{"id":1287,"date":"2010-03-05T22:38:08","date_gmt":"2010-03-05T22:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/prematuridade-e-baixo-peso-do-bebe-a-nascenca-da-investigacao-a-intervencao\/"},"modified":"2021-05-04T09:35:24","modified_gmt":"2021-05-04T09:35:24","slug":"prematuridade-e-baixo-peso-do-bebe-a-nascenca-da-investigacao-a-intervencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/prematuridade-e-baixo-peso-do-bebe-a-nascenca-da-investigacao-a-intervencao\/","title":{"rendered":"Prematuridade e Baixo Peso do Beb\u00e9 \u00e0 Nascen\u00e7a: da Investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 Interven\u00e7\u00e3o\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"line-height: 1.3em;\">A hipertens\u00e3o\u00a0 \u00e9 a complica\u00e7\u00e3o mais corrente, afectando cerca de 10% de todas as mulheres gr\u00e1vidas, podendo ter efeitos adversos para a m\u00e3e e o feto<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><strong>T\u00edtulo<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Prematuridade e baixo peso do beb\u00e9 \u00e0 nascen\u00e7a: Da investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Prematurity and low birth weight baby at birth: From research to intervention<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Nursing n\u00ba253<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">\n<h4 style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>Autores\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>M. Bianchi de Aguiar<\/p>\n<p>Licenciada em Psicologia. Bolseira da Funda\u00e7\u00e3o Bial e Investigadora no Departamento de Psicologia da Universidade do Minho<\/p>\n<p>B. Figueiredo<br \/>\nProfessora Associada no Departamento de Psicologia da Universidade do Minho<\/p>\n<p>Nota: Revis\u00e3o desenvolvida no \u00e2mbito do projecto \u201cMassagem ao beb\u00e9 prematuro em cuidados interm\u00e9dios neonatais: efeito no funcionamento psicofisiol\u00f3gico dos beb\u00e9s e pais\u201d (23\/06) financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Bial e da responsabilidade da Universidade do Minho em parceria com o Centro Hospitalar do Porto, Unidade Maternidade de J\u00falio Dinis.<\/p>\n<h4><strong>Resumo<\/strong><\/h4>\n<p>Este artigo apresenta uma revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica dos estudos que, no \u00e2mbito da psicologia, se dedicaram ao parto prematuro e ao baixo peso do beb\u00e9 \u00e0 nascen\u00e7a. Debru\u00e7a-se especialmente sobre as causas e consequ\u00eancias, a curto e a longo prazo, apresentadas na investiga\u00e7\u00e3o actual, contemplando os pais e o beb\u00e9. Discute ainda a interven\u00e7\u00e3o, no que se refere \u00e0s estrat\u00e9gias preventivas e remediativas \u00fateis nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><strong>Abstract<\/strong><\/h4>\n<p>This article is a review of various studies that, within the range of psychology, have researched premature labor and low birth weight at birth. It focuses mostly on the causes and consequences, both short and long term, that are presented within the line of research nowadays, considering both parents and baby. It also discusses intervention, concerning preventive and remeditative strategies that are suitable for this situation.<\/p>\n<p>1. Quais os n\u00fameros?<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica do parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a \u00e9 de extrema relev\u00e2ncia, ainda que apenas se considerem crit\u00e9rios epidemiol\u00f3gicos, pelo elevado n\u00famero de casos que existem nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em determinados contextos hospitalares do Sistema Nacional de Sa\u00fade que recebem maior quantidade de situa\u00e7\u00f5es de risco, o n\u00famero registado de crian\u00e7as nascidas prematuras (por crit\u00e9rio de peso ou idade gestacional) \u00e9 ainda mais elevado, rondando os 15% na Unidade Maternidade J\u00falio Dinis (Porto, 2004).<\/p>\n<p>A percentagem de crian\u00e7as nascidas prematuramente ou com baixo peso tem, por outro lado, vindo a aumentar. O Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE, 2004) estima que, por ano, 8% dos beb\u00e9s nascem prematuros (com menos de 37 semanas de gesta\u00e7\u00e3o) ou com baixo peso (inferior a 2.500g). Por exemplo, em 2004 registaram-se 6.8% (7396) nados vivos com idade gestacional inferior a 37 semanas e 0.9% (1019) com idade gestacional inferior a 31 semanas; sendo que 7.6% (8298) dos rec\u00e9m-nascidos tinham baixo peso (inferior a 2.500g) e 0.9% (1021) muito baixo peso (inferior a 1.500g) (INE, 2006). J\u00e1 no ano de 2005 registaram-se 6.55% (7174) nados vivos com idade gestacional inferior a 37 semanas e 0.88% (966) com idade gestacional inferior a 31 semanas; sendo que 7.5% (8209) dos rec\u00e9m-nascidos tinham peso inferior a 2.500g e 0.9% (1012) peso inferior 1.500g (INE, 2008).<\/p>\n<p>2. Quais as causas?<\/p>\n<p>Embora as causas do parto prematuro sejam em larga escala desconhecidas, alguns factores de risco foram identificados e s\u00e3o consensuais na literatura, tal como detalhamos a seguir. Entre eles incluem-se os problemas sociais e econ\u00f3micos, a aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade pr\u00e9-natais, os comportamentos de risco por parte da m\u00e3e, as complica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas durante a gesta\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a de sintomatologia psicopatol\u00f3gica na m\u00e3e.<\/p>\n<p>2.1. Condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f3micas desfavorecidas<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0s car\u00eancias sociais e econ\u00f3micas, estas tendem a condicionar o desenrolar da gravidez pelas suas implica\u00e7\u00f5es no funcionamento deste grupo no seu espa\u00e7o envolvente. Entre estas destacando-se o emprego prec\u00e1rio que por vezes exige um trabalho pesado, a fraca remunera\u00e7\u00e3o, o baixo n\u00edvel de escolaridade, a exclus\u00e3o social ou mesmo o desemprego.<\/p>\n<p>Quando se consideraram gr\u00e1vidas de baixo n\u00edvel s\u00f3cio-econ\u00f3mico, verificou-se que demonstram sistematicamente n\u00edveis mais elevados de stress, o que ir\u00e1 condicionar inegavelmente a gesta\u00e7\u00e3o (1), nomeadamente para um crescimento fetal retardado e prematuridade (2; 3). Outro dos factores encontrados como agravantes do baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a foi o segregaciocismo racial e social (2).<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, torna-se relevante mencionar o impacto que o abuso f\u00edsico, sexual ou emocional, ou alguma combina\u00e7\u00e3o destes, pode ter no desenrolar da gravidez. O abuso tem sido estudado como inclu\u00eddo num grupo de factores que contribuem para o baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a, devido \u00e0 prematuridade ou a um desenvolvimento deficit\u00e1rio no meio intra-uterino (4). Contudo, apesar de se ter verificado esta associa\u00e7\u00e3o, a percentagem de mulheres sujeitas a abusos que consomem tabaco e marijuana \u00e9 elevada, n\u00e3o se podendo afirmar com exactid\u00e3o qual o factor, ou factores, que contribu\u00edram para o baixo peso.<\/p>\n<p>2.2. Aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade pr\u00e9-natais<\/p>\n<p>No que respeita aos cuidados de sa\u00fade pr\u00e9-natais, estes est\u00e3o mais ausentes na popula\u00e7\u00e3o que mais beneficiaria da sua utiliza\u00e7\u00e3o, nomeadamente mulheres com baixo n\u00edvel educacional e s\u00f3cio-econ\u00f3mico (5).<\/p>\n<p>Alexander e Korenbrot (6) referem que as principais \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o, na preven\u00e7\u00e3o de partos prematuros e de beb\u00e9s com baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a, s\u00e3o psicossociais, por exemplo para mulheres que fumam, nutricionais, focando nas gr\u00e1vidas que t\u00eam problemas alimentares anteriores \u00e0 concep\u00e7\u00e3o ou que t\u00eam pouco aumento de peso durante a gesta\u00e7\u00e3o, e m\u00e9dicas, tendo em conta a morbilidade em geral.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de cuidados pr\u00e9-natais aumenta o risco de complica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas durante a gravidez e a ocorr\u00eancia de parto prematuro em qualquer tipo de popula\u00e7\u00e3o (7; 8).<\/p>\n<p>2.3. Comportamentos de risco por parte da m\u00e3e<\/p>\n<p>No que concerne aos comportamentos de risco por parte da m\u00e3e, identificaram-se em particular o efeito nefasto do abuso de \u00e1lcool, tabaco, assim como de outras subst\u00e2ncias t\u00f3xicas.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es que o rec\u00e9m-nascido apresenta, devido a qualquer uma das subst\u00e2ncias, s\u00e3o not\u00f3rias e tendem a manter-se durante os primeiros anos da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O consumo de \u00e1lcool durante a gravidez est\u00e1 positivamente relacionado com o s\u00edndrome de alcoolismo fetal, que se caracteriza por uma combina\u00e7\u00e3o de crescimento pr\u00e9 e p\u00f3s-natal lento, malforma\u00e7\u00f5es faciais e corporais e disfun\u00e7\u00f5es do sistema nervoso central, n\u00e3o sendo necess\u00e1rio um abuso excessivo para se verificarem estas anomalias.<\/p>\n<p>Uma das causas que muito frequentemente se associa ao baixo peso e \u00e0 prematuridade \u00e9 o consumo de tabaco e a exposi\u00e7\u00e3o a ambientes de fumo (9; 10; 11). Estar exposta a este tipo de ambientes e fumar est\u00e1 associado a um deficit\u00e1rio desenvolvimento fetal, problemas respirat\u00f3rios, maior risco de prematuridade e baixo peso, al\u00e9m de maior probabilidade de aborto espont\u00e2neo. Quando consumidos mais de dez cigarros por dia, a m\u00e9dia de peso \u00e0 nascen\u00e7a dos beb\u00e9s \u00e9 250g mais baixa quando comparada com a m\u00e9dia de beb\u00e9s de m\u00e3es n\u00e3o fumadoras (12; 13).<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m relevante mencionar as consequ\u00eancias mais frequentemente associadas ao consumo de outras subst\u00e2ncias, tais como a marijuana, opi\u00e1ceos e coca\u00edna, apesar de nem todas contribu\u00edrem para a prematuridade e baixo peso. O consumo frequente e elevado de marijuana pode provocar anomalias cong\u00e9nitas, altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso e no desenvolvimento de limfobl\u00e1stica aguda, uma forma de cancro infantil (13). As gr\u00e1vidas dependentes de opi\u00e1ceos t\u00eam tend\u00eancia a ter beb\u00e9s prematuros que se revelam irrequietos e irrit\u00e1veis e que muitas vezes t\u00eam convuls\u00f5es, febre, v\u00f3mitos, dificuldades respirat\u00f3rias, sendo que o risco de morbilidade \u00e9 elevado. Da mesma forma, o consumo de coca\u00edna est\u00e1 tamb\u00e9m relacionado com um maior risco de aborto espont\u00e2neo, prematuridade, baixo peso e pequeno per\u00edmetro craniano, j\u00e1 que o consumo desta subst\u00e2ncia parece interferir com a circula\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 placenta, podendo tamb\u00e9m causar problemas neurol\u00f3gicos e comportamentais no feto. Tal como no caso da coca\u00edna, o consumo de metanfetaminas, cada vez mais generalizado, provoca na m\u00e3e um aumento da press\u00e3o arterial, pulsa\u00e7\u00e3o mais acelerada, um output card\u00edaco aumentado e resist\u00eancia do sistema vascular (14).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ingest\u00e3o excessiva de caf\u00e9 ou cafe\u00edna pode ter um impacto negativo no desenrolar da gravidez, nomeadamente ao n\u00edvel do atraso desenvolvimental do feto, provocando o nascimento de um beb\u00e9 pequeno para a idade gestacional (15).<\/p>\n<p>Por fim, o impacto da polui\u00e7\u00e3o do ar no desenrolar da gravidez tem ganho cada vez mais relev\u00e2ncia, em especial a exposi\u00e7\u00e3o a CO2, considerada a mais comum nos centros urbanos Bobak (16) concluiu que quando expostas durante o primeiro trimestre, o n\u00edvel de polui\u00e7\u00e3o tem um efeito ineg\u00e1vel na prematuridade e baixo peso, mesmo quando foram tidos em conta o peso de factores socioecon\u00f3micos e caracter\u00edsticas individuais da m\u00e3e.<\/p>\n<p>2.4. Complica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas durante a gesta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s complica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, foram sobretudo consideradas a hipertens\u00e3o e diabetes que afectam cerca de 5% de todas as gr\u00e1vidas. Estas complica\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais facilmente resolvidas quando surgem no final da gesta\u00e7\u00e3o, primeiramente porque constituem um risco muito menor para o desenvolvimento fetal e, em segundo lugar, porque atrav\u00e9s da indu\u00e7\u00e3o do parto podem resolver-se alguns destes riscos m\u00e9dicos, nomeadamente a hipertens\u00e3o (17).<\/p>\n<p>A hipertens\u00e3o\u00a0 \u00e9 a complica\u00e7\u00e3o mais corrente, afectando cerca de 10% de todas as mulheres gr\u00e1vidas, podendo ter efeitos adversos para a m\u00e3e e o feto (18; 19). Entre as consequ\u00eancias mais habituais nas mulheres est\u00e3o problemas renais, card\u00edacos e vasculares e parto prematuro, e nos fetos atrasos desenvolvimentais e morte (20). A hipertens\u00e3o por si s\u00f3 pode n\u00e3o ser mal\u00e9fica para o decurso da gravidez, mas quando se associa a protein\u00faria existe a probabilidade de surgir a pr\u00e9-eclampsia, uma patologia severa e extremamente prejudicial de etologia desconhecida (21). Segundo Sibai (22), se a pr\u00e9-eclampsia surgir antes das 35 semanas, o decorrer da gravidez est\u00e1 associado a graves complica\u00e7\u00f5es maternas e perinatais. A placenta \u00e9 o factor precipitante do agravamento da hipertens\u00e3o, sendo que a expuls\u00e3o da placenta na altura do parto ser\u00e1 a \u00fanica forma de solucionar este problema (19).<\/p>\n<p>No caso de existir hipertens\u00e3o pr\u00e9via, a utiliza\u00e7\u00e3o de medica\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada com um aumento do risco de baixo peso, prematuridade e internamento na unidade de cuidados intensivos neo-natais, sendo que a terapia medicamentosa combinada tem maior probabilidade de desencadear as consequ\u00eancias anteriormente referidas (23; 3).<\/p>\n<p>Durante a gravidez a mulher est\u00e1\u00a0sujeita a v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel das exig\u00eancias do funcionamento metab\u00f3lico, podendo propiciar o aparecimento da diabetes (2). A diabetes durante a gravidez provoca um amadurecimento diminu\u00eddo dos pulm\u00f5es do feto, o que torna importante adiar o parto at\u00e9 \u00e0s 39 ou 40 semanas. Contudo, quando existe um controlo adequado do n\u00edvel de glicemia, o risco de ocorrer um parto prematuro em mulheres dependentes de insulina \u00e9 significativamente menor (24).<\/p>\n<p>Importa salientar que as gr\u00e1vidas an\u00e9micas t\u00eam forte probabilidade de ter um parto prematuro, sendo que esta probabilidade \u00e9 quase nula quando surge ao longo do terceiro trimestre devido \u00e0 j\u00e1 esperada expans\u00e3o do volume de plasma da m\u00e3e (25; 26).<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, e embora n\u00e3o se associe directamente a uma complica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que surja durante a gesta\u00e7\u00e3o, as gravidezes m\u00faltiplas implicam, na maioria dos casos, a n\u00e3o conclus\u00e3o do per\u00edodo gestacional completo (27). A presen\u00e7a de dois ou mais fetos torna-se num risco para a ocorr\u00eancia de um parto prematuro e para beb\u00e9s com baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a, o que torna pertinente salientar o aumento destes casos a n\u00edvel nacional e internacional (28).<\/p>\n<p>2.5. Sintomatologia psicopatol\u00f3gica da m\u00e3e<\/p>\n<p>2.5.1. A depress\u00e3o e ansiedade materna s\u00e3o factores de risco para o parto prematuro e o baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a?<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de n\u00edveis elevados de sintomatologia ansiosa e depressiva durante a gravidez foi associada \u00e0 prematuridade e baixo peso do rec\u00e9m-nascido, o que em parte se deve aos efeitos directos da sintomatologia materna sobre o feto, atrav\u00e9s do ambiente intra-uterino, mas tamb\u00e9m a outros factores que fortemente se associam \u00e0 ansiedade e \u00e0 depress\u00e3o durante a gravidez, e que indirectamente podem causar um parto prematuro e o baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (29).<\/p>\n<p>2.5.1.1. Efeito indirecto de circunst\u00e2ncias que se associam \u00e0 depress\u00e3o e ansiedade materna na gravidez no parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a<\/p>\n<p><strong>Depress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Encontramos consider\u00e1veis evid\u00eancias emp\u00edricas na literatura, no que se refere a circunst\u00e2ncias que se associam \u00e0 ocorr\u00eancia de depress\u00e3o na gravidez, e s\u00e3o factores de risco para parto prematuro e\/ou baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a. Com efeito, \u00e0 depress\u00e3o materna durante a gesta\u00e7\u00e3o associa-se um pior estado geral de sa\u00fade (e.g., 30), menos cuidados de sa\u00fade pr\u00e9-natais (e.g., 31), bem como maior consumo de subst\u00e2ncias, principalmente bebidas alco\u00f3licas e tabaco (e.g., 32; 33; 34; 35; 36). Por exemplo, num estudo recente sobre uma amostra de 487 gr\u00e1vidas filandesas, Zhu e Valbo (35) encontraram que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s participantes que n\u00e3o estavam deprimidas, as que exibiam sintomatologia depressiva em n\u00edveis clinicamente significativos (CES-D&gt;16) apresentavam 4.1 vezes mais probabilidade de fumar durante a gesta\u00e7\u00e3o, o que acontecia muito raramente no grupo das que n\u00e3o estavam deprimidas.<\/p>\n<p><strong>Ansiedade<\/strong><\/p>\n<p>Encontramos igualmente evid\u00eancias nos estudos a seguir referidos de a ocorr\u00eancia de ansiedade na gravidez se associar a outros tantos factores de risco para um parto prematuro. Problemas sociais e econ\u00f3micos, consumo de tabaco, hist\u00f3ria de aborto e problemas em gravidezes anteriores ou na actual gravidez, acontecimentos de vida adversos e stress cr\u00f3nico, bem como falta de suporte social (e.g. 37; 38) t\u00eam sido referidos pelas m\u00e3es que apresentam mais sintomatologia ansiosa durante a gesta\u00e7\u00e3o. Mais do que a ansiedade especifica da gravidez, o stress cr\u00f3nico foi associado a complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas, partos prematuros e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (39).<\/p>\n<p>2.5.1.2. Efeito directo da depress\u00e3o e ansiedade materna no comportamento e desenvolvimento fetal e indirecto no parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica neste dom\u00ednio tem verificado que, tanto a depress\u00e3o como a ansiedade materna, influenciam adversamente o desenvolvimento e comportamento do feto (menor crescimento e mais actividade motora e card\u00edaca), circunst\u00e2ncias que podem directamente contribuir para o nascimento prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (40).<\/p>\n<p><strong>Depress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Algumas consequ\u00eancias adversas foram verificadas no desenvolvimento e comportamento do feto, na presen\u00e7a de n\u00edveis elevados de sintomatologia depressiva materna (29).<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de sintomatologia depressiva da m\u00e3e associa-se a uma maior actividade fetal durante o exame ecogr\u00e1fico realizado no segundo e terceiro trimestre de gesta\u00e7\u00e3o: os fetos das m\u00e3es deprimidas passam mais tempo em actividade (41), o que testemunha menor maturidade.<\/p>\n<p>Maior actividade card\u00edaca, menor habitua\u00e7\u00e3o aos est\u00edmulos, e menor maturidade foi tamb\u00e9m observada num experimento que consistiu em providenciar estimula\u00e7\u00e3o vibro-ac\u00fastica: o feto de m\u00e3es deprimidas: (1) apresentavam valores mais elevados de actividade card\u00edaca, antes da estimula\u00e7\u00e3o ser providenciada e (2) demoravam significativamente mais tempo (3.5) a voltar \u00e0 actividade card\u00edaca inicial, depois de terminada a apresenta\u00e7\u00e3o do est\u00edmulo experimental (42).<\/p>\n<p><strong>Ansiedade<\/strong><\/p>\n<p>No que se refere aos fetos das m\u00e3es que apresentam n\u00edveis elevados de ansiedade durante a gravidez, foi observado que passavam mais tempo em sono passivo, exibiam mais movimentos indiscriminados nos per\u00edodos de sono activo, bem como maior actividade fetal e valores mais elevados de batimentos card\u00edacos (\u00e0s 24, 30 e 36 semanas) (43; 44; 45). Estes indicadores s\u00e3o testemunho da menor maturidade dos fetos das m\u00e3es ansiosas durante a gravidez.<\/p>\n<p>2.5.1.3. Efeito directo da depress\u00e3o e ansiedade materna nas complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas, parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m\u00a0 \u00e0\u00a0depress\u00e3o da m\u00e3e se associam complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas, parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (e.g., 46; 47; 33; 48; 36).<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0s consequ\u00eancias da ansiedade foram assinaladas malforma\u00e7\u00f5es e anomalias cong\u00e9nitas, reduzido di\u00e2metro craniano, baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a e prematuridade (49; 50; 51; 52; 48; 53)<\/p>\n<p>2.5.1.4. Quais os mecanismos da influ\u00eancia da depress\u00e3o e ansiedade materna no comportamento e desenvolvimento fetal e no parto prematuro e baixo peso?<\/p>\n<p><strong>Depress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rias hip\u00f3teses foram adiantadas para explicar a influ\u00eancia da depress\u00e3o materna no comportamento e desenvolvimento fetal, baixo peso do rec\u00e9m-nascido, bem como na ocorr\u00eancia de parto prematuro. Uma destas hip\u00f3teses envolve a altera\u00e7\u00e3o do ambiente hormonal materno que acompanha a depress\u00e3o, suscept\u00edvel de influenciar o feto (nomeadamente o seu desenvolvimento cerebral) atrav\u00e9s da placenta. Com efeito, n\u00edveis mais elevados de cortisol e de norepinefrina e n\u00edveis menos elevados de dopamina e de serotonina foram observados nos rec\u00e9m-nascidos, \u00e0 semelhan\u00e7a dos padr\u00f5es presentes em suas m\u00e3es deprimidas durante o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o. Os n\u00edveis hormonais da m\u00e3e afectariam directamente os n\u00edveis hormonais do feto. Esta hip\u00f3tese considera que os elevados n\u00edveis de cortisol das m\u00e3es deprimidas seriam respons\u00e1veis pelo aumento do risco para parto prematuro, enquanto que os elevados n\u00edveis de norepinefrina seriam respons\u00e1veis pelo baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a do beb\u00e9 (54; 47; 55; 56).<\/p>\n<p>O d\u00e9fice no sistema imunit\u00e1rio foi tamb\u00e9m adiantado como um dos poss\u00edveis mecanismos da influ\u00eancia da depress\u00e3o materna no comportamento e desenvolvimento fetal e no parto prematuro. Aumentaria a probabilidade de respostas inflamat\u00f3rias intra-uterinas conduzindo a partos prematuros, complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas, etc.<\/p>\n<p><strong>Ansiedade<\/strong><\/p>\n<p>Os mecanismos fisiol\u00f3gicos associados ao desencadeamento de um parto prematuro ou do nascimento de um beb\u00e9 com baixo peso associa-se \u00e0 forma do corpo da mulher reagir a um ambiente intra-uterino caracterizado pela tens\u00e3o, ansiedade e stress (57). Estes sinais s\u00e3o enviados atrav\u00e9s de glucocortic\u00f3ides (hormona de stress), que desencadeiam a liberta\u00e7\u00e3o da corticotropina (CRH), que prov\u00e9m da placenta. Elevados n\u00edveis de ansiedade durante a gesta\u00e7\u00e3o aumentam a liberta\u00e7\u00e3o da hormona CRH, o que ao longo da gravidez, especialmente entre as 20 e as 25 semanas, vai actuar sobre vari\u00e1veis psicossociais e biol\u00f3gicas que s\u00e3o fundamentais na forma como se desenrola a gravidez, nomeadamente o parto (1; 2).<\/p>\n<p>A ansiedade materna associa-se a valores elevados de ACTH (plasma) e cortisol, que propiciam ao parto prematuro e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (58). O cortisol pode ser directamente respons\u00e1vel pelo parto prematuro, ou atrav\u00e9s do aumento do risco associado de infec\u00e7\u00f5es durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma outra hip\u00f3tese envolve sobretudo o efeito da ansiedade materna no aumento da press\u00e3o na art\u00e9ria uterina que faz decrescer o fluxo sangu\u00edneo, pelo que n\u00e3o s\u00e3o providenciados os nutrientes suficientes para que o feto cres\u00e7a adequadamente, resultando em baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a (59). A ansiedade materna associa-se a um aumento do \u00edndice de resist\u00eancia da art\u00e9ria uterina, pela influ\u00eancia da noradrenalina, diminuindo o fluxo sangu\u00edneo e consequentemente o apport de nutrientes ao feto (59).<\/p>\n<p>A ansiedade materna associa-se ainda a valores elevados de cortisol que interferem no desenvolvimento do eixo hipotalamo-pituitario-adrenal (HPA) fetal, condicionando a futura resposta ao stress do beb\u00e9 (60).<\/p>\n<p>3. Quais as consequ\u00eancias?<\/p>\n<p>As sequelas da prematuridade e baixo peso \u00e0 nascen\u00e7a s\u00e3o vastas e preocupantes, e abrangem n\u00e3o s\u00f3 a crian\u00e7a, como tamb\u00e9m os seus pais, sendo que quanto menor for o tempo gestacional e o peso da crian\u00e7a \u00e0 nascen\u00e7a, menor ser\u00e1 a sua probabilidade de sobreviv\u00eancia e desenvolvimento adequado.<\/p>\n<p>3.1. Para a crian\u00e7a<\/p>\n<p><strong>A curto-prazo<\/strong><\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os da medicina neonatal nos \u00faltimos anos, a prematuridade continua a ser uma das principais causas de mortalidade e morbilidade infantil, sendo a segunda causa de mortalidade infantil, nos EUA, em consequ\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f3nicas e hospitaliza\u00e7\u00f5es frequentes, problemas que est\u00e3o agravados quando se associa ao baixo peso. \u00c0 medida que o peso do rec\u00e9m-nascido \u00e9 menor, a severidade e frequ\u00eancia dos problemas de sa\u00fade v\u00e3o-se intensificando (27).<\/p>\n<p>Ao longo da d\u00e9cada de 90, a taxa de sobreviv\u00eancia de crian\u00e7as prematuras, especialmente com menos de 26 semanas, e com baixo peso (menos de 750g) aumentou significativamente (61). Por vezes, a interven\u00e7\u00e3o nestes casos \u00e9 quetion\u00e1vel porque, apesar da probabilidade de sobreviv\u00eancia ser agora consideravelmente promissora, o risco inerente ao aparecimento de problemas neurodesenvolvimentais \u00e9 elevado, destacando-se paralisia cerebral, atraso mental, surdez e cegueira (62).<\/p>\n<p>Uma das t\u00e9cnicas utilizadas para ajudar o rec\u00e9m-nascido a respirar \u00e9 o surfactante, que \u00e9 aplicado nos primeiros minutos ap\u00f3s o nascimento directamente nos pulm\u00f5es atrav\u00e9s de um tubo endotraquial. Apesar do aparente sucesso desta interven\u00e7\u00e3o, a incid\u00eancia de morbilidades cr\u00f3nicas, tais como displasia bronco-pulmonar, hemorragias intraventiculares entre outras, n\u00e3o \u00e9 alterada (63; 27).<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia do baixo peso e da prematuridade, os beb\u00e9s ficam internados nas unidades de cuidados intensivos ou interm\u00e9dios, dependendo da severidade e quantidade de problemas m\u00e9dicos identificados. A adversidade e a frequ\u00eancia com que estes beb\u00e9s s\u00e3o sujeitos a procedimentos dolorosos \u00e9 elevada, pelo que os profissionais de sa\u00fade devem estar atentos aos seus sinais exteriores de dor. Ao contr\u00e1rio do que acontece com beb\u00e9s de termo, tremores, sobressaltos n\u00e3o s\u00e3o considerados sinais de desconforto no beb\u00e9 prematuro (64). O beb\u00e9 prematuro utiliza mais frequentemente como indicadores de dor e stress a extens\u00e3o dos membros inferiores e superiores e extens\u00e3o dos dedos (64; 65). A express\u00e3o facial \u00e9 menos utilizada, notoriamente quanto mais exposto a procedimentos dolorosos, menor \u00edndice de Apgar e menor idade gestacional do beb\u00e9 (65).<\/p>\n<p>Durante os primeiros anos de vida do prematuro, a probabilidade de surgirem complica\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, nomeadamente asma, \u00e9 o dobro quando comprada com crian\u00e7as que nasceram de termo, mesmo depois de se controlar o impacto de vari\u00e1veis demogr\u00e1ficas, s\u00f3cio-demogr\u00e1ficas, m\u00e9dicas e comportamentais da m\u00e3e durante a gesta\u00e7\u00e3o (66).<\/p>\n<p><strong>A m\u00e9dio e longo-prazo<\/strong><\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es da prematuridade ou do baixo peso \u00e0\u00a0nascen\u00e7a n\u00e3o terminam no meio neonatal. Estas crian\u00e7as apresentam tr\u00eas a quatro vezes mais probabilidade de serem hospitalizados e de recorrerem aos servi\u00e7os de sa\u00fade do que os seus pares que nasceram de termo (63).<\/p>\n<p>Num estudo realizado por Hunter, Kilstrom, Kraybill e Loda (67), verificou-se uma incid\u00eancia de 3,9% de casos de maus-tratos num grupo de 255 crian\u00e7as, que nasceram prematuramente, ao longo do seu primeiro ano de vida. Nas fam\u00edlias em que isto ocorreu, foi verificado que na altura da hospitaliza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-parto, o contacto entre a fam\u00edlia e o beb\u00e9 era diminu\u00eddo.<\/p>\n<p>Sabe-se que crian\u00e7as que nasceram prematuramente ou com baixo peso v\u00e3o apresentar com acrescida frequ\u00eancia atraso no desenvolvimento, problemas de comportamento (por exemplo, ADHD) e baixas realiza\u00e7\u00f5es escolares (62; 68; 69).<\/p>\n<p>Rec\u00e9m-nascidos de baixo peso (&lt;2500g) t\u00eam apenas um pequeno risco acrescido para deficits psicol\u00f3gicos a longo termo, mas \u00bc dos rec\u00e9m-nascidos com muito baixo peso (&lt;1500g) apresenta m\u00faltiplos problemas psicol\u00f3gicos graves, como por exemplo elevados n\u00edveis de ansiedade e depress\u00e3o (69). Baixo QI, deficits de aten\u00e7\u00e3o e problemas escolares s\u00e3o as sequelas mais prevalentes; quanto mais cedo nasceram e mais pequenos forem os rec\u00e9m-nascidos, maior \u00e9 a probabilidade de n\u00e3o terem um desempenho adequado para a idade. O risco pode ser minorado ou compensado no caso dos prematuros de muito baixo peso, mas n\u00e3o no caso de prematuros de extremo baixo peso (&lt;1000g), que v\u00e3o apresentar sequelas e atrasos permanentes em rela\u00e7\u00e3o aos beb\u00e9s de termo (70; 63).<\/p>\n<p>O baixo peso \u00e0\u00a0nascen\u00e7a apenas n\u00e3o funciona como um preditor de um baixo QI, mas quando \u00e9 emparelhado com o estatuto s\u00f3cio-econ\u00f3mico da fam\u00edlia, informa\u00e7\u00e3o sobre o estado desenvolvimental \u00e0s 56 semanas, torna-se um forte indicador acerca do futuro desempenho acad\u00e9mico e desenvolvimental da crian\u00e7a (68).<\/p>\n<p>A preval\u00eancia de algum tipo de defici\u00eancia em crian\u00e7as que nasceram prematuras e\/ou com baixo peso n\u00e3o se tem alterado ao longo dos anos, ao contr\u00e1rio da taxa de sobreviv\u00eancia que tem vindo a aumentar desde a d\u00e9cada de 80. Numa revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica efectuada por Lorenz e col. (62), foi verificada uma incid\u00eancia de 22,1% de algum tipo de defici\u00eancia nas crian\u00e7as prematuras e 24,2% nas de baixo peso; destas, a paralisia cerebral foi considerada a mais comum entre os prematuros e os rec\u00e9m-nascidos de baixo peso, tendo uma incid\u00eancia de 14%, a cegueira foi encontrada em 8% dos casos e a surdez em 3%.<\/p>\n<p>Quando comparados com um grupo de adolescentes de controlo, os que nasceram prematuramente e com baixo peso tinham mais repeti\u00e7\u00f5es de ano e dificuldades no cumprimento das exig\u00eancias escolares, bem como no desempenho de actividades desportivas (69).<\/p>\n<p>3.2. Para os pais<\/p>\n<p>Os pais de beb\u00e9s prematuros v\u00e3o ter mais dificuldades em manter interac\u00e7\u00f5es e prestar cuidados adequados, sendo elevado o risco de neglig\u00eancia e maus-tratos (67), assim como podem desenvolver mal-estar ou sintomatologia psicopatol\u00f3gica a n\u00edvel cl\u00ednico, quer ansiedade quer depress\u00e3o (71), o que \u00e9 parte respons\u00e1vel pelos efeitos desenvolvimentais adversos atr\u00e1s referidos.<\/p>\n<p>Fundamentalmente s\u00e3o dificuldades consequentes ao comportamento do beb\u00e9 prematuro, tanto quanto as dificuldades que decorrem de condi\u00e7\u00f5es associadas ao parto prematuro e das consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas do mesmo nas m\u00e3es\/pais.<\/p>\n<p>As interac\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre m\u00e3es e beb\u00e9s prematuros s\u00e3o menos conseguidas do que as interac\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre as m\u00e3es e os beb\u00e9s de termo (72; 73; 74; 75; 76; 77; 70). No caso dos beb\u00e9s nascidos com problemas de sa\u00fade ou com baixo peso as caracter\u00edsticas da interac\u00e7\u00e3o s\u00e3o semelhantes (e.g., 78).<\/p>\n<p>As dificuldades interactivas (tanto das m\u00e3es como do beb\u00e9s) est\u00e3o agravadas \u00e0\u00a0medida que \u00e9\u00a0menor o peso e menor as semanas de gesta\u00e7\u00e3o e \u00e0 medida que \u00e0 prematuridade se associam mais complica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. As dificuldades interactivas mant\u00eam-se durante o 1\u00ba ano de vida da crian\u00e7a, podendo manter-se por mais tempo ainda. Mas a interac\u00e7\u00e3o melhora na presen\u00e7a de uma boa rede de suporte social e emocional ou quando \u00e9 um primeiro filho (79).<\/p>\n<p>Os pais dos beb\u00e9s prematuros interagem melhor do que as m\u00e3es, talvez porque se encontrem menos ansiosos Contrariamente \u00e0s m\u00e3es, os pais de beb\u00e9s prematuros interagem melhor do que os pais de beb\u00e9s de termo (80; 81).<\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o de mamada, os beb\u00e9s prematuros s\u00e3o mais irrequietos, mas menos activos, distraem-se com mais facilidade e exibem uma conduta que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o regular ou previs\u00edvel quanto a dos beb\u00e9s de termo. As m\u00e3es de beb\u00e9s prematuros n\u00e3o guardam a sua interven\u00e7\u00e3o para os momentos de pausa na mamada, como o fazem as m\u00e3es dos beb\u00e9s de termo (79).<\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o de face-a-face e jogo, os beb\u00e9s prematuros mostram-se menos activos, desviam mais o olhar, exibem mais express\u00f5es de afecto negativo, menos express\u00f5es de afecto positivo (ex: sorriso), respondem e participam menos na interac\u00e7\u00e3o do que os beb\u00e9s de termo (79). As m\u00e3es, por sua vez, n\u00e3o sincronizam tanto o seu comportamento com o estado de aten\u00e7\u00e3o e com a disponibilidade do beb\u00e9. N\u00e3o respondem tanto \u00e0s iniciativas interactivas do beb\u00e9, mas tomam mais iniciativas interactivas, para as quais n\u00e3o obt\u00eam tanta resposta. Interagem mais, estimulando mais e de forma mais continuada a crian\u00e7a. Sendo por isso menos sens\u00edveis aos comportamentos, limita\u00e7\u00f5es e ritmos do beb\u00e9 prematuro do que as m\u00e3es de beb\u00e9s de termo.<\/p>\n<p>Como vemos a estrat\u00e9gia que a m\u00e3e utiliza para aumentar a participa\u00e7\u00e3o do beb\u00e9 \u00e9 na realidade contraproducente, pois o seu comportamento inadvertidamente n\u00e3o colmata, mas antes aumenta as dificuldades interactivas do beb\u00e9 prematuro (79).<\/p>\n<p><strong>A que se devem estas dificuldades?<\/strong><\/p>\n<p>Do lado da m\u00e3e, a viv\u00eancia de elevada ansiedade e culpabilidade, a diminui\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a e auto-estima materna, a separa\u00e7\u00e3o precoce com o filho, e\/ou a restri\u00e7\u00e3o do envolvimento emocional com o beb\u00e9, que visa proteger a m\u00e3e dos efeitos de uma poss\u00edvel perda, podem n\u00e3o facilitar a interac\u00e7\u00e3o e cuidados prestados ao beb\u00e9.<\/p>\n<p>Do lado do beb\u00e9, a falta de sensibilidade materna e a imaturidade comportamental traduz-se em dificuldades na regula\u00e7\u00e3o dos estados de aten\u00e7\u00e3o, numa conduta pouco regular e pouco clara, providenciando \u00e0 m\u00e3e sinais equ\u00edvocos a prop\u00f3sito do estado e da disponibilidade interactiva. Tamb\u00e9m a presen\u00e7a de um mais pobre repert\u00f3rio de compet\u00eancias sociais promotoras do envolvimento da m\u00e3e e a menor compet\u00eancia para tratar a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel podendo n\u00e3o facilitar a interac\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Verificou-se que a quantidade de estimula\u00e7\u00e3o considerada adequada ao beb\u00e9\u00a0 de termo \u00e9\u00a0excessiva para o beb\u00e9 prematuro. Quando a m\u00e3e \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0s poucas compet\u00eancias do beb\u00e9 prematuro, a interac\u00e7\u00e3o \u00e9 mais adequada (78). Quando se pede \u00e0s m\u00e3es para imitar o beb\u00e9 n\u00e3o se verificam diferen\u00e7as na forma como interagem m\u00e3es e beb\u00e9s prematuros e de termo: Os beb\u00e9s prematuros mostraram-se t\u00e3o atentos quanto os beb\u00e9s de termo porque nesta situa\u00e7\u00e3o a estimula\u00e7\u00e3o providenciada pela m\u00e3e est\u00e1 ao n\u00edvel das suas poucas compet\u00eancias 75).<\/p>\n<p>4. O que fazer?<\/p>\n<p>Ac\u00e7\u00f5es desenvolvidas com o objectivo de prevenir a prematuridade ou baixo peso do beb\u00e9 ou com o prop\u00f3sito de minimizar o seu impacto desenvolvimental adverso, s\u00e3o consideradas priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>4.1. Medidas preventivas<\/p>\n<p>Torna-se premente a melhoria dos cuidados de sa\u00fade dispon\u00edveis para as mulheres gr\u00e1vidas de forma a prevenir o baixo peso e a prematuridade (3).<\/p>\n<p>De forma a melhorar o decurso da gravidez, e uma vez que se verifica que os stressores presentes durante a gesta\u00e7\u00e3o existem j\u00e1\u00a0anteriormente, a melhor forma de preven\u00e7\u00e3o nestes casos seria no per\u00edodo antes da concep\u00e7\u00e3o (2).<\/p>\n<p>Tendo em conta os numerosos estudos que j\u00e1 se realizaram e que se continuam a realizar, existem diversas campanhas para alertar para os perigos de se fumar durante a gravidez, apesar de n\u00e3o se provarem muitos eficazes. No Reino Unido a percentagem de mulheres que continua a consumir tabaco durante a gesta\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante (7). Existem de qualquer forma locais que n\u00e3o podem deixar de ser frequentados e onde \u00e9 permitido o fumar, da\u00ed que em alguns pa\u00edses se legislar no sentido de proibir o consumo deste tipo de subst\u00e2ncias em espa\u00e7os abertos e p\u00fablicos.<\/p>\n<p>4.2. Medidas remediativas<\/p>\n<p>No sentido de melhorar o estado de sa\u00fade da crian\u00e7a e reduzir os riscos associados \u00e0\u00a0prematuridade, diversas medidas foram levadas a cabo ao longo dos tempos. Aperfei\u00e7oou-se o acompanhamento m\u00e9dico e foram implementadas estrat\u00e9gias quer educativas quer de apoio e suporte junto das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Diversas dificuldades foram descritas na interac\u00e7\u00e3o dos beb\u00e9s prematuros com os pais e na qualidade dos cuidados oferecidos pelos pais, em consequ\u00eancia das limita\u00e7\u00f5es desenvolvimento do beb\u00e9 e do stress a que os pais s\u00e3o sujeitos. Por isso, a interven\u00e7\u00e3o tem tamb\u00e9m sido dirigida no sentido de colmatar tais dificuldades interactivas e melhorar os contactos dos pais com o beb\u00e9. Nomeadamente, usando a administra\u00e7\u00e3o da Neonatal Behavioral Scale (NBAS), no sentido de dar conta aos pais das compet\u00eancias do beb\u00e9, promovendo o envolvimento parental e aumentando ainda a sua sensibilidade aos sinais e caracter\u00edsticas individuais do rec\u00e9m-nascido (71).<\/p>\n<p>No entanto, chegou-se rapidamente \u00e0\u00a0conclus\u00e3o que as ac\u00e7\u00f5es promovidas a quando do internamento em unidade de cuidados intensivos eram mais efectivas do que as iniciadas mais tarde (82). Durante o tempo que permanece nos cuidados intensivos, o beb\u00e9 prematuro \u00e9 sujeito a procedimentos m\u00e9dicos dolorosos e a um n\u00edvel consider\u00e1vel de stress. Na unidade de cuidados intensivos neo-natais, o rec\u00e9m-nascido \u00e9 simultaneamente sujeito a um ambiente altamente stressante \u2013 por exemplo, \u00e9 exposto de forma continuada a estimula\u00e7\u00e3o sonora e luminosa intensa \u2013 e \u00e0 falta de estimula\u00e7\u00e3o que receberia se estivesse no \u00fatero ou aos cuidados da m\u00e3e. Por conseguinte, interven\u00e7\u00f5es que reduzam o stress podem facilitar a sobreviv\u00eancia e desenvolvimento da crian\u00e7a. Numerosas estrat\u00e9gias foram desenvolvidas nesse sentido, as mais divulgadas s\u00e3o o m\u00e9todo canguru (ou contacto corpo a corpo) e a massagem ou estimula\u00e7\u00e3o t\u00e1ctil-cinest\u00e9sica do beb\u00e9 (83).<\/p>\n<p>O m\u00e9todo canguru tem sido o m\u00e9todo mais divulgado e utilizado nas unidades de cuidados intensivos e interm\u00e9dios nos hospitais. Tem-se verificado que quando os beb\u00e9s est\u00e3o em contacto com as m\u00e3es, em vez de na incubadora, os seus n\u00edveis de stress neurocomportamental diminuem (84) durante a realiza\u00e7\u00e3o de procedimentos dolorosos. A curto e m\u00e9dio prazo, os rec\u00e9m-nascidos s\u00e3o mais capazes de regularem a sua temperatura corporal, aumentam mais de peso, de manterem ciclos circadianos mais consistentes, e s\u00e3o mais \u00e1geis durante a amamenta\u00e7\u00e3o o que exponencia a sua probabilidade de sobreviv\u00eancia (85; 86; 87). Al\u00e9m dos benef\u00edcios notados nos beb\u00e9s, tamb\u00e9m nas m\u00e3es se verifica uma diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de ansiedade (88) e um aumento no n\u00edvel de confian\u00e7a nas suas capacidades como prestadoras de cuidados (89).<\/p>\n<p>Verificou-se tamb\u00e9m o impacto positivo da massagem em dois objectivos primordiais dos cuidados de sa\u00fade do beb\u00e9 prematuro: o ganho de peso e a redu\u00e7\u00e3o dos dias de internamento em unidade de cuidados intensivos e interm\u00e9dios neonatais. A meta-an\u00e1lise de 19 estudos de Ottenbacher (90) mostra que, em rela\u00e7\u00e3o aos beb\u00e9s que seguiram os cuidados de rotina, os que usufru\u00edram de estimula\u00e7\u00e3o t\u00e1ctil-cinest\u00e9sica suplementar exibiam um aumento significativo de peso, em 72% dos casos, correspondente a ganhos de 31-49% em m\u00e9dia. Um acr\u00e9scimo di\u00e1rio de peso equivalente a 5,1 gramas e uma redu\u00e7\u00e3o em 4,5 dias no tempo m\u00e9dio de internamento foram tamb\u00e9m reportados na literatura, na meta-an\u00e1lise de Vickers et al. (91). Apenas cinco dias de massagens tr\u00eas vezes ao dia, pode traduzir-se num ganho m\u00e9dio de peso de 47% (93). A investiga\u00e7\u00e3o demonstra de igual forma que a massagem combinada com a actividade f\u00edsica implementa a forma\u00e7\u00e3o \u00f3ssea do rec\u00e9m-nascido prematuro (93). Os mecanismos implicados nos efeitos positivos acima enunciados foram entretanto igualmente estudados; a hip\u00f3tese explicativa mais plaus\u00edvel envolve a facilita\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia metab\u00f3lica. Com efeito, os rec\u00e9m-nascidos prematuros que foram alvo de massagem tiveram um maior ganho di\u00e1rio de peso, muito embora a ingest\u00e3o cal\u00f3rica fosse a mesma. Verificou-se que rec\u00e9m-nascidos prematuros internados em UCI exibiam maior ganho de peso no final dos cinco dias de massagem (21%) (N = 16), embora n\u00e3o consumissem mais calorias, quando comparados com os que receberam apenas cuidados de rotina (N = 16). Observou-se ainda actividade vagal e mobilidade g\u00e1strica aumentadas, e relacionou-se o maior ganho de peso dos beb\u00e9s sujeitos a massagem com o acr\u00e9scimo da actividade vagal e da mobilidade g\u00e1strica (94).<\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>Mancuso, R.A., Schetter, C.D., Rini, C.M., Roesch, S.C., &amp; Hobel, C.J. Maternal Prenatal Anxiety and Corticotropin-Releasing Hormone Associated With Timing of Delivery. Psychosomatic\u00a0 Medicine, (2004) 66, 762-769.<\/li>\n<li>Hobel, C., &amp; Culhane, J. Role of Psychosocial and Nutritional Stress on Poor Pregnancy Outcome. 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