Autor Tópico: Quem cuida de quem?  (Lida 3498 vezes)

Offline enfsergio

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Quem cuida de quem?
« em: Agosto 09, 2007, 16:07:18 »
No tópico sobre solidão na 3ª Idade, Enfverita disse...
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Trabalho em CS e o que mais me entristece em visita domiciliaria é ver idosos a tratarem e cuidarem de idosos, acamados, completamente dependentes!!

Assim, segundo a vossa experiência profissional, quem encontram a cuidar dos idosos?
Idosos a cuidar de idosos?
Filhos a cuidar de pais?
Idosos sozinhos em casa?
...

Penso que é mais uma temática interessante a ser lançada

:)

Offline enfsergio

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Re: Quem cuida de quem?
« Responder #1 em: Agosto 16, 2007, 17:41:50 »
Da minha experiência, assiste-se a idosos que cuidam de idosos. Ou são as mulheres que tomam conta dos maridos dependentes, ou os maridos que tomam conta das mulheres dependentes. Muitas vezes residem os dois sozinhos e os filhos trabalham longe e raramente estão com os pais. Muitas vezes assiste-se, mais em meio rural, a vizinhos que ajudam a cuidar da pessoa dependente. Mais uma vez são pessoas idosas que ajudam...pessoas idosas...a cuidar...de pessoas idosas.
Nos centros urbanos, os filhos já residem mais perto, e ajudam no cuidar. Por sua vez o apoio domiciliário é uma ajuda que cada vez é mais solicitada, ajudando nos cuidados de higiene, levando as refeições, entre outras coisas.
Ainda há muito a fazer nesta área dos cuidadores.

Offline ruipintos

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Re: Quem cuida de quem?
« Responder #2 em: Agosto 30, 2007, 23:35:42 »
Olá!

Na minha actividade, não faço visitas domiciliárias. O meu contributo nesta temática tem a ver com os ensinos realizados na minha enfermaria aquando a alta do doente.

Na maioria dos casos (95%), os doentes após a alta têm algum, qd não é muito, grau de dependência. Os cuidadores são ou os cônjuges, muitas das vezes idosos, ou os filhos, que nestes casos situam-se numa faixa etária entre os 50 e 60 anos.
Tentamos sempre realizar ensinos a pessoas com capacidade para cuidar do doente em casa. Se vimos que é quase impossível isso acontecer, é accionado o serviço social para arranjar outras formas, como o apoio domiciliário ou mesmo a possibilidade do doente ir para um lar, em concordância com a família, claro.

Devido ao grau de dependência, são muitas vezes os familiares a colocarem a possibilidade do lar ou do apoio domiciliário. Mas não fugindo ao tema inicial, pela experiência, temos muitos idosos a cuidarem de idosos. E o que muitas vezes acontece é termos a impressão que falámos e ensinámos mas a informação apreendida não foi aquela que pretendíamos.

Já agora, ponho mais lenha na fogueira...
Não sei qual a experiência dos colegas, mas pelo menos onde trabalho, não temos uma estreita relação com os centros de saúde. Ou seja, aquando da alta do doente, limitamo-nos a realizar uma carta de enfermagem para os colegas do centro de saúde referindo a presença de pensos, Sonda Vesical, etc.
Porém, existem certos produtos, agora indo de encontro à temática dos pensos, que temos no hospital mas que não existem na maioria dos centros de saúde. A minha ideia, ou opinião, era de que se deveria, cada hospital, entrar em contacto com os centros de saúde para, o mais possível, tentar adaptar certos tipos de tratamento de forma a existir uma continuidade de cuidados, tão falada ultimamente. Bastava criar um grupo de trabalho com esse fim. Será isto possível?

Quando escrevo uma carta de alta de enfermagem, tenho sempre dúvidas de que existirá continuidade. não pela competência dos colegas (não é isso!!!), mas pelos meios que estes possuem em dar continuidade ao que foi realizado em ambiente hospitalar.

Gostaria de saber a opinião dos colegas quanto a este assunto

Cumprimentos
Rui Pinto

Offline susy4

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Re: Quem cuida de quem?
« Responder #3 em: Setembro 02, 2007, 13:55:17 »
É uma situação muito triste, a que se ve por estes lares de Portugal...e mais concretamente na cidade de Coimbra.
Eu sou enf em CSP e faço visitas domiciliarias com regularidade, tendo deparado com casos graves de abandono, posso dizer negligencia, e de solidão. Desde velhotes já em desidratação grave, em casas completamente degradadas e sem as minimas condiçoes de habitabilidade (sim... isto passa-se na cidade dos doutores) e se não for a rapida intervenção dos enfermeiros e assistentes sociais estes seres humanos morrem sem que alguem esteja do lado deles, a prestar cuidados no fim da sua vida.
Pior ainda quando temos familiares que acham que os "velhotes" estão bem e que até sabem cuidar deles (será por negação da situação de dependencia dos pais.??)..... e quem lhes consegue fazer ver o contrario?!!!...Não falo em acamados, mas idosos com dificuldades na mobilidade, sem capacidades cognitivas para realizar qualquer actividade mais exigente ( compras, ler, ir ao médico...) .
Voltando ao tópico: encontra-se um pouco de tudo-esposa/ marido a cuidar de esposa/marido, sobrinhos a tomar conta de tios, filhas/os a tomar conta dos pais, vizinhas/amigas ...enfim um rol de situaçoes que muitas das vezes são enternecedoras e que resultam, mas dificil é lidar com as situações que falei antes...
o que fazem ao encontrar situações assim graves?

abraços

Offline MFC

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Re: Quem cuida de quem?
« Responder #4 em: Setembro 07, 2007, 22:09:20 »
Mas a nova Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados ( www.rncci.min-saude.pt )que começou a implementar-se hà meses, vem tentar responder a essa lacuna. Prevê unidades de internamento para reabilitaçaõ ou manutenção. Unidades de cuidados paliativos. Reforço e integralidade na resposta do apoio domiciliario.
Eu penso que muita "gente" a vê como uma oportunidade de desenvolvimento profissional (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, etc.)...os enfermeiros é que me parece que andam distraidos!

Offline nellyrest

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Re: Quem cuida de quem?
« Responder #5 em: Setembro 07, 2007, 22:35:01 »
Citação de: MFC
Mas a nova Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados ( www.rncci.min-saude.pt )que começou a implementar-se hà meses, vem tentar responder a essa lacuna. Prevê unidades de internamento para reabilitaçaõ ou manutenção. Unidades de cuidados paliativos. Reforço e integralidade na resposta do apoio domiciliario.
Eu penso que muita "gente" a vê como uma oportunidade de desenvolvimento profissional (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, etc.)...os enfermeiros é que me parece que andam distraidos!
Pois é caro colega! Mas esqueces-te que essas unidades ainda são escaças, para a procura que há!
Falo por mim, pois já tenho tido vários doentes referênciados para essas unidades e a equipa hospitalar responsável pelos contactos a essa rede de unidades (a EGA), não tem muitas vezes respostas durante muito tempo de espera, em que os doentes acabam para ir para casa.
Embora também tens que ter em conta que algumas dessas unidades (média duração) apenas aceitam doentes que possuem alguma viabilidade de recuperação, poi o seu tempo de internamento é no máximo de 3 meses. às de longa duração, e que funcionam como um "lar", são mais escaças ainda, e estou a falar com conhecimento de causa!
Portugal, que implementar algo que na vizinha Espanha já funcina á anos luz, e que por certo funcina muito bem.
Pode ser que daqui a 20 anos tenhamos respostas imeditas a todos os problemas que supõem a alta dos doentes que não têm condições fisicas no domicilo para  irem para lá!! :-[
Em relação á temática da discução é mais frequente deparar-me com conjuges a cuidarem do outro conjuge!
E muitas vezes sem condições nenhumas e o cuidador  também doente!!
BJS ;)
Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje