{"id":1159,"date":"2009-07-25T11:02:49","date_gmt":"2009-07-25T11:02:49","guid":{"rendered":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/emergencias-psiquiatricas\/"},"modified":"2021-04-28T15:44:38","modified_gmt":"2021-04-28T15:44:38","slug":"emergencias-psiquiatricas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/emergencias-psiquiatricas\/","title":{"rendered":"Emerg\u00eancias Psiqui\u00e1tricas"},"content":{"rendered":"<p>A crise proporciona ao doente a identifica\u00e7\u00e3o de futuras crises, pela sintomatologia que caracteriza o seu in\u00edcio (similar \u00e0\u00a0\u201caura\u201d descrita pelos doentes epil\u00e9pticos).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<div>\n<p><strong>Palavras-Chave:<\/strong> Urg\u00eancia; Crise; Psiquiatria; Viol\u00eancia; Agita\u00e7\u00e3o; Suic\u00eddio<\/p>\n<p><strong>Albino Gomes<\/strong><\/p>\n<p>Enfermeiro Graduado<\/p>\n<p>P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Criminais<\/p>\n<p>Mestrando em Medicina Legal e Ciencias forenses<\/p>\n<h4 align=\"justify\"><strong>Resumo<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Ao abordar um doente agitado ou violento na urg\u00eancia, devemos ter em considera\u00e7\u00e3o alguns aspectos: em primeiro lugar a nossa protec\u00e7\u00e3o para eventuais actos de viol\u00eancia por parte do doente; em segundo lugar devemos ouvir o doente, e tentar compreender o transtorno que afecta o doente. A abordagem terap\u00eautica, reca\u00ed sobre as benzodiazepinas e os antipsic\u00f3ticos. Mas a chave da abordagem consiste na compreens\u00e3o, respeito e calma, perante o doente agitado.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Defini\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Define-se como a exist\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es do pensamento, sentimento ou comportamento para o qual se torna necess\u00e1ria interven\u00e7\u00e3o imediata, por representar um risco significativo para doente ou para terceiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os doentes que se apresentam em crise, s\u00e3o pessoas com intenso sofrimento emocional e f\u00edsico, por isso, fr\u00e1geis, com v\u00e1rias expectativas e fantasias, frequentemente irreais, e que influenciam as suas respostas ao tratamento. Deve, portanto, prevalecer um ambiente de seguran\u00e7a e protec\u00e7\u00e3o, com comunica\u00e7\u00e3o clara e franca; as atitudes violentas n\u00e3o podem ser permitidas ou toleradas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A crise proporciona ao doente a identifica\u00e7\u00e3o de futuras crises, pela sintomatologia que caracteriza o seu in\u00edcio (similar \u00e0\u00a0\u201caura\u201d descrita pelos doentes epil\u00e9pticos).<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Perante um doente em crise, \u00e9\u00a0priorit\u00e1rio: determinar qual o risco que representa para si mesmo e para terceiros, fazer um diagn\u00f3stico inicial; identificar os factores desencadeantes; identificar as necessidades imediatas e iniciar ou encaminhar o tratamento adequado. S\u00e3o estas regras de actua\u00e7\u00e3o, na emerg\u00eancia psiqui\u00e1trica.<\/p>\n<p align=\"justify\">A seguran\u00e7a f\u00edsica e emocional do paciente \u00e9 uma quest\u00e3o priorit\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">Distinguir condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas de funcionais \u00e9\u00a0a quest\u00e3o mais importante a ser examinada, uma vez que algumas condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas podem ser amea\u00e7adoras \u00e0\u00a0 vida e imitar transtornos psiqui\u00e1tricos. N\u00e3o se deve esquecer que os doentes psiqui\u00e1tricos, (principalmente nos casos de abandono e alcoolismo cr\u00f4nico), apresentam grande risco para contra\u00edrem tuberculose e defici\u00eancias vitam\u00ednicas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 importante determinar se o doente est\u00e1 ou n\u00e3o psic\u00f3tico, n\u00e3o tanto para o diagn\u00f3stico, mas para determinar a gravidade dos sintomas e o grau de perturba\u00e7\u00e3o da sua vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Situa\u00e7\u00f5es como: amea\u00e7as, gestos, pensamentos, tend\u00eancias suicidas ou homicidas devem ser consideradas importantes at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, e devem ser observadas atentamente. Actos violentos dentro do hospital s\u00e3o, geralmente, resultado de percep\u00e7\u00f5es erradas por parte do doente, ou reac\u00e7\u00f5es a membros da equipa que s\u00e3o h\u00f3stis, insens\u00edveis ou indiferentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Avalia\u00e7\u00e3o e Conduta Perante Um Doente em Crise<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">Entrevista<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">A entrevista de um doente em crise \u00e9\u00a0id\u00eantica \u00e0\u00a0entrevista convencional, excepto pelo potencial risco para o doente e para os outros.\u00a0 Deve focalizar-se a queixa apresentada e as raz\u00f5es pelas quais a consulta ou a agita\u00e7\u00e3o ocorre nesse momento.\u00a0Se existirem acompanhantes, deve obter-se uma hist\u00f3ria suplementar.\u00a0O relacionamento entrevistador\/entrevistado (empatia) influencia fortemente o que \u00e9 dito pelo doente. Tanto quanto poss\u00edvel, \u00e9 importante ser franco, honesto, compreensivo, n\u00e3o expressar irrita\u00e7\u00e3o, hostilidade ou amea\u00e7as. N\u00e3o se deve enfrentar o doente directamente nem tomar atitudes punitivas. Atrav\u00e9s de uma atitude calma, firme e segura, devem estabelecer-se limites claros e transmitir ao doente a ideia de que est\u00e1 a controlar a situa\u00e7\u00e3o e ir\u00e1 actuar pronta e decisivamente, caso ele se descontrole, para proteger e evitar ferimentos a si mesmo e a terceiros. A auto-estima do doente \u00e9 um ponto importante, devem evitar-se atitudes paternalistas ou cr\u00edticas, deve tentar-se fazer um esfor\u00e7o verdadeiro para transmitir uma atitude de respeito e aut\u00eantico envolvimento na solu\u00e7\u00e3o do problema. Quando o t\u00e9cnico n\u00e3o sabe o que dizer, a melhor atitude \u00e9 ouvir.<\/p>\n<p align=\"justify\">As condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas mais frequentemente associadas \u00e0 viol\u00eancia incluem: dist\u00farbios psic\u00f3ticos como a esquizofrenia e mania (principalmente se o doente est\u00e1 paran\u00f3ide ou com alucina\u00e7\u00f5es de comando), intoxica\u00e7\u00e3o ou abstin\u00eancia de \u00e1lcool e drogas, excita\u00e7\u00e3o catat\u00f3nica, depress\u00e3o agitada, dist\u00farbios de personalidade caracterizados por f\u00faria e fraco controle dos impulsos, dist\u00farbios org\u00e2nicos, especialmente se h\u00e1 envolvimento dos lobos frontal e temporal.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Factores de Risco<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Os factores que aumentam a probabilidade de um ataque de viol\u00eancia incluem: agita\u00e7\u00e3o, inten\u00e7\u00e3o declarada, ter um plano espec\u00edfico, a disponibilidade de meios para viol\u00eancia, sexo masculino, pouca idade (entre 15 e 24 anos), baixa situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f3mica, fraco sistema de apoio social, hist\u00f3ria de tentativas de suic\u00eddio. Uma hist\u00f3ria de comportamento violento \u00e9 o melhor predictor de viol\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Algumas amea\u00e7as de viol\u00eancia podem ser manipuladoras e sem verdadeira inten\u00e7\u00e3o, mas, como esta avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, pelo menos inicialmente, todas as amea\u00e7as s\u00e3o potencialmente verdadeiras. \u00c9 prefer\u00edvel errar sempre pelo excesso de cuidados, pois alguns pacientes amea\u00e7adores e manipuladores, ao perceberem que n\u00e3o est\u00e3o a ser levados a s\u00e9rio, podem executar actos violentos para provar que deviam ter sido levados a s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Durante a avalia\u00e7\u00e3o, deve estar-se atento para qualquer sinal de viol\u00eancia iminente. Altera\u00e7\u00f5es abruptas no comportamento, fala ou afectos podem sinalizar uma perda de controle. Outros sinais incluem actos de viol\u00eancia recente, dentes e punhos cerrados, amea\u00e7as verbais, posse de armas ou objectos potencialmente utiliz\u00e1veis como armas (talheres, cinzeiros), agita\u00e7\u00e3o psicomotora (que \u00e9 considerada um importante indicador pois quase sempre precede actos violentos), intoxica\u00e7\u00e3o, del\u00edrios paran\u00f3ides e alucina\u00e7\u00f5es de comando.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Actua\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">A primeira e mais importante medida a ser tomada perante um doente na emerg\u00eancia \u00e9 PROTEGER-SE. \u00a0\u00a0Tenha em mente que a viol\u00eancia \u00e9 sempre uma possibilidade e n\u00e3o se deixe surpreender por um acto s\u00fabito, nem se coloque numa situa\u00e7\u00e3o na qual possa ser agredido, por exemplo: entrevistar um doente potencialmente violento a s\u00f3s num gabinete pequeno com a porta fechada.\u00a0 Fique dentro do campo de vis\u00e3o de outros membros da equipa.\u00a0Pode ser necess\u00e1rio tirar colares e brincos, nos quais o paciente poderia agarrar-se ou puxar, e nunca entreviste um doente que tenha qualquer tipo de arma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nunca chegue muito pr\u00f3ximo a um doente paran\u00f3ide, pois ele pode sentir-se amea\u00e7ado.\u00a0 Mantenha-se a pelo menos a um bra\u00e7o de dist\u00e2ncia de qualquer doente potencialmente violento.\u00a0 N\u00e3o desafie ou enfrente um doente psic\u00f3tico. Esteja em alerta para os sinais de viol\u00eancia iminente. Deixe sempre uma via de fuga aberta para o caso de ser atacado, e nunca, lhe vire as costas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A avalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica definitiva deve incluir os sinais vitais do doente, avalia\u00e7\u00e3o cuidadosa do risco de suic\u00eddio e um plano de tratamento que proporcione a actua\u00e7\u00e3o perante um potencial acto de viol\u00eancia. Atenciosamente, pode-se oferecer ao doente op\u00e7\u00f5es de tratamento, tais como uma conversa para que ele exponha os seus problemas, terap\u00eautica, etc.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Actua\u00e7\u00e3o Farmacol\u00f3gica<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">Quando for necess\u00e1rio utilizar medica\u00e7\u00e3o deve partir-se do princ\u00edpio da tranquiliza\u00e7\u00e3o m\u00e1xima com m\u00ednima seda\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0Os erros mais comuns s\u00e3o: excesso de medica\u00e7\u00e3o, que pode impossibilitar a avalia\u00e7\u00e3o correcta; a submedica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vai controlar a agita\u00e7\u00e3o; e a mudan\u00e7a prematura na medica\u00e7\u00e3o, ou seja, utilizar- se diferentes medica\u00e7\u00f5es num curto espa\u00e7o de tempo. Doentes que j\u00e1 est\u00e3o em tratamento devem receber dose adicional da mesma medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para os doentes violentos e psic\u00f3ticos devem ser administrados antipsic\u00f3ticos (ATP). Devem evitar-se ATP de baixa pot\u00eancia, por exemplo: clorpromazina que, embora mais sedativo, pode trazer maiores problemas como hipotens\u00e3o e efeitos colaterais anticolin\u00e9rgicos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Antipsic\u00f3ticos de alta pot\u00eancia s\u00e3o as drogas habituais de escolha que, embora causem maiores efeitos colaterais extrapiramidais, estes s\u00e3o mais facilmente trat\u00e1veis com antiparkinsonianos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A escolha recai sobre o haloperidol 5 mg, peros ou intramuscular, que pode ser repetido em 30-60 minutos se n\u00e3o houver melhoria.\u00a0 N\u00e3o se deve utilizar ATP em doentes com febre, porque estes interferem no tratamento da mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">As benzodiazepinas (BZD) s\u00e3o indicadas se o doente n\u00e3o est\u00e1 psic\u00f3tico, para evitar o risco dos efeitos colaterais dos ATP.\u00a0Tamb\u00e9m s\u00e3o indicadas em casos de intoxica\u00e7\u00e3o ou abstin\u00eancia de \u00e1lcool ou drogas porque os ATP aumentam o risco de convuls\u00f5es, por diminuir o limiar convulsivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">As BZD, por exemplo, Diazepan 10 mg, podem ser repetidos numa hora, a menos que surjam sinais de intoxica\u00e7\u00e3o como ataxia, disartria, sinais de depress\u00e3o e nistagmo. Podem causar desinibi\u00e7\u00e3o em alguns doentes o que pode tornar dif\u00edcil distinguir o agravamento da agita\u00e7\u00e3o.\u00a0 Nestes casos deve-se suspender as BZD e iniciar ATP.<\/p>\n<p align=\"justify\">As combina\u00e7\u00f5es entre ATP e BZD \u00e9 segura e pode ser mais eficaz que qualquer uma delas isoladamente.\u00a0\u00a0 A desvantagem \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel determinar qual foi realmente eficaz.\n<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"center\"><strong>SUIC\u00cdDIO<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"justify\"><strong>Defini\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">De forma alguma o suic\u00eddio \u00e9\u00a0um acto aleat\u00f3rio ou sem finalidade, mas representa sim, a sa\u00edda para um problema que est\u00e1 a causar um intenso sofrimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Associados ao sofrimento, encontramos necessidades frustradas ou n\u00e3o satisfeitas, sentimentos de desespero, desamparo e impot\u00eancia, um stress insuport\u00e1vel, um estreitamento nas op\u00e7\u00f5es percebidas pelo doente e um desejo de fuga.<\/p>\n<p align=\"justify\">O cen\u00e1rio ideal para o suic\u00eddio \u00e9\u00a0composto de tr\u00eas factores predisponentes e um gatilho que desencadeia a ac\u00e7\u00e3o. Este gatilho \u00e9\u00a0a ideia de que a dor da situa\u00e7\u00e3o actual cessa ao terminar com a pr\u00f3pria vida. Os factores predisponentes envolvem o \u00f3dio de si mesmo, devido \u00e0 culpa ou baixa auto-estima; um estado de agita\u00e7\u00e3o, no qual o doente est\u00e1 tenso e n\u00e3o consegue pensar com clareza; e a limita\u00e7\u00e3o das for\u00e7as intelectuais, ou percep\u00e7\u00e3o diminu\u00edda, de tal forma que o indiv\u00edduo n\u00e3o consegue pensar mais al\u00e9m da situa\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p align=\"justify\">A maneira de tentar reverter este quadro envolve a redu\u00e7\u00e3o da dor psicol\u00f3gica modificando o ambiente adverso; construir um apoio realista, reconhecendo que o doente pode ter uma queixa leg\u00edtima; e oferecer alternativas para o suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"center\"><strong>Suic\u00eddio vs Sa\u00fade Mental\u00a0<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Entre os doentes que cometem suic\u00eddio, quase 95% tem uma doen\u00e7a mental diagnosticada, 80% tem um transtorno de humor, 25% s\u00e3o dependentes de \u00e1lcool. Dos doentes que padecem de um destes transtornos, 15% morrem por suic\u00eddio.\u00a0Apesar de ser uma doen\u00e7a menos comum, a esquizofrenia responde por 10% dos suic\u00eddios. Doentes com depress\u00e3o delirante s\u00e3o aqueles que apresentam o mais alto risco para suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">A idade do suic\u00eddio varia em torno dos 30 anos, o que parcialmente deve-se ao in\u00edcio precoce da esquizofrenia e transtorno de humor.<\/p>\n<p align=\"justify\">Durante a primeira semana de internamento o risco \u00e9\u00a0alto, normalizando entre a terceira e quinta semana.<\/p>\n<p align=\"justify\">O per\u00edodo ap\u00f3s a alta \u00e9 especialmente perigoso. O doente psic\u00f3tico tende a destruir a rede de apoio social e, no regresso \u00e0 comunidade, est\u00e1 pouco integrado na sociedade. O isolamento social, alguma nova adversidade ou o regresso de problemas anteriores pode torn\u00e1-lo desencorajado, impotente e desesperado, e este \u00e9 o estado de humor ideal para cometer o suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ap\u00f3s o terceiro m\u00eas a taxa de suic\u00eddio volta a ser igual \u00e0\u00a0taxa de suic\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><strong>Avalia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A atitude e os preconceitos morais de quem avalia um doente suicida podem influenciar na decis\u00e3o do doente. Reagir ao paciente de um modo moralista, cr\u00edtico, ter reac\u00e7\u00f5es fortes e negativas sobre a ideia de algu\u00e9m tirar a sua pr\u00f3pria vida, aumenta o risco, na mesma propor\u00e7\u00e3o das reac\u00e7\u00f5es negativas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O avaliador deve ter em mente que o estado suicida \u00e9 frequentemente passageiro, resulta de uma doen\u00e7a que tem causas tanto org\u00e2nicas quanto psicol\u00f3gicas, e que, se o suic\u00eddio puder ser evitado, a doen\u00e7a subjacente ser\u00e1 tratada e futuros estados suicidas ser\u00e3o evitados.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><strong>Etiologia<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A etiologia do suic\u00eddio envolve factores sociais, como aqueles que ocorrem ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo (suic\u00eddio an\u00f4mico); aqueles cometidos em benef\u00edcio de outros para aliviar a carga de algu\u00e9m que tem de cuid\u00e1-los, um modo de recuperar a honra (suic\u00eddio altru\u00edsta); e o sentimento de n\u00e3o estar integrado no conv\u00edvio, n\u00e3o ter lugar na sociedade (suic\u00eddio ego\u00edsta).<\/p>\n<p align=\"justify\">Factores biol\u00f3gicos est\u00e3o claramente definidos. Doentes deprimidos com n\u00edveis baixos de \u00e1cido 5-hidroxindelac\u00e9tico (derivado da Serotonina) t\u00eam risco aumentado para suic\u00eddio.\u00a0\u00a0 Altos n\u00edveis de 17 hidrocortiscoter\u00f3ides urin\u00e1rio tamb\u00e9m elevam o risco para suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entre os factores psicol\u00f3gicos, a pessoa com impulsividade acentuada, depend\u00eancia de terceiros para manuten\u00e7\u00e3o de auto-estima, principalmente os dependentes insatisfeitos e ter expectativas irrealistas, os chamados \u201cperfeccionistas\u201d tamb\u00e9m ficam com um risco aumentado para suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><strong>Epidemiologia<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">As taxas internacionais de suic\u00eddio variam em torno de 10-15 por 100.000.\u00a0\u00a0\u00a0 Em alguns pa\u00edses do leste europeu, Escandin\u00e1via, Jap\u00e3o, as taxas chegam a 25 por 100.000.\u00a0\u00a0 Nos Estados Unidos, que se colocam entre as taxas internacionais, entre 1970 e 1980, houve mais de 230.000 suic\u00eddios, aproximadamente 1 em cada 20 minutos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\"><strong>Caracter\u00edsticas Cl\u00ednicas<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Os homens comentem suic\u00eddio com frequ\u00eancia tr\u00eas vezes maior que as mulheres. No entanto, elas tentam quatro vezes mais que os homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta taxa mais alta de \u00eaxito entre o sexo masculino est\u00e1\u00a0associada aos m\u00e9todos usados. Geralmente fazem-no usando armas de fogo, enforcamento ou precipita\u00e7\u00e3o de locais elevados, enquanto as mulheres tendem a faz\u00ea-lo tomando dosagens excessivas de medicamentos ou veneno.<\/p>\n<p align=\"justify\">As taxas de suic\u00eddio aumentam com a idade.\u00a0Entre os homens, o n\u00famero de suic\u00eddios completados \u00e9 maior ap\u00f3s os 45 anos.\u00a0\u00a0 Entre as mulheres, esta taxa aumenta ap\u00f3s os 55 anos.\u00a0\u00a0 A maioria dos suic\u00eddios ocorre entre 15 e 44 anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entre as ra\u00e7as: homens brancos cometem suic\u00eddio duas vezes mais que os n\u00e3o brancos.\u00a0\u00a0 Dois em cada tr\u00eas suic\u00eddios s\u00e3o de homens brancos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O casamento, refor\u00e7ado pelos filhos, diminui significativamente o risco de suic\u00eddio.\u00a0 Pessoas solteiras, cometem suic\u00eddio duas vezes mais do que pessoas casadas.\u00a0Entretanto, pessoas casadas anteriormente, t\u00eam duas vezes mais oportunidade de suic\u00eddio que as solteiras. Estas taxas atingem um pico entre homens divorciados, chegando a 69 por 100.000.<\/p>\n<p align=\"justify\">Hist\u00f3ria de suic\u00eddio na fam\u00edlia e isolamento social aumentam o risco de suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entre as profiss\u00f5es, quanto mais alta a posi\u00e7\u00e3o social, maior \u00e9 o risco de suic\u00eddio, mas, o trabalho em geral, protege contra o suic\u00eddio, que \u00e9 maior entre as pessoas desempregadas do que entre as pessoas empregadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A sa\u00fade f\u00edsica est\u00e1\u00a0 directamente relacionada com a taxa de suic\u00eddio. Cerca de 30% dos suicidas consultaram o m\u00e9dico nos seis meses que antecederam o acto. Estudos de aut\u00f3psia mostraram doen\u00e7as f\u00edsicas presentes em 25 a 75% das v\u00edtimas de suic\u00eddio. Factores associados com doen\u00e7a e suic\u00eddio s\u00e3o a perda da mobilidade, que impossibilita actividade f\u00edsica ocupacional ou de recreio, desfiguramento e dor cr\u00f4nica intrat\u00e1vel.\u00a0Contribuem os efeitos secund\u00e1rios como perturba\u00e7\u00e3o nos relacionamentos e perda da situa\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quem avalia um doente deve perguntar directa e exaustivamente sobre ideia suicida e tentativa anterior. De forma alguma deve falar-se sobre o suic\u00eddio: pode induzir um paciente a pratic\u00e1-lo. Al\u00e9m disso, uma tentativa de suic\u00eddio anterior \u00e9 o melhor indicador que um paciente apresenta risco aumentado para suic\u00eddio. O risco de um paciente fazer uma segunda tentativa de suic\u00eddio \u00e9 mais alto dentro de tr\u00eas meses ap\u00f3s a primeira tentativa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Oito em cada dez pessoas que se mataram d\u00e3o alarme das suas inten\u00e7\u00f5es e cinquenta por cento afirmaram abertamente que desejam morrer.\u00a0Ter um plano mentalizado com acesso a meios letais \u00e9 um sinal particularmente perigoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro sinal perigoso vem do doente que estava a amea\u00e7ar que iria suicidar-se, e tornou-se silencioso e menos agitado. Na medida em que ele melhora sente-se com mais energia e pode ter tomado a decis\u00e3o secreta de cometer suic\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p align=\"justify\">A base de toda abordagem de um doente em crise \u00e9\u00a0o di\u00e1logo, a compreens\u00e3o, calma e, acima de tudo, saber ouvir o doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nunca se deve julgar um doente em crise e, muito menos, desvalorizar o seu estado de esp\u00edrito ou o seu sentimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Atitudes de reprova\u00e7\u00e3o, desrespeito e desprezo apenas servem para aumentar a crise do doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<h4 align=\"justify\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h4>\n<ol>\n<li>KAPLAN, Harold e SADOCK, BenjaminJ. \u2013 Comp\u00eandio de Psiquiatria \u2013 6\u00aa ed., Porto Alegre, Artes M\u00e9dicas, 1993.<\/li>\n<li>KAPLAN, Harold e SADOCK, Benjamin J. \u2013 Medicina Psiqui\u00e1trica de Emerg\u00eancia \u2013 Porto Alegre, Artes M\u00e9dicas, 1995.<\/li>\n<li>FLAHERTY, Joseph A. e CHANNON, Robert A . e DAVIS, John M. \u2013 Psiquiatria \u2013 Diagn\u00f3stico e Tratamento \u2013 Porto alegre, Artes M\u00e9dicas, 1990<\/li>\n<li>RODRIGUES, Vitor Amorim e GON\u00c7ALVES, Luisa; Patologia da Personalidade; Lisboa; Funda\u00e7\u00e3o Calouste Glubenkian; 1998<\/li>\n<li>GAMEIRO, Jos\u00e9; Voando sobre a psiquiatria; Porto; Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento; 1992<\/li>\n<li>DALERY, Jean e AMATO, Thierry; A Esquizofrenia: investiga\u00e7\u00f5es actuais e perspectivas; Lisboa; Climepsi Editores; 2001<\/li>\n<li>PIRES, Carlos M. 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Schneeberger de; Elementos de psicopatologia; Lisboa; Funda\u00e7\u00e3o Calouste Glubenkian; 1995<\/li>\n<li>MANNHEIM, Hermann; Criminologia comparada; Lisboa; Funda\u00e7\u00e3o Calouste Glubenkian; 1985<\/li>\n<li>CHABERT, Catherine; A psicopatologia \u00e0 prova no rorschach; Lisboa; Climepsi Editores; 2000<\/li>\n<li>SARAIVA, Carlos Braz; Para \u2013 suicidio; Coimbra; Editora Quarteto; 1999<\/li>\n<li>CORDEIRO, J.C.Dias; Manual de psiquiatria clinica; Lisboa; Funda\u00e7\u00e3o Calouste Glubenkian; 1986<\/li>\n<li>SERRA, Teresa; Homicidio qualificado: tipo de culpa e medida de pena; Coimbra; Livraria Almedina; 1998<\/li>\n<li>POL\u00d3NIO, Pedro; Psiquiatria forense; Lisboa; Coimbra Editora; 1975<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise proporciona ao doente a identifica\u00e7\u00e3o de futuras crises, pela sintomatologia que caracteriza o seu in\u00edcio (similar \u00e0\u00a0\u201caura\u201d descrita pelos doentes epil\u00e9pticos).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2220,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[631,521,81,413,436,82,585],"class_list":["post-1159","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-de-autor","tag-agitacao","tag-crise","tag-emergencia","tag-psiquiatria","tag-suicidio","tag-urgencia","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1159"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2430,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159\/revisions\/2430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumenfermagem.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}