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domingo, 19 setembro 2010 18:52

Prevenção da gravidez na Adolescência: Educação sexual em contexto escolar

Escrito por 

O ambiente escolar e a intervenção do enfermeiro são essenciais neste processo

 

Título

Prevenção da gravidez na Adolescência: Educação sexual em contexto escolar

Prevention of Teenage Pregnancy: Sex education in school context

Nursing nº259

 

Autores:

Anabela Dias* e Isabel Pereira**

Enfermeiras Licenciadas. Centro Hospitalar do Médio Tejo (Unidade de Torres Novas – Serviço de Pediatria).

Trabalho realizado no contexto da Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediatria 2008/2009.

Instituto Politécnico de LeiriaEscola Superior de Saúde de Leiria.

 

Resumo

A maternidade na adolescência constitui um fenómeno bem visível em Portugal, é o segundo país da Europa com maior número de adolescentes grávidas, destacando-se também no quadro europeu do aborto voluntário. Em 2007, registaram-se 1690 gravidezes em adolescentes até aos 17 anos e, entre Julho de 2007 e Maio de 2008, abortaram na Maternidade Alfredo da Costa 90 adolescentes (REBELO, 2008).

De acordo com o DECRETO LEI nº259/2000 de 17 de Outubro a educação sexual ajuda a prevenir riscos associados à vivência da sexualidade, nomeadamente as gravidezes não desejadas. O ambiente escolar e a intervenção do enfermeiro são essenciais neste processo.

Com este estudo pretende-se avaliar a efectividade na aquisição de conhecimentos dos adolescentes acerca da prevenção da gravidez. Para isso desenvolvemos um estudo experimental, descritivo-correlacional. A amostra foi constituída por 36 adolescentes a frequentar o 9º ano da Escola E.B. 2,3 de Freixianda.

Constatámos que o grupo de adolescentes sujeitos às sessões de educação sobre prevenção da gravidez na adolescência apresentou um nível de conhecimentos superior comparativamente aos adolescentes que não receberam esta formação.

Palavras-chave: Conhecimentos; Prevenção; Gravidez; Adolescência; Educação Sexual.

 

Summary

Motherhood during adolescence is clearly a phenomenon in Portugal, it is the second European country with largest number of pregnant teenagers, especially in the European framework of voluntary abortion. In 2007 there were 1,690 pregnancies among adolescents up to the age of 17, between July 2007 and May 2008, 90 adolescents aborted in Alfredo da Costa Maternity (REBELO, 2008).

According to the Decree Law nº 259/2000 of October 17th, sex education helps prevent risks associated with the experience of sexuality, including unwanted pregnancies. The school environment and the intervention of the school nurse are essential in this process.

This study is intended to evaluate the effectiveness of knowledge acquirement about the prevention of pregnancy by adolescents. For this reason we developed an experimental, descriptive and correlational study. The sample consisted of 36 teenagers who attend the 9th year in the school “Escola EB 2,3 de Freixianda”.

 We noticed that the group of adolescents subjected to education sessions about the prevention of teenage pregnancy, showed a higher level of knowledge compared to adolescents who did not receive this training.

Keywords: Knowledge; Prevention; Pregnancy; Adolescence; Sex Education.

 

Introdução

A Organização Mundial de Saúde considera o período da adolescência entre os 10 e os 19 anos. Caracteriza-se por um período de desequilíbrio, tudo está  em mudança, tudo se torna contraditório, tudo parece incerto e duvidoso.

A gravidez nesta etapa da vida constitui uma fase de profundas adaptações e mudanças, que transformam a vivência da jovem. Constitui um problema de saúde com implicações psicossociais na adolescente, no filho e na família.

Segundo LOURENÇO (1998) as complicações na grávida adolescente são mais frequentes do que na mulher adulta, mas os factores subjacentes a tal fenómeno são essencialmente de ordem sociocultural, destacando-se de entre eles o atraso no acesso às consultas de vigilância pré-natal. Habitualmente, a adolescente ignora, nega ou esconde, no maior período de tempo possível a sua gravidez. Ao dissimular a sua condição, arrisca a sua própria vida e a do ser que traz dentro de si, contribuindo para o aumento das complicações médicas.

VENTURA (1991) salienta que a gravidez na adolescência deve ser encarada como uma gravidez de alto risco, por vários factores:

- A adolescente encontra-se numa fase activa do seu desenvolvimento físico e uma gravidez pode vir a alterá-lo significativamente;

- A maioria das adolescentes não está preparada para encarar uma gravidez e suas alterações (psíquicas e físicas) devido à imaturidade psicológica característica desta faixa etária.

 

Para além dos factores acima mencionados, LOURENÇO (1998) ainda acrescenta como principais patologias obstétricas: prematuridade e baixo peso do recém-nascido, toxémia gravídica, anemia, infecção urinária, disfunção uterina, desproporção cefalo-pélvica, descolamento prematuro da placenta, altas taxas de morbilidade e mortalidade perinatais e risco de parto pós-maturo.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 1998, existiam em Portugal 95 mães com menos de 15 anos e 7308 com idades entre os 15 e os 19 anos.

Em 2002, nasceram em Portugal cerca de 9800 filhos de mães com idade igual ou inferior a 20 anos, ou seja, 8,6 por cento do total de nascimentos. Estas crianças apresentaram, segundo dados do mesmo instituto, maior frequência de prematuridade (6,8 por cento versus 5,4 por cento) e de mortalidade de fetos mortos em partos simples (0,59 por cento versus 0,48 por cento).

REBELO (2008) refere que, em 2007, registaram-se 1690 gravidezes em adolescentes até aos 17 anos. Com a mesma idade, entre os meses de Julho de 2007 e Maio de 2008, abortaram na Maternidade Alfredo da Costa 90 adolescentes. Os abortos foram feitos de acordo com a nova lei que entrou em vigor a 15 de Julho de 2007 e que permite a interrupção voluntária da gravidez a pedido da mulher até às 10 semanas de gestação.

Na RESOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA nº 27/2007 de 21 Junho, o governo recomenda medidas no sentido de prevenir a gravidez na adolescência e pode ler-se o seguinte:

“1 – A recolha e sistematização da informação considerada relevante sobre a gravidez na adolescência, que proporcione um real diagnóstico da situação.

2 – Em sequência deste estudo e em consonância com o diagnóstico deve ser elaborado um programa nacional sobre prevenção da gravidez na adolescência de acordo com as realidades concretas.

3 – Este plano deve ser elaborado por um grupo de especialistas ao nível da saúde e da educação que deve avaliar as poucas experiências já realizadas nesta área.

7 – Promover campanhas de informação e sensibilização dirigidas a adolescentes e jovens sobre a saúde sexual e reprodutiva, regulares e devidamente avaliadas.”

 

O PLANO NACIONAL DE SAÚDE 2004-2010 (2004:17) preconiza que:

“Os adolescentes são grupos de intervenção prioritária, no âmbito da saúde reprodutiva e da prevenção de ITS (infecções transmitidas sexualmente); serão, portanto, reforçadas as iniciativas no sentido de adequar e melhorar as condições de acesso e atendimento dos adolescentes, nos Centros de Saúde e nos Hospitais” e ainda devem ser “estabelecidas parcerias com outras instituições e sectores, nomeadamente a educação, para uma abordagem integrada da saúde dos adolescentes e do desenvolvimento de actividades de promoção da saúde e prestação de cuidados nos serviços oficiais de saúde.”

 

O mesmo documento (2004:18) refere ainda que:

“De acordo com a Convenção dos Direitos da Criança, todas as crianças e jovens devem ter assegurado o direito à vida, à saúde, à alimentação e à educação. A educação sexual pode ser entendida, portanto, como um direito que todos têm de ter uma visão positiva da sua sexualidade, ter pensamento crítico e tomar decisões responsáveis acerca da sua vida sexual dando-lhes a oportunidade de adoptarem estilos de vida saudáveis.”

 

Para além de ser um direito humano, consagrado também na legislação portuguesa (DECRETO LEI nº259/2000 de 17 de Outubro), a educação sexual ajuda a prevenir riscos associados à vivência da sexualidade, nomeadamente as gravidezes não desejadas e o contágio de infecções sexualmente transmissíveis, cuja educação sexual informal e espontânea não é suficiente, esclarecedora, nem eficaz.

Como refere MENDES (2006:43), a abordagem deve ser “pedagógica sistemática de temas ligados à sexualidade humana em contexto curricular, disciplinar e não disciplinar e extracurricular, numa lógica interdisciplinar, privilegiando o espaço turma e as diferentes necessidades de crianças e jovens”.

De acordo com os resultados de um estudo descritivo-correlacional de 2007, realizado nos Estados Unidos da América de Janeiro de 2002 a Março de 2003, a adolescentes com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos, de ambos os sexos, os autores concluíram que:

  • O ensino sobre a contracepção não está associado ao aumento do risco da actividade sexual e das doenças sexualmente transmissíveis nos adolescentes.

  • A informação apenas sobre a abstinência sexual não tem significado no retardar do início da actividade sexual dos adolescentes.

  • Os adolescentes sujeitos a uma educação sexual abrangente (baseada na informação sobre abstinência sexual, informação sobre métodos anticoncepcionais no controlo da natalidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis) têm menor risco de gravidez comparativamente aos que não receberam qualquer tipo de educação sexual ou que receberam apenas informação baseada na abstinência sexual (KOHLER, 2008).

 

MENDES (2006) faz referência a outro estudo realizado pelo Centro de Estudos da Família do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, que conclui que, mais de 40 por cento dos portugueses nem sempre usa preservativo em relações sexuais ocasionais ou quando têm mais do que um parceiro sexual e 20 por cento nunca o utiliza.

Neste contexto, a educação sexual nas escolas assume um papel fulcral na formação dos jovens adolescentes, a sua eficácia depende da articulação e estabelecimento de parcerias entre a escola e os serviços de saúde, o enfermeiro desempenha um papel importantíssimo como educador para a saúde e agente promotor de estilos de vida saudáveis, nos quais se insere a prevenção da gravidez na adolescência.

Este estudo de investigação orientou-se para uma população de adolescentes a frequentar o 9º ano. Seleccionada uma amostra não aleatória e dividida em dois grupos, em que um foi sujeito a sessões de educação sobre prevenção da gravidez na adolescência, com o objectivo de se determinar a efectividade desta estratégia na aquisição de conhecimentos.

 

Metodologia

Este estudo enquadra-se no domínio da investigação quantitativa, experimental e longitudinal.

Assumiu-se como variável dependente “Conhecimentos acerca da prevenção da gravidez na adolescência” e como variável independente a “Educação sexual na prevenção da gravidez na adolescência”.

Para testar a nossa hipótese, “Os adolescentes sujeitos às sessões de educação sexual, apresentam mais conhecimentos relativamente à prevenção da gravidez, comparados aos adolescentes que não frequentaram estas sessões”, foi desenhado um estudo experimental de caso controle. De acordo com FORTIN (1999), é um estudo de causa efeito, em que a partir da hipótese o pesquisador aplica um tratamento experimental. Utiliza um grupo experimental e um grupo controlo equivalentes, no qual o primeiro é submetido ao experimento, pretende descrever a relação entre as variáveis e verificar a sua existência.

A população alvo foi constituída por 54 adolescentes (turmas A, B e C), a frequentar o 9º ano de escolaridade no ano lectivo de 2008/2009, da Escola E.B. 2,3 de Freixianda, pertencente à área de influência de Saúde Escolar do Centro de Saúde de Ourém. Para a realização deste estudo foi feito um pedido formal ao conselho executivo da escola e prestados esclarecimentos em reunião à Presidente do Conselho Executivo e directores de turma da população alvo.

A nossa amostra foi constituída por 36 adolescentes, o método de amostragem não probabilístico por conveniência de acordo com a opção dos directores de turma. As unidades de amostragem as turmas A e B.

Aplicou-se aos adolescentes um questionário, para avaliação de conhecimentos sobre a prevenção da gravidez, em dois momentos diferentes. O 1º momento (9 de Dezembro de 2008) antes da realização das sessões de educação sexual e o 2º momento (13 de Janeiro de 2009) após a realização das sessões ao grupo experimental (turma A). A colheita de dados foi anónima, tendo-se garantido a protecção de dados pessoais. Foram incluídos apenas os adolescentes dos quais se obteve consentimento informado, quer do próprio, quer dos respectivos encarregados de educação.

O questionário foi aplicado durante o horário escolar (nas aulas de Formação Cívica), com a presença de pelo menos um observador.

Com o objectivo de testar o número, o impacto, a pertinência e a interpretação das questões, foi aplicado um pré-teste a 4 adolescentes, também a frequentar o 9º ano. A análise e a avaliação destes resultados permitiu aferir, rever, corrigir, clarificar e modificar algumas questões no questionário.

Posteriormente, foi elaborado uma versão definitiva. A 1ª parte relacionada com as características individuais e sócio-familiares dos adolescentes. A 2ª parte para avaliação dos conhecimentos, constituída por 11 questões fechadas de resposta múltipla.

Elaborámos 6 questões em que se pretende avaliar o conhecimento acerca do aparelho reprodutor feminino, masculino, ciclo menstrual e alterações físicas e psicológicas da adolescência, atribuímos o valor 0 para resposta incorrecta e o valor 1 para a resposta correcta. Na questão 7, em que se pretende avaliar o conhecimento acerca do nº de métodos contraceptivos conhecidos, atribuímos o valor 0 para desconhecimento total, 1 para quem referiu 1 método, 2 para 2 métodos e 3 para 3 métodos ou mais. Na questão 8, em que se pretende avaliar o conhecimento acerca de aspectos e mitos da relação sexual, das sete possibilidades de resposta, 2 estavam erradas e 5 correctas, atribuímos o valor 0 a resposta errada e o valor de 1 até 5 de acordo com o número de respostas correctas assinaladas. Na questão 9, em que se pretende avaliar o conhecimento acerca do uso correcto do preservativo, atribuímos o valor 0 para resposta incorrecta e o valor 1 para a resposta correcta. Na questão 10, em que se pretende avaliar o conhecimento acerca da actuação no caso do preservativo se romper, atribuímos o valor 0 para resposta incorrecta, o valor 1 para quem assinalou 1 resposta correcta e o valor 2 para quem assinalou 2 respostas correctas. No total, o score máximo possível é de 17 valores.

A questão 11 não foi considerada para avaliação de conhecimentos, pretendia-se conhecer os motivos considerados importantes para os adolescentes dizerem não a uma relação sexual. Das 8 afirmações apresentadas pedia-se para enumerar 4.

O tratamento estatístico dos dados foi efectuado informaticamente, através do programa Statistic Package for the social science (SPSS) na versão 16.0. Antes de iniciar o teste de hipóteses determinou-se se as variáveis em causa tinham distribuição normal. O teste de Shapiro-Wilk revelou que as variáveis não apresentam distribuição normal, nos dois momentos de avaliação e nos dois grupos, optando-se assim por testes não paramétricos.

A fim de confirmar a homogeneidade das amostras, condição indispensável para ser um estudo caso-controle, utilizou-se o teste de Mann-Whitney, constatou-se p>0,05 pelo que as diferenças encontradas não são estatisticamente significativas.

Para avaliar o nível de conhecimentos sobre a prevenção da gravidez na adolescência, nos dois grupos e nos dois momentos de avaliação, utilizou-se o teste de Wilcoxon.

 

Resultados

A amostra foi constituída por 36 adolescentes, com idêntica distribuição entre sexos (50 por cento/50 por cento), com a média de idade de 14 anos. A maior parte dos adolescentes vive com pais e irmãos (92,9 por cento no grupo experimental e 72,7 por cento no grupo controle).

Relativamente aos conhecimentos anteriores sobre sexualidade, verificou-se que no grupo experimental, 92,9 por cento refere ter conhecimentos anteriores e considera este conhecimento de bom (42,9 por cento) e suficiente (50 por cento), apenas um adolescente (7,1 por cento) refere não ter conhecimentos anteriores. No grupo controle 72,3 por cento refere ter conhecimentos anteriores e apenas um nas questões relativas ao conhecimento, acerca do aparelho reprodutor feminino, masculino, ciclo menstrual e alterações físicas e psicológicas da adolescência. No grupo experimental, 92,9 por cento dos adolescentes respondeu correctamente às questões 1,2 e 3 no 1º momento e, 100 por cento respondeu correctamente no 2º momento. Relativamente às questões 4, 5 e 6 no 1º momento foi de 50 por cento, 42,9 por cento e 42,9 por cento respectivamente e, no 2º momento, 92,9 por cento na questão 4 e 6, 71,4 por cento na questão 5.

No grupo controle as respostas correctas nas questões 1,2 e 3 variaram de 90,9 por cento a 100 por cento. Nas questões 4, 5 e 6 as respostas correctas variaram de 40,9 por cento a 63,6 por cento. No 2º momento 95,5 por cento responderam correctamente às questões 1,2 e 3 e, nas questões 4, 5 e 6, a percentagem de respostas correctas variou entre 36,4 por cento e 68,2 por cento.

Na questão 7, relacionada com o conhecimento sobre os métodos contraceptivos, mais de 50 por cento da amostra, nos dois momentos de avaliação, refere conhecer 3 ou mais métodos.

Em relação aos conhecimentos acerca de aspectos e mitos da relação sexual, no 1º momento no grupo experimental, 21,4 por cento assinalou resposta incorrecta e 28,6 por cento assinalou as 5 respostas correctas. No 2º momento, 64,3 por cento assinalou 5 respostas correctas. No grupo controle não houve respostas incorrectas no 1º momento e, 54,5 assinalou 4 respostas correctas, no 2º momento 9,1 por cento assinalou a resposta incorrecta.

Quanto ao conhecimento sobre o uso do preservativo, o grupo experimental no 1º momento apresentou 64,3 por cento de respostas correctas e 100 por cento no 2º momento. O grupo controle no 1º momento apresentou 77,3 por cento de respostas correctas e no 2º momento 68,2 por cento.

A questão 10, relacionada com o conhecimento sobre como actuar no caso do preservativo se romper. No grupo experimental no 1º momento, 64,3 por cento assinalou a resposta incorrecta e apenas 14,3 por cento assinalou 2 respostas correctas; no 2º momento 92,9 por cento assinalou 2 respostas correctas e não houve respostas incorrectas. No grupo controle, no 1º momento 13,6 por cento assinalou a resposta incorrecta e 27,3 por cento assinalou 2 respostas correctas, no 2º momento 22,7 por cento assinalou a resposta incorrecta e apenas 18,2 por cento assinalou 2 respostas correctas.

Em relação ao total de conhecimentos apresentado pelos adolescentes, de acordo com o teste de Wilcoxon, verificou-se no 1º momento no grupo experimental, uma Média de 11,2 e a Moda igual a 12, no 2º momento, a Média foi de 15,8 e a Moda igual a 17. No grupo controle no 1º momento, a Média foi de 12,8 e a Moda 13, no 2º momento a Média foi de 11,7 e a Moda 11.

Constata-se que existem diferenças estatisticamente significativas entre os dois momentos. No 2º momento o grupo experimental apresenta uma média de conhecimentos superior ao grupo controle.

Em relação à  questão 11, os 4 motivos enumerados pelos adolescentes para dizer não a uma relação sexual foram no 1º momento e nos dois grupos: “medo da gravidez”; “medo de uma doença sexualmente transmissível”; “não ser a pessoa certa” e “por não estar preparado”.

No 2º momento, o grupo experimental enumerou “medo da gravidez”; “medo de uma doença sexualmente transmissível”, “por não estar preparado” e “querer dar tempo para que o namoro se desenvolva” sendo que, o “por não estar preparado” e “querer dar tempo para que o namoro se desenvolva” foram os motivos mais vezes enumerados, referidos por 78,5 por cento dos adolescentes.

No 2º momento, o grupo controle considerou os mesmos motivos enumerados no 1º momento.

A razão menos enumerada para dizer não a uma relação sexual nos dois grupos, tanto no 1º  como no 2º momento foi, “querer esperar até ao casamento”. 

 

Discussão

De acordo com a opinião dos adolescentes acerca dos conhecimentos anteriores sobre sexualidade, verificou-se que no grupo experimental, 92,9 por cento refere ter conhecimentos anteriores e considera este conhecimento de bom e suficiente, no grupo controle 72,3 por cento refere ter conhecimentos anteriores e apenas um adolescente (4,5 por cento) considera este conhecimento insuficiente. No entanto, da análise dos resultados, verifica-se em relação ao nível de conhecimentos no 1º momento e no grupo experimental uma Média=11,2 que, melhorou no 2º momento (Média=15,8), ao contrário dos resultados obtidos no grupo controle. Conclui-se que houve efectividade na formação e que o tipo de conhecimentos anteriores percepcionados pelos adolescentes, baseados numa educação sexual informal e espontânea não é suficiente, esclarecedora, nem eficaz o que está de acordo com a legislação portuguesa no DECRETO LEI nº259/2000.

A aplicação do teste Wilcoxon permite-nos referir que as diferenças no grupo experimental, no que diz respeito ao nível de conhecimentos entre o 1º momento e o 2º momento, são estatisticamente significativas. Os adolescentes apresentavam um nível de conhecimento sobre prevenção da gravidez na adolescência no 1º momento inferior (media= 11,2; s= 3,0) ao apresentado no 2º momento (media = 15,8 s=1,6 ).

No grupo de controle, as diferenças são também estatisticamente significativas no que diz respeito ao nível de conhecimentos sobre prevenção da gravidez na adolescência no 1º momento e no 2º momento, mas verifica-se que no 1º momento, o nível de conhecimentos era superior (média=12,8; s=1,6) e inferior no 2º momento (média=11,7; s=1,6).

Ou seja, podemos concluir que a formação foi efectiva e ainda que o nível de conhecimentos sobre a prevenção da gravidez no grupo experimental em relação ao grupo controle foi superior, sendo a diferença estatisticamente significativa (Grupo experimental p=0,001 e grupo controle p=0,044).

Ao concluirmos a efectividade da formação sobre educação sexual, pensamos estar a contribuir para prevenção da Gravidez na Adolescência, indo de encontro às recomendações preconizadas pela RESOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA nº 27/2007 em que o governo recomenda medidas no sentido de prevenir a gravidez na adolescência, promovendo campanhas de informação e sensibilização dirigidas a adolescentes e jovens sobre a saúde sexual e reprodutiva, regulares e devidamente avaliadas. Também MENDES (2006:43) refere que: “Uma abordagem pedagógica sistemática de temas ligados à sexualidade humana em contexto curricular…, privilegiando o espaço turma e as diferentes necessidades de crianças e jovens”, insere-se num programa eficaz de educação sexual na escola.

O estudo americano de KOHLER (2008) demonstra que os adolescentes sujeitos a uma educação sexual abrangente têm menor risco de gravidez, comparativamente aos que não receberam qualquer tipo de educação sexual ou que receberam apenas informação baseada na abstinência sexual.

Neste contexto, a educação sexual nas escolas, assume um papel fulcral na formação dos jovens adolescentes, a sua eficácia depende da articulação e estabelecimento de parcerias entre a escola e os serviços de saúde, o enfermeiro desempenha um papel importantíssimo como educador para a saúde e agente promotor de estilos de vida saudáveis, nos quais se insere a prevenção da gravidez na adolescência. 

 

Conclusão

Da análise dos dados podemos concluir que os adolescentes sujeitos às sessões de educação sexual apresentam mais conhecimentos relativamente à prevenção da gravidez, comparados aos adolescentes que não frequentaram estas sessões.

No domínio dos conhecimentos, a educação sexual contribui para uma vivência informada, mais gratificante, mais autónoma e mais responsável da sexualidade. A educação sexual em meio escolar tem um papel relevante, já que a maioria dos jovens passa aqui grande parte do seu tempo. A informação trocada no grupo de amigos, com orientação e numa abordagem pedagógica e sistemática, acaba por prevalecer na formação do conhecimento sobre esta matéria.

Neste contexto, estamos de acordo com o referido pelo GRUPO PARLAMENTAR DO PSD (2002):

“O acesso à informação sobre sexualidade, a meios contraceptivos e a ajuda e acompanhamento especializado, designadamente na gravidez na adolescência, são ficções ou bloqueios em grande parte do país. E seguramente reside aqui, na prevenção da gravidez não desejada, no conhecimento e uso de métodos contraceptivos, nas noções sobre doenças transmitidas sexualmente, na responsabilização das adolescentes… a intervenção decisiva para uma evolução mais positiva dos actuais índices de saúde pública juvenil.”

Garantir aos jovens uma vivência sexual saudável é um dos maiores desafios da escola, é inegável que esta é a instituição mais adequada à  transmissão de conhecimentos e integração social do adolescente, mas só conseguirá dar resposta com a colaboração de outros parceiros, em particular das Equipas de Saúde Escolar.

De acordo com GOMES (2005), o enfermeiro tem um papel fundamental como agente educador para a saúde e promotor de estilos de vida saudáveis, nos quais se insere a prevenção da gravidez na adolescência. A legislação implementa a educação sexual em meio escolar, mas os professores apresentam algumas reservas para desempenhar estas tarefas, por manifestarem desconforto na abordagem destes temas. O enfermeiro é o profissional competente para partilhar saberes e encontrar pontos de convergência, para apoiar o desenvolvimento do processo de promoção da saúde em meio escolar.

Perante os dados obtidos no nosso estudo (embora não permita generalizar para toda a população de adolescentes) e de acordo com as justificativas apresentadas sugerimos que sessões de educação sexual sejam inseridas nos programas curriculares.

 

Quadros 

Quadro 1 - Distribuição das respostas do grupo experimental e grupo´controle no 1º e 2º momento de avaliação. 
 

T

e

m

p

o

 
 
Questões

Grupo

Experimental

Grupo

Controle

 
N

 
%

 
N

 
%

 
N

 
%

 
N

 
%

M

o

m

e

n

t

o

1-Conhecimento sobre puberdade

13

92,9

1

7,1

20

90,9

2

9,1

2-Conhecimento sobre alterações físicas  e psicológicas na adolescência

13

92,9

1

7,1

22

100,0

0

0,0

3-Conhecimento sobre o início da puberdade

13

92,9

1

7,1

21

95,5

1

4,5

4-Conhecimento sobre a ovulação

7

50,0

7

50,0

11

50,0

11

50,0

5-Conhecimento sobre o período fértil da mulher

6

42,9

8

57,1

9

40,9

13

59,1

6-Conhecimento sobre o período fértil do homem

6

42,9

8

57,1

14

63,6

8

36,4

M

o

m

e

n

t

o

1-Conhecimento sobre puberdade

14

100,0

0

0,0

21

95,5

1

4,5

2-Conhecimento sobre alterações físicas e psicológicas na adolescência

14

100,0

0

0,0

21

95,5

1

4,5

3-Conhecimento sobre o início da puberdade

14

100,0

0

0,0

21

95,5

1

4,5

4-Conhecimento sobre a ovulação

13

92,9

1

7,1

8

36,4

14

63,6

5-Conhecimento sobre o período fértil da mulher

10

71,4

4

28,6

8

36,8

14

63,8

6-Conhecimento sobre o período fértil do homem

13

92,9

1

7,1

15

68,2

7

31,8

 
N-amostra
 

 

Quadro 2 – Medidas descritivas do nível de conhecimentos dos adolescentes sobre prevenção da gravidez na adolescência no 1º e no 2º momento de avaliação. 
 

Grupos

Total de conhecimentos

N

Min

Máx

Me

Mo

s

Z

p

experimental

1º momento

14

3

15

11,2

12

3,02

-3,303

0,001

2º momento

14

11

17

15,8

17

1,65

controle

1º momento

22

10

15

12,8

13

1,68

-2,014

0,044

2º momento

22

8

14

11,7

11

1,66

 

N-amostra; Min-minímo; Máx.-máximo; Me-média; Mo-moda; s-desvio padrão; Z-      ; p- 

 

 

Referências Bibliográficas

  1. REBELO, José - 90 Menores abortaram na  Alfredo da Costa. Correio da manhã. 07 Julho 2008. (acedido a 11 de Julho de 2008). Disponível na internet: http://WWW.correiomanha.pt/

  2. DECRETO-LEI nº 259/2000 de 17 de Outubro. Diário da República I Série – A Nº240 (00-10-17), p.5784-5785. (Acedido a 8 de Julho de 2008). Disponível na internet: http://www.educare.pt

  3. ORGANIZAÇÂO MUNDIAL DE SAÚDE – Relatório Mundial de Saúde. Genebra: OMS, 2005.

  4. LOURENÇO, Maria Madalena de Carvalho - Textos e contextos da gravidez na adolescência – A adolescente, a família e a escola. Lisboa: Fim de século edições. 1998.

  5. VENTURA, Francisco - Mães adolescentes. O médico. Vol. 125, nº 2041 (Outubro de 1991), p. 166-172.

  6. PORTUGAL, Instituto Nacional de Estatística. (Acedido a 8 de Julho de 2008). Disponível na internet: http://www.ine.pt/xportal/

  7. RESOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA nº 27/2007. Diário Da República 1ª série. Nº 118 (2007/06/21), p.3918.

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  9. MENDES, Carla Silva – “Educação Sexual na Adolescência”. Nursing. nº 212 (Julho de 2006), p. 37-43.

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