Autor Tópico: "Sabemos o que fazemos. Mas porque é que não fazemos tudo aquilo que sabemos?"  (Lida 6033 vezes)

Offline Vitor A.

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Estou a ler um livro relacionado com a pratica de enfermagem e tinha uma frase que me deixou a pensar em relação ás intervenções autonomas em enfermagem!

"Sabemos o que fazemos. Mas porque é que não fazemos tudo aquilo que sabemos?"

Eis a questão!
No reencaminhamento de mail´s, Por Favor Usem Cco. ou Bcc (Cópia Oculta)
" Retire os endereços dos amigos antes de reenviar "
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Saudações. Vitor A. :)

Offline Caldas

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Já agora Vitor A. qual é o livro?

Há muitos factores que condicionam essa questão. O tempo é um deles.

Offline Vitor A.

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Citação de: Caldas
Já agora Vitor A. qual é o livro?


O Livro é o do TNCC - Trauma Nursing Core Course
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Offline Mauro Germano

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Citação de: Vitor A.
Citação de: Caldas
Já agora Vitor A. qual é o livro?


O Livro é o do TNCC - Trauma Nursing Core Course

Bom livro de cabeceira ;)

Offline Vitor A.

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Realmente um bom livro para aprender a sistematizar e agilizar a nossa actuação em situações críticas e não só!

Mas coloquei esta questão não só por causa do curso em sí. Mas sim por causa do sentido da frase!

Nas Escolas de enfermagem muito ensinam, mas acho deviam melhorar o ensino que no que se refere a aplicar o que aprenderam por exemplo!
A experiencia profissional também é professor por excelencia!

Os alunos e os profissionais sabem que em presença de determinado doente com determinada sintomatologia devem planear, excutar e avaliar! Mas o que se verifica em alguns casos, é que em presença de um determinado caso, a teoria sabe-se, mas não se aplica!
A questão tempo pode ser uma das causas! Mas será a unica?

Por exemplo:
Um dia um colega que fez o transporte de um doente (domicilio-SU - Não era das SIV´s) deu entrada com uma doente em franca dificuldade respiratória, com hipoxémia, palidez, sudorese. Limitou-se apenas a passar o doente com base em diagnósticos médicos e leitura de ECG´s e que lhe tinha administrado durante o transporte  medicação por iniciativa própria! Na TM deu Vermelho por respiração Ineficaz. Quando cheguei perto da doente, reposicionei-a em Fowler, aspirei, Coloquei O2 e coloquei a ENG em drenagem (drenou mais de 1 lt de sopa). Após essas manobras,a doente ficou com diminuição franca da dificuldade respiratória, sem sudorese, com Sat.O2 estáveis e normais.
A resposta do colega foi esta "eu sabia que devia fazer isso, mas...."
Soube explicar o porquê tinha administrado aquela terapeutica, mas não aplicou os conhecimentos que tinha para aplicar e que lhe foi ensinado!

2º exemplo:
Um doente dá entrada por Hemiplegia de instalação subita! è atribuido a um aluno que prontamente identifica o diagnostico e diz de forma brilhante os cuidados que deve iniciar e ter! Descrevou de forma exemplar o posicionamento anti-espastico na perfeição, por exemplo! Mas não os fez! Sabia a teoria, mas não aplicou! Tinha os meios necessários.

Estes e outros exemplos que os há!
Sabemos mas não aplicamos o que sabemos!
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Offline Caldas

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Vitor esses dois exemplos que deu, parecem-me que se associação a ausência de prática e medo de alguma consequência que possa advir da aplicação desse conhecimento.

Offline Vitor A.

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"Medo da consequencias que possam advir com o conhecimento"
Será que as consequencias da não aplicação não serão maiores do que as consequencias da sua aplicação?
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Offline Mauro Germano

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Se há coisa que há mais é cobardia, em todas as classes profissionais, e sim. isto aqui referido é uma forma de cobardia.

 Por vezes esquecemo-nos que o nosso propósito é realmente cuidar de quem está à nossa frente, da melhor forma que sabemos e devendo a essa pessoa isso mesmo, além de lhe garantirmos que fazemos por sermos os melhores a dar-lhe a assistência ou pelo menos que somos capazes de lhe dar a assistência adequada.

Se há coisa que é triste e terrivelmente errado é não agir de acordo com os nosso princípios, principalmente se tivermos toda a razão do mundo. Acreditem... custa muito estar do lado de lá e não ver as pessoas darem o máximo para ajudar, é que a altura de protestar tem horas e locais definidos, não é continuamente.

É de uma estupidez atroz passar o tempo todo a protestar: quer seja a reclamar por tudo e mais alguma coisa, quer seja por estar a fazer greve de zelo (na prática) ou a prestar cuidados quase mínimos, no dia-a-dia, simplesmente porque as condições laborais são isto, o reconhecimento é aquilo, e o não sei que mais é o acoloutro. No dia a dia dá-se o máximo, com a melhor qualidade possível e deixa-se o protesto para as alturas indicadas (manifestações, greves ou outra qualquer forma de luta. De outra forma as pessoas são levadas a pensar que é realmente isso que os enfermeiros ou outro qualquer profissional faz, ou seja, pouco e medíocre, isso porque parece que o protesto se arrasta todos os dias.

Se há coisa que custa quando se está do lado de lá é ver que alguém não faz algo por medo, acreditem, a ignorância é menos ofensiva que o medo... É preferível que alguém seja ignorante do que cobarde, juntar os dois então é terrível!!!!


Portanto a mensagem é esta: Se sabem façam tudo o que estiver ao vosso alcance, mas tudo mesmo, um dia poderão ser vocês que estarão do lado de lá. Querem alguém que o faça mesmo tendo um pequeno risco ou alguém não faz por insegurança?


È que pouca assistência é melhor do que nenhuma...


Em relação ao problema que o coleha Vitor A  referiu: de alguém saber tudo mas não fazer, além de poder passar pelo que acima referi, pode também passar por uma ineficiente organização da informação no orgão a que chamamos cérebro. Isto é, falta por vezes sistematização e organização das acções a empreender, saber ter prioridades, nem é uma questão de não saber. é uma questão de organização e por vezes de bloqueio.

Por exemplo: Alguém até sabe bem a fundamentação teórica do SAV mas se não tiver bem presente quais as prioridades e quais os passos a tomar, tudo isso se torna ineficaz: Imaginem se encontravam alguém em FV, davam uma adrenalina, faziam umas insuflações. de seguida desfibrilhavam, faziam massagem, depois entubavam, continuava em FV davam uma amiodarona, etc etc etc....

Podiam até saber para que servia aquilo tudo, mas não tinham os conhecimentos devidamente organizados, sistematizados e consolidados. É nisto que precisamos de reflectir. Pensar diariamente: O que fiz mal? O que podia ter feito melhor? Porque me esqueci de fazer aquilo? Será que não há uma forma mais rápida e melhor de fazer isto? Como poupar tempo aqui para ganhar ali?

Como alguém dizia (ou semelhante) O que é realmente fonte de evolução não é praticar mais e mais, mas sim reflectir sobre a prática.

Os doentes agradecem...

Offline Herodes

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Temos um longo caminho pela frente...

A banalização dos cursos de enfermagem (seja nas públicas, seja nas privadas) veio tirar seriedade ao processo formativo.

É pena!

Há enfermeiros com um ano de experiência a orientar alunos em estágio! Assim não vamos lá!

Offline Caldas

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Herodes e será que não são esses enfermeiros que estão há um ano a praticar no serviço, o conhecem, reflectem acerca da prática e tem as experiências com que o serviço se depara aptos para ensinarem os alunos? Até por estarem frescos no conhecimento escolar e dependendo do grau de exigência do conhecimento?

Ou queremos um enfermeiro que recebe o aluno (seja do primeiro ao terceiro ano) e o põe é logo a trabalhar (como de um auxiliar se tratasse) e nem tempo deixa ao aluno para reflectir da sua prática?

Nisto tem de haver um meio termo, se há um enfermeiro com capacidade de orientar alunos vincada, que demonstre disponibilidade, conhecimento teórico, reflexão acerca da prática, vontade de orientar e seja vantajoso para o estudante, tenha esse enfermeiro 3 meses de prática ou 30 anos é exactamente igual.

Quanto ao resto, plenamente de acordo com o magistral, mais vale algo feito mais ao menos, mas reflectido e com tendência a melhorar, que o nada.

Offline Vitor A.

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Antes de colocar esta questão, pensei se a haveria de colocar ou não!

Temos conhecimentos, competencias para muito fazer! No entanto em determinadas situações escusamos-nos de as fazer. Porquê?
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Offline pedrojosesilva

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Estou a ler o excelente trabalho sobre a Enfermagem Suiça, onde encontro muitas similitudes com o caso português.

Dätwyler, Barbara  (2007). Professionalisation in Nursing: The Swiss Case. Thesis submitted to the University of Nottingham for the degree of Doctor of Philosophy in September 2007.

Encontram aqui o texto completo aqui http://etheses.nottingham.ac.uk/archive/00000528/01/Prof-in-nursing-B-Daetwyler.pdf

Deixo um excerto relativamente aos factores estruturais de constrangimento para a pratica da Enfermagem, que historicamente determinou uma divisão de trabalho tendencialmente para a submissão.


Citar
Freidson (1990), reflecting on nursing’s claim to full jurisdiction, similarly points out the fact that nursing, in any case hospital nursing, is to a consider-able part determined by structural conditions:
“When we look at the real world of the hospital in which the nurse must work for better or for worse, however, we see that the nurse’s capacity to exercise discretionary judgment is limited not only by medical dominance, but also by the bureaucratic rules and procedures established by the hospital adminis-tration, and by the resources that are available for doing her work. The intake, staffing and other resource allocation policies of the administration, as well as what might be called the structure of governance of the institution itself, have a profound influence on how nursing can be practiced. They limit the possibilities for giving care in a caring way, and for practicing ethically. As Yarling and McElmurry put it, ‘nurses are not often free to be moral.’ (Yarling and McElmurry 1986:63, italics in the original). The graphic anecdotes they recount in their article show clearly how the organization of power and authority in the hospital can frustrate and even punish efforts on the part of a concerned nurse to correct the most egregious treatment decisions. It is for this reason that we must agree with them that if the fundamental moral problem of nursing is a consequence of the structure and policies of the social institution in which nursing is, for the most part, practiced, then any ethic that seeks to address this problem must seek reform of the policies and structures of that institution. An ethic that is concerned with structures and policies of social institutions is a social ethic. Hence, a nursing ethic must be first and foremost a social ethic. (…).”
pág 271

Offline Vitor A.

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Excelente leitura!
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Saudações. Vitor A. :)

Offline J.Ribeiro

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First of all it meant handling an enormous workload in many different and changing medical domains and holding on to a service ideal on an extremely high level. From my last study, I have learned that nurses are deeply committed to all the needs of their patients, that they want to give comprehensive care and that they know precisely what this means. At the same time, professional politics is of no interest to most of them.

p 7

esta é a realidade da enfermagem portuguesa e o motivo pela qual não avança...

Offline Mauro Germano

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@joao ribeiro

Enfermagem portuguesa e não só... Não nos esqueçamos que isto é um problema da Enfermagem global.

Mas como tudo na Vida, isto é um processo evolutivo e apesar de avanços e retrocessos o saldo está claramente nos avanços. Cada vez mais existe a consciência de que isso é um problema e sem identificarmos, em primeiro lugar, que isso é um problema (a envolvência na política da saúde e não só), não o poderíamos debelar. Mas as coisas não se fazem da noite para o dia... Passos firmes são mais eficazes do que revoluções sem apoio das bases...