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Outras Dimensões da Profissão => Enfermagem e Politica de Saúde => : vitorefo November 16, 2010, 00:36:24

: "Enfermeiros no estrangeiro triplicam em apenas um ano"
: vitorefo November 16, 2010, 00:36:24
Ora, boa noite a todos os membros.

"Estudo da Ordem dos Enfermeiros conclui que dois em cada dez estão no desemprego. Destes, metade nunca conseguiu nenhuma proposta"

Há anos que o êxodo tem sido a única solução para os enfermeiros no desemprego. Mas um estudo da Ordem dos Enfermeiros (OE) mostra valores recorde. Em apenas 12 meses, o número de profissionais a emigrar quase triplicou. Eram 5% dos que encontravam emprego em 2009, aproximam-se este ano dos 15%. Espanha é ainda o país de eleição (54% dos emigrantes), mas o Reino Unido já representa 17%, seguido da Suíça (15%) e França (7%).

A OE diz que estes números pecam por defeito - como o levantamento da situação profissional dos jovens enfermeiros é feito tendo por base um inquérito aos inscritos na Ordem nos últimos anos, é mais difícil chegar a quem está fora. O estudo, a que o i teve acesso, consultou quase mil profissionais entre os 21 e os 49 anos e concluiu que dois em cada dez estão desempregados. Os enfermeiros formados mais recentemente são os que apresentam maiores taxas de desemprego e o Norte, onde existem mais escolas de enfermagem, congrega 71% dos profissionais que não exercem a profissão.

Metade dos enfermeiros sem trabalho nunca recebeu qualquer proposta. E 14% admitem ter rejeitado ofertas por serem apenas estágios profissionais, apresentarem más condições de trabalho ou remunerações muito baixas.

O número de licenciaturas tem disparado - em 2009 era o curso que tinha mais vagas disponíveis, com 1807 - ao mesmo tempo que a contratação de profissionais tem sofrido restrições. O resultado é fácil de perceber: existem levas de desempregados engrossadas pelos congelamentos anunciados na função pública. O problema é que a situação não é um resultado simples das leis da procura e da oferta, porque há enfermeiros em falta no Serviço Nacional de Saúde - só nos centros de saúde de Lisboa faltam mais de mil e, segundo as contas do Sindicato dos Enfermeiros de Portugal, a carência a nível nacional ascende aos cinco mil.

"Não faz sentido que o Ministério da Saúde tenha diagnosticado as necessidade em termos de recursos humanos e que todos os anos seja mais e mais difícil aos jovens enfermeiros encontrar emprego em unidades de saúde", comenta a bastonária Maria Augusta Sousa.

Entre os empregados, os vínculos precários são os mais frequentes: 40% têm contratos a termo certo ou um contrato de prestação de serviços.

Num mercado com muitos candidatos para poucos lugares, as condições de trabalho oferecidas ficam aquém do desejado. A Ordem refere que 34% dos jovens à procura de emprego já se sentiram afectados na sua dignidade profissional, principalmente "pela forma como são tratados pelas instituições de saúde". O que demonstra um retrocesso - no estudo anterior eram 26%.

Perante as dificuldades, são muitos os que equacionam abandonar a profissão: 42% dos inquiridos admite que pondera ou já ponderou enveredar por outra actividade. Alguns não tiveram outro remédio. Dos enfermeiros que actualmente exercem uma profissão, 5% não trabalha na enfermagem.

 

 

Jovens são os mais afectados

 

 

Vânia não resiste a apontar a ironia. O dinheiro que o Estado lhe paga por estar no desemprego é “praticamente igual” ao que lhe pagava quando era enfermeira. A única diferença é a óbvia: em casa, não atende doentes. “Não há dinheiro para manter o meu posto de trabalho, onde prestava cuidados necessários à população, mas há dinheiro se eu não tiver qualquer tipo de produção para a economia. Só porque o que agora recebo sai de um bolso diferente. Não tenho qualquer restrição física e, em vez de um subsídio, prefiro receber pela prestação de um trabalho de qualidade. Alguém me pode ajudar?”
Licenciada desde 2007, é um exemplo típico do que é ser enfermeiro em Portugal. É de Barcelos e o primeiro emprego que conseguiu, após seis meses de procura, foi em Espanha, num hospital privado em Tenerife. Ganhava o dobro, gostava da forma de trabalhar e da autonomia dada aos enfermeiros, “mais pró-activos e menos dependentes de autorizações burocráticas dos médicos para tarefas simples como pedir exames”. Mas sentia falta de casa e de falar a sua língua. Logo que pôde, regressou.
Com a experiência conseguida em Espanha, foi aceite num concurso aberto pela Administração Regional de Lisboa e Vale do Tejo. O segundo emprego aconteceu num centro de saúde carenciado da Grande Lisboa. Por mais que arregaçassem as mangas, as três enfermeiras da unidade não tinham braços para os 50 mil utentes do centro. Como havia falta de pessoal, todos os dias fazia horas extra. Mais um exemplo que aponta de má gestão imposta pelos constrangimentos nas contratações. “Só o que ganha em trabalho extraordinário dava para contratar outra pessoa, mais disponível e fresca para trabalhar.” Nos hospitais, as horas extra nem são pagas, acumulam para serem gozadas sempre para os meses que vêm. “Nunca há tempo para isso, implicaria sobrecarregar os outros com mais trabalho.” E trabalho é o que os outros profissionais já têm em excesso. “Sente-se falta de enfermeiros em todo o lado. E os que existem não conseguem sair das rotinas básicas. Se surge uma ideia para um projecto, para algo mais criativo que melhore o desempenho, não há tempo para o concretizar.”
No ano passado, conseguiu pela primeira vez ficar mais perto de casa. Um hospital do Norte para onde tinha concorrido em 2007 fez-lhe um contrato de quatro meses, para substituição de uma enfermeira, e depois de três meses, por gravidez de outra. Como Vânia pertence à bolsa de admitidos ao concurso de 2007, o hospital está impedido de fazer dois contratos à mesma pessoa.
O subsídio de desemprego que recebe permite-lhe “dar-se ao luxo” de recusar trabalhos pagos a três euros à hora, a recibos verdes, em algumas unidades privadas. “Há colegas que aceitam porque acreditam que ganham experiência e que depois a situação melhora. Mas é um engano, nunca melhora.”
Dos 300 alunos que se licenciaram este ano na escola de Coimbra onde Nuno Santos tirou o curso, “talvez haja uns 15 a trabalhar no país”. Outros tantos foram para fora. Suíça, França, Inglaterra. Por enquanto, Nuno resiste às agências de recrutamento. Não por acreditar num contrato em Portugal, mas porque quer investir na formação em geriatria – com o envelhecimento da população, “é a oportunidade de emprego”. E uma oportunidade no mundo laboral é algo que Nuno ainda não teve.
“Está tudo congelado e o que vai surgindo pede sempre enfermeiros com experiência de um, dois anos.” Como não têm experiência, os jovens licenciados não são aceites. Se não são aceites, não conseguem experiência profissional. É um ciclo vicioso. “A única hipótese são os estágios não remunerados, mas não são solução, só servem para as unidades se servirem dos estagiários e não contratam ninguém.”

in: http://www.ionline.pt/conteudo/88470-enfermeiros-no-estrangeiro-triplicam-em-apenas-um-ano (http://www.ionline.pt/conteudo/88470-enfermeiros-no-estrangeiro-triplicam-em-apenas-um-ano)

A meu ver só falta referir e analisar algo que contribui para a precariedade da profissão em termos de desemprego (entre outras), que é o facto de muitos enfermeiros terem pelo menos 2 locais de trabalho...

Em relação aos dados passados pela Ordem, era importante que realizassem uma retrospectiva sobre os mesmos, pois certamente também a esta deveriam ser atribuídas publicamente grandes responsabilidades. E era um tópico interessante a ser colocado como extra na assembleia geral (Que Soluções?)....

Cumprimentos,

Vítor Oliveira