Autor Tópico: A morte na Criança  (Lida 8252 vezes)

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A morte na Criança
« em: Janeiro 22, 2005, 18:43:02 »
AZEREDO et al (2004) efectuaram um estudo qualitativo, através de entrevista, junto das famílias de crianças internadas no Instituto de Oncologia do Porto. Visavam o estudo do impacto que o diagnóstico de uma doença oncológica teve na respectiva família e de que forma esta conseguiu lidar com este problema.

As conclusões do estudo, demonstram a realidade vivenciada, direi quase diariamente, pelos diversos profissionais do serviço de Pediatria da dita instituição. Irei transcrever neste post algumas das citações contidas no estudo.

A comunicação do diagnóstico aos Pais
...Foi um grande choque !
...Nem é bom lembrar!
...Se me espetassem o coração, não sairia uma gota de sangue!
...Perguntei logo ao Sr. Dr. o que era necessário para a minha filha recuperar a saúde......
....disse-me que eu estava maluca, que estava feita com eles (médicos)....
.... a primeira reacção do meu marido foi perguntar-me porque aconteceu isto com o nosso filho!....


Comunicação do diagnóstico à criança
...disse-lhe que tinha uma doença no sangue semelhante à anemia......
...disse-lhe que tinha o sangue fraco...
....disse-lhe que tinha uma ferida no cérebro que o IPO estava a cicatrizar...
....Senti-me perdida, sem saber como dizer à minha filha o que ela tinha, sem a fazer sofrer....


Comunicação do diagnóstico aos irmãos
...o meu filho que nunca foi crente refugiou-se em Deus para atenuar a sua angústia...

A Família face à criança doente
...O meu outro filho quer ficar doente para ficar comigo e com o irmão ....
....sempre fomos todos muito chegados....ele é o bebé da família.....
...a minha filha não quer ver o pai... disse mesmo à Srª Enfermeira para não o deixar entrar... diz que o pai a trata como um bebé ...


A família e a sociedade
......quando a minha filha pôde regressar à escola eu fui preparar os seus amigos, dizendo-lhes que a doença não era contagiosa.......
.....Olham-no com pena, como se não fosse uma coisa normal.....como se não conhecessem a doença......
.......Os vizinhos, por vezes, são cruéis.......quando viram o meu marido a trazer a roupa da minha filha, disseram que ele já trazia a última roupa......


A família e o internamento
....estou esperançada pois os médicos dizem que o tratamento da minha filha tem dado resultado.......
......às vezes no hospital só vemos as crianças que “ caem” pois as que melhoram não voltam mais.....


Bibliografia:
AZEREDO et al - A Família da Criança Oncológica - Testemunhos. Acta Médica Portuguesa, 2004. 17: 375-380

O cuidar é mais abrangente que o curar... Poderemos sempre CUIDAR de uma criança possuidora de um mau prognóstico, diminuindo o seu sofrimento.

Aceitamos a morte de um idoso, como a morte de alguém cujo destino biológico ditava esse mesmo fim... Custa-nos aceitar a morte de uma criança que, ainda sem saber o que é a vida, conhece a morte...

PS: o trabalho citado encontra-se disponível para download na página da ordem dos médicos.
Abílio Cardoso Teixeira
(SCI1: CHP - HSA)

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A morte na Criança
« Responder #1 em: Janeiro 22, 2005, 19:21:03 »
As crianças mortas nunca abandonam a casa,
Circulam dentro dela, enrolam-se nas saias maternas
À hora em que as mães preparam as refeições e prestam atenção ao ferver da água
Como se estudassem as leis do vapor e do tempo.
Sempre presentes.

A casa adquire uma profundidade diferente
Como se uma chuva silenciosa começasse a cair
Em pleno Verão nos campos desertos
As crianças mortas não partem. Mantêm-se na casa,
Têm uma preferência pelo corredor condenado para os seus jogos,
E em cada dia crescem no nosso coração, a tal ponto
Que a dor, no peito, não nasce da sua falta
Mas sim da sua presença excessiva. E se acontece que as mulheres
Soltem um grito durante o sono
É que elas sentem novamente as dores do que foi o seu parto.

Yannis Ritsos (citado por José António Gomes, no livro"Literatura para crianças e jovens, alguns percursos")
Abílio Cardoso Teixeira
(SCI1: CHP - HSA)

Offline Roten_Boy

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A morte na Criança
« Responder #2 em: Janeiro 22, 2005, 19:35:54 »
Para reflexão:

"A criança não acredita na morte, é como um jogo, com frequência brinca como se estivesse morta, depois levanta-se e continua a brincar, porque diz que está viva."

Offline nunotavares

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A morte na Criança
« Responder #3 em: Janeiro 22, 2005, 19:46:10 »
Muitas vezes a coragem com que as crianças enfretam a morte ainda me surpreende....lá está eles ensinam muito aos adultos!!!!

Offline joana santos

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A morte na criança...
« Responder #4 em: Janeiro 24, 2005, 19:10:07 »
Este tema vem despertado interesse em diversas  áreas do conhecimento. Contudo,  tal facto não minimiza ou reduz os efeitos que as idéias préconstruídas em torno da morte têm causado no homem, em diferentes estágios de seu ciclo de vida.
A morte é, pois, tema tão antigo quanto o homem.
Segundo Morin (1997), é nas atitudes e crenças diante da morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental. A morte, segundo o mesmo autor, permanece como um grande mistério para o homem. Este prefere ignorá-la ou contemplá-la, por vezes, indo ao seu encontro.
Assim, torna-se frequente, as pessoas evitarem falar sobre a morte e o morrer. Não é de se estranhar que adultos – pais, familiares – tentem “proteger” uma criança da situação que envolve falar sobre a morte ou visualizar a concretização  da morte, através do corpo inerte de um ente querido.
Será que crianças com 6 anos sabem o que é a morte?
Como é  que uma criança lida perante a morte do outro, se o adulto não consegue lidar com este tipo de perda e tem profunda dificuldade em deparar-se com um facto real, que busca negá-lo, na maior parte dos momentos,  no seu dia-a-dia? Existe hora e momento oportuno para se falar de morte a  uma criança? Que momento será então esse? Quando ela deixar de brincar com suas fantasias e deixar se aprisionar pelos medos e monstros criados pela sua mente infantil, quando ela for capaz de entender os motivos da morte? Quando ela crescer? Isso seria uma garantia de que haveria o entendimento para a dor da perda?
Será que não se trata de um erro pensar que uma criança não é  capaz de entender o que acontece com aqueles que morrem?
A percepção e a conceptualização da morte pela criança podem ser vistas como uma ocorrência  natural do processo de desenvolvimento humano, ou elas são alteradas, intensificadas, distorcidas por vivências específicas, como quebra de vínculos ou doenças que colocam a vida em risco?
- Qual a representação existente da morte para a criança e como é expressa?
- Qual é a percepção da criança sobre a morte quando está doente?
- Como é que ela percepciona a morte de pessoas significativas?
Estas e outras questões figuram como preocupações para  todos que percepcionam  a morte como um evento da existência.
A criança vai construindo o conceito de morte juntamente com o desenvolvimento cognitivo.
Torres (1979), em pesquisa realizada com 183 crianças de 4 a 13 anos, estudou a relação entre o desenvolvimento cognitivo e a evolução do conceito de morte. A autora pesquisou o conceito de morte ligado a três, dos quatro períodos do desenvolvimento cognitivo segundo Piaget.
a)     Período pré-operacional – as crianças não fazem distinção entre seres inanimados e animados. Não percepcionam  a morte como definitiva e irreversível.
b)     Período das operações concretas – as crianças distinguem entre seres inanimados e animados, mas não dão respostas lógico-categoriais de causalidade da morte. Elas buscam aspectos perceptíveis, como a imobilidade para defini-la; contudo, já são capazes de percepcionar a morte como irreversível.
c)      Período das operações formais – as crianças reconhecem a morte como um processo interno, implicando em paragem do corpo.
Bromberg (1998) refere que uma questão  característica de uma criança no período pré-operacional, ao saber que a sua mamãe faleceu e não fará futuramente as coisas que fazia, pode vir a ser: “E quem é que  me vai levar para a escola  agora?”
Este tipo de questão, segundo a mesma autora,  pode causar um impacto nos adultos que, desconhecendo essa dimensão do pensamento da criança, poderão considerá-la insensível à persa.
Por sua vez, Kübler-Ross (2003) refere que crianças reagem à morte do pai ou da mãe, dependendo de como foram criadas antes do momento dessa perda. Se os pais não têm medo da morte, se não pouparam os filhos das situações de perdas significativas, como por exemplo, a morte de um bichinho de estimação ou a morte de uma avó, eventualmente não occorrerão problemas conm a criança em questão.
Bromberg (1998) chama a atenção para a forma como nos comunicamos com as crianças. Ao se comunicar com uma criança acerca da morte de alguém, o uso de certas expressões pode confundi-la. Expressões habituais como “finalmente  descansou” poderá  levar a criança a pensar que, se a pessoa dormir e descansar poderá voltar.
Ao se falar de morte, inevitavelmente, o tema conduz ao processo do luto, como conjunto de reações diante de uma perda. Recordamos que podem existir mortes e processos de luto por ausências, separações e vivências de abandono. O processo de luto, então se dará diferentemente. Quanto maior o investimento afectivo,  maior a energia necessária para o desligamento.
Pais e outros adultos não devem excluir as crianças da experiência de perda com a finalidade de poupá-las ao sofrimento. Tal atitude poderá, por sua vez, bloquear o processo de luto. Nessa perspectiva, cada criança vivenciará o  seu luto de muitas maneiras diversificadas.
O primeiro passo para a realização do luto é a aceitação que a morte se deu.
Ainda dentro de uma visão do desenvolvimento, é possível compreender os recursos que uma criança doente utiliza para enfrentar a própria doença e o significado que lhe atribui. Com o passar do tempo, a criança começa a percepcionar  o desenrolar  de sua doença, entrando num processo de despedidas de pessoas e coisas do seu mundo.
O  problema do suicídio também não deve deixar de ser mencionado. Podemos então questionar como é que a criança se sente quando é informada que alguém importante na sua vida se suicidou?
É muito difícil para uma criança pequena entender o significado do suicídio. As mais pequenas podem chegar a pensar que o (a) suicida não a amava, não pensou nela e nos irmãos.
Fica como ponto de reflexão para todos que lidam com crianças...

Um abraço, Joana :(

Offline joana santos

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A morte na Criança
« Responder #5 em: Janeiro 24, 2005, 19:32:34 »
Abordar o tema morte na criança, por todo o significado cultural e afectivo que acarreta, é tarefa árdua, complexa e extremamente dolorosa. Usualmente tem sido proposto um modelo integral de intervençao junto à  criança criticamente doente  e sem possibilidades de cura ( com o conhecimento científico disponível até aquela data).
 Este modelo tem como axioma, a mudança do paradigma de "curar" para "cuidar", deslumbrando  a dignidade humana e a manutençao da qualidade de vida quando se esgotaram todas as possibilidades do tratamento e se implementaram  acçoes paliativas. Os cuidados paliativos na assistência à  criança terminal, além da vigilância e tratamento dos sintomas ( a dor em especial) tem como objectivo o conforto da criança. Para atender às múltiplas e diversas necessidades, ´temos que ter em atenção que os sintomas sao muitos e que mudam rapidamente; Torna-se pois, fundamental que a família possa contar com o apoio de pessoal especializado. Para além das controvérsias entre morrer no hospital ou morrer em casa é necessário ( re)colocar a questao em termos de condiçoes familiares e recursos disponíveis na comunidade, tanto para minimizar as dores da criança, como para apoiar a família acerca de como viver com  o stress decorrente desta situaçao. Conclui-se que um modelo de cuidados paliativos, na perspectiva do apoio de uma equipa  em  diferentes âmbitos de intervençao: hospital, baseia-se em   três focos de análise:  a própria criança, a sua família e a equipe de saúde.

In Amorim, CLovis - Ecxertos de Trabalho de Mestrado

Departamento de Psicologia (Pontificia Universidade Católica do Paraná)

Joana, :(

Offline joana santos

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A morte na Criança
« Responder #6 em: Janeiro 24, 2005, 19:43:07 »
A nossa ancôra começa assim:
"O número vertiginosamente crescente e assustador de jovens que anualmente perdem a vida no nosso país (cerca de 5.000 dos 0 aos 30 anos), por razões de ordem vária, deixa as famílias que sofrem tal perda totalmente destroçadas..."

Site de apoio aos pais/família a quem faleceu uma criança/adolescente:


http://www.anossaancora.pt/

Saudações, Joana :(

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A "bela" visão da morte para uma criança de 14 ano
« Responder #7 em: Janeiro 24, 2005, 19:45:12 »
“Existia uma lagarta que queria ser borboleta, ela não falava noutra coisa senão sem ser uma bela borboleta; até que um dia uma lagarta mais velha disse que, para se transformar em borboleta ela teria que morrer primeiro.

A lagarta não gostou da ideia, e quanto mais ela pensava, ela ficava com mais medo e mais desconfiança; então ela começou a envelhecer, entrou num sono profundo, criou o casulo, e, quando acordou, tinha se transformado em borboleta.

Para mim, morte é esse estado de transição, onde deixamos o nosso corpo e passamos para algum lugar melhor que este; um sono profundo, até nos libertamos do nosso corpo”

Anónimo, 14 anos


Cântico do Calvário

à memória de meu filho
Morto a 11 de dezembro de 1863.
(Fagundes Varela)

Eras na vida a pomba predileta
que sobre um mar de angústias conduzia
o ramo da esperança. - Eras a estrela
que entre as névoas do inverno cintilava
apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Era o ilídio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
o porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, varou-te a flecha do destino!
Astro, engoliu-te o temporal do norte!
Teto, -caíste! - Crença, já não vives!
Abílio Cardoso Teixeira
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A morte na Criança
« Responder #8 em: Janeiro 25, 2005, 17:23:38 »
Já repararam na quantidade de expressões e palavras que utilizamos, de forma a evitar dizer "morte"?

E quando se trata de comunicar a morte a uma criança, o que lhe dizemos? Que "partiu", "que está com os Anjinhos", "que está a dormir um sono profundo"... E será que a criança não sente a perda como o Adulto, ou quiçá mais? Será que esta omissão não quebrará a confiança da criança no mundo dos adultos?

A morte e a criança, a mim, suscita-me diversas questões... Possivelmente por ter interiorizado ideias incutidas pela sociedade. Considerámos, como já disse anteriormente, normal um idoso morrer, mas custa-nos muito mais ver uma criança a sofrer... Com isto, os cuidados paliativos nas crianças, que deveriam existir, torna-se complicado pensar nisso...

Custa-nos desmistificar a nossa ideia da Morte...Ainda para mais quando se trata de seres tão "pequeninos"...
Abílio Cardoso Teixeira
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