Autor Tópico: Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem  (Lida 10099 vezes)

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« em: Janeiro 15, 2005, 16:07:44 »
Oi Pessoal! hoje de manha tive a oportunidade de assistir às 1ras Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem, promovidas pela ESEnf São João.
De resto elas já tinham começado ontem.
Hoje as exposições abordaram o Resumo Minimo de Dados (Enf. Filipe Pereira) e Disciplinariedade (Enf. Abel Paiva, com comentário da Enf. Margarida Vieira http://infirmus.blogspot.com/).

Foi também ocasião para rever o Karlwork (estava boa a francesinha ;) ), o ruienf, professores da minha "escolinha"  e  conhecer a Enf. Margarida Vieira.

Offline nunotavares

  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 700
    • Ver Perfil
    • http://www.enfermeiro-de-anestesia.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #1 em: Janeiro 15, 2005, 17:17:31 »
Muitas novidades para as UCI?????

 :D

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #2 em: Janeiro 16, 2005, 10:45:41 »
Oi Nuno! o estudo do prof. Filipe não fazia referência às UCIs, não sei se no dia de sexta-feira foi apresentado algum estudo nesse sentido.

O que pude ouvir, é que em alguns hospitais onde está a ser implementado o SAPE, estão a ser criados indicadores que possibilitem "medir" a eficácia dos cuidados de enfermagem. No fundo ver quais são os "Ganhos de Saúde sensíveis aos cuidados de Enfermagem".
Foi feito um estudo a uma população de aproximadamente 1000 enfermeiras/os, e foram obtidas mais de 500 respostas (540 salvo erro). São enfermeiros cujos serviços estão neste processo de informatização. Eles explicitaram vários indicadores, que agora estão a ser aferidos para a base de dados.
Isto implica chegar-se a um "Resumo Mínimo de Dados" (titulo da exposição do Prof. Filipe) que correspondam a estes indicadores.
O processo ainda está a decorrer...e faz parte da tese de Doutoramento do referido enfermeiro.

Quanto à intervenção do Enf. Abel Paiva intitulada "Disciplinariedade" , tenho algum receio de não conseguir transpor de forma fidedigna, até porque não se tratou de conclusões de estudos mas sim de um "Speech" acerca da Enfermagem enquanto disciplina do saber. Por isso corro o risco de ter uma visão restrita do que foi dito, mas vai ai o que realço do que ouvi:

O Prof. Abel Paiva começou por dizer que as várias profissões da saúde partiram da mesma raiz, a Medicina. Fala-se de um cenário multi-profissional na saúde, mas que corresponde a uma mono-disciplina: a Medicina. O resto da exposição foi sobre como a Enfermagem se deveria desenvolver enquanto disciplina do saber para chegar-mos a um cenário multi-profisional mas também multidisciplinar.
Disse que não vale a pena andar-mos a tentar inventar uma sociedade ideal, temos que trabalhar com a sociedade que temos. Isto para dizer que não vale a pena estar a fazer estudos (qualitativos) onde se descreve o problema, se "faz umas entrevistas e depois interpretasse de modo a dizer o que se quer".  È preciso agir, e o melhor quadro é a investigação-acção.
Usou uma metáfora "meus senhores agora podia pegar nesta caneta e agora começo a dizer o que quero sobre ela...Não para falar de canetas tenho que saber de canetas".
Isto recorrendo ao paradigma quantitativo. Esta é a parte que eu não consigo digerir muito bem. porque embora tenha dito que o paradigma qualitativo pode fazer parte da Investigação dos Enfermeiras/os, deixou o seu ênfase no Quantitativo como forma de fazer a verdadeira "Investigação da Enfermagem." Pois segundo disse "Nem toda a investigação feita pelos enfermeiros é investigação da Enfermagem".

Investigar sobre o que?

Adaptação
Auto-controle
Papeis Parentais
Adaptação à gravidez
Adesão ao regime terapêutico
Adaptação à amamentação
Coping
etc, etc

Refere que tem que se distinguir entre Investigação feita por Enfermeiros e Investigação da Enfermagem. Esta última tem que incidir sobre aquilo que os enfermeiros têm a dar à sociedade, e que se foca nas "respostas humanas a situações de saúde ou estados de promoção/ganhos de saúde" (isto seria o objecto da Disciplina Enfermagem)
Os exemplos deixam perceber a passagem da descrição dos fenómenos para a prescrição.
Utilizou alguns exemplos que eu interpretei como "Disciplinadores da vida dos utentes". Temos que ensinar a mãe como lidar com um filho com DPCO, temos que ver as alterações que um toxicodependente provoca nas relações familiares, os enfermeiros têm e devem ser eles a dar "aulas" sobre o papel parental aos pais...
Por outro lado realçou a dicotomia entre os modelos expostos (os surgidos da investigação?) e os modelos em uso.
O Prof. Abel também defende que o foco da investigação tem que ser "praxico", ou seja a partir da práctica. Na sua exposição também referiu-se que deveria acabar essa questão dos teóricos e práticos.
Tinha que se acabar com essa dicotomia, mas surge no seu discurso frequentemente um conceito: o de "Perito", ao qual ele se referiu na sua exposição. Pela lógica a palavra perito, pode englobar práticos e teoricos. Pela opinião acerca das especialidades, ve-se onde é que o Prof. Abel acredita que os "peritos" estão....

"Eu tenho que dizer isto! eu sou contra as formações Especialidades em serviço, estas têm que ser dadas nas escolas, senão o que se passa é a cristalização dos modelos em uso".
Metade do auditório bateu palmas... eu não bati...mas apercebi-me que a questão é quente...
Voltando à construção da Disciplina Enfermagem, este discurso remete para uma agenda que pressupõe que a investigação se deva centrar nas "regularidades", palavra utilizada pelo próprio, de forma a ganhar o reconhecimento social e influência politica junto dos decisores, de forma a fundamentar o porque dos cuidados de enfermagem serem importantes para a população. Até aí concordo, mas não concordo que esse tipo de investigação deva ser apelidada como a "Investigação da Enfermagem" arredando a restante para segundo plano.

Volto a referir que esta foi a minha percepção do que foi dito, o ideal é que o Enf. Abel Paiva, ele próprio publicasse em artigo estas ideias, até porque podem ser polémicas no cenário da "investigação feita por enfermeiros". O Forumenfermagem fica desde já à disposição de publicar esse artigo em Destaque.
Á parte da polémica não deixa de ser, um dos "gurus" da Enfermagem em Portugal.


Abraço!

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #3 em: Janeiro 17, 2005, 16:36:33 »
Devo referir que recebi um contributo por PM de uma das pessoas que está melhor contextualizada para interpretar as ideias expostas do Prof. Abel Paiva, e o estudo do Prof. Filipe Pereira.
Pedi para que  publique as suas considerações neste post até porque me corrige em bastantes aspectos importantes, em que reconheço que possa ter "ouvido" ou interpretado mal.

Abraço!

Offline Karlwork31

  • Membro
  • ***
  • Mensagens: 87
    • Ver Perfil
    • http://falando-enfermagem.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #4 em: Janeiro 17, 2005, 21:02:49 »
Também gostei muito destas jornadas. O programa, foi de manifesta qualidade. Estas jornadas foram pioneiras numa área pouco explorada na Enfermagem Portuguesa, "Os Sistemas de Informação na Enfermagem", mas de vital importância para a Evolução da Profissão. Correndo o risco de não citar na integra, mas com esperança de não errar nos conceitos, atrevo-me a usar as mesmas palavras do Enfº Paulo Parente, quando dizia que a Enfermagem Portuguesa, nos últimos 6 anos, após a formação da Ordem, nada mais tinha feito em prol da evolução da Enfermagem, tendo apenas lutado por manter o que tinha anteriormente conquistado. (Peço desde já desculpa ao Enfº Paulo Parente, caso estas palavras  não sejam exactamente iguais, pois estou a utilizar apenas os meus apontamentos de circunstancia). Ora na opinião de muitos dos que lá estiveram, é fundamental que a Enfermagem Portuguesa trabalhe em prol de uma Linguagem Comum, que permita a melhoria de cuidados, a investigação em Enfermagem, a criação de Indicadores que facultem Ganhos de Saúde sensiveis à Enfermagem. Mais ainda, uma descoberta fundamental, que me fez reflectir sobre tudo o que tenho feito em contexto de formação permanente, isto é, os Enfermeiros podem saber muito de Anatomia, Fisiologia, Medicina, Psicologia, Antropologia, Sociologia, Ética, Economia, Gestão e até Informática, mas o que lhes dará relevo e importância é saberem de ENFERMAGEM! É necessário produzir Conhecimento Ciêntifico em Enfermagem. As diversas participações de colegas mostram que efectivamente este conhecimento pode ser produzido. As mesas foram representativas destes esforços. Trata-se de trabalho de campo, feito em conjunto com quem trabalha na prática, "os afectados" na expressão do Enfº Paulino Sousa. A aplicação da CIPE, permitiu que no terreno fosse efectuada uma reflexão, por quem efectivamente a vai utilizar e que produziu sugestões que serão aproveitadas na próxima versão da CIPE (a 1.0). Fico orgulhoso de haver contribuições portuguesas nesta Linguagem feita por Enfermeiros, para Enfermeiros, para a Evolução e Melhoria da Enfermagem. Gostaria ainda de afirmar a minha mais profunda admiração pelo eloquência do Prof. Abel Paiva e Silva, assim como pelos comentários da Profª Margarida Vieira. As suas reflexões são de grande importância no desbravamento das mentes. Se são colocadas questões dificeis, se as opiniões são carismáticas, outra coisa também não seria de esperar, de quem se atreve a ousar abrir caminhos e alargar fronteiras. Bem hajam.

PS- Gostaria de referir que me sinto muito orgulhoso de ser aluno da Enfª Margarida Vieira. O Mestrado de Enfermagem da Universidade Católica  muito lhe deve. Gostaria ainda de referir que estou ansioso pelas aulas do Enfº Paiva e Silva, em Março próximo. Desconfio que devo ficar rouco muitas vezes...

PS2- Em último, mas sem menos valor, devo referir que foi uma grande alegria reencontrar o Pedro assim como o Rui (Rui_enf), a quem muito admiro pelo seu trabalho no Progif. Para além da Amizade que já sinto por ambos, o seu trabalho é um exemplo, mais uma das minhas diversas referências. Continuem com o esforço!

Carlos

Offline Karlwork31

  • Membro
  • ***
  • Mensagens: 87
    • Ver Perfil
    • http://falando-enfermagem.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #5 em: Janeiro 17, 2005, 21:49:39 »
É só para referir que a "francesinha" referida pelo post inicial do Pedro, trata-se da iguaria caracteristica da culinária portuense, não nenhuma alusão a alguém de uma determinada nacionalidade... como homem casado, não quero confusões...

 :lol:  :lol:  :lol:  :wink:

Um abraço, Carlos.

Offline marvi

  • Novato
  • **
  • Mensagens: 11
    • Ver Perfil
    • http://infirmus.blogspot.com
Jornadas sobre SIE
« Responder #6 em: Janeiro 17, 2005, 21:52:26 »
Depois de ler o que o Enfº Pedro afirma ter "ouvido"  no dia 15, permita-me que lhe diga como eu ouvi algumas das coisas que afirma.

O Prof.Filipe não estudou "uma população de 540 enfermeiros". Ele não estuda enfermeiros. Ele tem tido a colaboração de enfermeiros no seu estudo, em diferentes contextos, que podem ser considerados co-investigadores, visto que usa metodologias qualitativas pouco frequentes entre nós, como o grupo focal e o estudo delphi.

Não ouvir o  Prof. Abel dizer que "várias profissões partiram da mesma raiz", mas demonstrou que, hoje, na saúde há várias profissões (médico, enfermeiro, psicólogo, fisioterapeuta...)  mas que se usa quase exclusivamente o saber de uma área disciplinar, a medicina - por isso a multiprofissionalidade e a monodisciplinaridade. Também não o ouvi dizer que não vale a pena fazer estudos qualitativos - ouviu-o dizer é que é ilegítimo chamar "estudo qualitativo" a um estudo que não é investigação, no sentido científico do termo, porque não usa do rigor necessário  - isto é, sem o rigor que a colheita da informação e a análise do conteúdo, ou do significado da mesma, exige - e serve apenas para se dizer o que se quer dizer (e olhe que ele tem razão; eu própria já afirmei o mesmo quando li alguns trabalhos onde isso acontece - não é porque 6 doentes dizem que gostaram dos enfermeiros, que podemos concluir que os cuidados de enfermagem são bons, pois não?). As abordagem qualitativas, se usadas com rigor não são mais fáceis que as quantitativas, embora muitos pensem que sim...
Eu própria já tenho também dito, até fiz um post sobre isso, que nem toda a investigação feita pelos enfermeiros é em Enfermagem (aliás já V. Henderson o disse num congresso internacional do ICN nos anos 60, que frequentemente citamos). É de elementar justiça reconhecer (como o Prof. Abel fez) que alguma investigação noutras áreas pode trazer grandes contributos à prática de Enfermagem - eu estou a lembrar o trabalho de doutoramento em Psicologia da Saúde de uma colega, "Representação Cognitiva e Emocional, Estratégias de Coping e Qualidade de Vida, no Doente Oncológico e Família", da Prof. Célia Santos, da "sua escola", só para dar um exemplo. Mas estudar os problemas laborais ou de saúde dos enfermeiros, por exemplo, pode ser muito últil para a profissão, mas não acrescenta conhecimento à disciplina de enfermagem - podem até ser feitos com mais interesse por um sociólogo ou um epidemiologista, não acha?
Parece-me que o Enfº Pedro duvida que o objecto de estudo de enfermagem seja o referido pelo Prof. Abel: "respostas humanas ...", mas devo ter percebido mal. Este é de facto o objecto da disciplina de enfermagem, desde há muitos anos assim definido pela comunidade internacional. E é assim que a disciplina (ciência de enfermagem, se quiser) se distingue das outras áreas e por isso é aceite nas universidade e reconhecida como tal. O Prof. Abel deu alguns exemplos de investigação que precisa ser feita, não exclusivamente... é preciso, de facto, encontrar "regularidades" para que o diagnóstico e a intervenção não seja como cada enfermeiro "acha" mas se fundamente na evidência científica.
Os modelos expostos são aqueles que todos nós "expomos" nos nossos discursos - o que "deve ser" - qualquer que seja o nosso paradigma. O modelo em uso é o que de facto acontece. Acha que a prática de enfermagem é a que deve ser? ou pode ser melhor? ao responder a esta questão está a comparar o modelo em uso com o modelo exposto. E o modelo em uso tende a aproximar-se dos modelos expostos... e estes tendem para a excelência... É esta a teoria que o Prof. Abel defende há algum tempo e que alí ouvi.
O conceito de "perito" que o Prof. Abel também usou foi o de Patricia Benner, que ele citou, e que o Enfº Pedro conhece com certeza - na minha escola, o modelo de Patrícia Benner é trabalhado com os alunos logo no 1º ano do curso... Todos sabemos que em todas as áreas há peritos.
Por fim, eu não ouvi o Prof. Abel afirmar "eu sou contra as formações Especialidades em serviço, estas têm que ser dadas nas escolas". Afirmou "...sou contra a formação de especialistas SÓ em serviço. Porque isso seria cristalizar os modelos em uso." Manifestou uma opinião.
 
Admito que no lugar onde me encontrava e com a responsabilidade de comentar, ouvi melhor. Apesar de muitos terem gostado da conferência final, pessoalmente considero que o mais importante das Jornadas aconteceu dela...

Gostei muito de o conhecer pessoalmente. Bom trabalho e sucesso para o seu novo curso.

 :)  Margarida Vieira

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #7 em: Janeiro 18, 2005, 12:06:11 »
@Karlwork

Quem não conhece as francesinhas do Porto? :)
Obrigado pelos teus apontamentos, até porque abordas-te as intervenções do Enf. Paulo Parente e Paulino Sousa, que eu não tive oportunidade de assistir.

@marvi (Enfª Margarida Vieira)

Obrigado pelas suas correcções, que aceito sem reservas...o que se segue são reflexões que tão ricas intervenções me suscitaram, e espero que está troca de argumentos continue, aproveitando os parceiros de discussão de luxo :)
Na verdade enquanto disciplina do saber a Enfermagem necessita de desenvolvimento, a questão é que esta tem-se dado de forma dispersa. Vejamos por exemplo uma rápida pesquisa com a palavra "nursing" na Biblioteca do Conhecimento Online (www.b-on.pt).

https://secure.bibliotecacientificadigi ... ber=002645


No entanto, fica-me uma dúvida? e que corresponde a uma afirmação que já ouvi por diversas vezes: "não compreendo aqueles enfermeiros que tiram os Mestrados e Doutoramentos em Psicologia, Ciências da Educação, Ética, Gestão, etc...
A minha dúvida é: Será que os Enfermeiros que enveredam (hoje em dia e no futuro) por fazer investigação noutras áreas, devem ser considerados menos enfermeiros? Será que a investigação feita por eles é menos valida "para a Enfermagem enquanto profissão"?
Falo enquanto profissão e não enquanto disciplina do saber, pois como é consensual a maior parte da "investigação feita por enfermeiros" tem tido um suporte noutras áreas.
Mas isso arreda-os da chamada "Investigação da Enfermagem"?
A pergunta central é "Existe um único perfil para a investigação "da Enfermagem"?

Devo referir neste momento a licenciatura em Ciências da Educação, despertou-me para uma realidade que não conhecia tão bem, e que tem haver com a legitimação do poder pelo saber, sobretudo os meios académicos. A Psicologia, a Sociologia e outras áreas do saber humano e social passaram por uma fase de forte apelo ao paradigma quantitativo há 100 anos atrás.
Hoje em dia a Enfermagem procura indicadores que consigam medir os ganhos em saúde, o que eu concordo e é legítimo, mas será adequado focar-nos sobretudo em "regularidades"?
Sobretudo se estamos a falar em respostas humanas. Uma das respostas humanas que intuitivamente reconhecemos ser importante para a saúde de todos é o "Amor". Podemos incluir eventualmente o Amor nos fenómenos de Enfermagem, no eixo do foco da prática de enfermagem (atenção o exemplo é hipotetico, mas apoiei-me no http://icn.ch/ICNP_BETA2/index.html incluindo “Love” onde achei que encaixa melhor) :

Love, Emotion, Self-Awareness, Reason for Action, Person, Individual, Human Being

Na verdade, Amor não existe na classificação, mas existem fenómenos afins desta emoção, ou melhor, estado sentimental se recorrermos a António Damásio. Podemos transformar estados complexos da natureza humana em Fenómenos de Enfermagem, e reconhece-los como respostas humanas que são, mas podemos parametraliza-los em vários critérios de medida dos ganhos de saúde sensíveis à Enfermagem, sobretudo baseados em regularidades?
Quantas maneiras de amar existem? e quais são as consideradas terapêuticas?
Conseguem perceber "my point"?
Se transformarmos respostas humanas em indicadores de ganhos em saúde, não estaremos a transmitir maneiras certas/adequadas de agir quando lançarmos os nossos relatórios de investigação?
Atenção é obvio que nem me atrevo a colocar em causa investigação tão válida. Mas devemos nós mesmos podemos apreender com os erros dos outros, e aproveitar esse conhecimento para não cair-mos em tendências higienicistas, se o que realmente queremos é legitimar a necessidade de mais e melhor Enfermagem para a sociedade.
Corremos o risco de "fotografar" a realidade e elaborar teorias acerca de respostas humanas, que na verdade são impregnadas de um relativismo espacial e temporal.
Nesse sentido acho que os enfermeiros (alguns de nós) não devemos abandonar as outras áreas do saber, e puxando a brasa para a minha sardinha, as Ciências da Educação que foram as primeiras a abrir as portas dos Mestrados e Doutoramentos a Enfermeiros, exactamente porque elas se inserem num paradigma pós-moderno que contesta poderes vigentes, que impediam os enfermeiros de aceder à Academia.
O primeiro mestrado que em Portugal aceitou enfermeiros, foi o das Ciências da Educação em Lisboa, foi o mestrado de Pedagogia da Saúde, efectuado na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação que foi coordenado pelo profes3or António Novoa por volta de 1991.
As Ciências da Educação foram importantes não para produzir "conhecimento das Ciências da Educação" sobre Enfermagem, mas porque realçou que havia um conhecimento específico dos enfermeiros, ao ter contribuído para o discernimento sobre o objecto de trabalho de cada uma das profissões. Como diz uma das pessoas que sabe mais de Enfermagem em Portugal "ao se lidar com o desenvolvimento e o conhecimento do Homem como ser educável, naturalmente, ao nível da Enfermagem elas (as Ciências da Educação) colaboram no desenvolvimento de uma perspectiva pedagógica que seja a mais adequada, a partir dos estudos que as Ciências da Educação fazem sobre este próprio Homem".

Finalizo por aqui (acho que me entusiásmei ;)) deixando a célebre frase de Abel Salazar (cujo Instituto de Ciências Biomédicas que leva o seu nome, abriu a porta aos enfermeiros para Mestrados e inclusive o primeiro Doutorado em Ciências da Enfermagem, o que nós enche de orgulho), que embora dizendo respeito à Medicina eu adaptaria para a Enfermagem:

"O médico que só sabe de Medicina, nem de medicina sabe" Abel Salazar

Offline marvi

  • Novato
  • **
  • Mensagens: 11
    • Ver Perfil
    • http://infirmus.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #8 em: Janeiro 18, 2005, 23:22:41 »
Olá, Enfº Pedro.
Deixa muitas questões no ar para uma resposta em tão curto espaço. Aliás, algumas questões poderiam levar a importantes teses de mestrado ou doutoramento em enfermagem, ou outras áreas.  :wink:
Eu compreendo os enfermeiros que fazem estudos noutras áreas. Aliás, dei-lhe um bom exemplo. Não seria eu a afirmar o contrário pois, como é do conhecimento público, sou doutorada em Filosofia Contemporânea. E juíz em causa própria... Eu afirmo, por mim e muitos outros, que acredito ter dado um contributo à Enfermagem. Mas, como sabe, a Filosofia não é uma ciência... contribui para todas elas.  :P .
Isto não invalida que se apontem necessidades e se apele ao desenvolvimento da "disciplina" de enfermagem que, como todas as outras, precisam de constante desenvolvimento (e devemos ser capazes de distinguir as necessidades e apelos  da profissão e os da disciplina).
Não, não me parece que exista um único "perfil" (não sei se estamos a falar da mesma coisa...) para a investigação em enfermagem. Mas não devemos ter dúvidas do que é objecto de estudo da enfermagem e de assumir como nossa a responsabilidade perante as prioridades na investigação em enfermagem (isto merecia um desenvolvimento que não posso fazer aqui).
Não percebi o que diz sobre ganhos em saúde/respostas humanas e regularidades.
Acredito que a  investigação que mais visibilidade deu até hoje à enfermagem foi feita na Guerra da Crimeia por F. Nightingale. Ela demonstrou os "ganhos em saúde" das pessoas que receberam cuidados de enfermagem. E precisamos urgentemente deste tipo de investigação, hoje.
Se você fala de "respostas humanas" em geral, com uma qualquer definição de dicionário, o discurso pode ir muito longe e nunca nos entenderemos. No entanto, se concordarmos que:
Citar
«De entre a amplitude dos cuidados de saúde, o fenómeno que mais importa aos enfermeiros é a "resposta aos problemas de saúde reais ou potenciais" de indivíduos, famílias ou grupos. As respostas humanas a estes problemas variam grandemente, desde reacções de recuperação da saúde perante episódios individuais de doença, ao desenvolvimento de políticas de promoção de saúde de uma população» (ICN, 1987)

então começamos a falar da mesma coisa, e percebemos que para fazer um determinado diagnóstico eu preciso ter presentes certas "evidências", para além de toda a subjectividade - evidência científica, i.e., regularidade.
Neste sentido, também as emoções apresentam características definidoras, apesar de toda a variabilidade indivídual - embora ninguém chore ou ria da mesma maneira, todos identificamos e distinguimos o choro do riso, ou não?  :)
A educação foi desde sempre importante na enfermagem - educar é uma acção de enfermagem (cf. CIPE/ICNP)   :)
A formação dos enfermeiros precisa de outras áreas do saber. Isto é indiscutível. Basta ver os curricula dos cursos de enfermagem... este assunto não merece discussão.
Também devo dizer que me sinto reconhecida à Universidade em que fiz o doutoramento e ao orientador que desde o primeiro momento acreditou no meu projecto.
O mestrado de Pedagogia da Saúde aceitou de facto enfermeiros e outros profisisonais de saúde. Mas devo lembrar que quando outras áreas científicas abriam as portas aos enfermeiros (algumas apenas para preencher lugares vagos...)  já a UCP reconhecia a Enfermagem como área autónoma e abria Mestrados em Ciências de Enfermagem (comecei o meu em 1991).

Esta conversa já vai longa... só quero dizer-lhe que há quem afirme que Abel Salazar terá tido conhecimento da famosa frase numa das suas visitas a uma universidade francesa, onde ela consta, atribuída a outro autor...  

 :wink: Margarida Vieira

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #9 em: Janeiro 19, 2005, 02:55:32 »
@marvi (Enfª Margarida Vieira)

De facto desconhecia que as Ciências da Enfermagem, enquanto Mestrado tivessem surgido na Universidade Católica em 1991. Obrigado pelo esclarecimento. Claro que isto não retira o mérito a outras instituições que precocemente viram um interesse público e legitimo na inclusão dos enfermeiros nos seus Mestrados. Eu interpreto isso fundamentalmente como factor de reconhecimento. :P

Citação de: "marvi"
Não percebi o que diz sobre ganhos em saúde/respostas humanas e regularidades.

Basicamente referia-me ao facto de a investigação nunca ser inoqua, quer recorra a metodologias qualitativas, quer recorra às quantitativas. Claro que na primeira isso não é visto como um problema, o investigador assume explicitamente o seu posicionamento, nomeadamente através do seu enquadramento teórico, nesse sentido é uma atitude ética.
Se de facto existem estudos ditos qualitativos onde a ánalise de conteúdo é feita sem rigor, o problema não é do paradigma qualitativo mas sim do autor. A manipulação de dados também pode acontecer grosseiramente nos metodos quantitativos. E mesmo descartando esta possibilidade, por detrás dos números há sempre uma intencionalidade de comprovar ou refutar determinadas hipoteses. O investigador nunca é neutro, certo?
Então a procura de regularidades na resposta aos problemas de saúde reais ou potenciais" de indivíduos, famílias ou grupos pode perfeitamente ter o efeito indesejável de apontar padrões restritos de comportamento socialmente aceites (porque a investigação refere como adequados/eficazes) e outros considerados "anomalos" (imaginem por exemplo, não amamentar), porque o objecto da Enfermagem é materia sensivel. É obvio que os enfermeiros estão e estarão alertas para esta problemática. Noutras áreas do saber a quantificação do social e individual na procura de regularidades, legitimou algumas posições do poder politico que vieram a revelar-se nefastas, por exemplo a xenofobia.


Cumprimentos!

Offline marvi

  • Novato
  • **
  • Mensagens: 11
    • Ver Perfil
    • http://infirmus.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #10 em: Janeiro 20, 2005, 00:16:31 »
Enfº Pedro
Parace-me que não estamos a falar da mesma coisa.
A "regularidade" resultante da investigação de que falava não classifica os comportamentos das pessoas em "socialmente aceites" ou anómalos.
Sabemos é que "amamentar" é uma resposta humana sensível a cuidados de enfermagem. Quando o enfermeiro faz um diagnóstico tomando por foco "amamentar" (e podem ser vários) prescreverá acções de enfermagem que vai desenvolver considerando o projecto de saúde da pessoa assitida. Com a assistência de enfermagem, a pessoa pode ter (é suposto que tenha) ganhos em saúde. É disto que falamos. Os enfermeiros trabalham com as pessoas, melhor, como prefiro dizer : somos enfermeiros trabalhando com as pessoas. E os cuidados de Enfermagem têm implicito na sua conceptualização o consentimento da pessoa assistida. Será que  isto é só o nosso modelo exposto?  No modelo em uso o que observa? :)

PS. Concordo consigo. A minha prima costuma dizer que "não há nada que os números (leia-se tratamento estatístico) não digam. Depende só do nível de tortura a que os submetermos..." . :lol:

Offline Karlwork31

  • Membro
  • ***
  • Mensagens: 87
    • Ver Perfil
    • http://falando-enfermagem.blogspot.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #11 em: Janeiro 20, 2005, 12:42:24 »
Estou a gostar muito deste subforum :P

Mas penso que, está-se a fugir um pouco ao cerne do tema que lhe deu origem (não quero com isto dizer, que o que foi dito, não é importante!) :D

Destas Jornadas, é fundamental referir:

Trata-se das 1ªs Jordadas sobre Sistemas de Informação em Enfermagem, (logo é terreno pouco conhecido, para a maioria dos Enfermeiros), onde foram abordados não só conceitos, mas foram apresentadas tb vivências das experiências-piloto já existentes, assim como trabalhos de investigação desenvolvidos neste contexto. As pessoas que lá falaram são peritos na área, com um currículo condizente com a qualidade das suas comunicações.

Os Sistemas de Informação Em Enfermagem, potenciam um instrumento de intervenção dos Enfermeiros, que lhes poderá ajudar muito no seu trabalho. Mas para isso ser realidade, torna-se imprescindivel haver uma Linguagem Comum, (que hoje consensualmente se adopta como sendo a CIPE). Esta linguagem comum permite consenso nas abordagens, diagnósticos e intervenções de Enfermagem, garantindo a qualidade do registo e a objectividade do trabalho realizado. Desta forma facilita a Investigação e a Avaliação do alcance das intervenções desenvolvidas pelos Enfermeiros.

Para mim, ficou demonstrado a urgente adopção por parte de todos os serviços onde os Enfermeiros realizam funções desta Linguagem, independentemente se haverá Informatização dos registos ao mesmo tempo. A Informatização ajuda, mas não é essencial. Vários colegas nestas jornadas manifestaram que faziam ao mesmo tempo registos em suporte de papel e em suporte informático. Estas situações que levam a uma sobrecarga de trabalho por parte dos Enfermeiros, só são possiveis, porque existe convicção dos mesmos que esta ainda é a solução adequada. Mas a adopção da CIPE, favorece mudanças de discurso e actuação dos Enfermeiros.

Estas Jornadas foram assim, uma pedra no charco, no meio de muito que se apresenta por ai...

Citando alguém... "Eles falam, falam e não dizem nada!"

É esta realidade que  urge evitar!
 :twisted:  :twisted:  :twisted:  :twisted:  :twisted:  :twisted:  :twisted:  :lol:  :twisted:

Carlos.

Offline tcasaleiro

  • Membro Ativo
  • ****
  • Mensagens: 102
    • Ver Perfil
    • http://atravesdajanela.wordpress.com
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #12 em: Janeiro 20, 2005, 12:55:17 »
Carlos, respondeste à pergunta que estava para escrever agora mesmo, portanto desde ja o meu obrigado, lol ;)
Qto às jornadas, não existe um web-site??
gostava de ver!!
Abraço
Tiago Casaleiro
"O Cuidar manifesta-se nas Pequenas coisas"

Offline pedrojosesilva

  • Administrador
  • Membro Veterano
  • *****
  • Mensagens: 1883
    • Ver Perfil
    • http://www.forumenfermagem.org
Jornadas de Sistemas de Informação em Enfermagem
« Responder #13 em: Janeiro 23, 2005, 05:55:29 »
@marvi

concordo com a sua prima  :lol:  LOL

@Karlwork

Efectivamente não se deve retirar o brilhantismo destas Jornadas. Concordo com o que disseste, pois o que exposto nas Jornadas reflecte processos de mudança efectiva, e os estudos efectuados no terreno acerca desta.


@All

Para todos os interessados, o Forumenfermagem esteve à conversa com a Dra. Raquel Deveza do IGIF, que amavelmente nos concedeu uma entrevista em que falou da informatização de registos, nomeadamente ao nível do Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE) onde colaborou com o Enfº Abel Paiva no desenvolvimento desta aplicação. Aguardem...
Por outro lado o Resumo do Trabalho de dissertação de Mestrado do Enfº Filipe Pereira (mencionado neste tópico), gentilmente enviado pelo próprio, em breve estará na BD-RIE.


Abraço!

Offline admin

  • Membro
  • ***
  • Mensagens: 29
    • Ver Perfil
Sistemas de Informação na Enfermagem
« Responder #14 em: Fevereiro 26, 2006, 15:08:23 »
Ola ..
Gostaria de receber informações sobre ..
Sistemas de Informação na Enfermagem ..
Preciso fazer um trabalho e gostaria que me ajudassem c possivel ..
Obrigado ..
mauricio_pia_heu@hotmail.com
caso queiram me enviar algum arquivo sobre o assunto ..