Autor Tópico: O programa de saúde da família e a puericultura  (Lida 7262 vezes)

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O programa de saúde da família e a puericultura
« em: Fevereiro 11, 2006, 17:02:36 »
Resumo
O trabalho apresenta uma proposta de atendimento em Puericultura, para crianças e adolescentes, que pode ser desenvolvida no contexto das atividades dos Programas de Medicina de Família e Comunidade.



Palavras-chave: Atenção Primária em Saúde – Puericultura – Medicina de Família e Comunidade – Programa de Saúde da Família – Atenção Primária em Pediatria.

Abstract
This paper suggests a proposal of Child Health Care, to children and adolescents, to be developed in the Family Health Care Programs.



Key-words: Primary Care – Child Health - Family Health – Family Practice – Primary Child Care.

Os serviços de atendimento à saúde são estruturados pela sociedade de modo a atender dois objetivos principais que são: 1) a otimização da saúde da população através do conhecimento atualizado das causas e manejo das doenças, visando maximizar o bem estar físico, emocional e social, e 2) a redução das diferenças de oportunidades entre os distintos grupos populacionais no que diz respeito ao acesso aos serviços de saúde (Starfield 2002).

Dentre os diferentes modelos de serviços de saúde pode-se destacar aqueles que se incumbem de oferecer a chamada Atenção Básica à Saúde, cujo trabalho utiliza, fundamentalmente, profissionais com grande base de conhecimento, atuando com uma visão interdisciplinar, com o objetivo de aumentar a resolutividade dos problemas sem causar elevação dos custos (Alves & Viana 2003). A Atenção Primária à Saúde ocupa, desde a 30ª Reunião Anual da Assembléia Mundial da Saúde realizada em 1977, lugar de destaque entre as ações de saúde empreendidas nas últimas três décadas em todo o mundo. Em 1978, após a Conferência de Alma-Ata, ela foi reconhecida como uma ação integral e permanente que deve compor os sistemas de saúde bem estruturados e comprometidos com a qualidade de vida dos cidadãos, tratando simultaneamente o indivíduo e a sua comunidade.

A Atenção Básica é desenvolvida através de um conjunto de ações práticas que requerem, para sua implementação, grande pluralidade de atitudes, habilidades e conhecimentos técnicos e científicos de relativamente baixa complexidade. Pode ser entendida como sendo o nível de entrada no sistema de saúde, fornecendo atenção sobre a pessoa para todas as condições, além de coordenar e integrar a atenção obtida em outro lugar ou de terceiros. Representa a base do trabalho de todos os outros níveis do sistema de saúde, atuando de modo a oferecer ações de promoção de saúde, prevenção de doenças, tratamento e reabilitação, além de enfocar os problemas de saúde mais prevalentes da comunidade. Suas ações visam modificar as condições de vida da comunidade, em função do controle de fatores sociais e ambientais, além de hábitos e estilos de vida, com o propósito de estimular atitudes saudáveis e eliminar riscos (Dominguez 1998, Marin Zurro & Cano Pérez 1999, Starfield 2002).





Apoiado nesses preceitos e procurando refletir experiências realizadas em outros países, é implantado no Brasil, em 1994, o Programa de Saúde da Família (PSF), com a proposta de modificar e expandir o acesso da população aos serviços de saúde, tornando-se a porta de entrada do sistema vigente até então. Segundo o Ministério da Saúde, trata-se de “uma estratégia que possibilita a integração e promove a organização das atividades em um território definido, com o propósito de propiciar o enfrentamento e a resolução dos problemas identificados” (Ministério da Saúde 1998). Atuando sob a luz dos princípios da integralidade, hierarquização, territorialização e trabalho em equipe multiprofissional, tem como uma de suas principais metas a redução das desigualdades regionais através de intervenções personalizadas e individualizadas (Alves & Viana 2003).

Como estratégia diretamente relacionada à Atenção Primária, o PSF deve procurar compreender a saúde das pessoas no contexto dos diversos determinantes da saúde, quer seja em seu ambiente físico na comunidade ou nas suas relações sociais, alcançando muito além do simples enfoque sobre sua enfermidade. A família, além do indivíduo, passa a ser objeto de atenção, no ambiente onde vive, ampliando-se a sua compreensão diante do processo saúde/doença. Em 2004 o país contava com 17608 equipes que atuam em 4276 municípios e cobrem cerca de 57 milhões de habitantes e este número vem crescendo continuamente (Ministério da Saúde 2004).

Estimativas feitas a partir do Censo de 2000 apontam que a população brasileira, atualmente, conta com mais de 178 milhões de habitantes. Destes, cerca de 40%, ou seja, mais de 70 milhões encontram-se na faixa etária que vai do nascimento aos 19 anos, sendo 33,6 milhões de crianças até 10 anos de idade e 36,4 milhões de adolescentes.(IBGE 2004)

Os Programas estruturados para oferecer Atenção Básica à Saúde da Criança têm como metas principais a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento e reabilitação. Necessitam da efetiva participação do indivíduo e da sociedade, pressupondo a integração de diversas classes profissionais que atuam em equipe, devidamente apoiados nos saberes interdisciplinares e pelos diferentes níveis de referência do sistema de saúde. Promover e recuperar a saúde e o bem-estar da criança tem sido, há muito tempo, prioridade dentro da assistência à saúde infantil, a fim de garantir seu crescimento e desenvolvimento adequados nos aspectos físico, emocional e social, assegurando o pleno desenvolvimento do potencial genético da criança o que levará ao adulto mais saudável, capaz e feliz, que for possível, bem como procurar reduzir as elevadas taxas de morbidade e mortalidade ainda verificadas em diversas populações (Crespin 1992, Del Ciampo et al 1994, Ricco et al 2001).

A Puericultura, área da Pediatria voltada principalmente para os aspectos preventivos e da promoção da saúde, atua no sentido de manter a criança saudável para garantir seu pleno desenvolvimento, atingindo a vida adulta sem influências desfavoráveis e sem problemas trazidos da infância. Suas ações priorizam a saúde no lugar da doença. Seus objetivos básicos contemplam a promoção da saúde infantil, prevenção de doenças e educação da criança e de seus familiares, através de orientações antecipatórias aos riscos de agravos à saúde, podendo-se oferecer medidas preventivas mais eficazes. Para ser desenvolvida em sua plenitude, é necessário conhecer e compreender a criança em seu ambiente familiar e social, sua interação e relações dentro do contexto sócio-econômico, histórico, político e cultural em que está inserida, pois as ações médicas, além de serem dirigidas à criança, refletem-se sobre o seu meio social, a começar pela família, pois, sem o envolvimento desta, as ações que visem as crianças não terão sucesso (Ricco et al 2005). O profissional médico que a pratica, através de revisões periódicas, deve desempenhar seu trabalho com ações não apenas clínicas, mas com uma concepção epidemiológica e social, relacionando-as intimamente com o complexo saúde-indivíduo-família-comunidade (Dominguez 1998). O puericultor, como é também chamado este médico, deve oferecer apoio constante à família, auxiliando na minimização dos efeitos sociais e emocionais das doenças sobre a criança e seus familiares (SBP 2004).

Dentre os vários papéis desempenhados pelo puericultor destacam-se o de orientador e educador para a saúde, cujo trabalho se direciona à mãe e à família. Esta, por ser o núcleo principal dos fatores ambientais e psicossociais e aquela, tendo fortalecido o vínculo com o filho e mantendo sua auto-estima elevada, podem assegurar os melhores cuidados à criança. Citando o inesquecível professor Eduardo Marcondes, podemos afirmar que o puericultor não atende crianças e sim famílias (Issler 1999).

Diante das considerações apresentadas e da experiência profissional dos autores, adquirida em várias décadas de atuação na área de atendimento de Puericultura e Atenção Primária em Pediatria, este texto pretende divulgar a proposta de um programa de atendimento em Puericultura que possa ser incorporado às atividades do Programa de Saúde da Família.

Este Programa de Puericultura (PPUE) deve se estender a toda a população na faixa etária que vai do nascimento aos 20 anos incompletos, com seguimento longitudinal e distinto entre as diferentes idades, realizado através de atendimento ambulatorial individualizado, visitas domiciliares e participação em grupos de educação e socialização (Daneluzzi 2001). Independentemente da faixa etária atendida seus objetivos gerais são:

a) vigiar o crescimento físico e o desenvolvimento neuropsicomotor e intelectual, b) ampliar a cobertura vacinal, c) promover a educação alimentar e nutricional, d) promover a segurança e a prevenção de acidentes, e) promover a prevenção de lesões intencionais, principalmente no ambiente doméstico, f) estimular a promoção da saúde e a prevenção das doenças mais comuns na comunidade, g) promover a higiene física, higiene mental e a prática de atividades de lazer adequadas às faixas etárias, h) propiciar a socialização, estimulação cultural e adaptação da criança e do adolescente em seu meio social.

De acordo com as diferentes faixas etárias dos pacientes, o PPUE observa algumas particularidades como: a) Recém-nascido (RN): cujas principais características são a completa dependência do adulto para sua sobrevivência, grande imaturidade e incapacidade de controlar impulsos e emoções. Trata-se de uma criança que apresenta maiores riscos e necessita de cuidados mais intensivos. Portanto, durante a primeira semana de vida, após a alta hospitalar, deverá receber uma visita domiciliar de uma enfermeira, auxiliar de enfermagem ou agente comunitário de saúde. Os objetivos desta visita são proporcionar maior contato entre o binômio mãe-filho e a equipe de Saúde da Família, identificar dúvidas e dificuldades da puérpera em desempenhar o papel de mãe, oferecer orientações sobre os cuidados básicos ao recém-nascido e avaliar a adaptação da criança ao meio extra-uterino. É uma excelente oportunidade para fortalecer a implantação e estimular a prática do aleitamento materno. Ao término dessa visita, já será marcada a primeira consulta médica do RN para sua matrícula no Programa; b) o lactente: caracteriza-se por ser uma criança que se encontra em um período de rápido crescimento pôndero-estatural e desenvolvimento neuromotor, que evolui rapidamente de uma condição de vida dependente para uma vida de relacionamento com os pais e com o ambiente familiar, ganhando autonomia progressivamente. A criança adquire maior movimentação voluntária, amplia seu espaço social e é muito estimulada pelo ambiente. Nessa ocasião ocorrem ainda o início da construção da inteligência e a fase oral do desenvolvimento da personalidade. As crianças nessa faixa etária, que se estende dos 28 dias aos 2 anos de vida, serão acompanhadas através de consultas médicas mensais durante o primeiro semestre de vida, bimestrais no segundo semestre e trimestrais entre 12 e 24 meses de idade; c) o pré-escolar: período que se estende dos 2 aos 7 anos de idade, caracterizado por desaceleração do crescimento e menores necessidades nutricionais que na fase anterior. Com a especialização do desenvolvimento neuromotor, a criança vai adquirindo autonomia ampliando o seu ambiente social e diminuindo a dependência dos adultos, a qual se torna mais emocional e intelectual que física. Sua evolução sócio-adaptativa e cognitiva permite o início do processo de aprendizagem formal, embora ainda tenha pequena capacidade de prever riscos e de reconhecer o perigo. O objetivo é obter um candidato fisicamente forte, mentalmente capaz e socialmente ajustado para entrar na escola. As crianças serão avaliadas em consultas médicas semestrais entre as idades de 2 a 7 anos, d) o escolar: caracteriza-se por se um período de crescimento estável, quando o sistema nervoso central está se completando e pronto para receber alfabetização e realizar operações concretas. Nesta fase, a criança sofre muitas influências externas e é insuficiente e inadequadamente vigiada pelos adultos. O Programa indica consultas médicas semestrais entre os 7 e 10 anos de idade; e) a adolescência: inicia-se aos 10 anos, caracterizando-se por ser uma fase em que se verificam significativas e intensas mudanças físicas e emocionais que visam preparar o indivíduo para a vida adulta, definindo sua identidade e integração social. Neste período ocorre a maturidade física e reprodutiva, identidade sexual e psíquica e independência emocional, com o adolescente necessitando de auto-afirmação, pois ainda é inexperiente e apresenta espírito desafiador e aventureiro. A partir dos 10 anos as consultas são semestrais até os 20 anos de idade. Atenção especial deverá ser dada para o estadiamento puberal que ocorre durante esse período, avaliando-se a maturidade sexual.

Finalmente, a propósito das considerações discutidas acima, podemos recordar o verso do poeta inglês W. Wordsworth (1770 – 1850) “a criança é o pai do homem”, que consegue aquilatar a importância de um programa de Puericultura eficiente e contínuo, desde o nascimento (ou até mesmo antes dele), na projeção do adulto mais saudável e feliz, pleno de suas potencialidades e cidadania. De tal forma estamos convictos de sua importância que não hesitamos afirmar que a Atenção Integral à Saúde da Criança e do Adolescente somente se plenifica ética e tecnicamente quando inclui, nos papéis de todos os membro da equipe que dela participam, a doutrina e a prática da Puericultura.

FONTE: http://www.abrasco.org.br/cienciaesaude ... _artigo=15
quot;Todo o bem que pudermos fazer, toda a ternura que pudermos dar a um ser humano, que o façamos agora, neste momento, porque não passaremos duas vezes pelo mesmo caminho."