em Comunica\u00e7\u00e3oem Sa\u00fade, Lisboa, Universidade Aberta.<\/p>\n<p align=\"justify\">HESBEEN, Walter (2000): Cuidar no Hospital: enquadrar os cuidados de enfermagem numa perspectiva do cuidar, Loures,Lusoci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LE BOTERF, Guy (1994): De la Competence: Essay sur un attracteur \u00e9trange. Paris: Les Editions D\u2019organization, 175p.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARTIN, C (1986): Cuidados de enfermagem, uma disciplina: condi\u00e7\u00f5es e desafios, ESEI, Lausanne.<\/p>\n<p align=\"justify\">PORTUGAL, Direc\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade (1999), Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERRENOUD (1993): Pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, profiss\u00e3o docente e forma\u00e7\u00e3o. Perspectivas sociol\u00f3gicas, Lisboa, Dom Quixote\/IIE.<\/p>\n<p align=\"justify\">REBELO, T (1996): Os discursos nas pr\u00e1ticas de enfermagem. Disserta\u00e7\u00e3o apresentada no \u00e2mbito do Mestrado em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o: Pedagogia da Sa\u00fade, Lisboa, Faculdade de Psicologia e Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">WALTUR, B\u00c9ATRICE (1988), Le savoir infirmier. Constrution, evolution, revolution de la pens\u00e9e infirmiere, Paris, EditionsLamarre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projecto englobou enfermeiros docentes e enfermeiros dos contextos onde se prestam cuidados de enfermagem, atrav\u00e9s do desenvolvimento de parcerias intra e inter-organizacionais.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2222,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[296,282,635,216,116],"class_list":["post-1295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sinais-vitais","tag-analise","tag-cuidados","tag-estrategia","tag-formacao","tag-pratica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1295"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2745,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295\/revisions\/2745"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}