Autor Tópico: Algaliação /Urocultura  (Lida 7347 vezes)

Offline superpeixao

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Algaliação /Urocultura
« em: Setembro 05, 2011, 14:06:43 »
Colegas

Da vossa experiência como proceder em situações de utentes crónicos algaliados, com urina asseptica contaminada?
Não tenho nada escrito mas alguns urologistas dizem pra se mudar mensalmente algalias de silicone, minimizando acumulo de sedimento na parte distal da algalia. Outros pelo contrario são contra pois algaliar é invadir e promover reinfecção.
Entretanto claro está que quando a infecção é sintomatica o AB terá o seu significado. Mas por vezes não é, e nem com aumento de aporte hidrico se consegue resolver.
E o que acham de mudar a algalia com uma urocultura recente indicando infecção? Já ouvi de tudo....
Se tiverem algo escrito sff enviem. Colegas a trabalhar em urologia qual a vossa prática?
Obrigado
Abraço :)

Offline aNdR3

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Re: Algaliação /Urocultura
« Responder #1 em: Setembro 05, 2011, 19:12:55 »
Olá superpeixao,

Se tens presente uma infecção urinária, esta não pode estar asséptica logo desde um princípio, agora existe flora mais comum a nível vaginal que pode ser introduzida pela uretra e tracto urinário, que mesmo numa amostra contaminada se pode determinar se se trata de flora habitual a nível da área ou não, casos como, E. Coli, C. Albicans, MRSA, Proteus, etc.

Na minha opinião se suspeitas de uma infecção urinária ou há sinais/sintomas disso, clampa a sonda vesical umas 2h (depende também da carga hídrica da paciente), retira o clamp e descarta 20-30ml +/- de urina e então recolhe a amostra para cultura de urina. Nesta rejeição inicial tenta-se desperdiçar eventuais resíduos/depósitos que possam acumular na base da bexiga por deposição ao existir estase urinária na mesma, assim como restos orgânicos, epiteliais, etc., que possam dar em falsos positivos.

Outra alternativa que tens é no caso de teres uma algália com janela de borracha que serve exactamente para puncionar com agulha e seringa e retirar uma amostra "estéril" depois da assepsia local antes da punção.

A literatura tem mudado bastante, mas salvo erro, uma látex (Folley) teria durabilidade de uma semana, uma silicone um mês a 3 meses, poliuretano 3 meses a mais. Infelizmente faz depender muito também os recursos materiais que tenhas na instituição onde trabalhas =/


Com respeito ao que dizias do ATB a administrar, para ser mais fidedigno terias que esperar um mínimo de 48h para obter o resultado da cultura e uma vez o antibiograma, o médico seleccionar o ATB mais indicado, sobretudo no caso de organismos resistentes se existir a possibilidade. No entanto a nível de ITUs é muito comum Ciprofloxacina, Tobramicina, Nitrofurantoína, penso que são as mais comuns.

A mudança da sonda vesical depende dos recursos materiais que tens, a condição da paciente, o estado de saúde, as contra-indicações, factores agravantes, factores de risco, etc., tu mesma terás o critério de quando deverás mudar a mesma. Existem guidelines e estudos, mas às vezes há que saltá-las.

Espero ter ajudado, qualquer erro da minha parte que algum colega mais experiente possa corrigir e acrescentar, eu mesmo agradeço também;)

Abraço
[size=80]Quem atribui à crise os seus fracassos e penurias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a negligência para encontrar as saídas e as soluções. Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há méritos. É na crise que surge o melhor de cada um, porque sem crise todo o vento é uma carícia. Falar da crise é promove-la e calar-se na crise é exaltar o conformismo. Em vez disto, trabalhemos duro, acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar por superá-la.

Não pretendamos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo.
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Offline superpeixao

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Re: Algaliação /Urocultura
« Responder #2 em: Setembro 06, 2011, 09:36:15 »
Muito obrigado pela sua partilha  :)

Offline Boiler

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Re: Algaliação /Urocultura
« Responder #3 em: Setembro 06, 2011, 18:26:37 »
Fica aqui uma norma da DGS acerca de infecções urinárias e os tratamentos a implementar.

Cumprimentos
"What is the most resilient parasite? A bacteria? A virus? An intestinal worm? ...An idea. Resilient, highly contagious. Once an idea has taken hold of the brain it's almost impossible to irradicate. An idea that is fully formed, fully understood. That sticks, right in there somewhere."

Offline superpeixao

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Re: Algaliação /Urocultura
« Responder #4 em: Setembro 07, 2011, 13:42:02 »
Obrigado Boiler
Abraço :)

Offline nrgv

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Re: Algaliação /Urocultura
« Responder #5 em: Outubro 25, 2011, 11:45:50 »
Olá superpeixao.
Relativamente à questão colocada, gostaria de emitir algumas considerações:
1º O principal risco de ITU associado ao Cateter vesical prende-se com a duração da cateterização, isto deve-se ao facto de um cateter vesical ficar colonizado ao fim de 24 a 48 horas de permanência no tracto urinário, através do processo de formação de biofilmes.
2º A colonização precede a infecção, logo quanto maior for o periodo de cateterização, o risco de itu aumenta de forma significativa.
3º O doente com CV crónica, dificilmente obterá uma urocultura negativa, o que não quer traduzir de forma imediata infecção.
4º Está recomendado que a colheita de urocultura em doente com cv cronica para ser eficaz, implica colheita asseptica de nova algalia.
5º Outra recomendação é que não se deve proceder a mudança de cateter vesical  por rotina, devemos sempre respeitar as indicações do fabricante e as características intrínsecas do doente. Um CV de silicone poderá permanecer 3 meses num doente e noutro ficar obstruído ao fim de 15 dias.
6º A clampagem do CV esta contra indicado, pois potencia a estase de urina no lumen interno do cateter, potenciando a contaminação da amostra e favorecendo a migração de microrganismos para o interior da bexiga.
7º Nunca efectuar colheita do saco/tubuladura do sistema de drenagem.
Um abraço