Autor Tópico: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor  (Lida 13904 vezes)

Offline Son_Goku

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #30 em: Outubro 01, 2008, 22:12:42 »
A diferença entre o médico e o enfermeiro é que a morte de um doente por negligência, incompetência ou impreparação  é bem mais tolerada pelo povo quando o culpado é o médico, pois a este tal como às divindades é concedida a veleidade de dar ou "tirar" a vida ... quanto aos enfermeiros não se desculpa a falha fatal, pois ao contrário da raça médica, estes são apenas humanos e por conseguinte não abrangidos pela condescendência do povo nestas matérias de vida ou morte!

Offline SandroMelo

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #31 em: Outubro 03, 2008, 21:36:11 »
Citação de: PCBV
Somos enfermeiros e temos formação necessário para isso, eu por acaso até tirei um curso sobre ECG sua interpretação e actuação. A gora também já existem desfibriladores nas ambulâncias e quem acham que mexe neles?! Os bombeiros ou outros que nem sequer são bombeiros! Acham que eles têm a nossa experiência para o fazerem? Podem ter uma certa formação... Mas eles podem e nós profissionais não pudemos??? Concordo com o acima dito: 1.º a VIDA e depois a JUSTIÇA dos homens!! Bj  ???

A questão dos DAE nas ambulâncias dos bombeiros ainda não é verdadeira (tirando alguns casos muito raros).
O uso do DAE tem requesitos complicados, que espero ver em breve descomplicados...se a ordem dos médicos deixar >:D
Agora relembro que a questão do DAE é importante, mas não o mais importante em minha opinião.
Num pais em que os dois primeiros elos da cadeia de sobrevivência ainda são tão fracos...

Offline Herodes

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #32 em: Outubro 21, 2008, 03:23:44 »
Son Goku, gostei da prosa. ;)
Mas as coisas já estão a mudar.
Só precisamos de ter mais advogados virados para as trapalhadas que os médicos fazem a toda a hora.

Offline EnfermeiroMaravilhas

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #33 em: Novembro 30, 2008, 06:03:31 »
EM CERTAS UCIPs, estas situações estão protocoladas (qt mais não seja oralmente).

Tenho amigos enfermeiros que muitas vezes, além de desfibrilharem fazem eles mesmos a quimioversão de certas arritmias.

É TUDO UMA QUESTÃO DE COMPETÊNCIAS!!!!!

Offline Mauro Germano

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #34 em: Dezembro 01, 2008, 17:41:06 »
@EnfermeiroMaravilhas

Quanto à cardioversão química de certas disritmias... as coisas já não serão assim tão lineares...

Offline EnfermeiroMaravilhas

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #35 em: Dezembro 02, 2008, 05:23:01 »
Pois não são lineares... mas o processo é essencialmente o mesmo.

Avalia-se o traçado... interpreta-se >>> faz-se a "conversão do traçado"...

agr: porque é que que a cardioversão elétrica gera menos controvérsia do que a química, quando tem de ser realizada pelos enfermeiros???

Até porque ambas quando executadas erradamente podem ser ambas fatais.

então, se fazemos uma, pk não a outra?

é isto que não percebo. Qd se trata de dar a "pastilha" ou o "líquido" sem a ordem do sr doutor... é o aqui d'el rei!!!!

Offline enfdragao

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #36 em: Dezembro 02, 2008, 07:38:38 »
Boas:

Tendo conhecimento para tal, sabendo interpretar o traçado e manusear o desfibrilhador... e sendo nós o técnico mais diferenciado na altura, para o procedimento(estando ou não na presdença de um médico), não vejo porque não o façamos... O que está em causa é a vida de um ser humano, e não a podemos colocar em jogo com uma disputa de competências.

Trabalho numa UCIP, com emergência interna e algumas vezes fui eu que desfibrilhei.
Temos que pensar primeiro em se temos segurança e conhecimento para efectuar manobras de SAV e não se vamos levar "TAUTAU " do Sr. Doutor médico por fazer isto ou aquilo.

A teoria diiz que o técnico mais diferenciado na altura deve tomar as decisões relativamente às manobras de Suporte avançado de vida

Offline charlie_ze

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #37 em: Dezembro 03, 2008, 13:16:11 »
Citação de: "EnfermeiroMaravilhas"
Pois não são lineares... mas o processo é essencialmente o mesmo.

Avalia-se o traçado... interpreta-se >>> faz-se a "conversão do traçado"...

agr: porque é que que a cardioversão elétrica gera menos controvérsia do que a química, quando tem de ser realizada pelos enfermeiros???

Até porque ambas quando executadas erradamente podem ser ambas fatais.

então, se fazemos uma, pk não a outra?

é isto que não percebo. Qd se trata de dar a "pastilha" ou o "líquido" sem a ordem do sr doutor... é o aqui d'el rei!!!!

talvez esse problema resida, pois na desfibrilação falamos em situação de PCR, e na cardioversão química falamos em péri-paragem....

Offline Mauro Germano

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #38 em: Dezembro 03, 2008, 17:39:16 »
Citação de: "EnfermeiroMaravilhas"
Pois não são lineares... mas o processo é essencialmente o mesmo.

Avalia-se o traçado... interpreta-se >>> faz-se a "conversão do traçado"...

agr: porque é que que a cardioversão elétrica gera menos controvérsia do que a química, quando tem de ser realizada pelos enfermeiros???

Até porque ambas quando executadas erradamente podem ser ambas fatais.

então, se fazemos uma, pk não a outra?

é isto que não percebo. Qd se trata de dar a "pastilha" ou o "líquido" sem a ordem do sr doutor... é o aqui d'el rei!!!!

A questão da cardioversão química é mais complexa que a da cardioversão eléctrica isto porque as indicações para esta última são mais restritas e portanto de mais fácil identificação.

Por exemplo que fármaco usar numa TV com pulso? É bem mais linear pensar nos casos em que a desfibrilhação é indicada...

Offline mariamariamaria

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #39 em: Dezembro 04, 2008, 21:35:34 »
Olá,

Pois é, @Magistral, às vezes até dizes umas coisas certas.

Mas discutir o sexo dos anjos quando há na lei uma coisa que se chama "actuação em caso de necessidade", que como já expliquei até à exaustão pode ser comparado com o facto de não poder arrombar a porta do vizinho a menos que haja fogo...

Em  caso de necessidade, actua-se da forma posssível, dentro das limitaçõs existentes e espera-se o melhor resultado...

Nada é linear, nem a nossa vida... Não sejam arrogantes! Caímos todos ao virar da esquina, só não sabemos qual.

Abraço.

Offline HMartinho

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #40 em: Setembro 19, 2012, 02:14:14 »
Desculpem desenterrar o tópico, mas acho desnecessário  criar um novo, em termos de  organização. Este tema interessa-me, já que entrei este ano para o ensino superior (Enfermagem), e a escola onde estou tem estágio em cuidados intensivos e urgência/emergência.

Penso que aqui se levantam algumas questões, a citar:

- Já pensaram a razão de alguns Médicos verem com maus olhos, alguns procedimentos mais "médicos", nomeadamente a desfibrilhação, praticada por Enfermeiros ? Isto porque a maioria dos cursos de Enfermagem não oferece formação em suporte avançado de vida. Digam de vossa justiça, quantos de vós, na formação base (licenciatura), receberam formação nesta área? Eu sei que depois temos as formações adicionais em SAV, ATNC, pós-graduações, etc, eu próprio pretendo fazer, mas nem todos as fazem (nem são obrigatórias). Já repararam que um Enfermeiro do INEM desfibrilha, entuba, e faz mais uma panóplia de procedimentos invasivos, sem o Médico lhe dar "tautau", ou sequer pedir justificações? Porque aqui os Médicos sabem que os Enfermeiros têm a mesma formação que eles (o curso VMER Médicos é igual ao VMER Enfermeiros).

Portanto, se um doente entrar em PCR numa enfermaria, uci, whatever, se o Enfermeiro tiver formação nos procedimentos que executar, mostrar-se confiante no seu acto e conhecedor do algoritmo e procedimento eu dúvido muito que algum Médico se lembre, se quer, de reclamar, quanto mais apresentar uma queixa formal do assunto.

- Uma outra questão a levantar, é que a normas e directrizes internacionais, recomendam que a desfibrilhação deve ser efectuada o quanto antes (a não ser em casos de assitolia, actividade eléctrica sem pulso), assim que o aparelho desfibrilhador estiver disponível. Ora se as próprias normas internacionais recomendam uma desfibrilhação precoce, porque raio há-de o Enfermeiro com formação em SAV, esperar que o Médico chegue? Isto, analisado noutras instâncias, poderá ser visto como negligência, e a negligência sim, pode levar o Enfermeiro a responder em tribunal. A questão é:

- Um Enfermeiro pode ir a tribunal por praticar um "acto médico" sem a presença deste profissional? Talvez, mas se provar que tem conhecimentos na área que executou esse acto, e que a sua execução foi uma medida "life-saving", duvido muito que algum juíz/orgão soberano lhe aplique alguma sanção.

- Ao invés disto, se um Enfermeiro fôr a tribunal acusado de negligência, muito dificilmente se verá  ilibado da situação.

Offline Mauro Germano

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #41 em: Setembro 22, 2012, 21:23:59 »
Os médicos também não têm formação em SAV durante a sua formação...

Offline HMartinho

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #42 em: Setembro 23, 2012, 01:00:49 »
Citação de: Mauro Germano
Os médicos também não têm formação em SAV durante a sua formação...

Isso também não depende de faculdade para faculdade de Medicina? Como de Escola para Escola de Enfermagem?

A ESS de Bragança, por exemplo, estive a consultar o plano de estudos e tem formação em SAV. A ESS de Leiria, se não me engano, também tem.

Da mesma forma que um estudante de Medicina, em Anestesiologia, deve aprender SAV, ou estou enganado?

Offline EnfermeiroMaravilhas

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #43 em: Fevereiro 06, 2013, 12:17:47 »
Honestamente, olhas para o doente com tranquilidade.... depois chamas por ajuda, sempre com tranquilidade. Coloca-lhe uma via venosa de pelo menos um calibre de 18G e faz isto com ainda mais tranquilidade, porque senão vais falhar. Aproveitas e colhes sangue, para um ionograma pelo menos, para despiste de disturbios eletrolíticos, principalmente relacionados com o POTASSIO.

Entretanto, os teus colegas já estão a ligar para o xor dotor ou para a reanimação intra hospitalar. Outro colega põe o tubo de guedel, protecção das vias aéreas. carrinho de urgencia ao lado da cama.

Com tranquilidade ligas o disfibrilhador e colocas o doente monitorizado pelo desfibrilhador.
Se sentires que é inevitável choca-lo naquele momento, poes em modo AUTOMATICO e deixas a máquina decidir. Elas decidem bem.

Senão, espera pelo xor doutor.

Todos estes gestos, monitorizar o paciente, protecção das vias aéreas duram 2 mins em média (pela minha experiência).
Muitas das TV's são facilmente recuperáveis.
Já tive experiência de recuperar uma TV com sulfato de magnésio. Com adenosina também já vi 1x.
Xocar um doente é uma cena violentissima. A evitar.
Eu já choquei um doente em TV que partiu os dentes todos contra o tubo de guedell. Só ficou o dente de prata que tinha. ISTO È ESTRITAENTE VERDADE.

Não brinquem. desfibrilhar um doente é das coisas mais violentas que se pode fazer como gesto de enfermagem ou acto médico ou lá o que lhe chamam.

Offline anya_Skywalker

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Re: Doente em TV, desfibrilho ou espero pelo Sr. Doutor
« Responder #44 em: Fevereiro 08, 2013, 22:07:10 »
Ainda há uns dias atrás desfibrilhei uma doente, não partiu dente nenhuns e estava a falar comigo de bom humor 10 minutos depois.

Não me vou armar em heroína, isto foi feito em modo AED no desfibrilhador da reanimação, numa doente que já tinha tido PCR com FV no pré-hospitalar e começou a ter "runs" de FV... 1 choque, menos de um minuto de reanimação. E isto apesar de na altura estar rodeada de médicos (quando o alarme toca aparece toda a gente em menos de um minuto) eles simplesmente afastaram-se para o choque e pararam manobras quando sentiram pulso novamente.

Normalmente se estamos á espera de alguém em paragem, um dos médicos assume a liderança e decide se disfibrilha ou não. Mas em todas as restantes situações, quem chega lá primeiro decide... Ou melhor, o DAE decide por nós. Adoro DAE. :D