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quinta, 01 novembro 2007 16:26

Supervisão e Relações Supervisivas - A importância na construção da identidade do enfermeiro

Escrito por 

Uma situação de desequilíbrio emocional mais acentuada, associada a uma competitividade desleal não compreendida pode colocar em causa o desenvolvimento do processo formativo, com reflexões silenciosas da prática que não chegam a quem tem a responsabilidade de encerrar o processo.

 

Sinais Vitais nº 72

 

Dina Bernardino

Enfermeira Licenciada

Centro de Saúde de Santarém  - Unidade de Saúde Familiar de S. Domingos

 

Palavras-chave: Supervisão; Modelo Reflexivo de Supervisão; Relações Supervisivas; Identidade

 

RESUMO

A conjuntura actual tem vindo a devolver à enfermagem desafios antigos que já julgávamos vencidos. O debate actual acerca do Sistema de Desenvolvimento Profissional dos Enfermeiros e de Certificação de Competências, assim como, do acesso ao título de enfermeiro após a frequência, com aproveitamento, de um período de exercício profissional tutelado, remete a discussão para a Supervisão dos jovens enfermeiros e os processos que dela ocorrem, assim como a sua influencia na construção da identidade pessoal e profissional destes.

O presente artigo tem como objectivo tecer algumas considerações acerca da importância da Supervisão para a Enfermagem e reflectir acerca das relações supervisivas que se desenvolvem durante o processo e a sua importância na construção de identidade do jovem/futuro enfermeiro profissional. 

 

INTRODUÇÃO

“Enquanto caminhava em direcção à sua Lenda Pessoal, tinha aprendido tudo o que precisava, e tinha vivido tudo o que tinha sonhado viver. Mas chegara ao seu tesouro, e uma obra só está completa quando o objectivo é atingido. (…) ninguém conseguiria ter uma pirâmide no seu quintal, mesmo que amontoasse pedras toda a vida.”

Paulo Coelho 
 

O contexto actual da Sociedade e do Sistema Nacional de Saúde leva-nos, pelo seu questionamento constante, a tentar encontrar áreas de abrangência que dignifiquem o Cuidar em Enfermagem e a satisfação dos Enfermeiros. “As crescentes exigências de desenvolvimento profissional contínuo apontam claramente para a necessidade de criação de estratégias facilitadoras de uma adequada vinculação profissional e de uma formação ao longo da vida que promova a qualidade e a excelência” (Revista Ordem dos Enfermeiros, nº 22, p. 26).

O debate actual acerca do Sistema de Desenvolvimento Profissional dos Enfermeiros e de Certificação de Competências, assim como, do acesso ao título de enfermeiro após a frequência, com aproveitamento, de um período de exercício profissional tutelado, traz à luz do debate novos conceitos e responsabilidades aos quais não podemos estar alheios. O desenvolvimento de formação Pós-Graduada no âmbito da Formação e Supervisão Pedagógica, permitiu-nos a reflexão e o questionamento acerca da importância da cooperação que os enfermeiros da prática desenvolvem com as Escolas Superiores de Enfermagem, no que se refere à Supervisão de alunos em ensino clínico, sendo sobre esta problemática que vamos tecer algumas considerações.

 

CONCEITOS DE SUPERVISÃO

Para começar será necessário caracterizar o conceito de Supervisão e em que medida este pode ser aplicado à realidade da formação em Enfermagem. Franco (2000, p. 32) define Supervisão como “o processo em que uma pessoa experiente e bem informada presta ajuda aos alunos para alcançarem a plena maturidade no seu desenvolvimento humano, educacional e profissional, numa actuação de monitorização sistemática da prática, sobretudo através do acompanhamento contínuo e de procedimentos de reflexão e experimentação”. Viera (1993, p.28) define, também, Supervisão como “uma actuação de monitorização sistemática da prática pedagógica, sobretudo através de procedimentos de reflexão e experimentação.

Tal como uma “mãe” desenvolve os processos de compreensão dos seus filhos, para que sejam autónomos, também o processo supervisivo é salientado, por alguns autores, pela evidência no desenvolvimento de capacidades que permite, naqueles que são alvo do processo, caracterizados como estando em “metamorfose”. Desta forma, a construção de conhecimento,que advém do processo supervisivo, comoexercício plurimetodológico e intercontextual, ondea importância das relações intra e inter pessoais estabelecidas na aprendizagem é fundamental, porquetêm em conta a intercontextualidade, a transgeracionalidadedo processo (Sá-Chaves, 1999, p.22).As definições, na sua essência, não diferem muito. Existem,no entanto, vários modelos que podem ser adoptados aquando do desenvolvimento de um processosupervisivo desde uma abordagem mais prescritiva atéuma abordagem mais reflexiva, dependendo grandementeda formação do supervisor, do objectivo do processoe, logicamente, do cenário em que ocorre.

 

MODELO REFLEXIVO DE SUPERVISÃO EM ENFERMAGEM

Debruçamo-nos aqui um pouco sobre o Modelo Reflexivo em Supervisão, por considerarmos que este se enquadra naquilo que deve ser desenvolvido como processo supervisivo em enfermagem. “…O modelo reflexivo entende as situações educativas como únicas, caracterizadas pela sua particularidade, estando intrinsecamente associadas aos contextos específicos em que ocorrem. Daqui decorre que os quadros teóricos da educação, (…) constituem, nestes modelos, apenas referenciais, (…) na análise/reflexão do acto educativo a nas decisões pedagógicas, e não normas ou modelos a aplicar…” (Oliveira, s.d., p.15)

Este modelo de supervisão tem como subjacente as teorias construtivistas e desenvolvimentistas, centrando-se na reflexão sobre a acção educativa tendo em vista a resolução de problemas concretos da prática pedagógica. Prevê o desenvolvimento de competências pessoais e profissionais a partir da dialéctica teoria/ prática. O formando desempenha, neste contexto o papel central e activo do seu desenvolvimento e da sua aprendizagem, sendo o supervisor, aquele que ajuda o formando no seu desenvolvimento através da procura de significados para as suas actuações. A centralidade não está na avaliação mas sim no processo desenvolvido durante o percurso formativo.

No âmbito da Enfermagem este referencial de supervisão é prática comum. No entanto, não podemos deixar de encontrar, neste contexto, alguns pontos de reflexão. A prática reflexiva sistemática, naquilo que perspectiva Shön, como sendo o conhecimento na acção, a reflexão na acção, a reflexão sobre a acção e a reflexão na e sobre a acção, revelam-nos, sem dúvida a importância do contexto da prática para o desenvolvimento profissional do enfermeiro. No contexto da prestação de cuidados e dos períodos de ensino clínico que o estudante de enfermagem realiza ao longo do seu percurso de formação iniciasse um processo de maturação individual que, quando trabalhado num contexto reflexivo, pode auxiliar o estudante a desenvolver competências de questionamento da sua prática, no sentido em que também, enquanto enfermeiro, deverá questionar diariamente a sua intervenção e ter flexibilidade e humildade para reconhecer as suas oportunidades de melhoria e de crescimento. Mas sabemos que isto não é prática comum. Muitas vezes os processos reflexivos iniciados durante os períodos de ensino clínico, pelo professor, são unicamente um momento académico, sem repercussão prática. Contudo, interrogamos se, sendo este um processo construído a partir da prática do formando interveniente, e onde intervêm o enfermeiro cooperante e o enfermeiro professor, não esquecendo o contexto de cuidados, se não estiverem todos numa perspectiva de crescimento pessoal e profissional, será eficaz? Queremos com isto dizer que, por muito que a abordagem do professor responsável pela supervisão do processo pedagógico de ensino clínico seja a reflexiva, se o enfermeiro cooperante não seguir o mesmo referencial, cria-se no estudante um conflito. Que associado à sua “fragilidade” de auto-exposição da sua prática, de “nudez” pessoal e profissional, já por si conflituosa, pode gerar um desequilibro desnecessário no percurso formativo do estudante e na construção da sua identidade profissional. Será importante que, na nossa opinião, se uniformizem abordagens e se minimize a dicotomia entre a escola e o contexto da prática, só possível através de formação específica na área da Supervisão para os enfermeiros cooperantes nestes processos formativos. Pois não só fundamental é o tipo de relação interpessoal que é estabelecido entre todos os intervenientes no processo, e a uniformização de conceitos, como começa directamente a interferir neste contexto a competitividade entre estudantes. Uma situação de desequilíbrio emocional mais acentuada, associada a uma competitividade desleal não compreendida pode colocar em causa o desenvolvimento do processo formativo, com reflexões silenciosas da prática que não chegam a quem tem a responsabilidade de encerrar o processo.

 

RELAÇÕES SUPERVISIVAS E CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE DO JOVEM ENFERMEIRO

Como já referimos, é fundamental o processo relacional que se desenvolve entre quem supervisiona e quem é supervisionado. Salientarmos, as características que definem o processo supervisivo: promover a socialização de quem vai entrar, ou já esta, na profissão; acompanhar e orientar o processo. Sendo que ao formando compete desenvolver uma leitura compreensiva da realidade, integrar-se progressivamente nas actividades, desenvolvendo competências e processos de autoavaliação. Do supervisor é esperado que facilite e incentive a leitura da realidade, promova a integração na vida profissional e desenvolva o processo de avaliação. A este respeito Silva e Silva (sd., p.103) afirmam que “é integrados na equipa de enfermagem que os alunos estabelecem relações mais equitativas e próximas entre os enfermeiros do exercício, aprendendo com eles a “enfermagem prática” e a facilitar a inserção futura no mundo do trabalho através regras de funcionamento da organização”.

Desta forma, a concepção do processo relacional que é estabelecido entre quem supervisiona e quem é supervisionado, independentemente do estilo de supervisão adoptado, torna-se central. A ideia de distanciamento versus aproximação estratégica do supervisor em relação ao supervisionado, no processo relacional estabelecido, “permite o alargamento do campo de análise e a possibilidade da sua compreensão sistémica e contextualizada” (Sá-Chaves, 1999, p.12), do mesmo modo que, a supervisão e a atitude supervisiva, pressupõem um instável equilíbrio no exercício da consciência informada, da reflexão crítica e da amizade consentida, entre quem supervisiona e quem é supervisionado. Questionamos assim, se em qualquer contexto da prática de cuidados o enfermeiro não desenvolve um processo supervisivo? Não será aqui que reside uma das concepções fundamentais da disciplina de enfermagem e uma das suas formas de afirmação? Centrar o processo supervisivo, partindo de um processo relacional que “instaure a possibilidade de afecto (…) e com ele, a qualidade da ambiência nos sistemas de formação” (Sá-Chaves, 1999, p.16) parece-nos que seria, para a Enfermagem, Ouro sobre Azul.

O desenvolvimento da prática reflexiva e do conhecimento emergente da própria acção são para a enfermagem, tal como para o processo de Supervisão condição sinequanon. Num contexto cada vez mais economicista, o desafio está na melhoria do capital intelectual individual e colectivo. Ou seja, a melhoria do desempenho nas estratégias de gestão, e da competência supervisiva como dimensão fundamental e reguladora dos processos formativos, sendo vertente fundamental da realidade da Enfermagem. Num estudo publicado recentemente, no âmbito da Supervisão de alunos de Enfermagem em Ensino Clínico, revelou-se que a supervisão é “promotora de competências nos alunos, sobretudo as de natureza relacional e atitudional. Este desenvolvimento é reconhecido pelos próprios alunos” (Simões, Belo e tal, 2006, p.14).

Isto remete-nos para a complexidade que é a formação em contexto de trabalho. Porque implica, por um lado o desenvolvimento de competências com referências empíricas ou saber em acção, por outro a compreensão da formação como um processo de transformação de saberes, de comportamentos, levando, por isso mesmo, à percepção do colectivo de trabalho como espaço de crescimento e transformação pessoal, em que as representações devem ser partilhadas e reflectidas em atitudes sobre a acção. Neste contexto, aos profissionais “solicita-se a capacidade de contribuir para o desenvolvimento da profissão e de trabalhar os fundamentos da mesma, tornando-os mais sólidos e consistentes; solicita-se a abertura para a aprendizagem ao longo da vida, a motivação para a autoavaliação e a formulação de contributos para as ciências da enfermagem” (Abreu, 2003, p.22).

Chegámos ao ponto de união entre as três vertentes que constituem a abordagem deste artigo, ou seja a Supervisão, e as relações que se estabelecem entre os intervenientes nela constantes e a importância deste processo na construção da identidade dos jovens enfermeiros. Todos temos de ter noção de que neste processo não podemos ser modelos mas sim veículos promotores da reflexão e do questionamento, actuando como promotores de uma pedagogia centrada no aluno e conducendente à sua automatização. “O papel do supervisor torna-se assim mais exigente, não se podendo cingir a uma “orientação” tradicional do estagiário, assente em modelos de mestria ou de racionalidade técnica da formação” (Moreira, s.d., p.141).

 

CONCLUSÃO

Estamos convictos que esta temática é abrangente e polémica. No entanto, o objectivo deste artigo foi simplesmente problematizar algumas das questões que o processo supervisivo levanta. Pela pertinência do cenário actual da saúde, consideramos que os enfermeiros não podem mais uma vez deixar aliciar-se com a “galinha dos ovos de ouro” deixando para trás a sua essência que é Cuidar e Cuidar bem com tudo aquilo que dispõem em si e no contexto em que estão inseridos. Sendo que o processo de supervisão de jovens enfermeiros ou estudantes de enfermagem faz parte desse Cuidar, não podendo ser apenas mais um momento de “polidez letárgica” em que se contam os minutos para a reunião de avaliação final…

Desse momento pode depender a vida de alguém, mas depende profundamente o respeito pela profissão da qual fazemos parte e a imagem da Enfermagem. E só depende de cada um de nós: Enfermeiros… É o nosso tesouro, o nosso objectivo a atingir!!

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