{"id":1189,"date":"2009-09-12T16:37:11","date_gmt":"2009-09-12T16:37:11","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/eutanasia-direito-a-viver-direito-a-morrer\/"},"modified":"2021-05-04T09:39:23","modified_gmt":"2021-05-04T09:39:23","slug":"eutanasia-direito-a-viver-direito-a-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/eutanasia-direito-a-viver-direito-a-morrer\/","title":{"rendered":"Eutan\u00e1sia &#8211; Direito a Viver\/Direito a Morrer"},"content":{"rendered":"<p>Ao estudar-se o tema da Eutan\u00e1sia, emergem problemas dial\u00e9cticos, como sendo a morte digna, o sofrimento in\u00fatil, os cuidados desproporcionais e a reanima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><em>Sinais Vitais n\u00ba69<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Eutan\u00e1sia &#8211; Direito a Viver\/Direito a Morrer<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Reflex\u00e3o durante o ensino cl\u00ednico<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"center\">\n<p><strong>Maria Jo\u00e3o Silva <\/strong><\/p>\n<p>Enfermeira Licenciada, N\u00edvel 1<\/p>\n<p>Unidade de pu\u00e9rperas normais e patol\u00f3gicas do Hospital de Santa Maria<\/p>\n<h4><strong>RESUMO<\/strong><\/h4>\n<p>O acto de promover a morte antes do que seria de esperar, por motivo de compaix\u00e3o e diante de um sofrimento penoso e insuport\u00e1vel, sempre foi motivo de reflex\u00e3o por parte da sociedade. Agora, essa discuss\u00e3o tornou-se ainda mais presente quando se discutem os direitos individuais como resultado de uma mobiliza\u00e7\u00e3o do pensamento da sociedade e quando a cidadania exige mais direitos. Al\u00e9m disso, surgem cada vez mais tratamentos e recursos capazes de prolongar por muito tempo a vida dos pacientes o que pode levar a um demorado e penoso processo de morrer.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Eutan\u00e1sia, Eutan\u00e1sia negativa, eug\u00e9nica, volunt\u00e1ria e involunt\u00e1ria; C\u00f3digo Deontol\u00f3gico; \u00c9tica moral e profissional; Princ\u00edpios \u00e9ticos; Vida humana.<\/p>\n<p align=\"right\">\u201cQuem morre, n\u00e3o morreu, partiu primeiro<\/p>\n<p align=\"right\">A passar este passo estreito, tanto<\/p>\n<p align=\"right\">Todos l\u00e1\u00a0 havemos de ir por derradeiro\u201d<\/p>\n<p align=\"right\">\n<p align=\"right\">Cam\u00f5es<\/p>\n<p align=\"right\">\n<h4><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">A eutan\u00e1sia, n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0um problema novo, nem recente, j\u00e1 que a mesma tem sido praticada desde a antiguidade, mas continua a ser um problema chocante no limiar do s\u00e9c. XXI, por todas as interroga\u00e7\u00f5es que se levantam no plano \u00e9tico, moral e jur\u00eddico, e quanto mais se clama pelos \u201cdireitos do Homem\u201d e pelo \u201cdireito \u00e0 vida\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A eutan\u00e1sia, em sentido estrito, pode ser definida como qualquer ac\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o destinada a provocar a morte de um ser humano com a finalidade de suprimir o sofrimento, pondo fim \u201cdocemente\u201d \u00e0 vida pr\u00f3pria ou alheia (a palavra vem do grego eu, \u201cbom\u201d, e thanatos, \u201cmorte\u201d). Trata-se, na realidade, de uma ac\u00e7\u00e3o suicida (quando o sujeito pretende acabar com a pr\u00f3pria vida) ou homicida (quando um m\u00e9dico, leigo \u2013 em geral um familiar \u2013 ou legislador se arroga o poder de decidir a respeito da sobreviv\u00eancia de seus semelhantes).<\/p>\n<p align=\"justify\">Podemos distinguir diferentes formas de eutan\u00e1sia:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Positiva, em que se p\u00f5e fim \u00e0 vida do paciente (em geral, pela aplica\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos);<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Negativa, em que se omitem os meios ordin\u00e1rios indispens\u00e1veis para a manuten\u00e7\u00e3o da vida;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Eugen\u00e9tica, em que se elimina toda vida considerada sem valor;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Involunt\u00e1ria, em que o paciente n\u00e3o \u00e9 consultado, n\u00e3o se pronuncia ou \u00e9 incapaz de faz\u00ea-lo, ou at\u00e9 mesmo n\u00e3o a deseja;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Volunt\u00e1ria, em geral praticada pelo m\u00e9dico, a pedido do paciente.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Decorridos centenas de anos ap\u00f3s o primeiro relato de eutan\u00e1sia, em que se desencadearam disputas ideol\u00f3gicas e lutas sociais, por forma a proporcionar progresso e bem estar para as popula\u00e7\u00f5es, onde a Sa\u00fade e a Assist\u00eancia Social a par de outros vectores essenciais \u00e0 vida terrena foram pilares dessas reivindica\u00e7\u00f5es, vemos organiza\u00e7\u00f5es e pessoas dos mais diversos ramos do saber, efectuarem uma luta incessante pela institucionaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>ENQUADRAMENTO HIST\u00d3RICO<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o sendo um problema novo, vamos encontrar atrav\u00e9s dos tempos v\u00e1rios relatos de execu\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, tais como:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 O rei Saul, gravemente ferido na guerra com os Filisteus, pediu ao amalequita que o matasse para n\u00e3o sofrer e, ao mesmo tempo, n\u00e3o cair nas m\u00e3os inimigas. Este, movido de compaix\u00e3o, praticou a primeira eutan\u00e1sia conhecida na hist\u00f3ria;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Na Gr\u00e9cia da era de Hip\u00f3crates as pessoas fartas de viver ou com doen\u00e7as graves, procuravam os m\u00e9dicos para que estes lhes ministrassem um t\u00f3xico que os libertasse da vida;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Na \u00cdndia, os doentes incur\u00e1veis eram atirados ao Rio Ganges, depois de receberem na boca e no nariz um pouco de lama sagrada;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Em Esparta, os \u201cmonstros\u201d, e os deformados, eram arremessados do alto do Monte Taijeto. As crian\u00e7as ao \u201cnascerem\u201d eram examinadas por membros do Senado, para determinarem se as mesmas eram fracas ou com defici\u00eancias f\u00edsicas, ou se tinham robustez necess\u00e1ria a um bom militar. \u00c0s primeiras praticavam a eutan\u00e1sia eug\u00e9nica e, as robustas, eram confiadas aos cuidados maternos at\u00e9 aos sete anos de idade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Nos circos romanos, os Imperadores quando voltavam o polegar para baixo, autorizavam a execu\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia nos gladiadores mortalmente feridos nos combates abreviando os sofrimentos dos mesmos, dizendo-se por compaix\u00e3o real.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Os \u00edndios Brasileiros, abandonavam \u00e0 sorte, os filhos com doen\u00e7as incur\u00e1veis e os pais velhos incapazes de trabalhar;<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler ordenou a \u201cmorte\u201d de todos os velhos, deficientes f\u00edsicos e mentais, internados em hospitais e manic\u00f3mios, alegando a necessidade daqueles estabelecimentos hospitalares para o alojamento dos soldados feridos na guerra.<\/p>\n<h4 align=\"justify\"><strong>DESENVOLVIMENTO<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">No decorrer do ensino cl\u00ednico que realizei numa unidade de cuidados intensivos de neonatologia vi-me confrontada com uma situa\u00e7\u00e3o em que estava subjacente a quest\u00e3o da eutan\u00e1sia. Um rec\u00e9m- nascido prematuro com 23 semanas de gesta\u00e7\u00e3o e aproximadamente 600gr. de peso estava conectado a um ventilador de alta press\u00e3o (destinado a manter uma expans\u00e3o cont\u00ednua do pulm\u00e3o e fazer frequ\u00eancias de 60 a 150 ciclos por minuto), tendo sido detectadas para al\u00e9m duma insufici\u00eancia renal grave, uma hemorragia intraventricular de grau III e uma destrui\u00e7\u00e3o acentuada do par\u00eanquima cerebral.<\/p>\n<p align=\"justify\">O seu progn\u00f3stico era, portanto, extremamente reservado e segundo a opini\u00e3o da equipa m\u00e9dica as hip\u00f3teses de sobreviv\u00eancia seriam nulas. O desespero dos pais tornou-se insustent\u00e1vel visto que j\u00e1 haviam passado por uma situa\u00e7\u00e3o semelhante com outro filho que, infelizmente, n\u00e3o sobreviveu. Com o passar dos dias a situa\u00e7\u00e3o agravou-se e a ang\u00fastia dos pais redobrou. Pediram ent\u00e3o \u00e0 equipa m\u00e9dica que terminasse com o sofrimento da crian\u00e7a e a desconectassem do ventilador, suspendendo tamb\u00e9m a presta\u00e7\u00e3o de cuidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">No entanto a equipa m\u00e9dica n\u00e3o aceitou esta decis\u00e3o e a equipa de enfermagem recusou-se a deixar de prestar cuidados de conforto ao rec\u00e9m-nascido. Foi neste \u00e2mbito que surgiram as normas relativas ao C\u00f3digo Deontol\u00f3gico.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os C\u00f3digos Deontol\u00f3gicos representam um conjunto de normas de comportamento que garantem \u00e0 pessoa a consci\u00eancia imparcial e n\u00e3o instrument\u00e1vel dos prestadores de cuidados. Uma vez que os C\u00f3digos Deontol\u00f3gicos t\u00eam de valer dentro de uma sociedade pluralista e sendo formados igualmente por pessoas, n\u00e3o isentas de influ\u00eancias ideol\u00f3gicas e de v\u00e1rias correntes culturais, est\u00e3o marcados por cl\u00e1usulas ou formula\u00e7\u00f5es que nem sempre garantem, em todos os casos, a irrepreens\u00edvel observ\u00e2ncia do bem comum e a defesa da vida humana. Assim, entre C\u00f3digos Deontol\u00f3gicos escritos e valores \u00e9ticos fica uma lacuna por preencher.<\/p>\n<p align=\"justify\">Verifica-se ent\u00e3o uma inabal\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o entre a manipula\u00e7\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o do mundo, conduzindo ao levantamento de quest\u00f5es de base \u00e9tica. Na perspectiva de Ser\u00e3o (1997) \u00e9tica deriva da palavra grega \u201cEthos\u201d que tem como objecto a distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal, de forma a alcan\u00e7ar a finalidade da vida humana; \u00e9 uma disciplina n\u00e3o est\u00e1tica e basicamente pr\u00e1tica. Esta parte da Filosofia alberga v\u00e1rios significados, todos eles relacionados com os princ\u00edpios que governam a conduta ou o comportamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ocupa-se em conhecer o Homem, com respeito \u00e0 moral e costumes, tratando a sua natureza como sendo um ente livre e espiritual. A \u00e9tica, como conceito, e na perspectiva de v\u00e1rios autores, varia desde a Filosofia Moral at\u00e9 \u00e0 Ci\u00eancia dos Costumes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contudo, o seu princ\u00edpio de ser, assenta no facto de ter de existir uma regra de conduta, uma norma \u00e0 qual todos se subordinem. Cada sociedade \u00e9 regida por padr\u00f5es de conduta, o que implica a tomada de diferentes decis\u00f5es. Esta \u00e9 cada vez mais influenciada pelos valores culturais religiosos e pol\u00edticas, bem como valores pessoais.<\/p>\n<p align=\"justify\">Associada a esta \u2013 \u00c9tica geral \u2013 a \u00c9tica Profissional trata dos princ\u00edpios que devem guiar, moralmente o comportamento dos profissionais. Os deveres ditados pela moral profissional s\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Conforme Brito e Rijo (2000) a Moral \u00e9 constitu\u00edda por um conjunto de deveres impostos ao indiv\u00edduo pela sua pr\u00f3pria consci\u00eancia \u00e9tica, sendo que os seus imperativos quando n\u00e3o cumpridos, levam \u00e0 reprova\u00e7\u00e3o intra-individual. A Moral preocupa- se com toda a conduta humana, quer individual quer social. Assim ao determinarem-se as situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o eticamente correctas dever-se-\u00e1 ter em considera\u00e7\u00e3o o contexto de valores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos na \u00e1rea da Medicina, permitem o prolongamento ou extens\u00e3o da vida, como foi o caso do rec\u00e9m-nascido em quest\u00e3o. Se n\u00e3o fosse a ventila\u00e7\u00e3o assistida e a possibilidade de fazer terap\u00eauticas correctivas com soros, alimenta\u00e7\u00f5es parent\u00e9ricas e transfus\u00f5es sangu\u00edneas, esta crian\u00e7a teria basicamente morrido \u00e0 nascen\u00e7a. Emergem ent\u00e3o dois factos importantes: por um lado a extens\u00e3o da vida humana mediante a utiliza\u00e7\u00e3o de meios artificiais, e por outro a sua cessa\u00e7\u00e3o indolor atrav\u00e9s dos f\u00e1rmacos.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1\u00a0cerca de um s\u00e9culo atr\u00e1s o Homem era totalmente impotente para prolongar a vida, mas concomitantemente enfrentava menos dilemas \u00e9ticos. \u201cA ci\u00eancia m\u00e9dica ao prolongar a vida das pessoas, levanta quest\u00f5es de car\u00e1cter moral; podendo colocar-se a quest\u00e3o se \u00e9 ou n\u00e3o correcto, do ponto de vista moral, uma morte suave que abrevie o sofrimento dos doentes terminais\u201d (Brito e Rijo, 2000, p. 34), como pretendiam os pais do rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao estudar-se o tema da Eutan\u00e1sia, emergem problemas dial\u00e9cticos, como sendo a morte digna, o sofrimento in\u00fatil, os cuidados desproporcionais e a reanima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">No que concerne \u00e0\u00a0morte digna, esta est\u00e1\u00a0ligada \u00e0s actua\u00e7\u00f5es e t\u00e9cnicas envolvidas na humaniza\u00e7\u00e3o dos cuidados \u00e0 pessoa em fase terminal. A dignidade humana pode ser entendida como uma valor que implica a obriga\u00e7\u00e3o de conservar a vida. Deste modo, a pr\u00e1tica da Eutan\u00e1sia representa por si mesma um atentado \u00e0 dignidade, j\u00e1 que elimina o sujeito dessa dignidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por outro lado, o direito \u00e0\u00a0dignidade implica o direito a morrer com dignidade, ou seja, o direito de eleger o momento, lugar e o modo da sua pr\u00f3pria morte. Esta configura-se com uma s\u00f3 vertente: frente a terceiros como uma op\u00e7\u00e3o que deve ser respeitada, pois parte de um plano de vida querido e desejado pela pr\u00f3pria pessoa. Nesta situa\u00e7\u00e3o em concreto, o rec\u00e9m-nascido n\u00e3o pode \u00e0\u00a0partida tomar essa decis\u00e3o, visto ainda n\u00e3o ter capacidades para tal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um recurso muito presente nos argumentos a favor da eutan\u00e1sia s\u00e3o os tratamentos excessivamente dolorosos e in\u00fateis. Trata-se de tratamentos \u201climite\u201d de doentes graves, incur\u00e1veis, em fase terminal e dos quais n\u00e3o se espera qualquer resultado, a n\u00e3o ser um prolongamento prec\u00e1rio da vida. Este tipo de pensamento pode conduzir \u00e0 ideia de que na realidade a vida s\u00f3 tem valor na medida em que apresente um certo grau de qualidade. Contudo, a qualidade pode referir-se a diferentes realidades, pode ser um atributo ou qualidade tanto da vida biol\u00f3gica como da vida pessoal. Ou seja, \u00e9 muito dif\u00edcil conhecer com exactid\u00e3o o significado da qualidade de vida. Existe uma grande diversidade de teorias sobre o que \u00e9 e n\u00e3o \u00e9, tornando muito dif\u00edcil a sua an\u00e1lise e cr\u00edtica.<\/p>\n<p align=\"justify\">A cultura ocidental sempre considerou a conserva\u00e7\u00e3o da vida uma obriga\u00e7\u00e3o moral irrenunci\u00e1vel, e at\u00e9 mesmo divina. Na perspectiva da \u00e9tica naturalista o bem vem marcado pela ordem natural das coisas, defendendo-se a conserva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser, n\u00e3o havendo o direito de se interromper a vida de quem quer que seja. Assim, para a moral natural a morte do Homem pelo Homem, sejam quais forem as circunst\u00e2ncias ou os motivos, \u00e9 um abuso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem natural.<\/p>\n<p align=\"justify\">A vida humana \u00e9\u00a0resultado de um delicado equil\u00edbrio biol\u00f3gico entre o ser humano e o mundo natural no qual se integra; este mundo natural, vivo ou inanimado, pode ser causa de destrui\u00e7\u00e3o da vida humana como ocorre nas cat\u00e1strofes naturais. Ao lado desta forma de morte acidental, o ser humano cumpre um programa biol\u00f3gico com dura\u00e7\u00e3o limitada e que termina pela morte como consequ\u00eancia necess\u00e1ria do cumprimento do programa. A intromiss\u00e3o humana no decorrer deste programa \u00e9 inaceit\u00e1vel pois ofende a moral natural. Neste caso a eutan\u00e1sia nega o valor da vida e n\u00e3o deveria ser aceite. Com que \u00e2nimo se poderia decidir o destino desta crian\u00e7a, ainda no in\u00edcio de uma vida que n\u00e3o se saberia ao certo qual desfecho teria. Apesar do progn\u00f3stico ser tudo menos animador, n\u00e3o deixava de coexistir a possibilidade de uma recupera\u00e7\u00e3o, ou seja, a d\u00favida persistia. Para al\u00e9m do mais a equipa m\u00e9dica e de enfermagem dos cuidados intensivos de neonatologia apesar de possuir bastante experi\u00eancia neste tipo de casos, sabe bem demais que j\u00e1 muitos dos rec\u00e9m-nascidos que passaram pelas suas m\u00e3os, cuja probabilidade de sobreviv\u00eancia seria nula, tornaram-se homens e mulheres sem qualquer d\u00e9fice cerebral ou motor.<\/p>\n<p align=\"justify\">A vida Humana \u00e9\u00a0um dos valores fundamentais fixos de todos os C\u00f3digos \u00c9ticos e Jur\u00eddicos vigentes em qualquer cultura, n\u00e3o s\u00f3 na actualidade mas tamb\u00e9m ao longo da hist\u00f3ria (cf. Ser\u00e3o, 1997,p. 177). Contudo o direito de morrer refere-se ao reclamado direito de uma pessoa ser morta a pedido, e ao direito de outro dar a morte quando lhe \u00e9 pedido. Nenhum destes direitos pode ser encontrado na Deontologia ou na legisla\u00e7\u00e3o e, em geral, s\u00e3o defendidos e n\u00e3o debatidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os direitos naturais genu\u00ednos imp\u00f5em aos outros a obriga\u00e7\u00e3o do seu cumprimento, mas os que advogam a eutan\u00e1sia chamam a aten\u00e7\u00e3o para que o pedido de ser morto n\u00e3o imp\u00f5e obriga\u00e7\u00e3o nenhuma a ningu\u00e9m. N\u00e3o existe raz\u00e3o alguma para supor que estes direitos reivindicados sejam genu\u00ednos, e por isso n\u00e3o merecem considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao falar-se nesta tem\u00e1tica n\u00e3o\u00a0 \u00e9\u00a0poss\u00edvel dissociar-se os princ\u00edpios \u00e9ticos a ela subjacentes. Segundo o princ\u00edpio da autonomia, que defende o bem estar dos outros como primordial, as pessoas devem ser respeitadas como agentes morais dotados de livre arb\u00edtrio e incentivadas a s\u00ea-lo. O desejo de algu\u00e9m escolher a morte em vez da vida deveria, segundo este princ\u00edpio, ser respeitado, desde que existam provas s\u00f3lidas que demonstrem que a pessoa em quest\u00e3o \u00e9 mentalmente capaz e racional. Segundo este princ\u00edpio, que para muitos autores, serve de base para a defesa da eutan\u00e1sia, identifica-se com o princ\u00edpio da disponibilidade da pr\u00f3pria vida segundo a qual a eutan\u00e1sia constitui um acto l\u00edcito no caso de que ocorra de acordo com a vontade do doente. No entanto, para a situa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um argumento v\u00e1lido, visto que a crian\u00e7a n\u00e3o poderia ainda escolher entre a vida e a morte. Por outro lado, este mesmo direito \u00e0 vida implica o dever estatal de a proteger frente a qualquer atentado de terceiros ( cf. Cano, 1999), ou seja ser\u00e1 que os pais t\u00eam o direito de decidir a morte deste ser?! Este princ\u00edpio n\u00e3o tem car\u00e1cter absoluto, visto que a autonomia do doente se v\u00ea limitada pelo respeito da pr\u00f3pria vida, ou seja, a liberdade n\u00e3o pode servir para tomar decis\u00f5es que destruam a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um outro crit\u00e9rio usado tanto pelos defensores como opositores da eutan\u00e1sia \u00e9 o bem comum. A vida \u00e9 um bem que pertence ao indiv\u00edduo mas tem tamb\u00e9m um evidente car\u00e1cter p\u00fablico. \u00c9 pois um bem jur\u00eddico de car\u00e1cter misto, j\u00e1 que \u00e9 inevit\u00e1vel que \u00e9 um direito de valor eminente pessoal, mas h\u00e1 que reconhecer que no contexto de um estado social, na sua perda ou conserva\u00e7\u00e3o convergem interesses e valores colectivos, ou seja, o Estado e todos os cidad\u00e3os t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de zelar pela vida e integridade de todos os indiv\u00edduos. Por outro lado o princ\u00edpio da benefic\u00eancia imp\u00f5e um dever de beneficiar os outros, quando estejamos em posi\u00e7\u00e3o de o fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">Deduz-se ent\u00e3o que estes dois princ\u00edpios est\u00e3o em constante tens\u00e3o, pois ao querer respeitar as outras pessoas como agentes morais aut\u00f3nomas op\u00f5e-se inerentemente ao dever, pela negativa, de evitarmos que lhes ocorra qualquer mal e, pela positiva, de as beneficiarmos. Ent\u00e3o, evitar o mal \u00e9 equivalente a beneficiar algu\u00e9m, \u00e9 sin\u00f3nimo de intervir de forma a permitir que essa pessoa viva.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Neste caso, o rec\u00e9m-nascido em quest\u00e3o acabou por morrer calmamente numa noite como tantas outras, mas que acabou por ser aquela que marcou a sua partida. Ficou bem presente no esp\u00edrito de todos, o desespero dos pais que queriam for\u00e7osamente adiantar uma despedida que acabou por se concretizar naturalmente e sem necessidade de interven\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p align=\"justify\">Deste modo todos os esfor\u00e7os empreendidos no sentido de tentar prolongar uma vida t\u00e3o fr\u00e1gil e t\u00e3o recente, n\u00e3o foram ingl\u00f3rios, mas sim concretizados numa morte pac\u00edfica e rodeada do carinho de todos os que estavam presentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao estudar-se o tema da Eutan\u00e1sia, emergem problemas dial\u00e9cticos, como sendo a morte digna, o sofrimento in\u00fatil, os cuidados desproporcionais e a reanima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2222,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[647,648,516,645,644,539,646,511],"class_list":["post-1189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sinais-vitais","tag-codigo-deontologico","tag-direitos","tag-etica","tag-eugenica","tag-eutanasia","tag-moral","tag-principios","tag-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1189"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2757,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1189\/revisions\/2757"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}