Social:
quarta, 12 maio 2010 02:10

Planear a vigilância epidemiológica das infecções associadas aos cuidados de saúde

Escrito por 

O objectivo final da vigilância é reduzir a ocorrência de infecções relacionadas com os cuidados de saúde e garantir a qualidade dos cuidados

 

Título

Planear a vigilância epidemiológica das infecções associadas aos cuidados de saúde

Nursing nº 255

 

Autores:

Ana Cristina Geada

Ana Luísa Pedro

Enfermeiras de Controlo de infecção 

 

Resumo

A vigilância epidemiológica das infecções associadas aos cuidados de saúde é uma componente fundamental para a sua prevenção e controlo. Consiste na recolha, registo e análise sistemática de informações sobre doentes e infecções, a fim de implementar medidas apropriadas de prevenção e controlo destes eventos adversos. A responsabilidade da sua implementação é repartida entre o Órgão de Gestão da unidade de saúde, o Coordenador da Comissão de Controlo de Infecção, o Enfermeiro de Controlo de Infecção e os prestadores de cuidados directos. Saber como planear e quais as fontes de informação que têm que ser garantidas, são a chave para o sucesso. 

Palavras-chave: Vigilância epidemiológica; infecções associadas aos cuidados de saúde; comissão de controlo de infecção. 

 

Abstract

The surveillance of healthcare-associated infections is one basic component for its prevention and control. It consists in the collecting, register and systematic analysis of information on diseases and infections, in order to implement measured appropriate for prevention and control of these adverse events. The responsibility of its implementation is shared between the Manager of the health institution, the Coordinator of the Infection Control Commission, the Infection Control Nurses and the health care professionals .To know who to plan and what sources of information must be guaranteed, are the key for success.

Keywords: Surveillance; healthcare-associated infections; infection control commission. 

 

Introdução

A vigilância epidemiológica (VE) das infecções associadas aos cuidados de saúde é uma componente fundamental para a sua prevenção e controlo nas unidades de saúde. A vigilância por definição é a recolha, registo, análise, interpretação e divulgação de dados relativos a doentes e infecções, processos ou eventos adversos não infecciosos, a fim de se implementar medidas apropriadas de prevenção e controlo. É uma actividade contínua, activa, sistemática ou periódica desenvolvida pelos profissionais que integram as Comissões de Controlo de Infecção (CCI). Actualmente, a metodologia considerada de maior eficácia consiste na implementação de uma vigilância selectiva, incidindo nas infecções mais frequentes, com maior morbilidade e mortalidade, com custos mais elevados ou nas infecções onde a prevenção é possível (relacionadas com procedimentos e estruturas). Os dados da vigilância podem ser utilizados para descrever a epidemiologia de infecções seleccionadas ou resultados adversos numa instituição e também quando se desenvolvem e avaliam iniciativas de melhoria de desempenho. O objectivo final da vigilância é reduzir a ocorrência de infecções relacionadas com os cuidados de saúde e garantir a qualidade dos cuidados.

 

Enquadramento legal

Consciente da importância e dos recursos necessários para desenvolver esta actividade, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) reforçou o seu despacho publicado no DR-II série nº 246 – 23-10-19961 (criação de CCI’s nas unidades de saúde) com a Circular Normativa nº18/DSQC/DSC de 15-10-20072 sobre a constituição e operacionalização das CCI’s em todas as unidades de saúde públicas ou privadas. Este reforço também teve o objectivo de garantir a dotação de profissionais nas CCI’s para implementar o Plano Operacional de Prevenção e Controlo de Infecção (POPCI) do Programa Nacional de Controlo de Infecção (PNCI). Segundo esta circular, a CCI deve ser dotada de recursos humanos e logísticos necessários ao cumprimento do programa de prevenção e controlo de infecção, cujas vertentes essenciais são:

  • Vigilância epidemiológica (estruturas, processos e resultados);

  • Elaboração e monitorização do cumprimento de normas e recomendações de práticas de prevenção e controlo de infecção;

  • Formação e informação a profissionais, utentes e visitantes;

  • Consultadoria e apoio.

Assim, o planeamento e implementação da vigilância epidemiológica numa unidade de saúde é uma atribuição específica da CCI que deve estar de acordo com as necessidades da unidade de saúde e com os programas de vigilância preconizados pelo PNCI. Cabe ao Órgão de Gestão3 da unidade de saúde a responsabilidade de apoiar e aprovar o programa de prevenção e controlo de infecção proposto pela CCI e dotar a mesma de recursos humanos, físicos e financeiros adequados ao seu cumprimento. 

 

Organizar e Planear a Vigilância Epidemiológica

A organização e planeamento do programa de vigilância é uma responsabilidade partilhada entre o Coordenador e o Enfermeiro de Controlo de Infecção. As funções destes profissionais estão descritas no anexo 2 – Regulamento das CCIs do Manual de Operacionalização4 da DGS, das quais se destacam:

  • Colaboração no planeamento e implementação dos programas de VE propostos pela DGS e outras acções de VE consideradas necessárias na unidade de saúde.

  • Detectar casos de infecção em articulação com o Laboratório de Patologia Clínica, com os Serviços Farmacêuticos e com os interlocutores ou membros dinamizadores em cada área funcional.

  • Colaborar na investigação e controlo de surtos em articulação com os restantes membros da CCI.

  • Identificar necessidades de intervenção na área da VE e apresentar propostas para a sua implementação.

 

Um programa de vigilância deve ter como principais objectivos:

  • Melhorar a qualidade dos cuidados de saúde.

  • Implementar estratégias de prevenção dos eventos adversos.

  • Reduzir as taxas de infecção associada aos cuidados de saúde.

  • Reduzir os seus custos.

 

Para atingir estes objectivos é necessário promover uma cultura organizacional e criar uma sensibilidade nos profissionais sobre a problemática das infecções, incluindo administradores, para que entendam as medidas de prevenção e controlo das infecções ou outras medidas de desempenho. O recurso às outras vertentes do programa (elaboração de normas e recomendações e formação) são essenciais e úteis para a promoção da cultura organizacional.

 

O programa de vigilância da unidade de saúde pode ser constituído por:

  • Vigilância de resultados – geralmente relacionados com a morbilidade, mortalidade ou custos (p.ex: infecção nosocomial, morte ou dias de internamento); permite monitorizar a ocorrência de infecções mais frequentes (infecção respiratória, urinária, da corrente sanguínea, cirurgia), calcular as taxas de infecção e identificar áreas potenciais de melhoria;

  • Vigilância de processos – relacionada com as práticas e procedimentos realizados na unidade que influenciam as taxas obtidas através da vigilância de resultados, como por exemplo, cumprimento das precauções básicas e de isolamento, cuidados apropriados na inserção e manutenção dos dispositivos invasivos (algaliação, dispositivos intravasculares, ventilação assistida); preparação do doente cirúrgico; práticas de descontaminação de material e equipamentos ….

  • Vigilância e investigação de clusters ou surtos;

  • Vigilância e notificação de doenças de declaração obrigatória para DGS/ Administração Regional de Saúde (ARS);

  • Vigilância de microrganismos e doenças epidemiologicamente importantes (microrganismos multi-resistentes, tuberculose…) e prevenir ou controlar a sua disseminação.

 

Nas organizações de maiores dimensões é recomendado planear a vigilância de resultados complementada com a vigilância de processos. Esta monitorização se é contínua e sistemática permite avaliar a eficácia das medidas de prevenção e controlo. Em organizações pequenas, algumas infecções ocorrem com tão pouca frequência que o cálculo de taxas não é significativo. Nestas organizações a vigilância de processo pode fornecer informação mais útil.

 

Seleccionar a abordagem da vigilância

A abordagem da vigilância pode ser total (abrangendo todas as infecções adquiridas na unidade de saúde), dirigida a uma infecção específica, baseada em identificação de surtos, dirigida por prioridades ou uma combinação de todos.

Segundo o Manual de Operacionalização4 a vigilância total das infecções foi abandonada nos países europeus há cerca de uma década por constrangimentos de diversa ordem, como por exemplo, consumia muito tempo, recursos humanos e a sua eficácia mostrou-se duvidosa. Actualmente, é recomendado que o programa de vigilância seja dirigido, adaptado à dimensão da instituição e a outras especificidades consideradas relevantes. A Vigilância dirigida deve incidir nos doentes de maior risco de infecção (imunodeprimidos, idosos, recém-nascidos, doentes cirúrgicos, doentes submetidos a terapêuticas e técnicas de diagnóstico invasivas), nas infecções mais graves (as de maior morbilidade e mortalidade, tais como as infecções da corrente sanguínea e pneumonia), nas infecções evitáveis (relacionadas com procedimentos e estruturas) e em unidades específicas (Unidades de Cuidados Intensivos Polivalentes ou neonatais, Unidades de Hemodiálise).

É essencial a existência de protocolos que permitam seguir uma definição de infecção e uma interpretação uniforme dos casos a estudar. Sempre que possível, devem ser seguidos os protocolos preconizados pela DGS e contribuir para a monitorização das infecções a nível nacional. As unidades de saúde podem desta forma comparar os seus dados com os dados nacionais ou com unidades similares. Outros protocolos podem ser utilizados tendo como referência instituições reconhecidas a nível nacional ou internacionais. O importante é que todos os intervenientes no processo de vigilância compreendam e sigam o mesmo protocolo.

Os protocolos disponibilizados pela DGS e que é recomendado as unidades de saúde adoptarem, são:

  • HELICS – UCI (Unidades de Cuidados Intensivos);

  • HELICS – cirurgia;

  • Infecção nas UCI – recém-nascidos;

  • Eventos em diálise;

  • Infecções nosocomiais da corrente sanguínea;

  • HELICS III - Inquérito de Prevalência de Infecção Nosocomial de Âmbito Nacional.

 

A adopção destes protocolos tem vantagens porque as definições de vigilância de infecção e a recolha dos dados estão padronizadas. Nalguns casos é facultado o acesso a plataformas informáticas para introdução de dados com emissão de relatórios. Este facto facilita o cálculo de taxas, a análise, a interpretação de dados e consequentemente a elaboração do relatório a desenvolver pela CCI.

As CCI’s podem optar por fazer uma abordagem combinada que vá de encontro às necessidades da instituição e das orientações nacionais. Por exemplo, o programa pode combinar as seguintes abordagens:

  • Vigilância baseada no laboratório para agentes resistentes aos antibióticos seleccionados como o Staphylococcus aureus meticilina-resistente (MRSA) e Enterococcus vancomicina-resistente (VRE);

  • Vigilância dirigida a infecções associadas a dispositivos invasivos em unidades de cuidados a doentes críticos e infecção do local cirúrgico;

  • Vigilância rotativa com estudos de prevalência (ex: HELICS III- DGS);

  • Vigilância de surtos identificando e reportando clusters de infecção em toda a instituição.

Estes programas devem ser reavaliados periodicamente com uma frequência pelo menos anual.

 

Etapas de desenvolvimento do programa de VE

As CCIs têm de conhecer a instituição onde exercem funções, sendo fundamental ter acesso a boas fontes de informação, de modo a dar início ao processo de vigilância epidemiológica5 (Fig.1). Durante o planeamento do programa devemos ter presente que ele deve responder a questões simples, tais como: quais são as infecções mais frequentes na nossa unidade de saúde? Quais os microrganismos causais? Quais as suas resistências aos antibióticos mais prescritos na instituição?

As etapas do planeamento da vigilância são:

  • Avaliar a população;

  • Avaliar os recursos disponíveis para a vigilância (humanos, materiais, logísticos, fontes de informação…);

  • Seleccionar os resultados (taxas) e/ou indicadores de processo de interesse;

  • Determinar o método de vigilância, incluindo a análise de dados;

  • Desenvolver um plano para utilizar os dados da vigilância, incluindo integração em iniciativas de melhoria de desempenho;

  • Avaliar o sistema de vigilância periodicamente para assegurar a sua eficácia e eficiência.

 

O planeamento da vigilância nem sempre é precedido por esta ordem sequencial. Contudo, todas estas práticas devem ser incorporadas em cada plano de vigilância.

A avaliação da população inclui analisar as características da população servida na instituição. Deve-se desenvolver esforços para saber quais os diagnósticos mais frequentes e a população de maior risco de infecção, o tipo de serviços que são prestados, o tipo e volume de procedimentos invasivos (cirúrgicos, terapêuticos ou de diagnóstico) e aspectos relativos à saúde na comunidade.

Simultaneamente, é necessário identificar as fontes de informação existentes na instituição ou mesmo no exterior. Por exemplo, numa unidade hospitalar podemos recorrer aos registos clínicos e de enfermagem/codificação do GDHs (Grupos de Diagnóstico Homogéneos), aos Serviços Financeiros, à Gestão de Doentes, à Gestão de Risco, ao Serviço de Saúde Ocupacional ou à ARS da área de referência. No entanto, a sua operacionalização vai sempre depender dos recursos existentes e do acesso à informação.

Após a avaliação da população, a identificação das infecções mais graves, dos procedimentos de maior risco e agentes mais comuns, a CCI deve utilizar estas informações para estabelecer as prioridades de vigilância epidemiológica da unidade de saúde.

 

Fontes de informação

Os profissionais de controlo de infecção precisam de ter boas fontes de informação para obter dados rigorosos para o numerador e denominador das taxas de infecção. Os dados do numerador fornecem informação dos doentes relativa a um resultado de infecção ou a um indicador de processo; os dados do denominador fornecem informação da população de doentes em estudo (seja do total de doentes ou de uma população alvo). A qualidade dos dados do numerador é directamente proporcional à sua sensibilidade (ie, identificar o maior número possível de infecções verdadeiras) e à sua especificidade (ie, excluir os doentes que não estão realmente infectados). Se possível, os profissionais devem efectuar a vigilância de forma prospectiva e seleccionar as fontes de informação que forneçam dados atempadamente, ou seja, que identifiquem os casos enquanto os doentes estão internados. Os dados colhidos prospectivamente são habitualmente mais exactos e permitem a validação dos casos de infecção. As fontes que identificam os doentes retrospectivamente dependem exclusivamente do tipo e qualidade dos registos.

Os dados a recolher podem ser obtidos através de várias fontes de informação:  
 

 

1. Baseadas nos doentes

Os serviços de prestação de cuidados são o local onde a riqueza de informação é maior, pois é aí que se encontra o doente, o profissional e o procedimento que poderá constituir risco de infecção. A revisão dos registos clínicos e de enfermagem durante visitas de rotina é talvez o método mais sensível de identificar casos, mas é também o que requer mais recursos humanos.

Alguns profissionais de controlo de infecção utilizam os registos de enfermagem, ou actualmente o plano de cuidados informatizado, como o primeiro passo para identificar doentes em que é necessário uma vigilância periódica de sinais e sintomas de infecção (ex: doentes com cateter central ou algália, doentes com pensos, doentes sob terapia antimicrobiana). Nestes locais é determinante a existência dos elementos dinamizadores4 (médicos e enfermeiros) como agentes facilitadores na recolha de dados. Estes elementos são um canal de comunicação bidireccional, entre a CCI e o serviço de internamento, que pode ser utilizado para comunicação de situações pouco habituais, de suspeita ou de diagnóstico confirmado de infecção, ou ainda, para colaboração no preenchimento de instrumentos de registo necessários à vigilância. Devem ser seleccionados os profissionais com sensibilidade para esta área, com facilidade de comunicação, disponibilidade de realizar formação em serviço, e ao mesmo tempo serem uma referência para os pares.

A formação dos profissionais que colaboram nas actividades de vigilância é fundamental para aumentar o rigor dos dados recolhidos. A formação deve incidir sobre os métodos de preenchimento dos formulários, as variáveis a colher específicas para cada objectivo de vigilância, a definição de infecção, registo da presença de dispositivos ou procedimentos que se sabe terem risco de infecção (algaliação, cateteres intravasculares, ventilação mecânica, procedimentos cirúrgicos); febre ou outros sinais clínicos indicadores de infecção locais ou sistémicos; prescrição de antimicrobianos; exames complementares de diagnóstico; revisão do processo clínico (médico e de enfermagem).

Estas orientações devem ser claras, objectivas, compreendidas por todos os elementos envolvidos e estarem acessíveis para consulta.

 

2. Baseadas no laboratório

O Laboratório de Microbiologia deve fornecer diariamente todos os resultados positivos. A CCI pode utilizar esta fonte de informação para monitorizar o isolamento de microrganismos potencialmente associados a infecção, padrões de resistência a antimicrobianos, detecção de surtos/clusters de infecção, detecção de portadores crónicos e monitorização de testes serológicos.

A sensibilidade da vigilância baseada apenas nos resultados do laboratório de microbiologia é baixa devido a vários factores: não são requisitados exames microbiológicos para todos os doentes com suspeita de infecção; as amostras enviadas podem não ser as apropriadas; as condições de transporte podem não ser as ideais; alguns agentes patogénicos (p.ex., vírus) podem não ser isolados; e, o isolamento de um agente patogénico pode representar colonização e não infecção (p.ex., em exsudados de feridas, pontas de cateter, exsudado nasal).

Os resultados do laboratório são fiáveis para as situações em que as definições de infecção são essencialmente microbiológicas: infecções urinárias, infecções da corrente sanguínea e microrganismos multi-resistentes.

 

3. Baseadas noutros serviços

Dependendo da área de VE escolhida existem outros serviços que fornecem dados importantes (tabela 1) que podem ser utilizados para: monitorização de consumos de antibióticos (Farmácia), monitorização do número de doentes admitidos, dias de internamento e resultado do internamento (Gestão de Doentes), monitorização de profissionais com infecção adquirida na unidade de saúde (Serviço de Saúde Ocupacional), monitorização da proveniência dos doentes com infecção da comunidade (Serviço de Urgência), confirmação de diagnósticos de infecção através de exames complementares de diagnóstico (Imagiologia, Anatomia Patológica), monitorização dos sistemas de ventilação e da água de consumo (Serviços de Instalações e Equipamentos).

 

4. Discussão de casos

As vistas periódicas às enfermarias e as discussões de casos com os profissionais permitem partilhar ideias, retirar dúvidas para confirmação de diagnóstico de infecção, implementar precocemente medidas adicionais de contenção/protecção do doente e uniformizar o conhecimento com interiorização dos termos utilizados entre os participantes. São momentos de grande partilha de informação com garantia da melhoria da qualidade dos dados, fundamentais para uma vigilância rigorosa e atempada.

 

Dados mínimos a colher

As taxas de infecção são a proporção entre infecções ou doentes com infecção (numerador) e a população em estudo ou a exposição a factores de risco de infecção (denominador). Existem dados mínimos a registar tanto para o numerador como para o denominador.

 

Numerador

A informação a recolher deve incluir dados relativos a todos os doentes (com ou sem infecção) ou dados relativos aos episódios de infecção. As variáveis mínimas necessárias para o estudo individual de cada caso são:

  • Dados administrativos (p.ex., nº do processo, nº da cama, serviço, data de admissão/alta, resultado do internamento);

  • Dados demográficos (p.ex., idade, sexo, gravidade da doença de base, diagnóstico de admissão, estadoimunológico)

  • Exposição a factores de risco (p.ex., cateter venoso central, algália, entubação endotraqueal/ventilação assistida, cirurgia);

  • Terapêutica imunossupressora (antibióticos, corticóides, quimioterapia)

  • Presença ou ausência de infecção: data de início, local da infecção, microrganismos isolados e susceptibilidade a antimicrobianos.

 

Devem ser seguidas as orientações completas para a colheita de dados definidas no protocolo. Estas orientações devem incluir:

  • Critérios de inclusão de doentes;

  • Definições precisas para cada variável a ser colhida (e não apenas as definições para as infecções);

  • Lista de códigos para cada variável, incluindo códigos específicos (são úteis para treinar os codificadores, quando utilizados).

 

Normalmente estes dados constam num formulário individual (Fig.2) e o doente é monitorizado durante todo o período de internamento. As alterações contemporâneas nos sistemas de saúde com a progressiva redução da demora média vieram aumentar a importância da articulação da informação com a comunidade para a detecção de infecções nosocomiais que se podem manifestar no período após alta (p.ex., para as infecções do local cirúrgico).

 

Fontes do denominador

A definição do denominador é essencial para o cálculo das taxas de infecção. O denominador deve reflectir com rigor a população em estudo e ser padronizado de forma a permitir comparações intra e inter-hospitalares.

A obtenção de dados do denominador depende dos registos acessíveis na instituição (dias de internamento, doentes admitidos, tipos de cirurgia) ou do recurso a elementos dinamizadores para se obter o índice de exposição a factores de risco (p.ex: nº de dias de cateterização venosa central, nº de dias de algaliação, nº de dias de ventilação assistida).

O protocolo do PNCI das Infecções Nosocomiais da Corrente Sanguínea inclui uma folha de registo individual (numerador) que identifica o episódio de infecção, e uma folha tipo calendário, de preenchimento diário pelo elemento dinamizador, onde se regista o número de doentes com dispositivos invasivos (denominador). Só com estes dados é possível calcular a taxa de INCS relacionadas com cateter venoso central (CVC).

 

Validação dos dados

Estabelecer um sistema de validação dos dados é uma forma de garantir o seu rigor e permitir comparações significativas. A validação é um processo contínuo que tem o objectivo de verificar o correcto preenchimento das fichas e se as definições do protocolo foram correctamente aplicadas.

A validação pode ser efectuada antes da introdução dos dados numa base informática. Deve ser efectuada uma validação retrospectiva a fim de identificar os dados em falta, inconsistências, valores extremos/erros possíveis, valores ou códigos inesperados. A validação da aplicação das definições do protocolo, realizada por um segundo elemento, é considerada o processo ideal. Neste contexto, é importante ficar definido quem irá realizar esta tarefa.

No caso de se utilizar uma plataforma informática para a recolha de dados, a aplicação deve incluir controlo de erros de digitação e cada variável deve ser codificada de acordo com o protocolo. 

 

Computadores e software

É recomendável ter computadores e dispor de um sistema informatizado na unidade de saúde para iniciar VE, pois permite um rápido acesso à informação, mais possibilidades no tratamento dos dados e rentabiliza o tempo e recursos. Para facilitar a recolha de dados a CCI deve ter acessibilidade às bases de dados existentes (laboratório, bloco operatório, gestão de doentes, farmácia, registos clínicos/ enfermagem…).

Existem actualmente no mercado softwares especificamente criados com o objectivo de serem uma ferramenta de trabalho para as CCI’s. Estes softwares reúnem os dados de várias fontes de informação criando bases de dados específicas de acordo com as prioridades de vigilância estabelecidas. A utilização de aplicações informáticas permite a divulgação dos resultados mais rápida e melhoram a qualidade dos dados.  

 

Planear o relatório e a divulgação dos resultados

O relatório é  o produto final de cada actividade de VE. O seu objectivo é divulgar os resultados da vigilância, consciencializar/motivar os profissionais e influenciar a sua prática. O impacto será tanto maior quanto mais se limitar a um objectivo muito específico direccionando para as práticas que se pretende influenciar.

É importante programar o tempo de elaboração do relatório e planear a quem, como e quando se vai enviar. Dependendo do nível de competências adquiridas pelos profissionais das CCI’s pode ser necessário solicitar a colaboração de um Estatístico ou Epidemiologista para a análise estatística dos dados. Logo após a análise e tabulação dos dados, o relatório para ser eficaz tem de ser produzido em tempo útil. É recomendável não distanciar a elaboração do relatório do fim do período de vigilância, de modo a ser consequente na influência do comportamento dos profissionais.

A estruturação de um relatório deve incluir:

  • Introdução breve;

  • Método de vigilância (resumo);

  • Descrição da população;

  • Resultados;

  • Análise estatística;

  • Discussão/Conclusões;

  • Recomendações;

  • Plano de (re)avaliação.

 

Pode, por vezes, ser necessário elaborar mais do que um relatório de forma a adaptar a informação à pessoa a quem se dirige (p.ex; Órgão de Gestão, Responsáveis pelas unidades funcionais ou profissionais de determinada área).

Independentemente do destinatário, a discussão e conclusão devem estar redigidas de modo a não dar uma visão negativa dos resultados, mas antes salientar o que se pode melhorar.

A divulgação dos resultados pode ser efectuada com ou sem discussão prévia com os responsáveis de interesse. O relatório pode ser entregue pessoalmente, enviado por correio interno ou apresentado em reunião formal ou informal. Independentemente da forma de divulgação, deve ser sempre garantida a confidencialidade de profissionais e doentes.

 

Conclusão

A Vigilância Epidemiológica das infecções associadas aos cuidados de saúde é uma das atribuições das CCI’s e aquela que constitui a sua função nobre. Pode ser entendida como uma garantia da qualidade dos cuidados prestados e da segurança do doente.

Os responsáveis pelo planeamento e implementação de um programa de VE da unidade de saúde são o Coordenador da CCI e o Enfermeiro de Controlo de Infecção. O Órgão de Gestão é o responsável pela aprovação do programa planeado e pela dotação da CCI de meios humanos, materiais e financeiros para a sua execução. A nomeação de elementos dinamizadores nos locais de prestação de cuidados em articulação com os elementos da CCI é um contributo fundamental para a implementação do programa.

A concepção de um programa de vigilância deve estar de acordo com a avaliação das necessidades das instituições e em simultâneo com os objectivos de vigilância a nível nacional. A adopção de protocolos validados é um elemento facilitador para a implementação deste processo.

A vigilância de resultados e processos constitui a base de diagnóstico da situação da instituição. A informação resultante da vigilância serve de linha orientadora para as outras vertentes do programa de controlo de infecção (formação, elaboração e monitorização das políticas e recomendações de controlo de infecção). A vigilância prospectiva e contínua permite controlar a eficácia da formação e das medidas implementadas.

A colaboração contínua entre os profissionais de controlo de infecção, prestadores de cuidados, do laboratório e dos serviços clínicos facilita a troca de informações, garante a qualidade dos dados e uma VE fiável e efectiva.

O planeamento da VE requer uma sequência de etapas que têm de ser asseguradas no desenvolvimento de cada programa. A sua implementação depende dos recursos humanos, materiais e financeiros disponíveis e os seus resultados são um indicador de qualidade dos cuidados prestados em cada instituição. Fazer prevenção e controlo de infecção sem vigilância epidemiológica é como navegar sem bússola.

 

Fig. 1 – Etapas recomendadas para a vigilância epidemiológica das infecções associadas aos cuidados de saúde


 

 

Tabela 1 – Fontes de informação e tipo de dados a obter 

Fontes de informação

Tipo de dados

Objectivos

Baseadas nos doentes

  • Dados demográficos

  • Factores de risco intrínseco

  • Factores de risco extrínseco

  • Sinais e sintomas de infecção

  • Terapêuticas

  • Exames complementares

  • Datas de entrada e saída

  • Data de início da infecção

  • Distinguir infecção comunidade/ nosocomial

  • Diagnostico infecção/colonização

  • Relacionar infecções com factores de risco

 
 

Baseadas no laboratório

  • Agentes de infecção/colonização

  • Padrão de sensibilidade aos antimicrobianos

  • Identificação de agentes de infecção

  • Confirmação de diagnóstico de infecção/colonização

  • Calcular taxa de resistências aos antimicrobianos

  • Identificação de surtos

Baseadas noutros serviços

Farmácia

  • Dados demográficos

  • Consumo de antimicrobianos em DDD

Monitorizar consumos de antimicrobianos e cruzar informação com a taxa de resistência da instituição

Gestão de Doentes

  • Dias de internamento

  • Número de doentes internados

  • Resultado de internamento

Calcular taxas de prevalência e incidência

S. Saúde Ocupacional

Número de profissionais com tuberculose pulmonar

  • Orientação para formação

  • Reduzir risco de transmissão cruzada

S. Urgência

Proveniência dos doentes com infecção da comunidade

Articular informação com os cuidados comunitários

S. Instalações e equipamentos

Avaliação da água de consumo

Controlo da Legionella  pneumophila

 
 

 

Figura 2 – Exemplo de formulário individual para colheita de dados 

 

 

Bibliografia

1 DGS, Despacho Diário da republica II série, nº246 de 23-10-1996, pag. 14879

2 DGS, Circular Normativa 18/DSQC/DSC de 15/10/2007 – Comissões de Controlo de Infecção

3 DGS, Despacho nº 18 052/2007, Diário da republica 2ª série, nº156 de 14 de Agosto 2007, pag. 23216

4 DGS, Manual de Operacionalização do Programa Nacional de Prevenção e controlo da infecção associada aos cuidados de saúde. DGS, Dezembro 2008, 81 pp.                                                                                                                                                                                                       

5 Arias, Kathleen Meehan. APIC Infection Control Toolkit Series - Surveillance Programs in Healthcare Facilities. APIC, June 2003 

Revistas

Artigos de Autor

 Revista Nursing

Revista Sinais Vitais

 

Revista Investigação em Enfermagem

PUBLICIDADE