Autor Tópico: Como explicar enfermagem a um leigo?  (Lida 3820 vezes)

Offline Mauro Germano

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Como explicar enfermagem a um leigo?
« em: Setembro 12, 2010, 06:35:57 »
A minha sugestão: http://saudeeportugal.blogspot.com/2010 ... magem.html

Qual a vossa?

Acham que é difícil de explicar sem nos perdermos em teorias e filosofias?

Passamos bem a nossa mensagem?

Offline enfaacm

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #1 em: Setembro 12, 2010, 17:12:07 »
Mais fácil do k parece: Enfermagem é ciencia, logo estuda, interpreta e intervém de forma a melhorar um fenómeno, fenómeno esse a vivência das transições do individuo ao longo do seu ciclo vital.  (Mas a Sra Meleis e o Prof. Doutor Abel Paiva e Silva explicam isto de uma forma muito mais bonita  ;))

Offline Mauro Germano

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #2 em: Setembro 12, 2010, 23:41:14 »
Com todo o respeito AnabelaMatos: a mim, caso fosse leigo, ficaria a pensar que somos filósofos e não perceberia o que fazemos na realidade.

Offline Mauro Germano

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #3 em: Setembro 14, 2010, 11:30:44 »
Como mostrar a alguém o quão complexo é o acto de colocação de um cateter venoso periférico?

É verdade... Já pensaram no processo de tomada de decisão que empreendem para este acto tão simples?

Isto claro se formos minimamente perfeccionistas e Enfermeiros(com letra grande).

Imaginem só o quão complexo pode ser(isto para desmistificar a ideia que isto é simples e qualquer um faz ... mas não com a qualidade de um Enfermeiro).

Indicação para colocar o CVP: precisa mesmo de ser colocado? Existem alternativas potencialmente menos iatrogénicas(tipo IM, SC ou PO)?
É necessário ficar com CVP(por exemplo colheita de sangue) ou existe probabilidade de administração futura de fármacos via EV?

Qual o calibre ? 20 G se necessitar pontualmente de medicação. 22 G se acessos venosos difíceis (já chegamos lá...); 18 G ou superior se necessitar de grandes volumes de infusões EV ou administração de hemoderivados, especialmente concentrados eritrocitários de forma a reduzir hemólise ou a potenciar uma mais rápida administração do fármaco.

Local de colocação do cateter:
- de modo a manter o autocuidado escolher preferencialmente o membro não dominante.
- Contraindicação absoluta para colocar nesse membro? Relativa (FAV; parésia; mastectomia radical; etc)?
- Fossa antecubital ; antebraço posterior, mão? Se a pessoa não está colaborante com a prestação de cuidados(desorientado por ex) colocar no antebraço pois não é dependente da flexão de nenhuma articulação, se é previsível permanência limitada colocar na fossa antecubital (se estiver colaborante) ou então dorso da mão.

Avaliação pré inserção:
Explicar o procedimento ao utente explicando natureza do procedimento :avaliar conhecimentos e adequar linguagem para obtenção da máxima colaboração tendo em conta que a maioria das pessoas só quer saber o básico (o que vamos fazer, porquê, o que ela tem de fazer, o que se vai passar a seguir).

Avaliar estado geral:se pálido(mucosas especialmente a parte interna da pálpebra inferior) existe menor probabilidade de obter bom acesso venoso , procurar preferencialmente dorso da mão, antebraço junto à extremidade distal do rádio e cúbito ou fossa antecubital e veia cefálica.
Ictérico? possibilidade de alteração do estado de coagulação (relacionar com eventual disfunção hepática) logo maior cuidado na certeza da punção e maior reforço da fixação do cateter.
Pele mais escura ( eventual IRCT) avaliar presença de FAV.
Suado e pálido? Possível hipoperfusão: necessidade de maior celeridade no processo (eventualmente abdicar de algumas normas de assépsia) e maior calibre do cateter.
Etc ETC

Está pouco colaborante ou ansioso? Estudar medidas de obtenção de colaboração: presença de familiar sereno, ajuda de outra(s) pessoas para ajudar no procedimento.

Lavar com água com sabão ou com solução alcoólica? Se limpo usar alcoólica pois reduz tempo.

Procedimento em si:

Ter todo o material disponível e pronto a usar.
Escolha do produto a aplicar: clorexidina disponível ?(ver http://www.forumenfermagem.org/forum/ht ... ic.php?t=0 ) Não... Usar solução alcóolica (tipo Cutasept)... A iodopovidona reduz a observação do local a puncionar.

Veia superficial? redução da amplitude da punção(mais perto dos 0º), mais profunda? Maior amplitude.
Perícia do Enfermeiro: Muita? Pode tentar picar a que cumpra todos os requisitos acima descritos.
Pouca? Colocar o cateter no local onde tiver menor probabilidade de falhar e tentando não abandonar os pressupostos acima descritos.

Fixação com adesivo opaco ou transparente? Transparente é mais caro mas permite observar melhor a pele. Opaco mais barato , mais inestético e dado ser colocado num membro a duração do transparente nunca chega à prevista pelo fabricante... A não ser que seja de longa permanência... opaco.

Colocar bionecteur? Facilita manipulação do cateter mas por outro lado, aumenta risco de hemólise na colheita de sangue...


Bem... Já chega... E ainda deveriam faltar mais uns 30 passos que omiti...

E todo este processo mental dura por vezes menos do que 5 segundos... o procedimento já nem tanto...

Por isso é que a experiência não é só prática mas sim um conjunto de saberes cujo único problema é por vezes não sabermos racionalizá-los e desta forma explicá-los.


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Offline Mauro Germano

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #4 em: Setembro 14, 2010, 11:38:24 »
Ah e perguntem-se sobre todo o conhecimento necessário para que isto fosse possível, com a qualidade que se exige a um licenciado

Saber pormenorizadamente a técnica
Técnica relacional (postura com a família, o utente)
Estratégias de comunicação
Controlo do ambiente e espaço
Anatomia e fisiologia.
Fisiopatologia
Farmacologia
Conhecimento dos materiais a serem usados, vantagens e desvantagens.
Guidelines de controlo de infecção
Guidelines de actuação numa determinada situação (por exemplo choque hipovolémico)
Perdoem-me se esqueci alguma...

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Offline ACFAnt

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #5 em: Setembro 19, 2010, 02:26:41 »
A execução técnica de procedimentos é um âmbito muito relevante daquilo que se considera "ser Enfermeiro", uma vez que não se trata de um simples movimento ou acção mas sim de um conjunto integrado de conhecimentos, processo de tomada de decisão e capacidade instrumental.
Não obstante disto Enfermagem é uma ciência (por muito filosófica que seja a ideia) que fará a diferença para a população "leiga" quando essas mesmas pessoas perceberem que o Enfermeiro não é SOMENTE o que "pica", "põem tubinhos" ou, para as crianças "o que dá uma pica se não te portares bem" (tal e qual como se ouve frequentemente), mas sim o profissional capaz de:
ajudar a D. Maria a quem foi diagnosticada DM tipo II a lidar com as implicações da doença (no sentido de facilitar a transição saúde-doença, colega AnabelaMatos);
a ensinar e capacitar a D. Joaquina, cujo marido sofreu um AVC e necessitará de ajuda no domicílio;
apoiar, compreender e ajudar o Sr. Adelino a lidar com a doença de alzheimer da esposa, de quem cuida há 3 anos, quando este diz "já não sei como lidar com esta situação";
etc etc...quem diz isto diz muito mais, são só exemplos. No entanto (diria eu ao leigo), é isto tudo (técnica e ciência) e não só...
Diferentes visões, perspectivas e pontos de vista derivam de diferentes representações sociais da Enfermagem mas não há certo nem errado...eu terminaria dizendo ao leigo que a enfermagem é tão complexa que que muitos correm o risco de a considerar erradamente simples, sendo que se apercebem deste mesmo erro quando deixam de ser tão leigos (nomeadamente quando contactam na pele de utentes ou familiares com os serviços de saúde).
Cumprimentos

Offline enfaacm

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #6 em: Setembro 22, 2010, 17:11:06 »
Nem mais ;)

Offline Mauro Germano

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Re: Como explicar enfermagem a um leigo?
« Responder #7 em: Setembro 27, 2010, 10:19:41 »
ACFant

Não discordando de si mas não concordando também:

Repare que a questão técnica está a ser extremamente desvalorizada sendo o que mais traz valor acrescentado à prática profissional: é o cerne do conceito de produção e correspondente visão social de utilidade.

A banalização dos diferentes actos que poderíamos discriminar, desde a algaliação à colocação de um cateter venoso periférico deve-se antes de mais à assumpção de que são simples, esquecendo-nos que o procedimento em si envolve o tal processo de tomada de decisão, não sendo despiciendo a complexidade da técnica da "coisa".
 
Mais do que ser um mito, é uma constatação da realidade, a falsa descomplexidade de tais actos como "picar", "fazer pensos" e por tubinhos... Para não demorar mais na explicação: Um enfermeiro algalia, tal é considerado banal. Um Urologista faz o mesmo e tal é considerado um acto altamente especializado...

Trata-se de levar mais a sério o nosso trabalho.

A responsabilidade de algaliar não se limita à colocação do "tubo" mas sim em saber se está indicado, se deve manter-se, como evitar complicações, entre outras coisas. Dizer que isto não é crucial e não dominar todos os passos do processo é uma demonstração de incompetência.


Mais do que visões antagónicas são antes formas de perceber o problema. Correndo o risco de estar a ser injusto eu considero que Enfermagem e mais do que isso, os Enfermeiros (As ideologias devem servir o interesse das pessoas e não o contrário) devem ser indispensáveis e não só uma garantia de acréscimo de qualidade.

Quando falamos em "ajudar a Maria a quem quem foi diagnosticada DM tipo II a lidar com as implicações da doença" devemos explicar tecnicamente como tal se processa. O utente não entende nem entenderá o conceito de transições mas sim as implicações disso. Ele quer que efectivamente o ajudem e explicitem a forma como isso será feito.

Quando falamos em comunicação deveríamos pensar na dicotomia necessária no nosso quotidiano: um raciocínio baseado no paradigma de transição(ou outro) e uma comunicação para leigos baseada no valor acrescentado, em linguagem inteligível para eles, da acção do enfermeiro. E não desdenhemos o conceito de acção... é ele que permite saber se algo é útil ou não, assim como discriminar as diferentes acções.

Os procedimentos são "a mão" do "cuidar". Com uma mão trémula e insegura até um estúpido julga poder fazer o mesmo... Não é precisamente por isso que as pessoas retiram complexidade e consequente falta de reconhecimento à prática de enfermagem? Por acharem que é fácil de fazer?

PS: A  definição de enfermagem como ciência tem muito que se lhe diga assim como o de outras ciências sociais.

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