Autor Tópico: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester  (Lida 9358 vezes)

Offline enfarfr

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"Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« em: Março 06, 2010, 10:28:11 »
É verdade que já tem mais de 3 anos, mas deixo aqui uma "crónica" dum médico de Coimbra:

CRÓNICA - O Senhor Doutor Protocolo

Por simpatia e amizade, o Director do Serviço de Urgência dos HUC perguntou-me o que achava da eventual contratação deste novo Colega, Doutorado lá para os lados de Manchester. Concordei, considerando os condicionalismos existentes, o facto de, com as minhas antigas críticas, me sentir um pouco ‘velho do Restelo’ e, também, por ter alguma curiosidade em o conhecer pessoalmente.
Finalmente, o Senhor Doutor Protocolo começou a trabalhar na triagem e orientação dos doentes que recorrem à urgência dos HUC, sem que, por incompatibilidades da minha vida profissional e associativa, me tivesse sido previamente apresentado. Foi, pois, um “ver-te e amar-te” em simultâneo.
De imediato fui confrontado com alguns desvios que, em boa verdade, não se podem imputar ao Doutor Protocolo mas a quem ainda não o conhece bem, como aquela obesa que, porque há dois meses não conseguiria aceder ao seu Médico de Família, veio à urgência queixar-se que se sentia inchada (...) e me apareceu com o diagnóstico de ascite no local onde deveria ter sido colocado o número do fluxograma. É claro que não tinha ascite nenhuma...
A maioria das situações, porém, tem mesmo a ver com os conhecimentos britânicos do Doutor Protocolo!
Da mesma forma como alguns dos nossos políticos distribuem medalhas e condecorações a torto e a direito, o Doutor Protocolo elevou os nossos bêbados ao máximo patamar do respeito social! Dantes iam dormir para os calabouços da polícia, o que até lhes faria bem, depois passaram a vir curtir para o hospital, a maioria até já requeria Médico da VMER no local (doente inconsciente na via pública...), mas agora são doentes emergentes, fita vermelha no pulso, qual condecoração, com direito a encaminhamento para a sala de emergência! Poucos são desconsiderados com uma fitinha laranja! É o máximo!
A escalinha de dor, essa é um verdadeiro must! Haverá algum doente que venha à urgência por ou com dor que não diga que ela é, pelo menos, moderada? Toma lá com um amarelo e vai para a Medicina Interna! Agora até as infecções urinárias, ainda que com alguns dias, são amareladas (será influência da cor da urina?...)!
E quanto maior a ansiedade, maior a dor, mais carregada a cor! Acho que se podia instituir um prémio para o doente que, vindo à urgência com dor, dissesse que veio apenas para ver a bola e que, afinal, até nem lhe dói quase nada... Que tal uma martelada na cabeça para se queixar melhor para a próxima vez? Pelo menos passava a ver estrelas amarelas, ou talvez mesmo laranjas...
E aquele doente com dor cervical há 15 dias? Como disse que a dor era moderada, foi logo amarelado e encaminhado para a Medicina! Ou aqueles cujo único problema é cerúmen no canal auditivo externo mas que, pela dor “moderada ou severa”, são logo doentes urgentes! Enfim.
Sem esquecer o doente a quem doía o peito sempre que tinha muitos “arrotos”; o Senhor Doutor Protocolo amarelou-o para a Medicina por cauda da dor no peito. É evidente que teve que fazer todos os exames e mais alguns para podermos contrariar, com à vontade, o Doutor Protocolo; o nosso Colega de Manchester exagera nas classificações, nós temos de exagerar nos exames complementares, mesmo contra o raciocínio clínico mais evidente, não vá um dia um Senhor Dr. Juiz perguntar-nos como nos atrevemos a desvalorizar indicações de um Médico Doutorado em Manchester (querem que poupemos dinheiro, mas estão sempre a arranjar formas de nos obrigar a gastar mais!). O doente acabou por ter alta, sem quaisquer queixas, depois de levar uma simples metoclopramida.
Dor torácica que agrava com o esforço, fluxograma 27, discriminador “dor pleurítica”. Amarelada para a Medicina. Afinal era uma fractura de costela por queda há uma semana...
Claro que as “faltas de ar”, os tremeliques, os choros fáceis e as ansiedades, basta um singelo “peso” no coração, foram todas promovidas a dor pré-cordeal! Tunga, laranja! Ainda se arranjarão doentes para serem encaminhados para a Urgência Geral?
E os desgraçados que têm pequenas feridas a necessitar de sutura na pequena cirurgia mas têm um coração mais estóico? Ou aprendem depressa a dizer que a dor é, pelo menos, moderada, e são amarelados, ou chupam com um verde e têm de esperar horas até que todos os falsos amarelos sejam observados! Pelo menos, à frente de medrosos e mariquinhas ninguém passará!...
Podíamos continuar nesta senda, mas não vale a pena. Todos os que já foram apresentados ao Colega de Manchester terão as suas histórias para contar. Como aquele doente com icterícia que foi parar à oftalmologia com “problemas oftalmológicos”.
O problema da triagem de Manchester, como há muitos anos afirmei, é que, ao tentar reduzir os doentes a protocolos mais ou menos rígidos, tem forçosamente de colocar situações díspares no mesmo saco e pecar por excesso. Um exemplo é suficientemente paradigmático: para o Doutor Manchester, o limiar da hipoglicemia são os 80 mg/dl! Todavia, segundo o Current Medical Diagnosis & Treatment, 2005, os sintomas de hipoglicemia apenas surgem por volta do 60 mg/dl e a perturbação da função cerebral pelos 50 mg/dl! Os habitantes de Manchester devem ser diferentes dos outros... (não me admira, porque para não ser suficiente o quadro de agressão e ter surgido a necessidade de um fluxograma de auto-agressão, o pessoal de Manchester deve ser todo doido!...)
Com o ritmo de trabalho que lhes é imposto, não duvido que se fizéssemos glicemias ocasionais às nossas enfermeiras do serviço de urgência, a maioria passaria num ápice para a sala de emergência, com um soro glicosado a 5% e enfeitadas com uma pulseirinha vermelha novinha em folha... Não é muito difícil, bastava terem algumas alteraçõezitas do comportamento. É evidente que, depois disso, teriam seguramente direito a 15 dias de baixa para repouso e recuperação (ao fim e ao cabo tinham sido doentes emergentes!)!
Mais grave é o facto da Triagem de Manchester ter sido aferida num sistema de saúde completamente diferente do nosso. Por exemplo, não têm neurologistas de serviço à urgência nem a principal causa de morte são os AVC, demasiado desvalorizados pelo sistema, o que pode ter implicações na janela terapêutica para intervenção aguda nos AVC isquémicos. Paradoxalmente, num país que está a criar um via verde dos AVC, os sinais neurológicos focais estão em terceira linha e apenas conseguem um amarelito!
Depois de lidar de perto com o Senhor Doutor Protocolo, fiquei mais descrente dos Doutoramentos protocolizados em Manchester e um mais consistente defensor da verdadeira Triagem Médica (informatizada, treinada e com condições). Mas era preciso vir alguém de Manchester dizer-nos que o compromisso da via aérea, a respiração ineficaz, a hemorragia exsanguinante e o choque são situações de emergência? E não bastaria a mão de um jovem Médico para distinguir os quadros abdominais médicos dos cirúrgicos e orientar correctamente os doentes? Etc., etc. Depois desta experiência posso garantir que nunca ninguém me ouvirá dizer que um protocolo é melhor que um Médico. Por alguma razão, a seguir à triagem de Manchester o Hospital de Viseu colocou uma triagem Médica, uma experiência que se revelou extraordinariamente positiva.
Não há a menor dúvida que a triagem de Manchester devia sofrer algumas adaptações. A primeira coisa que proporia era que a escala de dor fosse retirada do sistema. Para os latinos portugueses, decididamente não serve! Orientar doentes com base na dor percebida é um erro crasso que apenas prioriza os mais histriónicos. É a total subversão do único objectivo da triagem de Manchester, a definição de prioridades reais! Além do mais, os doentes facilmente apreendem que, queixando-se com convicção, passam à frente “dos outros” (basta ligarem a intensidade das dores com a cor da pulseira!)...
De qualquer forma, a Triagem de Manchester trouxe algumas vantagens. Desde logo a informatização e organização da triagem em alguns hospitais (já existia nos HUC). Depois, pela primeira vez, há que reconhecê-lo, a triagem de doentes é feita num espaço físico condigno e reservado. Por último, agora a culpa de doentes mal triados não é de ninguém, é do sistema (o que é excelente para todos), e o sistema não pode ser condenado! Sem esquecer o marketing; funcionar bem, não é notícia, mas contratar o Doutor Manchester dá direito a comunicação social (como se alguma coisa se resolvesse por milagre)!
Para além das falhas do Doutor Protocolo, o mais afectado é mesmo o Director do Serviço de Urgência dos HUC. Não obstante ser uma pessoa indiscutivelmente inteligente, empenhada, diligente e dialogante, transformou-se no “cepo das marradas”, quando é credor do nosso máximo espírito de colaboração. Está à beira de um enfarte e, de todo, não o merece, coitado! Senhor Director, quando chegar à triagem, não se esqueça de dizer que a sua dor torácica é mesmo pré-cordeal ou muito severa, caso contrário corre o risco de ser apenas amarelado e morrer antes de ser observado... É que os suores frios, a palidez, a sensação de morte iminente, o sentido clínico (que só os Médicos podem ter), não contam para nada... Mesmo que tenha vómitos evite dizer que a dor é ligeira, ou vai parar aos verdes e aventura-se a esperar horas por um ECG (o que já aconteceu...). Quanto aos doentes com enfarte que apenas tenham dor no membro superior esquerdo, vão para a Ortopedia...
Mas confesso que gostei de conhecer o Senhor Doutor Protocolo, Manchester de apelido. É um pervertido exagerado! Porém, estou agora bem mais convicto que os Médicos portugueses ligados à urgência/emergência conseguiam fazer melhor e adaptar-se às nossas várias realidades hospitalares (sei que o Grupo Português de Triagem está a trabalhar nesses sentido). Também não tenho quaisquer dúvidas que, caso fosse aplicada por Médicos, a esmagadora maioria das limitações e erros da Triagem de Manchester seria de imediato resolvida pelas competências que são específicas da formação Médica. Fica feita a proposta.

Prof. José Manuel Silva
Internista dos HUC; Presidente do Conselho Regional do Centro


http://www.omcentro.com/boletiminformat ... asp?id=434, consultado a 06-Mar-2010

Deixo apenas uma frase, que ilustra, na minha opinião, o objectivo desta "crónica":

Também não tenho quaisquer dúvidas que, caso fosse aplicada por Médicos, a esmagadora maioria das limitações e erros da Triagem de Manchester seria de imediato resolvida pelas competências que são específicas da formação Médica.

E esta, hein?

Offline Ely

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #1 em: Março 06, 2010, 20:05:51 »
Não seria de esperar outra opinião por parte de um médico. Basta ser feita por um Enfermeiro para ser logo alvo de criticas, pois aos olhos deste médico não existem aspectos positivos na triagem de manchester. Na minha opinião esta é a atitude típica das pessoas que acham que sabem muito e na prática só mostram ignorância. Tenho pena que a maioria da classe médica não saiba trabalhar verdadeiramente em equipa multidisciplinar, pois se soube-se os  "erros" seriam minimizados. Infelizmente os senhores doutores é que sabem pois eles é que têm formação para tal!!! :o
"Um dia a lágrima disse ao sorriso: invejo-te porque vives sempre feliz. O sorriso respondeu: enganas-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce da tua dor"       Fernando Pessoa

Offline abc

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #2 em: Março 06, 2010, 22:35:54 »
Que mania essa da "perseguição"... É evidente, e mal seria, se um médico não tivesse uma maior capacidade para descortinar e resolver com mais eficacia problemas relacionados com a triagem de Manchester. De resto essa do não saber trabalhar em equipa, acharem que sabem tudo, é um discurso ja demasiado gasto e que só demonstra complexos de inferioridade.

Offline Johny_a

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #3 em: Março 06, 2010, 23:12:14 »
Oh colega abc...
Fica -lhe um kadito mal essa passagem mas td bem... Inda bem k 4 n tem complexos de inferioridade pah...
Infelizmente ainda há mt complexo kontra a triagem de manchester e o peso que ela dá à enfermagem...
Só mesmo um medico que vive na idade da pedra é que não dá o devido valor a este método de triagem como elemento facilitador do atendimento... Era realmente melhor o metodo do quem chega primeiro é que é atendido...

 O0

Offline Deep

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #4 em: Março 07, 2010, 17:46:50 »
A triagem de Manchester não é perfeita...Nenhuma obra feita pelo homem é perfeita. No entando deverá reconhecer-se o mérito de quem criou este método de triagem que trouxe muitas, muitas vantagens...
Triar por vezes não é fácil... Na minha opinião, nós enfermeiros temos todas as competências para usar a triagem de Manchester (complementando com formação nesta área). Nem tudo que parece é..... Se fosse um médico a triar duvido que fizesse melhor...Afinal também são humanos.

Offline tilacoide

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #5 em: Março 07, 2010, 18:59:02 »
Esta crónica em grande parte reflecte uma posição efectivamente egocêntrista. Embora este Sr. Prof. Dr. tenha razão em algumas falhas que aponta ao STM (Sistema Triagem Manchester) porque efectivamente existem, com este discurso desconsidera o âmbito e o sentido da triagem (que pretende ser rápida, com baixos custos e recursos, baseada na queixa do doente,sinais e sintomas e não com o intuito de diagnóstico médico imediato), desconsidera a dor como um sinal de alarme importante, que segundo vários autores consiste no 5º sinal vital, dando a entender que a dor é um falso indicador para o processo de triagem e só faltava dizer (seguindo o raciocínio) que a dor não deveria constar nos fluxogramas  para acabar com as falsas queixas álgicas que alguns doentes apresentam, penalizando todas as pessoas que manisfestam a dor como um sinal evidente de desequilíbro homeostático, negligenciando ainda o carácter biopsicossocial que esta tem e por fim sugere uma medida que pretende diminuir os Enfermeiros, quanto à sua capacidade técnica e clínica, quando este convive 24h com o doente, habituado a observar e avaliar sinais de doença ou complicações orgânicas, a avaliar as queixas dos doentes e a agir em prol dos mesmos, dentro da sua competência.
Para que se conste, existem estudos que demonstram que o STM deve ser realizado por enfermeiros e que estes estão melhor colocados face às suas competências para desempenhar este cargo. Em segundo lugar, os enfermeiros têm competências para avaliar se a dor é por si só um motivo de prioridade e dar alguma flexibilidade à tal "rigidez" do sistema que o Sr. Prof. Dr. reporta na sua crónica, e incluo a dor, como incluo outros sinais ou situações clínicas, afinal a abordagem holistica deverá ser uma das competências do enfermeiro . E mesmo que os enfermeiros sejam "enganados" por um falso doente perspicaz, que se sirva dos pontos fracos do STM para usá-los em seu favor, existe em todos os sectores enfermeiros que podem assegurar que uma situação efectivamente prioritária seja logo encaminhada para ser avaliada. Em terceiro lugar, este Sr. Prof. Dr. mostra uma posição irrealista quando pretende que o sistema de triagem seja um processo de triagem de prioridades reais quando a este nível de todo o processo assistencial não existem os meios necessários para se chegar a essa conclusão ou garantir a 100% tal facto, quando apenas se pretende que haja uma avaliação com base na sintomatologia e queixas do doente e como este Sr. Prof. Dr. deve saber. existem tantos sinais e sintomas comuns a tantas situações patológicas. Seria perverter o sentido do sistema de triagem e  menosprezar ou deitar ao lixo, um sistema que foi amplamente estudado e creditado para a finalidade que pretende ter. Em quarto lugar e ultimo este Sr. Prof. Dr. tem que perceber que na vida existem boas e más pessoas, bons e maus profissionais e o sistema somos todos nós.

Offline artur

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #6 em: Maio 01, 2010, 00:28:33 »
Este Senhor Professor Doutor não deixa de ter a sua razão. De facto, as instituições hospitalares e agora até as SUB gastaram fortunas de uma forma ridicula na compra dos direitos deste produto e na formação dos profissionais, porque a anterior triagem (que até aí era realizada por clínicos) era infalível, espetacular e cheia de qualidades.
Que mania que nós temos de complicar as coisas....

Offline HMartinho

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #7 em: Junho 12, 2010, 23:37:24 »
Bem antes demais, quero dizer que não sou médico nem enfermeiro, sou apenas um cidadão que quer aqui deixar a sua opinião e que, enquanto li esta crónica deste senhor "doutorzeco" com a mania que é superior aos outros e de nariz empinado, deu-me aqui uma taquicardia, que estava a ver que não conseguia acabar de ler este documento, onde eu  nunca vi tanta barbaridade junta e tanto insulto aos enfermeiros que deveriam de receber o máximo respeito por parte de todos nós, pois enfermeiro= anjo da vida.
Meus "caros" doutores, vocês acham que lá por terem um papel na mão e poderem escrever amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas e por terem estudado 6 anos os torna senhores do mundo e detentores de todo o conhecimento acerca das diversas coisas ligadas à saúde? Bem, nos Estados Unidos os médicos estudam 4 anos na universidade (não 6 como em Portugal) e depois vão estagiar para os hospitais e sabem muito mais que muitos dos nossos médicos portugueses, e pelo menos SABEM RESPEITAR OS ENFERMEIROS, coisa que 99,9 % dos médicos portugueses não o sabem. Vocês por acaso acham que conseguiriam triar melhor do que os enfermeiros? coitadinhos realmente sinceridade e humildade é coisa que vocês caros doutores, estão a anos luz de conseguir atingir! AH é verdade, a pedra que têm no lugar do coração e a ervilha que têm no lugar do cérebro, impossibilita-os de conseguirem atingir tal coisa.
Mas reparem, quem é passa  mais tempo ao lado dos doentes? quem é que reconhece se a terapêutica está a sortir efeito ou a provocar efeitos indesejáveis? Quem é que são os primeiros a reconhecer os sintomas de risco, incluindo a dor, para que caso necessário, avisarem os médicos? AH pois é, são os enfermeiros, logo eles são profissionais mais do que capacitados para realizarem a triagem. Agora médicos, tempo gasto com os doentes ou a acompanhar os doentes=muito pouco, humildade=pontos negativos, sinceridade= ui isso nem se fala ,"o que é isso"? capacidade de autocrítica= "nunca ouvi falar nisso", apatia e desinteresse pelo doente= 100% bem e é melhor ficar por aqui, porque senão ficava aqui a noite toda. O sistema de triagem de Manchester tem falhas? Sim claro que tem, assim como qualquer sistema feito pelo Homem, mas isso não significa que os enfermeiros não sejam capacitados para o fazer, mas também vejamos nos Estados Unidos a triagem é única e exclusivamente realizada por enfermeiros, na Inglaterra igual e quem dera a Portugal ter um sistema de saúde igual à da Inglaterra, no entanto temos de ver uma coisa, nos EUA, um enfermeiro na triagem avalia, faz a anamnese do paciente, avalia e regista sinais vitais, prescreve ECG, hemograma, bioquímica, enzimas cardíacas (entre outras análises clínicas), RX-toráx (entre outros RX), entre outros exames complementares "simples", o que é uma ferramenta importantíssima para saber distinguir uma dor num braço derivado de um problema "ortopédico", de um enfarte, mas cá, se um enfermeiro da triagem prescrever um ECG sem autorização do médico, lá tem o senhor doutor de meia tigela do serviço de urgência à perna, a chatear-lhe o juízo com aquelas balelas que já ninguém tem paciência de ouvir. Vou só deixar aqui um pequeno exemplo: conheci uma senhora que, após começar a sentir vómitos e uma dor forte no peito, dirigiu-se imediatamente ao Hospital, onde a enfª na triagem lhe atribuiu a pulseira laranja e a médica que a atendeu (a minha ex-médica de família) receitou-lhe paracetamol para as dores e deu-lhe alta. No caminho de casa, entrou em paragem cardiorrespiratória, só não morreu porque os bombeiros e a VMER prestaram um atendimento super rápido. Pois é meu "caro" doutor de coimbra que ainda por cima diz que é professor, os médicos não são nenhumas enciclopédias ambulantes, são humanos (alguns, porque outros, até um extraterrestre e  o meu rato de estimação têm melhor personalidade), assim como os enfermeiros também erram, só que o senhor, deve de ter tido um episódio de amnésia enquanto escrevia essa crónica insultuosa perante os conhecimentos técnico-científicos dos enfermeiros, e esqueceu-se de referir a quantidade de pessoas que morrem nas urgências com pulseiras laranjas ou amarelas por esperarem horas a fio que um médico deixe a "converseta" e o cafézinho e se digne a ir consultá-la. Sim, porque eu sempre que vou a um hospital vejo enfermeiros e auxiliares, numa grande correria de um lado para o outro a tratar dos doentes, e os médicos, a "cafeínar" e a conversar no bar do hospital enquanto a sala de espera entope com tantos doentes. AH e por falar em cafeinar e bar, vá lá meus caros doutores, confessem que lá no fundo querem que sejam os enfermeiros a triar, é porque assim é menos trabalho para vocês e mais umas horinhas que podem "cafeínar" e pôr a conversa em dia... De facto deviam de ter vergonha, andam os portugueses a pagar balúrdios de impostos para o estado pagar fortunas aos médicos e estes passarem a vida sem fazer nenhum! Realmente a overdose de cafeína deve de afectar a vossa capacidade de raciocínio e espírito crítico... Ainda bem que no Hospital quem acompanha e quem cuida do doente é o enfermeiro, porque se fosse os médicos, mais de metade dos doentes morriam da cura, ou de tédio (pela enorme apatia e pela falta de humanismo que so médicos demonstram) ou com um choque anafilático (sim porque o egocentrismo espalhado pelos médicos tem propriedades alergénicas).
É por estas atitudes que cada vez mais os médicos demonstram, que eu tenho muito mais confiança num enfermeiro do que num médico, aliás sempre que eu tenho alguma dúvida sobre saúde, eu procuro esclarece-la sempre com um enfermeiro!
Posso também dizer que, numa das vezes que tive internado, vi uma situação que me deixou pensativo: Uma senhora já idosa, veio ao hospital acompanhada pela enfermeira do lar onde se encontrava, e quando a enfermeira lhe disse que tinha que vir embora, a senhora começou a chorar e a gritar bem fundo, a suplicar-lhe que não fosse embora, que não a deixa-se ali porque os médicos iam deixa-la morrer e iam despreza-la num corredor até morrer! É pena é que só os idosos valorizem os enfermeiros. É triste, mas é verdade.
Queria apenas deixar um pequeno conselho ao criador deste tópico, ponha um aviso antes desta crónica insultuosa e nojenta a avisar que o texto é inadequado a cardiopatas, pois os nervos e as crises de ansiedade que a sua leitura provocam, com certeza não é mesmo aconselhado e queria também pedir ao governo que criasse mais uma cadeira nos cursos de medicina: FORMAÇÃO INTENSIVA EM ÉTICA!
Meu acéfalo, apático e mal encarado senhor professor e médico de Coímbra, um dia se precisar de ser internado, só ESPERO que seja tratado por um enfermeiro que o trate com a mesma arrogância e desprezo que o senhor trata os enfermeiros.
Por fim, quero desejar tudo de BOM para os ANJOS DA VIDA (enfermeiros), sim senhores doutores eu estava a referir-me aos enfermeiros e não a vocês, e lutem muito pela vossa profissão, façam greves, paralisem Portugal. Vocês merecem todo o nosso respeito e dignidade. Vocês que muitas vezes trabalham dia e noite para nos ajudar, para nos salvar e muitas vezes nem um simples obrigado ouvem! Enquanto a vocês senhores doutores, bem aconselho-os a fazer outro curso de medicina, a fazerem uma formação INTENSIVA em ÉTICA e no fim de ganharem mais humildade e sinceridade, aí pode ser que eu mude a minha opinião em relação à vossa classe profissional!

Offline LOL_lypop

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #8 em: Junho 13, 2010, 12:35:16 »
Bom dia a todos...
De facto esta crónica é verdadeiramente genial... Fala-se de todos os defeitos o STM - que são factuais e existem, ninguém diz que é perfeito - mas esquece-se um importante detalhe... Sou de Coimbra e trabalho numa Urgência (não a dos HUC), há alguns anos precisei de recorrer aos HUC ainda antes de instituida a triagem de manchester e deparo-me com:
1 - Tempo de espera até ser triada pelo médico: 45min-1h!!!!! (ainda ouvi um "ah mas até teve sorte que isto hoje está com poucos doentes!")
2 - Os bombeiros/cvp/inem, por não poderem ficar todo o tempo de espera até à triagem, deixavam os verbetes (registo da ocorrencia) não passando oralmente a situação - quem trabalha com os verbetes sabe bem como são parcos em informação!
3 - Os processos eram colocados por uma ordem curiosa: uns em cima dos outros até que os que estavam em baixo só passavam para o topo do molho quando se queixavam - como me aconteceu a mim ao fim de 3h de espera!!!
4 - Quem fazia a triagem eram os "jovens médicos" que de ouvir doentes tinham pouca ou nenhuma experiência e que encaminhavam indiferenciadamente para onde lhes diziam para encaminhar (no meu caso, após ser triada o "jovem médico" foi telefonar ao tutor que deu a indicação do encaminhamento demorando na totalidade cerca de 10min - eu vinha referenciada pelo médico de família para dermatologia!!!!) e depois de ser observada pelo 2º médico de urgência fui finalmente encaminhada para o dermatologista...
Da minha prática com STM temos uma média de espera bastante inferior aos 10min (o que não significa que em situações de ruptura não possa chegar aos 30min, mas serão situações que se contam pelos dedos de uma mão em cada ano), temos os doentes passados oralmente pelos bombeiros permitindo conhecer a situação ao pormenor, demoramos menos de 3min a triar, temos s processos informatizados sem que o médico precise de ir ordenar os vários doentes e os enfermeiros fazem formação na área e a experiência ajuda a melhorar o processo gradualmente - ninguém nasce ensinado, nem os srs doutores!
Naturalmente não há um unico turno de triagem em que não tenha que ouvir os berros nervosos (como se gritar desse mais razão!!!) de alguns srs doutores frustrados com o facto de serem os enf a fazer o que muitos anos antes era feito por eles, com evidentes resultados práticos: maior rapidez e eficácia na detecção de casos graves... Vamos esperar que um dia as coisas melhorem e tragam o reconhecimento que há muito merecemos...

Offline Apex cordis

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #9 em: Julho 01, 2010, 21:07:06 »
HMartinho...ainda bem que nem todos os médicos são assim...
mas muitos são... OBRIGADO pela lufada de ar fresco...é sempre bom saber que ainda alguém nos dá valor...

Offline Cl@udi@

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #10 em: Julho 02, 2010, 00:40:33 »
Citação de: hsr
HMartinho...ainda bem que nem todos os médicos são assim...
mas muitos são... OBRIGADO pela lufada de ar fresco...é sempre bom saber que ainda alguém nos dá valor...


Idem!

É por isto que trabalho todos os dias, para que no final haja uma única pessoa capaz de me fazer sentir agradecida por poder ajudá-la e eu chegar ao fim da jornada e dizer para mim mesma: valeu a pena!

Offline HMartinho

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Re: "Crónica" dum médico sobre a triagem de Manchester
« Responder #11 em: Abril 12, 2011, 14:08:44 »
Citação de: "LOL_lypop"
Bom dia a todos...
De facto esta crónica é verdadeiramente genial... Fala-se de todos os defeitos o STM - que são factuais e existem, ninguém diz que é perfeito - mas esquece-se um importante detalhe... Sou de Coimbra e trabalho numa Urgência (não a dos HUC), há alguns anos precisei de recorrer aos HUC ainda antes de instituida a triagem de manchester e deparo-me com:
1 - Tempo de espera até ser triada pelo médico: 45min-1h!!!!! (ainda ouvi um "ah mas até teve sorte que isto hoje está com poucos doentes!")
2 - Os bombeiros/cvp/inem, por não poderem ficar todo o tempo de espera até à triagem, deixavam os verbetes (registo da ocorrencia) não passando oralmente a situação - quem trabalha com os verbetes sabe bem como são parcos em informação!
3 - Os processos eram colocados por uma ordem curiosa: uns em cima dos outros até que os que estavam em baixo só passavam para o topo do molho quando se queixavam - como me aconteceu a mim ao fim de 3h de espera!!!
4 - Quem fazia a triagem eram os "jovens médicos" que de ouvir doentes tinham pouca ou nenhuma experiência e que encaminhavam indiferenciadamente para onde lhes diziam para encaminhar (no meu caso, após ser triada o "jovem médico" foi telefonar ao tutor que deu a indicação do encaminhamento demorando na totalidade cerca de 10min - eu vinha referenciada pelo médico de família para dermatologia!!!!) e depois de ser observada pelo 2º médico de urgência fui finalmente encaminhada para o dermatologista...
Da minha prática com STM temos uma média de espera bastante inferior aos 10min (o que não significa que em situações de ruptura não possa chegar aos 30min, mas serão situações que se contam pelos dedos de uma mão em cada ano), temos os doentes passados oralmente pelos bombeiros permitindo conhecer a situação ao pormenor, demoramos menos de 3min a triar, temos s processos informatizados sem que o médico precise de ir ordenar os vários doentes e os enfermeiros fazem formação na área e a experiência ajuda a melhorar o processo gradualmente - ninguém nasce ensinado, nem os srs doutores!
Naturalmente não há um unico turno de triagem em que não tenha que ouvir os berros nervosos (como se gritar desse mais razão!!!) de alguns srs doutores frustrados com o facto de serem os enf a fazer o que muitos anos antes era feito por eles, com evidentes resultados práticos: maior rapidez e eficácia na detecção de casos graves... Vamos esperar que um dia as coisas melhorem e tragam o reconhecimento que há muito merecemos...

Obviamente que ninguem nasce ensinado. O grande problema e' que os medicos estudam tantos anos para depois perder a boa educaçao. Mas de uma coisa e' certa, eles saiem de la com o mestrado integrado, mas e' mestrado integrado em EGOCENTRISMO!

So que estes pseudo-doutores esquecem-se que 90% das queixas dos utentes por negligencia sao direccionadas aos medicos, os restantes 10% dividem-se pelos auxiliares, enfermeiros e administrativos. E depois os burros e os incompetentes sao os enfermeiros ;D  ;D. Realmente esta classe medica e' um verdadeiro must ;D...

Aos enfermeiros que me agradeceram pelo meu comentario: o agradecimento e' todo meu para a classe de enfermagem. Sou doente cronico, varias vezes recorro aos serviços de urgencia e aquilo que os olhos veem o coraçao sente ;).