Boa tarde...
E já agora este sempre foi um problema muito mal tratado a nível da formação em enfermagem, pelo menos no meu tempo. Espero que agora esteja melhor, mas desconfio que não pelas reacções que vejo em muitos colegas mais novos...
Caro colega, percebo o seu ponto de vista mas creio que este assunto não é algo fácil de ser "tratado a nível de formação em enfermagem"... Pelo menos na minha escola temos aulas desde o 1º ano sobre a morte, possíveis reacções ao falecimento pelos familiares/amigos (bem como formas de prestar apoio aos mesmos), sentimentos face à preparação do corpo, o processo de luto bem como todo tratamento e encaminhamento do falecido... Agora sejamos realistas...a abordagem destas temáticas não nos prepara para lidar com estas situações!... Mas sim a nossa experiência de vida e também a forma como encaramos a morte e todo o seu processo!
Já estive em serviços onde faleciam doentes com frequência e garanto-lhe que tanto colegas meus como enfermeiros dos serviços (que já trabalhavam lá à algum tempo) apresentavam dificuldade em lidar com a morte. Pessoalmente, o meu estágio no IPO (numa unidade onde cerca de metade dos doentes se apresentavam em cuidados paliativos), foi dos que mais gostei até hoje! Faleceram alguns dos meus doentes, mas nunca sozinhos! Sempre estive do seu lado, segurando-lhes a mão e despedindo-me deles... São experiências que nunca poderei explicar na sua totalidade...
Para mim, a morte é uma passagem, onde nos despedimos do bom que fizemos e daqueles que deixamos nesta vida e nos preparamos para partir em paz, com dignidade e tranquilidade... para outro lugar, quem sabe?!
Creio que algo tão importante quanto a forma como tratamos o corpo do doente e como transmitimos e prestamos apoio aos seus familiares, como o colega referiu, é não deixarmos que a pessoa faleça sozinha (a não ser que seja a sua vontade)!
Digo-lhe que gostaria muito de realizar o meu estágio de escolha numa unidade de cuidados paliativos, e de ter a hipótese de um dia trabalhar numa e/ou no IPO (não apenas pela questão da morte, porque não vejo o IPO como tal, mas sim como um lugar de luta... cheio de sobreviventes)!
Queria ainda fazer um comentário noutro testemunho...
Não podemos também dar-nos ao luxo de nos envolvermos emocionalmente com nenhum doente "terminal" para que não nos deixemos afectar pela morte deste. É que os vivos continuam cá e precisam do melhor de nós para assim se manterem.
Colega, é a sua opinião e como tal respeito-a... no entanto, não concordo plenamente com a mesma. Quando refere que não nos podemos "dar ao luxo de nos envolvermos emocionalmente com nenhum doente "terminal"" refere-se a quê, mais precisamente? Refere-se a simpatizarmos com a pessoa?... A rirmos e chorarmos com ela?... Não será por vezes precisamente isso que ela necessita?.. Não será isso que faz de nós seres humanos?... Tudo depende da forma como o fazemos, delimitando a linha ténue entre o ambiente terapêutico e não terapêutico!
Depois, quando diz que é para que "não nos deixemos afectar emocionalmente com a morte deste" refere-se a ficarmos tristes?... a chorarmos pela sua morte?... Não compreendo em que sentido é que quer uma quer outra atitude que possa ser tomada faz de nós menos profissionais... Todos nós temos de fazer o luto de uma morte!... Cada um falo-à à sua maneira e com a sua intensidade, no entanto não quer dizer que sejamos "maus" enfermeiros por ficarmos tristes quando um doente falece! De qualquer das formas, sem dúvida que não seria uma boa prática que a qualidade da nossa prestação de cuidados fosse alterada pelo falecimento do mesmo...a não ser que fosse para melhor!... pois numa coisa concordo consigo: aqueles que cá ficam continuam a necessitar de nós e para tal, temos de dar o nosso melhor!!
Cumprimentos
