Autor Tópico: Os idosos e o crime  (Lida 1518 vezes)

Offline enfsergio

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Os idosos e o crime
« em: Dezembro 10, 2009, 23:05:28 »
35% dos idosos presos foram condenados por homicídio

Há 181 reclusos com mais de 65 anos nas cadeias portuguesas. Grande parte não tem antecedentes criminais e foi na velhice que cometeu o primeiro crime. Os psicólogos defendem que os idosos deviam ser penalizados de outra forma

A maior parte dos reclusos idosos nas cadeias portuguesas não tem antecedentes criminais e cometeu o primeiro crime já na velhice. Cerca de 35% foram condenados a penas superiores a 12 anos pelos crimes mais graves, como homicídio consumado e tentado.

Segundo a Direcção Geral dos Serviços Prisionais (DGSP), em Junho, as cadeias portuguesas contavam com 181 reclusos com mais de 65 anos, doze dos quais mulheres. Apenas 19 aguardavam julgamento em prisão preventiva. "Quando não há antecedentes criminais, o que se pode explorar em primeira mão é se há uma doença mental grave do tipo degenerativo que faça com que o idoso perca a noção da realidade", diz o psicólogo criminal Rui Abrunhosa.

Do total de reclusos condenados, 57 cumprem penas superiores a 12 anos, o que significa que mataram ou feriram gravemente alguém. Apenas duas mulheres cumprem penas tão pesadas, porque a maioria das idosas foi condenada por tráfico de droga.

Fonte da PJ explicou ao DN que, na maior parte dos casos, estão em causa questões familiares. "Seja num quadro de violência doméstica, seja por questões de partilhas de terrenos. E muitas vezes motivados pelo vício do álcool", explica. Depois há desavenças entre vizinhos que acabam em morte. A mesma fonte recorda uma mulher que aos 72 anos matou o marido à paulada, na zona de Santarém. Estava cansada de ser vítima de violência doméstica.

À PJ a mulher ainda tentou alegar, em 2002, que o marido tinha sido vítima de assaltantes. Mas o sangue na roupa denunciou-a. Assim que a PJ a deixou nos calabouços da PSP, a idosa - que nunca ofereceu resistência - fez questão de se despedir do inspector com dois beijos na face.

O caso que mais surpreendeu o presidente do Sindicato Nacional de Guardas Prisionais, Jorge Alves, foi o de um idoso que por causa de uma briga relacionada com o curso de água, agarrou na enxada e atingiu o vizinho na cabeça. O acto tresloucado valeu-lhe a condenação.

"Normalmente os idosos que têm autonomia têm um comportamento exemplar na prisão. Gostam de estar no quarto a ler ou a ver televisão, cumprem os horários", descreve Jorge Alves ao DN o presidente do Sindicato Nacional de Guardas Prisionais. Apesar de uma pequena percentagem ter ocupações profissionais, em trabalhos agrícolas ou de carpintaria, a maior parte acaba por adoecer, ou ser presa já doente, e passar o período de reclusão internada na enfermaria.

Uma pequena parte dos idosos presos tem já um vasto currículo na vida do crime. Uma outra fonte da PJ lembra que os únicos homens com mais de 65 anos que deteve ao longo da carreira eram barões no mundo do tráfico de droga. "Já tinham cumprido pena, saíram e voltaram. Não são reabilitáveis", considera. No crime de roubo, raramente se apanha um idoso.

As estatísticas dos Serviços Prisionais mostram que a população reclusa diminuiu nos últimos três anos. Em 2008 havia mais doze reclusos idosos do que actualmente e em 2007 mais 23. Jorge Alves já conheceu dois casos de idosos que, em fim de pena, já não tinham casa, familiares ou amigos. Acabaram por ficar na "Casa de Santo André", um edifício da cadeia masculina de Santa Cruz do Bispo destinado a consultas médicas.


in: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/inter ... id=1440684



Entrevista a Carlos Poiares, Psicólogo Criminal e docente

O que motiva um idoso sem qualquer mancha no cadastro a cometer um crime?

A solidão, as alterações a nível neurológico, o sentimento de pertença. Muitos idosos sentem que entre eles e o mundo existe uma parede que os encurrala, é a angústia da morte e esse sentimento pode criar uma margem de intolerância em relação aos outros.

É essa intolerância que leva a matar por causa de um caminho ou do curso da água?

Dos poucos casos que conheço, há um lado simbólico de pertença. E o idoso reage impulsivamente perante as ameaças aos seus bens, mesmo quando fantasiosas. A relação com os bens é diferente da dos mais jovens. Seja água, um cão ou um terreno herdado do bisavô, há um peso psico-afectivo medonho. O valor estimativo e afectivo é o universo que resta muitas vezes ao idoso, que vive em situações de isolamento, com perda das vinculações afectivas porque as pessoas próximas morreram, ou porque estão doentes ou porque estão longe.

Há idosas a cumprir pena superior a 12 anos pelo homicídio do marido. Estamos perante uma situação diferente?

Sim. Muitas vezes são mulheres que foram vítimas de violência doméstica durante décadas e o sistema nada fez. Se o sistema não as defende elas passam à acção directa. Não estou a dizer que é o correcto, mas o facto de haver condenação mostra uma dupla falha.

Os idosos deviam ter uma penalização diferente?

Pôr uma pessoa de 70 anos na cadeia com uma pena de 20 anos é dizer-lhe para ir morrer à prisão. O sistema judiciário esquece a componente de psicogeriatria. A delinquência aos 20 anos não é a mesma que aos 70, por isso não deve ser entendida da mesma forma.


in: http://www.socialgest.pt/cgi-bin/bo/vie ... =conteudos