Autor Tópico: Triagem em Cuidados de Saúde Primários  (Lida 4525 vezes)

Offline Bruno Batista

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Triagem em Cuidados de Saúde Primários
« em: Novembro 24, 2006, 12:25:58 »
Coloquei este novo tópico, mas não sei se já foi discutido aqui essa questão ou não...

Com os novos modelos de organização dos cuidados de saúde primários, mais precisamente com as USF's, parece ter chegado uma nova Consulta... ao que muitos chamam "Consulta de Orientação Primária", "Consulta de Enfermagem" (que mau uso desta nossa actividade), enfim, vários nomes para o que é de uma forma simples, TRIAGEM...

Qual parece ser o objectivo desta consulta? Encaminhamento correcto dos utentes destas unidades, evitando filas de espera, o congestionamento das consultas médicas, entre tantas outras coisas que, a meu ver, pouco ou nada (aliás, mesmo nada) têm a haver com os cuidados de enfermagem.

As justificações para isto são várias: "Epá a enfermagem assim está na porta de entrada dos cuidados de saúde primários" "Acreditem, isto dá projecção à vossa classe"...

A definição que é dada: "Tipo, consulta de enfermagem de MINUTO, para encaminhar situações que possam ou não necessitar de cuidados médicos"

Alguns poderão pensar "EEEEENNAAA PÁ" e eu digo "Pois é... Tá Mal" (desculpem os Gato Fedorento e a PT por isto)

Primeiro, triagem (ou orientação primária ou outro) em Cuidados de Saúde Primários não tem o mesmo significado que uma TRiagem de Manchester em Urgencias (tb feita por enfermeiros), onde tudo está protocolado e os doentes/utentes ficam em ambiente controlado (ou seja no período máximo de 240 minutos são vistos por um médico ou, caso a situação deum "verde" se agrave, passa a laranja e é visto mais depressa...

Nada disso, a triagem em cuidados de saúde primários passaria ou passa (não conheço outras realidades concretamene mas o "Diz que" tb nos dá uma ideia aproximada) por dizer ao utente que procura oserviço em busca de uma consulta que "Muito bem, vai ser atendido hj (quer pelo médico de família ou por outro" ou "Hoje não é posssível mas amanha tem consulta marcada"..

GRANDE ERRO!!! Diagnosticámos que o caso não é grave para ser visto hoje...

A triagem em Cuidados de Saúde PRimários feito por um enfermeiro não é o mesmo que no meio hospitalar... Não é função do enfermeiro DIAGNOSTICAR que o caso é ou não grave, e MARCAR a consulta do utente para o médico de família...

Exemplo (hipotético): aparece um homem de 45 anos com queixas de "dores de estômago", como a consulta é de "minuto" (ah não referi isto em cima, mas tá implicito no conceito de triagem)... avaliados os sinais vitais e até "está normalzino" mandamos o utente para casa... Tudo muito bonito, ATÉ SE DESCOBRIR UM ENFARTE...

Apesar da minha posição ser contra esta "consulta":

primeiro, não é função de enfermagem efectuar diagnósticos;
segundo, temos mais actividades em carteira que são muito mais prioritárias e com, reais ganhos em saúde;
terceiro, é um grande risco pois pedimos ao utente para casa e voltar noutro dia e depois "FOI O ENFERMEIRO QUE NÃO DEIXOU MARCAR CONSULTA" (que bela desculpa, ahn?)
quarto, temos mais que fazer do que tratar das agendas do médico de família (em consultas de clínica geral)

segundo me constou, já existe ou está mesmo a sair um Parecer da Ordem dos Enfermeiros sobre esta matéria...

Termino a minha exposição dizendo, que há muito mais para se dizer sobre isto e, juntamente com os meus colegas, já discutimos este assunto amplamente e estamos todos de acordo quanto a este tema...
Digo, também, que realmente (como disse em cima) somos a porta de entrada dos serviços, pois a fazermos disto estamos mesmo à entrada a encaminhar os utentes (fazendo uma actividade da responsabilidade médica) e, realmente, dá projecção à nossa classe (pois caso a coisa dê para o torto) somos PROJECTADOS DALI PARA FORA NUM ABRIR E FECHAR DE OLHOS....

Deixo este espaço à discussão para ver outros pontos de vista dos colegas que frequentam este fórum...

Abraço a todos...

Offline Roten_Boy

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Triagem em Cuidados de Saúde Primários
« Responder #1 em: Novembro 25, 2006, 15:20:35 »
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Consulta de enfermagem
A representação social da consulta de enfermagem é positiva e varia conforme os diferentes grupos de participantes, existindo duas representações e atribuição de grau de importância igualmente diferentes no grupo — outros profissionais.

Segundo o Ministério da Saúde (1999), consulta de enfermagem “…é uma actividade autónoma com base em metodologia científica, que permite ao enfermeiro formular um diagnóstico de enfermagem baseado na identificação dos problemas e saúde em geral e de enfermagem em particular, elaborar e realizar plano de cuidados de acordo com o grau de dependência dos utentes em termos de enfermagem, bem como a avaliação dos cuidados prestados e respectiva reformulação das intervenções de enfermagem”.

Muito antes desta data, de um modo informal, e a partir de 1997, de um modo formal e sistemático, os enfermeiros da RAM têm vindo a desenvolver esta actividade quer nos centros de saúde, quer nos domicílios, experiência esta que já aqui, por vezes, fizemos referência.

São disso exemplo, o trabalho recentemente realizado por um grupo de enfermeiros sobre a opinião dos pais face à consulta de enfermagem em saúde infantil, cujos principais resultados foram aqui publicados em 13 de Agosto pp.

Porém, um outro aspecto constituiu preocupação da enfermeira e docente na Escola Superior de Enfermagem S. José de Cluny, Olívia Barcelos. Na sua tese de mestrado procurou conhecer a representação ou imagem social da consulta de enfermagem por parte dos utentes, dos enfermeiros e de outros profissionais de saúde, de um dos centros de saúde do Funchal, assim como analisar alguns dos seus impactos.

Para além de outras questões estruturadas, a autora, através de um teste de associação livre de palavras que tinha como questão básica “quando penso em consulta de enfermagem lembro-me de:” pretendeu responder à seguinte questão orientadora: “que ideias estão associadas ao conceito de consulta de enfermagem?”.

De um modo geral podemos dizer que a representação social da consulta de enfermagem é positiva e varia conforme os diferentes grupos de participantes (40 enfermeiros, 40 utentes e 40 outros profissionais de saúde), existindo duas representações e atribuição de grau de importância igualmente diferentes no grupo — outros profissionais.

A autora observou “uma homogeneidade nas representações dos enfermeiros, a qual emerge quando falam livremente sobre a consulta de enfermagem e que contrasta com a opinião que os mesmos têm sobre a percepção dos outros profissionais”, sendo em regra, julgada por estes membros da equipa de saúde (e pelos utentes) de um modo mais positivo.

A análise dos dados relativos à associação livre de palavras (e até mesmo da análise a outras questões não estruturadas) permitiram à autora concluir que a consulta é vista pelos enfermeiros como sendo um espaço de interacção e de relação de ajuda. Por seu lado, os utentes valorizam mais as actividades nela realizadas. Quanto aos outros profissionais, uns referem-se à consulta como actividade importante e autónoma, enquanto que outros a associam a uma vertente mais instrumental.

No que se refere à importância da consulta de enfermagem, como resultado global, a maioria (80%) dos participantes atribui-lhe elevada cotação. De salientar que, em média, os utentes e os enfermeiros conferem-lhe o mesmo grau de importância, enquanto que outros profissionais, embora de modo heterogéneo, a consideram menos importante, quando comparado a estes dois grupos.

Como refere a autora em determinado momento do seu estudo, interessante é observar que com um grupo de outros profissionais a situação é contrária à dos enfermeiros e utentes. A forma como visualizam a consulta é menos abonatória do que a opinião que pensam (e sabem) que os outros (incluindo os utentes) têm, questionando a autora sobre o que os levará a responder desta forma.

Contudo, importa igualmente referir que ambos os grupos de profissionais (os utentes não foram auscultados nesta questão) foram de opinião que, não obstante a existência de aspectos a melhorar, a implementação da consulta de enfermagem modificou, favoravelmente, o atendimento ao utente.

E para ficarmos com uma ideia do volume desta actividade neste centro de saúde, no ano de realização deste estudo (2004) foram efectuadas 65 431 consultas de enfermagem.

ÉLVIO H. DE JESUS
Enfermeiro

in Jornal da Madeira



Será que esta visão positiva irá mudar com Triagem em Cuidados de Saúde Primários  ?

Foi feito algum estudo que considere este "sistema", se é que se lhe pode chamar isso, seja viável?


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Offline Oriety

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Triagem em Cuidados de Saúde Primários
« Responder #2 em: Novembro 25, 2006, 15:50:33 »
Bem, eu partilho da mesma opinião, estou em estágio de cuidados de saúde primários e simplesmente acho a suposta "triagem" demasiado relativa.

Já me deparei muitas vezes com situações em que não tinha a certeza dos pontos a assinalar, aliás na maior parte das vezes prefiro descrever a situação em vez de assinalar aqueles pontos, excepto raras excepções.

Sei que sou uma leiga, mas sinceramente a triagem da forma como é feita nos cuidados de saúde primários não está bem aplicada, se calhar se fosse executada doutra forma talvez fizesse mais sentido.

Nós já estamos pouco na berlinda, então agora...  :roll:

Offline Bruno Batista

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Triagem em Cuidados de Saúde Primários
« Responder #3 em: Dezembro 05, 2006, 11:09:20 »
Ora aí está... berlinda!!!! bem aplicado... A questão é essa mesmo, não sendo essa a intenção (digo eu) de quem propoe este sistema, é nessa posição que nos colocamos (quem aceitar, claro)...

Como disse na minha intervenção anterior, não estamos  a falar de um sistema de triagem de manchester em que tudo está protocolado, parametrizado e que o doente fica em ambiente controlado após a triagem... estamos a falar da possibilidade de mandar para casa uma pessoa que procura o médico...

A outra forma, a meu ver, passa por ser o próprio médico a fazer a triagem da sua consulta... é este profissional que conhece os seus utentes, que sabe que patologias lhes estão associadas e de que formaé que vai lidar com eles...e, claro, deve ser ele a fazer o diagnóstico médico (clínico)...

Como refere aquele artigo do enfermeiro Jesus, o Ministério da Saúde define claramente consulta de enfermagem... A triagem não é uma consulta de enfermagem...

Abraço

Offline manuela castro

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Re: Triagem em Cuidados de Saúde Primários
« Responder #4 em: Fevereiro 24, 2011, 19:31:13 »
Lamento informar os colegas que iniciaram este tópico que em fev. 2011,  ainda está- agora mais que anteriormente- actualizadissimo.
Ainda agravou devido  a encerramento de SAP/SASU e similares . Nos momentos em que a consulta aberta médica está sem médico, ou seja CA fechada... até os administrativos "empurram " para os enfermeiros.
Pena que os enfermeiros não são unidos e dão consecutivamente tiros nos pés, em vez de realizarem verdadeiras consultas de enfermagem.Ao que chegamos...ó Florence Nightingale alumia-nos, principalmente aos que mais precisam.
A imagem da enfermagem precisa de ser mudada para um foco de iluminação como existem nos campos de futebol.