Autor Tópico: Estórias de (des)encantar  (Lida 8529 vezes)

Offline joana santos

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Estórias de (des)encantar
« em: Dezembro 22, 2004, 08:53:40 »
Quem já teve a oportunidade de estagiar, trabalhar ou ainda trabalha em serviços de Pediatria, Urgência Pediátrica, Unidades de Cuidados Intensivos Pediátricos, Consultas Externas de Pediatria (tanto a nível hospitalar como comunitário) deve certamente ter pequenas histórias para contar. Sei que alguns de vocês vão dizer: é tão aborrecido, por vezes, contá-las, de tristes que são, mas as histórias são mesmo assim, às vezes, encantam-nos, outras vezes, desencantam-nos, consoante as nossas vivências e a nossa própria personalidade. Este cantinho ou tópico vai precisamente servir para colocar as nossas lembranças, porque "estórias"  das quais as crianças façam parte, praticamente todos temos.
Um abraço, Joana :wink:

Offline nunotavares

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Na Neonatologia
« Responder #1 em: Dezembro 22, 2004, 09:42:19 »
Olá!

Ainda me lembro de tudo....7 de Abril de 2004...no Centro Hospitalar Cova da Beira, S.A. - Hospital Pêro da Covilhã....Unidade de Neonatologia....

Estava na triagem da Urgência Pediátrica daquele Hospital quando uma Pediatra me aorda e faz o pedido de ir à Neonatologia...."Tens lá uma surpresa....", disse ela....
Quando cheguei reparei que a única unidade dirigida a Cuidados Intensivos Neonatais estava activada no quadro geral de unidades....
O Neonatologista de serviço depressa me disse para me fardar a preceito e para ir ter com ele.....quando entrei na unidade, deparei-me com a mais pequena forma de vida humana que alguma vez tive o privilégio de vislumbrar....
Chamar-lhe-ei Daniel, nasceu com 26 semanas....e a imaturidade pulmonar que lhe seria naturalmente característica.....recheado de lânugo, sem descolamento palpebral...a estrutura óssea era visível, bem como o ritmo acelerado e desenfreado pela vida, do seu pequeno coração!

Pesava 512 g....peso esse que sustentei por breves instantes sob a minha mão...que embora coberta por uma luva estéril...não deixou de sentir coisas indescritíveis!

O Daniel foi nessa mesma tarde transferido pela equipa do INEM - Recém-Nascidos para os Hospitais da Universidade de Coimbra....
Sei que teve algumas complicações a nível metabólico, mas nada que não tenha superado.....fui visitá-lo em Novembro, a quando de uma visita de rotina na consulta externa de pediatria no hospital....e está lindo, forte e saudável!

Um abraço,  :D

Offline joana santos

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Estórias de (des) encantar
« Responder #2 em: Dezembro 22, 2004, 12:41:37 »
Emocionante história... às vezes, acontecem estes milagres, são os denominados milagres da ciência moderna ...
Um abraço, Joana

Offline pedrojosesilva

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Tomando um chocolate quente....
« Responder #3 em: Dezembro 22, 2004, 16:25:54 »
Quando estava a frequentar o curso de Enfermagem, eu e dois colegas meus tinhamos por hábito cruzar a rua e ir ao último andar do IPO Porto tomar um chocolate quente da maquina que lá se encontra (não sei se ainda existe) na sala de visitas.
Lá em cima a vista é magnifica sobre a Circunvalação. Além de ser um espaço muito calmo, era (não sei se ainda é) aí que se localizava a Pediatria Oncologica.
Eu e os meus colegas sentava-mos a apreciar a paisagem, beber o chocolate quente e admirar a coragem daquelas criancinhas, algumas bébés, com cabecinhas lisas por causa da quimio, tubinhos transparentes e suportes para o soro. Passeavam-se com os país com um sorriso nos labios.

Ainda hoje penso que ser enfermeiro, médico, auxiliar, psicologa naquela unidade exige um estofo enorme.

Muitas vezes depois de um dia de estagio, lá iamos nós ao chocolate quente para descontrair e relaxar do stress/fustrações a que estavamos sujeitos. O sorriso e descontracção daqueles miudos e miudas, transmitiam-me uma paz e uma descentração do mundo imediato que voltavamos pelo elevador ao R/C com um sabor doce que não era só do chocolate, mas daqueles anjinhos (kerubins) que lá por cima habitam.

 :)

Offline nunotavares

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Crianças....as eternas educadoras....
« Responder #4 em: Dezembro 22, 2004, 16:43:02 »
É impressionante como uma criança consegue com o seu curto tempo de vida, dar sempre uma lição, aqueles que, "fartos" de viver esquecem que a força interior é a alma da concretização!

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Estórias de (des)encantar
« Responder #5 em: Dezembro 22, 2004, 19:20:51 »
Posso dizer que tive a sorte de ter estagiado no serviço que o Pedro falou... Pediatria Oncológica, no piso 12 do IPO...

E tive a sorte de diariamente conviver com essas crianças que apesar de todas as contrariedades tinham sempre um sorriso nos lábios, e sempre dispostos a brincar...

Posso dizer que elas me deram uma lição de vida... E que lição!

Os momentos que passei naquela sala de brincadeiras, ou nos próprios quartos, seja a jogar com elas, ou a montar legos...em suma, os momentos que passei com elas não os esquecerei...

Assim como nunca me esquecerei da lucidez com a qual elas falavam do seu estado de saúde.

Aproveito para deixar uma palavra de apreço para aqueles que diariamente contactam com esta realidade, e sendo este um serviço onde os internamentos são recorrentes se afeiçoam a estas crianças... Para aqueles que diariamente suportam o peso deste serviço: um grande Abraço...
Abílio Cardoso Teixeira
(SCI1: CHP - HSA)

Offline AndréVinhovsky

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Estórias de (des)encantar
« Responder #6 em: Dezembro 23, 2004, 00:40:36 »
Fiquei comovido com algumas histórias que aqui já se contaram e quero tb deixar o meu testemunho.

Hospital de dia do IPO-Porto. Primeiro dia do meu estágio de pediatria na área de oncologia, primeira vez q entro no IPO... após ter conhecido o espaço físico e os enfermeiros q constituiam a equipa, começam a chegar as criancinhas...o meu primeiro impacto.

Passado algum tempo, chega uma criança, o Filipe (nome falso) com cerca de 4 anos com uma herança pesada que trazia nos ombros....

O Filipe gemia mt, chorava muito, ao ritmo da mãe que trazia desenhada no seu rosto muito sofrimento e tristeza...o pai encontrava-se junto dos dois e tentava manter calma, tanto a mãe cm o Filipe...

Indignados com a situação, perguntamos discretamente a uma das enfermeiras qual o problema do Filipe...encontrava-se em fase terminal de uma LAM (se a memória n me falha). A doença fora diagnosticada ao Filipe quando ele tinha meses. Nessa altura, o médica recomendou um transplante da medula óssea...infelizmente ouve rejeição ao transplante por parte do organismo do Filipe...

Solução? Um novo transplante e todo um novo procedimento de incertezas e sofrimento...

Perante esta realidade, os pais decidiram n aceitar o tratamento porque seria adiar o sofrimento do filho...

Naquele dia, o Filipe já se encontrava numa falência orgânica acentuada...ouviamos, por vezes, muito baixinho, as enfermeiras dizerem "Deus queria q ele n morra aqui..."

Ei fiquei chocado...após este relato fiquei plantado a olhar para o Filipe q já nem tinha forças para chorar ou recusar fosse o q fosse...não sabia o q dizer, n sabia o q fazer...

Faço das palavras do Abílio as minhas...

Aproveito para deixar uma palavra de apreço para aqueles que diariamente contactam com esta realidade..

Offline AndréVinhovsky

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Estórias de (des)encantar
« Responder #7 em: Dezembro 23, 2004, 00:53:56 »
Esta história é para todas as pessoas q são a favor do aborto...

Nos estagios q fiz no Padre Américo, ganhei o habito de fazer visitas à morgue. Conhecia o auxiliar q lá se encontrava e cheguei a assistir a várias autopsias. Algo fascinante, do meu ponto de vista.

No último estágio q lá tive, cm é cosstume, fui visitar a morgue e o auxiliar, meu conhecido.

Ele estava lá, perguntei-lhe cm estava o serviço e ele respondeu, sossegado cm sempre. Perguntei-lhe se ia haver autopsias, ele disse-me q n, o serviço estava praticamente vazio. De seguida ele disse-me q estava lá um feto de 4meses, fruto de um aborto q tinha dado nas urgências...perguntou-me se eu queria ver, eu respondi q sim...

Ainda hj n tenho palavras para descrever o que vi...o caso era terrivel, era um feto morto mas...os dedos pequeninos e tão perfeitinhos, as mãozinhas, os pezinhos....tudo era perfeito...uma autentico recém-nascido em ponto pequeno....uma imagem q eu nunca vou esquecer....

Só para terem ideia da mãozinha...

Offline joana santos

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Na Urgência Pediátrica...
« Responder #8 em: Dezembro 23, 2004, 05:44:06 »
Naquele fim de turno (turno com fraca afluência) de uma tarde de Setembro, ainda no rescaldo da Expo 98, estavamos eu e a minha colega Paula, na sala de triagem da Urgência Pediátrica do H. S. Bernardo,  conversando acerca do concerto do Pedro Abrunhosa, a que tinhamos assistido na Praça Sony, quando nos entra pela sala dentro uma senhora muito ansiosa, gesticulando,  trazendo nos braços um bebé pequeno, que gemia, embrulhado num xaile imundo, que trasendava...

Esta situação não seria de estranhar (nas Urgências Pediátricas  estas entradas são comuns) não fora a referida senhora vir acompanhada por um agente policial, que soubemos, mais tarde, ter sido ela própria a chamar.

A senhora identificou-se como sendo vizinha da criança, que podemos chamar de Beatriz (Bea). A Bea tinha somente dois meses de idade.

Contou-nos que a mãe se tinha ausentado para ir tomar um café e deixara a criança na barraca onde coabitavam a mãe da Bea, o pai e um irmão com 4 anos.
A vizinha, referiu que a Bea chorava e  gemia muito, não sabia se era de fome ou de frio e fora por essa razão que se encheu de coragem e arrombou a porta da barraca, onde morava a Bea, retirando dali a bebé, achando por bem chamar a polícia.

Entretanto, entramos em contacto com o Pediatra, fomos observando a criança, aparentemente emagrecida, pálida,  que gemia a alto e bom som, deparamos com uma situação arrepiante: a criança tinha os dedos da mão esquerda, ensanguentados,  com vestígios de marcas de dentes e um terço do dedo mindinho tinha sofrido, supostamente, uma valente mordedura,  a pontos de ter sido arrancado.

Inquirimos a senhora, que nos alertou para o facto da existência de ratazanas enormes na habitação da Bea. Dirigi-me com a Bea, seguida da vizinha,  para o gabinete médico, para a babé ser observada. O Pediatra, confirmou a suspeita.
Claro que estavamos perante um caso de negligência. Que tipo de mãe deixaria uma criança tão pequenina sozinha naquelas condições, a ponto de servir como refeição às ratazanas?

A Bea ficou internada no Serviço de Pediatria, à responsabilidade de uma  Comissão de apoio intrahospitalar, mas após ter alta voltou para casa. Após este episódio ainda sofreu mais alguns internamentos, para posteriores cirurgias correctivas. Contudo ainda dois desses internamentos (GEAs), tiveram como causa a negligência dos pais (o pai era álcoolico e a mãe jovem, era extremamente imatura ).

Acabou por ser entregue à avó paterna que tinha uma boa relação afectiva com ela e boas condições económicas para poder cuidar devidamente da Bea. Voltamos a vê-la quando ela tinha três anos na companhia da avó. Parecia uma criança feliz, mas até que ponto é que ela seria verdadeiramente feliz? Se tinha sido fruto de uma família destruturada e sofreu na pele essa experiência?
São questões, às quais me foi diícil  responder naquele preciso momento ...

Saudações, Joana

Offline nunotavares

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:(
« Responder #9 em: Dezembro 23, 2004, 11:43:09 »
Simplesmente arrepiante...

Um abraço,  :(

Offline Isabel

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Estórias de (des)encantar
« Responder #10 em: Dezembro 23, 2004, 15:13:22 »
Sem palavras!!!  :(

Offline nunotavares

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Estórias de (des)encantar
« Responder #11 em: Dezembro 26, 2004, 16:31:22 »
um pouquinho de felicidade!
 :D