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Doente oncológica terminal no chão? Filho acusa: “Faltam à verdade”

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A fotografia de uma doente oncológica em fase terminal deitada no chão do Hospital Universitário de Coimbra, alegadamente, devido à “falta de macas”, chocou o país e está a gerar controvérsia. A unidade hospitalar nega a versão da família da mulher e acusa-a mesmo de ter encenado a imagem.

 

Por sua vez, o filho da utente refuta. Diz que “alguém está a mentir” e não é a família. Se não havia falta de macas, então “o erro” está em quem avaliou a mãe.

Tudo começou no dia 8 de janeiro. A mãe de João Gaspar, que é doente oncológica há mais de 20 anos e encontra-se, neste momento, em fase terminal, com “cancro generalizado na zona abdominal” dirigiu-se ao hospital com dores “insuportáveis”.

Depois de ter ligado para a Saúde 24 à procura de apoio para a mãe, de 59 anos, e ninguém ter atendido, João Gaspar ligou para o 112, que lhe garantiu que ia enviar uma ambulância em breve.

No entanto, “20 minutos depois, voltaram a ligar para dizer que não havia ambulâncias disponíveis”. Perante a perspetiva de ter de “aguardar por tempo indeterminado” por uma ambulância, enquanto a mãe “gritava de dores”, João Gaspar colocou a mãe no carro e levou-a às urgências.

“Avisei que estava a chegar com uma doente grave, antecipando o problema que é chegar à entrada das urgências com um carro particular. Disseram-me apenas para falar com a polícia à entrada”, revelou na publicação que, entretanto, já conta com quase 4 mil partilhas.

João chegou ao hospital com a “mãe deitada no banco de trás, porque não conseguia sentar-se”. Lá, disseram-lhes que não havia macas disponíveis e que a utente teria de ficar numa cadeira de rodas.

“Não aguentava. Pedi uma maca. Disseram-me que teria de ser eu a ir buscar. Não havia”, afirmou, acrescentando que foi ele, com a ajuda de um familiar, que transportou a mãe para dentro do hospital. “Numa sala cheia de profissionais, ninguém tinha uma solução. A minha mãe gritava de dores”, atirou.

João pediu melhores condições para a mãe, e ajuda, mas a resposta terá sido que “todos ali estavam mal”. “Como se a dor fosse igual, como se o sofrimento não fosse indiferenciado”, notou.

Perante a impossibilidade de deitar a mãe e desta não conseguir permanecer sentada, devido às dores, o homem não viu outra alternativa senão a deitar “no chão, sobre uma manta trazida” por si.

“Houve quem criticasse a decisão não para ajudar, mas para apontar o dedo”, recordou, afirmando que “só quando perceberam que aquela imagem estava a ser registada é que alguém começou a agir”.

A partir daí, “tudo aconteceu como deveria ter acontecido desde o início”: foi administrada morfina à sua mãe por duas vezes, recebeu soro e foram feitos os exames necessários. “Os meios existiam. O que faltou foi humanidade”, concluiu.

Depois da publicação se ter tornado viral e ter chegado à comunicação social, o Hospital Universitário de Coimbra emitiu um comunicado.

“Afirmação não corresponde à verdade”

Na nota enviada às redações, no sábado, a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra negou que a mulher tenha “permanecido deitada no chão” do Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) por “falta de macas”, ao contrário do que denunciou o filho da paciente, nas redes sociais.

Doente oncológica no chão por

Doente oncológica no chão por “falta de macas”? Hospital de Coimbra nega

A Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra rejeitou, este sábado, as acusações de que uma doente oncológica aguardou atendimento “deitada no chão” do Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) por “falta de macas”, ao contrário do que denunciou o filho da paciente nas redes sociais.

Daniela Filipe | 22:30 – 10/01/2026

A entidade, que sublinhou que “a afirmação de que a doente terá permanecido deitada no chão por falta de macas não corresponde à verdade”, corroborou que um enfermeiro pré-triagem “foi abordado por um familiar com pedido de uma maca”, mas que “foi verificado que a doente se encontrava calma, orientada e capaz de se sentar, tendo sido disponibilizada uma cadeira de rodas, com apoio de um segurança”.

“A doente entrou no Serviço de Urgência sentada em cadeira de rodas, acompanhada por dois familiares, situação corroborada pelos seguranças de serviço”, acrescentou.

Ainda assim, o organismo admitiu que, “durante um curto intervalo temporal, um familiar decidiu regressar ao veículo, trazer uma manta, estendê-la no chão e deitar a doente, anunciando a intenção de fotografar e divulgar imagens”.

“Um bombeiro alertou imediatamente a equipa de enfermagem de que a utente se iria deitar no chão e esta interveio de imediato, procedendo à triagem da doente”, complementou, garantindo que “em nenhum momento a ULS de Coimbra permitiu, nem permitiria, que uma doente permanecesse no chão por inexistência de meios, seja ela doente oncológica ou não”.

Apesar de garantir que havia macas e de confirmar que os familiares da utente pediram uma maca, o hospital não explica porque é que esta não foi disponibilizada.

Família refuta e acusa Hospital de Coimbra de mentir

Entretanto, após o comunicado da unidade hospitalar, o João Gaspar emitiu um esclarecimento na sua página de Facebook e falou também à SIC Notícias. Ao canal de televisão, o homem afirmou que “alguém aqui está a faltar à verdade” e não é a família da doente.

“O que nos foi informado foi que não havia macas. Estão a insinuar que eu e a minha tia colocamos deliberadamente a minha mãe no chão sabendo que havia meios. Isso é grave”, realçou, lembrando que “não foi atendido um pedido a uma mulher que grita de dor e que diz claramente que não pode estar naquela posição. É uma doente que tem um saco para as fezes, que tem um saco para a urina, é uma doente que tem um cancro abdominal”.

Perante isso, para João Gaspar, “é lógico que o erro aqui está sobretudo na pessoa que fez essa avaliação, de que ela [a mãe] devia aguardar sentada”.

“A minha mãe com dores, estava a tentar-se jogar ao chão. Eu estava a tentar segurá-la para ela não chegar ao chão e perante esta situação e a impossibilidade de arranjar uma maca para a minha mãe aguardar numa posição confortável, a minha tia tomou a decisão de ir buscar a manta ao carro para a podermos colocar numa posição mais confortável, que foi no chão. E, de facto, ela estava mais confortável no chão do que na cadeira”, explicou ainda.

Nas redes sociais, João Gaspar esclareceu que a sua denúncia não se trata de um “ataque político, nem uma defesa de qualquer ideologia”, assim como não é “um ataque a profissionais de saúde, bombeiros ou quem trabalha nos hospitais”.

“Quem lá está sabe melhor do que ninguém em que condições se trabalha hoje. Muitos estão exaustos, sem meios, a fazer o que conseguem dentro de um sistema que claramente não está a funcionar como devia”, lembra.

“O que está mal”, considerou, “é a organização, as decisões tomadas sem preparação, os sistemas que mudam sem garantir resposta e um modelo que acaba sempre por empurrar o peso do colapso para os doentes e para as famílias”.

O objetivo foi apenas” expor uma situação real, vivida, dura, que não devia acontecer a ninguém”. Se isso incomoda, talvez seja porque o problema existe mesmo. Peço apenas que respeitem uma coisa: isto é sobre dignidade humana. Não é sobre bandeiras, nem sobre discursos fáceis”, conclui.

Entretanto, o Bloco de Esquerda (BE), segundo o Correio da Manhã, questionou Governo sobre caso. Numa nota assinada pelo deputado único bloquista, Fabian Figueiredo, o partido exige ao Executivo de Luís Montenegro respostas sobre as medidas que este pretende tomar para acabar com a falta de macas nas urgências hospitalares e reforçar o investimento no SNS.

Já a mulher, que prestou serviços para o hospital de Coimbra durante mais de 20 anos, teve de regressar às urgências no sábado, 10 de janeiro. Foi mais uma vez medicada para as dores e teve alta no mesmo dia.

 

Leia na íntegra em Notícias ao Minuto