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Autor Tópico: MORTE Que é realmente?Como lida o Enfermeiro com ela?  (Lida 11695 vezes)

Offline enfsergio

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #30 em: Maio 01, 2008, 21:01:59 »
Trabalho num serviço onde existe uma taxa de mortalidade elevada.

Quando os doentes estão internados há muito tempo no serviço, ou quando há múltiplos internamentos no serviço, é logico que se vão criando sempre algumas relações de confiança, e a morte destes doentes custa sempre um pouco mais.

Mas temos que nos lembrar que temos outros doentes que precisam de nós e não nos podemos ir abaixo.

Se tivermos a consciência de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, penso que só temos de seguir em frente e tratar/cuidar dos vivos que são esses agora que irão precisar de nós e da nossa atenção.

A mim em particular, a morte não me faz impressão e lido bem com isso. Não me custa tratar do corpo. O que secalhar mais custa é a transmissão da notícia aos familiares, a maior parte das vezes por telefone, e em que não se sabe como reage a família e o que acontece a partir dali. Isso muitas vezes é que me deixa a pensar...

Offline nunobatista

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #31 em: Maio 01, 2008, 23:49:26 »
A morte é sempre uma situação delicada. Cada um vive essas situações de forma diferente e obviamente que não é fácil. Tenho um hábito que herdei familiarmente: quando assisto a uma morte evito falar e/ou fazer comentários durante alguns minutos.
Pensem nisso. É só mais uma achega.

Offline Leugim

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #32 em: Julho 08, 2008, 16:14:12 »
A morte é sempre algo de complicado para os enfermeiros! Se calhar um pouco mais para os que estão no internamento... Porque é que nenhum de nós quer que os doentes morram no seu turno? Porque é que desejamos que "aguente mais um pouco" até o turno acabar?

Eu estou num serviço em que a morte de doentes é algo comum, pois temos doentes terminais, doentes com diversas metastizações que alteram os vários sistemas do organismo, doentes com progressão da doença oncológica...
Mas também existe o inverso: como a maior parte dos internamentos são programados (para quimioterapia ou quimio-radioterapia) os doentes não são "estranhos". Em 4 meses já sei nomes de vários doentes e vários aspectos da sua situação clínica.

O problema é quando se associam as duas vertentes: doentes já conhecidos e que acabem por falecer no serviço. Para mim é complicado lidar com essa situação, pois era uma pessoa que lá estava, que era bem conhecida e com a qual existia uma relação terapêutica.

Manter limites? Quais limites? E os familiares?

Obviamente que existem outros doentes, que estão vivos e que precisam de cuidados. É claro que temos os familiares a quem dar conforto. Numa destas noites após o falecimento do seu pai, a filha que compreendia a situação clínica do pai e que "apenas" desejava que não estivesse em sofrimentos, essa filha após o falecimento e já fora do quarto, abraçou-me e desfez-se em lágrimas... No final disse "Obrigado". Fiquei sem saber o que dizer, o que fazer...

Para lidar com a morte não existem regras nem "guidelinnes"...

Offline Ena Rot

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #33 em: Julho 08, 2008, 16:49:03 »
Citação de: Magistral Estratega
Não podemos também dar-nos ao luxo de nos envolvermos emocionalmente com nenhum doente "terminal" para que não nos deixemos afectar pela morte deste. É que os vivos continuam cá e precisam do melhor de nós para assim se manterem.

Exacto (embora possa acontecer pois também somos Seres Humanos), simplesmente acontece que nos envolvemos com a "morte".


Citação de: Leugim
Para lidar com a morte não existem regras nem "guidelinnes"...

Pois é...
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Offline jinkxy

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comunicar más noticias
« Responder #34 em: Julho 09, 2008, 17:52:55 »
não é fácil...

são várias as estratégias utilizadas mas nem sempre concordamos com todas.

por exemplo comunicar o falecimento de um familiar por telefone...

Offline mariamariamaria

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Re: comunicar más noticias
« Responder #35 em: Julho 09, 2008, 21:12:44 »
Olá,

Pela minha experiência pessoal,que me foi transmita por colegas mais experientes e de cuja estratégia não tenho dúvidas, os passos são os seguintes:
1- identificar-se como enfermeiro da unidade em questão;
2- perguntar se é o familiar do doenteX que fala;
3- dizer: " as notícias não são boas"
4-esperar pela reacção...
5-aguçar o sentido de humanidade e dizer todo o resto.

Abraço.

Offline nuno.enf

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #36 em: Julho 09, 2008, 23:02:14 »
Boas... caros colegas!

Lidar com a morte para mim é lidar com a vida...

Fico extremamente satisfeito quando consigo proporcionar ao doente e familia um momento digno, calmo, de respeito e tranquilidade...

Para mim tem o mesmo valor do que ser bem sucedido numa reanimação.

Já vivênciei incontáveis situações de falecimentos, e não estando num serviço com exemplares condições estruturais, nem sempre é possível proporcionar o melhor ambiente para o doente, a sua familia... e para os restantes doentes!

Mas quando o conseguímos, e mesmo após comunicar o falecimento do doente aos familiares, recebemos um agradecimento sentido é verdadeiramente satisfatório e faz sentir que valeu a pena o nosso empenho.

Enfº Nuno silva

Offline scunha

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #37 em: Julho 10, 2008, 00:06:14 »
A morte não passa de um fim de ciclo. Quando ela acontece com os nossos doentes, e em termos estritamente profissionais,o importante é a dignidade com que tratamos o corpo e a capacidade de transmissão da informação aos familiares. Tudo os resto, depende da sensibiliddae própria de cada um.  Parece ser uma argumentação "seca". Não não é. è apenas 30 anos destas experiências... E já agora este sempre foi um problema muito mal tratado a nível da formação em enfermagem, pelo menos no meu tempo. Espero que agora esteja melhor, mas desconfio que não pelas reações que vejo em muitos colegas mais novos...

Offline enfermeirinha

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #38 em: Julho 10, 2008, 17:24:38 »
Boa tarde...
 
Citação de: scunha
E já agora este sempre foi um problema muito mal tratado a nível da formação em enfermagem, pelo menos no meu tempo. Espero que agora esteja melhor, mas desconfio que não pelas reacções que vejo em muitos colegas mais novos...

Caro colega, percebo o seu ponto de vista mas creio que este assunto não é algo fácil de ser "tratado a nível de formação em enfermagem"... Pelo menos na minha escola temos aulas desde o 1º ano sobre a morte, possíveis reacções ao falecimento pelos familiares/amigos (bem como formas de prestar apoio aos mesmos), sentimentos face à preparação do corpo, o processo de luto bem como todo tratamento e encaminhamento do falecido... Agora sejamos realistas...a abordagem destas temáticas não nos prepara para lidar com estas situações!... Mas sim a nossa experiência de vida e também a forma como encaramos a morte e todo o seu processo!
Já estive em serviços onde faleciam doentes com frequência e garanto-lhe que tanto colegas meus como enfermeiros dos serviços (que já trabalhavam lá à algum tempo) apresentavam dificuldade em lidar com a morte. Pessoalmente, o meu estágio no IPO (numa unidade onde cerca de metade dos doentes se apresentavam em cuidados paliativos), foi dos que mais gostei até hoje! Faleceram alguns dos meus doentes, mas nunca sozinhos! Sempre estive do seu lado, segurando-lhes a mão e despedindo-me deles... São experiências que nunca poderei explicar na sua totalidade...

Para mim, a morte é uma passagem, onde nos despedimos do bom que fizemos e daqueles que deixamos nesta vida e nos preparamos para partir em paz, com dignidade e tranquilidade... para outro lugar, quem sabe?!
Creio que algo tão importante quanto a forma como tratamos o corpo do doente e como transmitimos e prestamos apoio aos seus familiares, como o colega referiu, é não deixarmos que a pessoa faleça sozinha (a não ser que seja a sua vontade)!

Digo-lhe que gostaria muito de realizar o meu estágio de escolha numa unidade de cuidados paliativos, e de ter a hipótese de um dia trabalhar numa e/ou no IPO (não apenas pela questão da morte, porque não vejo o IPO como tal, mas sim como um lugar de luta... cheio de sobreviventes)!


Queria ainda fazer um comentário noutro testemunho...
Citação de: Magistral Estratega
Não podemos também dar-nos ao luxo de nos envolvermos emocionalmente com nenhum doente "terminal" para que não nos deixemos afectar pela morte deste. É que os vivos continuam cá e precisam do melhor de nós para assim se manterem.

Colega, é a sua opinião e como tal respeito-a... no entanto, não concordo plenamente com a mesma. Quando refere que não nos podemos "dar ao luxo de nos envolvermos emocionalmente com nenhum doente "terminal"" refere-se a quê, mais precisamente? Refere-se a simpatizarmos com a pessoa?... A rirmos e chorarmos com ela?... Não será por vezes precisamente isso que ela necessita?.. Não será isso que faz de nós seres humanos?... Tudo depende da forma como o fazemos, delimitando a linha ténue entre o ambiente terapêutico e não terapêutico!
Depois, quando diz que é para que "não nos deixemos afectar emocionalmente com a morte deste" refere-se a ficarmos tristes?... a chorarmos pela sua morte?... Não compreendo em que sentido é que quer uma quer outra atitude que possa ser tomada faz de nós menos profissionais... Todos nós temos de fazer o luto de uma morte!... Cada um falo-à à sua maneira e com a sua intensidade, no entanto não quer dizer que sejamos "maus" enfermeiros por ficarmos tristes quando um doente falece! De qualquer das formas, sem dúvida que não seria uma boa prática que a qualidade da nossa prestação de cuidados fosse alterada pelo falecimento do mesmo...a não ser que fosse para melhor!... pois numa coisa concordo consigo: aqueles que cá ficam continuam a necessitar de nós e para tal, temos de dar o nosso melhor!!

Cumprimentos :)

Offline Allie

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Re: Como lidam com a morte?
« Responder #39 em: Julho 10, 2008, 23:24:31 »
Faço parte da equipa de cuidados continuados do meu centro de saúde e presto cuidados a muitos doentes em fim de vida. Não é fácil lidar com a morte, menos ainda com o sofrimento da pessoa e sua família, mas garanto que é muito gratificante quando somos reconhecidos pela nossa dedicação, principalmente quando sentimos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para proporcionar (ou tentar) melhor bem estar ao doente.