Autor Tópico: Corporativismo da Classe de Enfermagem....  (Lida 6707 vezes)

Offline Guytonn

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Corporativismo da Classe de Enfermagem....
« Responder #15 em: Fevereiro 12, 2005, 14:05:06 »
A enfermagem não é corporativista. Assiste-se diariamente a provas dessa constatação.Infelizmente. Muitos de nós teimam em denegrir a imagem do colega perante os demais e por vezes perante os doentes, numa competição primária e ignóbil. Ignoramos conscientemente o valor demonstrado por  colegas nossos numa primária atitude de defesa do nosso "ego" e bajulamos os médicos com posturas que roçam o servilismo. Falamos  na primeira pessoa sempre que aludimos a algo positivo relativo a feitos de enfermagem e nunca no plural. A defesa da classe é um ónus de cada um de nós, pois mesmo  as nossas qualidades individuais como profissionais apenas são visíveis integradas num conjunto onde todos participamos! TAl como uma gota de água que ao cair no oceano não se perde mas se mostra na sua grandeza! O enfermeiro apenas é competente se trabalhar em equipa. O futuro de cada um denós depende do futuro da enfermagem enquanto organismo colectivo. Os médicos, advogados, engenheiros já perceberam isso. Gozam de um inabalável prestígio na sociedade. E não nos podemos furtar à necessidade premente de alcançar-mos um nível de prestígio concordante com o valor das nossas acções. Diexemos a filosofia de "Zorro" para trás...não podemos actuar por detrás de uma máscara, ocultanto a identidade de feitos meritórios, pois alguém acaba sempre por nos usurpar os louros.
PRESENTE É SIMULTÂNEAMENTE O EPÍLOGO DO PASSADO E O PRÓLOGO DO FUTURO.

Offline Miguellopes

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Corporativismo da Classe de Enfermagem....
« Responder #16 em: Abril 13, 2005, 22:31:59 »
Muito se disse aqui acerca do corporativismo, bem e mal. Uma coisa é certa, o corporativismo é necessário a qualquer classe, porque o próprio termo classe implica uma corporação! E a enfermagem poderia alcançar outros objectivos que tanto anseio que fossemos mais unidos numa grande corporação de enfermeiros!!

Offline pedrojosesilva

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Sobre as bases para um Discurso Não Coorporativista
« Responder #17 em: Abril 14, 2005, 10:47:15 »
Sermos unidos não implica que apenas olhemos para o nosso umbigo.

Defender o Coorporativismo de classe não pode ser visto como uma atitude circunscrita pois ela aponta para um certo modelo de Sociedade.

O corporativismo é uma atitude politica, cujo melhor exemplo foi a Assambleia Nacional durante o Estado Novo. Como sabem apenas havia um partido politico, a representatividade da Assambleia residia em Corporações que defendiam os interesses de classe, por exmplo o patronato, mas não só, também outros sectores desde que não fossem incómodos ao regime, por exemplo alguns académicos, etc...

Em termos simples podem existir coorporações com maior ou menor grau de coorporativismo, sendo que este último conceito pode-se remeter à defesa daquilo que é melhor para um grupo restricto esquecendo inclusive todo o contexto social envolvente.

A Sistema democrático tem que lidar com o Bem Comum e os Interesses Privados (ou seja de grupos de interesse especiais). A Enfermagem tem interesses especificos que não deveria defender sem os inscrever numa lógica de dialogo com os restantes parceiros da saúde e do Bem Comum.

Numa Sociedade assente no liberalismo utopico, os interesses privados são suficientes para sustentar a Sociedade, o Estado é minimo. O Bem Comum é implicito á satisfação das necessidade particulares. Alguém fica de fora deste tipo de sociedade? Sim, fica de forma aqueles que não têm posição para influênciar a tomada de decidão, nomeadamente populãções idosas, populações em risco por situações de pobreza. Quem vence? Os Coorporativistas.

Mas por quanto tempo? vejam a instabilidade social em países da America Latina (Venezuela, Argentina, Brasil, etc..) onde os regimes chamados democráticos foram extremamente coorporativistas, ou na Rusia (onde o regime comunista foi praticamente o tipo-ideal do Estado Coorporativista) em comparação com os países nordicos (que se orgulham de ser estados socialistas fortes na sociedade de mercado), muito mais estaveis socialmete que as locomotivas economicas do Mundo (Estados Unidos, França, Inglaterra, etc...).

De que vale andar de Mercedez se podem matar o meu filho para lhe roubar os tenis? Se o odio cresce da parte da "Coorporação dos Excluídos"? Que tipo de Sociedade queremos para nós? Até quando teremos rede por baixo de nós (leia-se a Europa). Eu já vivi na America Latina (Venezuela), sei aquilo que não quero para mim e para os filhos que ainda não tenho. Enquanto enfermeiro gostaria que a minha classe profissional tivesse uma visão para além do seu próprio nariz. Não tenho nenhum cartão laranja, vermelho ou rosa, nem sou sindicalizado, e acredito que qualquer que seja o nosso posicionamento politico, a maior parte de nós, enfermeiros, temos uma sensibilidade especial comum para além da Esquerda, do Centro e da Direita.

Por onde começar?

Começar pela Consolidação de um Discurso de Proximidade para com as Populações

Deveriamos difundir a ideia de que "A Enfermagem faz bem à Saúde", em vez de dizer "nós também queremos o que os outro têm"..."Nós também queremos o que os médicos têm".

O mimetismo não nós leva a lado nenhum, porque temos um campo profissional vasto a explorar (que outras classes têm negligenciado ou não estão vocacionadas para desenvolver) nomeadamente ao nível comunitário (saúde escolar/vacinação, assistência á terceira idade, cuidados ao domicilio, aconselhamento familiar, apoio á adolescência, sexualidade, etc...) e que temos de legitimar através de um Discurso de Proximidade que as populações entendam e que não é compativel com a defesa única dos interesses particulares (é isso que significa coorporativismo)

Pode-se dizer que em Portugal actualmente, ainda temos reminiscências desse Estado Coorporativista que existia antes do 25 de Abril, algumas instituições (por exemplo no coorporativismo partidário conhecido como "Jobs for the Boys") e sobretudo esse discurso de que devemos ser coorporativistas para ascendermos socialmente enquanto classe.

Acho uma visão redutora que cai no facilitismo, pois a visão que os portugueses têm da Enfermagem pode mudar para algo parecido com a que eles têm dos médicos em geral, que é que os médicos se defendem uns aos outros mesmo que não tenham razão, que só olham para o seu umbigo, que a Ordem dos Médicos mas se parece a uma organização mafiosa que se movimenta nos bastidores com imensos tentaculos que influenciam a decisão politica para as reformas necessarias no âmbito da saúde não sejam levadas a cabo quando colidem com os interesses da classe.

Penso que devemos colocar a palavra Coorporativismo bem longe do discurso da nossa classe, não é uma questão de semântica mas sim uma questão de acção politica onde a Ordem dos Enfermeiros, os Sindicatos, as Direcções de Enfermagem e todos aqueles que têm o poder de difundir um Discurso da Classe podem ter uma atitude responsável, NÃO COORPORATIVISTA, que coloque o dedo na ferida no que toca às questões críticas do nosso Sistema Nacional de Saúde.

Na minha opinião não devemos fechar a nossa classe profissional em si mesma, devemos dialogar com os nossos parceiros na saúde nomeadamente as associações de utentes e o poder politico.

Temos um trunfo que podemos jogar no campo Não Coorporativista, é que o nosso maior desafio enquanto classe aponta para a promoção saúde e prevenção da doença no campo da Comunidade, logo é aí que podemos dar um grande contributo.

Como sabem neste momento muitos de nós somos Licenciados que não estão equiparados na carreira da função pública. Ganhamos ainda como bachareis.

Uma das questões que em breve se poderá discutir é a nossa reinvindicação pela equiparação salarial. Temos duas maneiras de fazer isto, pela via Coorporativista, exigir o que temos direito (em comparação com o salario base de qualquer outro Técnico Superior da Função Pública) sem ter em atenção se existe ou não verba no Orçamento de Estado para suportar o aumento salarial em mais de 20% numa classe profissional que é a maior em termos de efectivos no campo da saúde; ou então tentamos negociar de forma responsável um papel de destaque na gestão dos planos de saúde às populações, onde o enfermeiro tenha incentivos sistematicos para os ganhos em saúde constatados, onde não volte a existir contratos vergonhosos que colocam os novos contratados a ganhar abaixo do salário base da carreira de enfermagem pelo mesmo ou mais número de horas de trabalho.

Acho que qualquer enfermeiro com alguns anos de prática da-se conta que a classe está sub-aproveitrada para o potencial que tem hoje em dia.

Se temos a certeza de que temos uma palavra a dizer no que respeita à saúde das populações, e se temos a certeza que poderiamos melhorar a produtividade dos serviços prestados, da assistência proporcionada, e o incremento da participação com apoio mas também responsabilização directa do utente/familia nos seus cuidados de saúde, então acho que deveriamos assumir o risco enquanto classe profissional, abdicar do grosso do aumento salarial a que teriamos direito em troca de uma papel de destaque na gestão do sistema e maiores incentivos (financeiros e de condições de trabalho) para o profissional/equipe em função dos ganhos efectivos em saúde.

Este discurso, aliado a medidas concretas de aumento do contacto directo com os utentes, melhores condições nos cuidados continuados e domiciliarios, no apoio á saúde escolar, á terceira idade, fazem mais pelo nosso prestigio enquanto classe do que a visão redutora do coorporativismo fácil que pouco legitima as nossas intenções de querer o melhor para a saúde dos portugueses.

Lembrem-se que dificilmente o Sistema Nacional de Saúde será um sistema eficaz e eficiente se não tiver uma Enfermagem Forte.

Praticamente só falo do Sistema Nacional de Saúde porque o investimento privado neste campo tem regras ligadas à taxa de lucro possivel e nesse campo a Enfermagem é vista na maior parte dos casos apenas como um instrumento necessário para manutenção da instituição e não como uma mais-valia que chama a si o cliente. Numa clínica privada raramente se realça o papel da Enfermagem mas sim  o nome dos cirurgiões que ai operam.

A sáude no privado é uma saúde pontual, é um serviço localizado no tempo, sujeito às regras da rentabilização de gastos, que por vezes colidem com os direitos do consumidor. O utente torna-se consumidor de saúde, individuo particular, e quando o enfermeiro no regime liberal concorre também para o lucro, existindo por isso tabelas próprias para o exercicio liberal que define os preços praticados em função de cada acto de enfermagem isolado (algaliação, penso pequeno, penso médio, penso grande, injectável, colocação de soro IV, etc) fica excluido o papel social da profissão.

Queremos ter préstigio para poder cobrar 25 euros ou mais por uma consulta de Enfermagem (não estou a dizer que não pudesse ser, existem profissionais de outras áreas que levam duas a três vezes mais sem ter um olhar de classe profissional que tenha em conta quanto ganha em média um portugués trabalhador, afinal há ou não possibilidades de saúde para todos?); ou queremos ter prestigio para ter um papel de destaque da gestão e tomada de decisão politica ao nível dos cuidados à comunidade.

Os Marxistas têm a tendência de reduzir os constrangimentos sociais a questões económicas, normalmente o discurso Coorporativista insere-se nesta categoria, acaba por ser Ideologia. Devemos evoluir para uma visão crítica apoiada num Discurso mais sofisticado para além de uma determinante económica.

Acho que devemos ultrapassar a visão Coorporativista que lançou Portugal para o atrasso social com o Estado Novo e do qual já recuperamos substancialmente mas não totalmente ao ponto de nos incluirmos entre os níveis de desenvolvimento dos países do centro da Europea, mesmo com todos os quadros de apoio que deveriam ter financiado o "Grande Salto".

Somos uma classe profissional que pretende maior destaque e ascenção, logo podemos encetar uma luta de classes assente no Coorporativismo, ou então ir buscar as populações para o nosso lado e demonstrar que nem só o económico é determinante para o prestigio. É uma atitude politica, dá qual poderemos obter mais-valias sociais e culturais.

Embora o nosso Estado seja cada vez mais Capitalista, é cada vez mais evidente que o sistema necessita de estabilidade e da satisfação do cidadão para que possa continuar no sentido de um Estado prestador de serviços, serviços de saúde de qualidade, e isso só é possivel com uma maior intervenção comunitária onde o potencial da Enfermagem tem hoje em dia a mesma visibilidade que a ponta de um Iceberg.

Não deixo de lado uma "Terceira Via para a Enfermagem", que inclua parcerias público-privadas PPP, mas onde o coorporativismo tem que ser colocado definiticamente de lado, para que a transparência da escolha dos parceiros privados (que podem ser empresas da responsabilidade de enfermeiros, corporações/associações de enfermeiros com outros profissionais, unidos por uma filosofia de prestação de serviços de qualidade e não apenas pelo maior lucro pelo menos investimento), o aumento da inovação em gestão de planos de saúde seja destinada para os melhores e mais motivados (enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, dietistas, farmacéuticos, professores, etc) e não para os "senhores do costume", que também os temos no meio de nós.

Mais Enfermagem, melhor saúde. Não podemos assumir o risco de perder a legitimidade perante os nossos concidadãos, há outros riscos mais bem proveitosos para assumir  :!:

Offline ruienf

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Corporativismo da Classe de Enfermagem....
« Responder #18 em: Abril 20, 2005, 00:51:24 »
Aconselho VIVAMENTE que leiam a mensagem anterior! Não se assustem com o tamanho; o seu valor de conteúdo é muito superior à quantidade de palavras e vale bem o esforço!

Parabéns, Pedro!!! Está simplesmente excelente!!!
Rui Pedro Silva

Offline Herodes

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Re: Corporativismo da Classe de Enfermagem....
« Responder #19 em: Setembro 13, 2009, 00:08:25 »
O corporativismo talvez não seja a solução para uma plenitude no atendimento em matéria de cuidados de saúde.
Mas discursos demasiadamente filosóficos sem tradução naquilo que é ralidade dos serviços de saúde, pode não passar de pura ilusão.
A menos que ainda estejamos numa fase embrionária desse pensamento filosófico, e os seus efeitos ainda estejam para acontecer...