Autor Tópico: Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção  (Lida 3388 vezes)

Offline pedrojosesilva

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« em: Fevereiro 12, 2005, 12:56:37 »
Neste momento estou a fazer uma reflexão para a disciplina de Investigação-Acção, e deparei-me com um texto de Philippe Perrenoud que me remete para aquela discusão da dicotomia dos peritos e os práticos que surgiu no tópico sobre as Jornadas de Sistemas de Informação do São João. Fica aqui uns excertos do texto:


Citar
Philippe Perrenoud (em “Monseur Jourdain e a Investigação-Acção”, texto da colectânea) formula a hipótese de “a investigação-acção é um modelo cultural que pertence em primeiro lugar à sub-cultura profissional a que pertençam os investigadores” mas pode facilmente aplicar-se aos práticos (professores, enfermeiros, sindicatos, etc…) e “uma vez interiorizado, este modelo pode também permitir aos práticos dar um sentido suplementar à sua cooperação com os investigadores, percebendo que para lá das mudanças com que eles trabalham prioritariamente aos fins pragmáticos ou ideológicos, contribuem para um conhecimento utilizável noutras situações por eles próprios ou por outros” (Perrenoud,  pág. 2).
O mesmo Perrenoud refere, “nalgumas profissões, o debate sobre as ligações entre teoria e prática não deixam indiferentes, mesmo se é colocado noutros termos, por exemplo no campo médico, entre médicos e enfermeiros. Enfim, na medida em que há cooperação desejada de ambas as partes, os “práticos” podem perfeitamente compreender que a definição da cooperação em termos de investigação-acção importa aos investigadores, mesmo se ela não é muito significativa para eles”…"se as investigações-acções se multiplicarem e se difundirem para lá das publicações estritamente cientificas, pode que venha a ser um modelo cultural para lá do circuito dos investigadores que estiverem disponíveis. É possível pois que a investigação-acção se venha a designar uma forma de acção colectiva e não apenas uma forma de investigação que se encontra numa rua da cidade cientifica”.



PERRENOUD, Philippe (1981). “Monseur Jourdain et la recherche-action”. Geneve: Service de la recherche sociologique

Offline Cruela

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #1 em: Fevereiro 22, 2005, 17:54:27 »
Pedro: :wink:
Desculpa a pergunta, mas aquilo que pretendes  desenvolver é a dicotomia teóricos/práticos?
Não percebi bem o sentido da tua mensagem... :?

Offline pedrojosesilva

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #2 em: Fevereiro 22, 2005, 18:41:47 »
@Cruela


Fico contente em te ver por estas paragens ;)
Exactamente o que pretendo desenvolver é a dicotomia entre peritos e os práticos.
Os peritos pela sua definição podem ser enfermeiros que podem estar tanto nas Escolas como nas Instituições prestadoras de cudados.
A questão é saber se a definição de perito é um termo que dá jeito para que os investigadores das Escolas se libertem do epiteto de "teoricos", sobretudo numa altura em que esse epiteto se tornou perjorativo e algumas Escolas olham para os serviços prestadores de cuidados como um campo de intervenção no âmbito da investigação-acção.

Será que existe uma cultura de investigação nos serviços de saúde?

Na investigação-acção há uma coisa fundamental que se chama "Investigador-colectivo", onde o papel do perito tendencialmente se deve diluir. É esse o designio fundamental da Investigação-acção, agir sobre os contextos sociais pondo em evidencia as relações de poder.

O que acontece é que neste momento a Investigação obedece a um contrato celebrado entre "unidades de investigação" de algumas ESEnf(s) e os serviços implicados.


Cruela a pergunta é uma provocação(eu sei que tu estás em posição de ter uma opinião formada sobre isto ;)):

Qual o papel de cada um dos enfermeiros do serviço na determinação dos objectivos do processo de investigação?

Na minha opinião, um processo de investigação-acção passa muito por criar um metodo que inclua os enfermeiros do serviço a decidir-se quanto ao que querem em termos de mudanças, sob pena destas não terem a adesão desejada por falta do tal modelo cultural da investigação-acção. Por outro lado a fraca adesão dos enfermeiros do serviço pode significar que estes estão a ser instrumentalizados pelos investigadores, ou seja pelos "peritos de origem academica".

Offline PhuGee

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #3 em: Fevereiro 22, 2005, 22:40:04 »
Se bem percebi a tua questão/dúvida, o que tu pretendes afirmar é que existe uma clara separação entre aqules que investigam e aqueles que praticam a enfermagem...

Com a minha pouca experiência, creio que esse é um dos problemas que neste momento coloca alguns entraves a um melhor desenvolvimento da nossa profissão.
De facto isto é uma problema real, mas para o qual as soluções não abundam e são de dificil execução.

Uma das soluções, passa pelo estabelecimento de acordos com as administrações dos Hospitais para que estas permitam aos seus funcionários a realização de estudos que permitam uma melhoria dos cuidados. No entanto parece-me que esta hipótese não é muito viável...

Offline Karlwork31

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #4 em: Fevereiro 23, 2005, 10:52:46 »
Olá Pedro,

Não sei se existe realmente uma dicotomia... Para que existisse, era necessário que os dois polos tivessem e ideias e posições contrárias...

O perito, se tivermos em conta a abordagem da Patricia Benner, tem o seu exercício baseado na prática, mas apoia-se na teoria para o fazer.  Os peritos não se reduzem aos enfermeiros de uma escola, os chamados "teóricos" na gíria hospitalar... Peritos são todos aqueles, que no seu dia a dia, tomam decisões díficeis, baseadas na compreensão dos seus objectivos.

Os chamados práticos, muitas vezes também são peritos (apesar de não se verem como tal...). Agora é importante diferenciar entre estes enfermeiros e os que são "escravos" das rotinas. Penso que os peritos do exercício tem mais em comum com os seus colegas das escolas, do que com os outros.

Um colega meu, de uma forma fundamentalista, diria "uns são enfermeiros, outros não sei o que são...". Cada vez mais penso como ele...

Offline Paulo

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Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #5 em: Fevereiro 25, 2005, 20:09:07 »
Concordo com o teu pensamento, mas se assim é temos poucos enfermeiros!
Em relação á investigação ser subsidiada pela administração, penso que é o caminho.
Aliás tudo é assim porque não á um espirito de inovação nos enfermeiros,  nos serviços e nas administrações.  O mesmo se passa com a dita avaliação de desempenho. Eu ainga gostava de saber como se pode fazer uma avaliação correcta sem que sejam traçados objectivos bem definidos e quantificáveis e sem estes serem do conhecimento dos avaliados Mais sem reuniões sem discussão como pode existir melhoria.
Na ultima reunião de serviço no final do plano de férias e quando já se estava a fazer o dito encerramento, chamei a atenção de todos os colegas para algumas questões de veras importantes para o bom funcionamento do serviço, embora todos tenham concordado no interesse da matéria a questão era o tempo que não existia para tal discussão.
Aguardo nova reunião para logo de inicio abordar as questões...

Um abraço,
Paulo
Paulo

Vamos trabalhar para uma enfermagem melhor, não se limitem a fazer bem, façam cada dia melhor!

Offline Herodes

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Re: Os Peritos, os Práticos e a Investigação-Acção
« Responder #6 em: Setembro 12, 2009, 23:30:36 »
A ideia de que os peritos são uns seres completamente diferentes dos que praticam e dos que investigam, faz-me uma enorme confusão.
Já pensaram se num serviço, os seus elementos se dedicassem à investigação com regularidade? E se entre eles houvesse partilha de horas em termos de formação ao nível de uma escola de enfermagem?
A ideia não é pôr todos a fazer um pouco de tudo. É muito mais do que isso. É dar uma dinâmica às instituições de saúde de forma a que a investigação esteja intimamente ligada à realidade prática, e que essa mesma prática esteja solidamente representada ao nível das escolas.