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terça, 12 julho 2011 12:18

Perturbações Pós-Stress Traumático nos enfermeiros de emergência pre-hospitalar

Escrito por  Enf. Jorge Pereira

As vítimas de PPST podem manifestar revivência persistente do evento traumático, evicção de estímulos associados à situação traumatizante (locais, actividades e pessoas), tristeza prolongada, depressão e ainda embotamento afectivo.

 

Autoria:

Jorge Miguel Baião Pereira (Enfermeiro de Cuidados Gerais no Hospital José Joaquim Fernandes, Beja

Ex-Provedor do Estudante do Instituto Politécnico de Beja

  

Resumo:

Um estudo recente elaborado por Marcelino e Figueiras (2007), vem demonstrar que até 64% dos enfermeiros de emergência pré-hospitalar (EEPH) podem apresentar perturbações pós-stress traumático (PPST). Várias causas são apontadas para a instalação dos sintomas, estando elas não só dependentes da gravidade das situações em que os enfermeiros têm de intervir, mas também de características que lhes são intrínsecas. Os autores apontam ainda algumas medidas preventivas para o desenvolvimento de PPST, bem como as principais estratégias para o seu tratamento.

 

Abstract:

A recent study made by Marcelino and Figueiras (2007), has shown that up to 64% of pre-hospital emergency nurses (PHEN) may have post-traumatic stress disorder (PTSD). Several reasons are cited for the onset of symptoms, which are dependent not only on the severity of the situations in which the nurses has to intervene, but also on their intrinsic characteristics. The authors also suggest some preventive measures for the development of PTSD as well as key strategies for its treatment.

 

Palavras-chave: Perturbações pós-stress traumático (PPST); Enfermeiros de emergência pré-hospitalar (EEPH); Sentido interno de coerência (SIC); Terapia de grupo; Psicoterapia cognitivo-comportamental.

Keywords: Post-traumatic stress disorder (PTSD); Pre-hospital emergency nurses (PHEN); Internal sense of coherence (ISC); Group therapy; Cognitive-behavioral psychotherapy.

 

Metodologia:

Este artigo que no fundo se concretiza como o resultado de uma revisão da literatura, teve por base a análise do único estudo científico português recente, que se dedicou a caracterizar e compreender as PPST nos profissionais de emergência pré-hospitalar, tendo-se inferido os resultados e as conclusões para a classe de enfermagem. Os autores aplicaram 4 questionários e escalas a uma amostra de 56 elementos (31 mulheres e 25 homens), com idades compreendidas entre os 18 e os 51 anos e que exercem esta actividade há cerca de 4 anos. No sentido de reforçar e/ou contrariar as conclusões apontadas pelo estudo e revestir o presente artigo de conclusões mais rigorosas, recorreu-se a outras fontes bibliográficas, cujos autores se dedicaram igualmente a estudar as PPST.

 

Desenvolvimento e Resultados:

Para Ballone (2011, p.1), fazendo referência ao Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV), as PPST definem-se como “(…) o desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a um extremo estressor traumático, envolvendo a experiência pessoal directa de um evento real ou ameaçador que envolve morte, sério ferimento ou outra ameaça à própria integridade física (…)” ou causadas pelo facto de “(…) ter testemunhado um evento que envolve morte, ferimentos ou ameaça à integridade física de outra pessoa (…)”. Esses sintomas, que mais não são que a somatização de ansiedade associada ao evento, contemplam mais concretamente a hipervigilância e a reacção exagerada ao susto, sendo estes os que se manifestam com maior frequência e que constituem critérios para diagnosticar a doença, sempre que se encontrem presentes por um período superior a um mês.

Para além destes sintomas, as vítimas de PPST podem manifestar revivência persistente do evento traumático, evicção de estímulos associados à situação traumatizante (locais, actividades e pessoas), tristeza prolongada, depressão e ainda embotamento afectivo. Ballone (2002, p.7) explica que os indivíduos com PPST “(…) separam os aspectos cognitivos dos emocionais na experiencia psicológica e percebem somente os primeiros.”. Esta anestesia emocional acaba por deteriorar as relações interpessoais, uma vez que a pessoa se torna menos amável. Todos os sintomas acima referidos acabam por ter repercussões negativas a nível pessoal, familiar, social e laboral, com consequente diminuição da qualidade de vida do indivíduo e de quem o rodeia.

Apesar da definição de PPST deixar passar a ideia que esta patologia se desenvolve de forma linear, é importante referir que perante o mesmo estímulo potencialmente traumático, existem pessoas que desenvolvem sintomatologia patológica, enquanto que outras parecem “imunes” à situação. Este acontecimento deixa perceber que “(…) o desenvolvimento de PPST não depende somente da gravidade do trauma em si, parecendo evidente que as experiências subjectivas são, no mínimo, tão importantes como as características objectivas do trauma.”. (Ballone, 2002, p.5) O mesmo autor, continua explicando que a experiência traumática é filtrada através de processos cognitivos e emocionais antes de poder ser avaliada como ameaça externa, o que quer dizer que a pessoa só apresenta sintomatologia, quando fruto da avaliação que faz da situação, a percepciona como algo que excede as suas capacidades/ recursos para lhe dar resposta. É portanto devido às diferenças individuais neste processo de avaliação, que pessoas diferentes parecem ter diferentes limiares de trauma, estando umas mais protegidas e outras mais vulneráveis.

Na mesma linha de raciocínio, Marcelino e Figueiras (2007) identificam, no seu estudo, as principais características subjectivas (intrínsecas) que têm influência no processo de avaliação supracitado, sendo elas as estratégias de coping adoptadas pela pessoa, o grau de neuroticismo presente na sua personalidade e ainda e muito importante, o sentido interno de coerência (SIC), que segundo Antonovsky (1987), deve ser compreendido como uma aptidão interna e global para percepcionar, interpretar e dar sentido às experiências stressantes da vida, posicionando a pessoa numa orientação de saúde física e mental. Desta forma, conclui-se que quanto mais adequadas forem as estratégias de coping, quanto menores forem os traços de neuroticismo presentes na personalidade da pessoa e quanto maior for o seu SIC, menor será a sua predisposição para desenvolver PPST.

Actualmente, quando as PPST são discutidas em público, surgem invariavelmente associadas às vítimas de catástrofes naturais, de violência e de guerras. Este é realmente um importante problema de saúde nestas populações, pelo enorme sofrimento que os sintomas, anteriormente descritos, acarretam, ainda pra mais quando Ballone (2011) afirma que a prevalência de PPST nestes indivíduos pode atingir os 58%. Contudo, e este foi o principal motivo que levou à elaboração do presente artigo, um estudo realizado a nível nacional por Marcelino e Figueiras em 2007, pôs a nu a realidade da prevalência das PPST nos EEPH: - estima-se que a mesma possa atingir os 64%.

Ora se os números relacionados com as restantes populações mencionadas já se afiguravam como gravemente preocupantes, este último surpreende e preocupa ainda mais. Dadas estas diferenças numéricas, importa identificar também um factor diferenciador entre os diversos grupos supracitados e os EEPH. Enquanto os primeiros pertencerem à categoria dos que desenvolvem PPST por terem estado expostos a um stress traumático extremo, envolvendo a sua experiência pessoal directa, os segundos (EEPH) estão na categoria daqueles que desenvolvem a patologia por terem assistido a um evento que envolveu sofrimento ou ameaça à integridade física de outra pessoa.

Ainda no que diz respeito aos resultados do estudo, Marcelino e Figueiras (2007) acrescentam que, embora sem diferenças significativas, as mulheres manifestaram ser mais susceptíveis que os homens para o desenvolvimento de PPST, ainda que ao longo da sua vida contactem com um menor número de situações potencialmente traumáticas.

Embora já abordados os factores determinantes para o desenvolvimento de PPST nos vários grupos populacionais, os autores supracitados concluíram que, em relação à actividade profissional dos EEPH, quanto maior for o número de horas de trabalho sem descanso/ férias, a sobrecarga física, psicológica e emocional, os anos de trabalho, o contacto com casos graves, a falta de meios e recursos para dar resposta às necessidades das vítimas, o compromisso de optimizar o tempo da intervenção e de tomar as decisões acertadas e quanto menor for a qualidade das relações no local de trabalho, a satisfação com a actividade profissional e a estabilidade emocional, maior será a propensão para o desenvolvimento de PPST. (Amaro & Neves, 2008) Para além das consequências negativas, já apontadas, que estas perturbações acarretam para os mais diversos planos da vida das pessoas em geral, Marcelino e Figueiras (2007) acrescentam que os EEPH ficam mais susceptíveis a apresentar uma menor capacidade diagnóstica, com correspondente aumento da propensão para o erro e para as falhas na actuação.

Apesar do cenário apresentado ser na realidade preocupante, ainda pra mais pelo facto de Ballone (2011), apoiando-se no DSM-IV, afirmar que as afecções na qualidade de vida destas pessoas podem arrastar-se por meses ou mesmo anos, existem actualmente conhecimentos de métodos e técnicas que permitem quer prevenir a instalação dos sintomas e consequente sofrimento, quer tratar a pessoa quando estes já estão presentes, auxiliando-a na sua recuperação. Como medidas preventivas para a instalação de PPST nos EEPH, torna-se óbvio que o principal ponto de partida deve ser a divulgação de informação pertinente junto aos mesmos, no sentido de lhes dar a conhecer esta patologia e a sua sintomatologia. Só assim se conseguirão criar as condições básicas para o reconhecimento precoce da necessidade de adoptar medidas, que visem prevenir o desenvolvimento desta patologia. Para além deste primeiro passo, Marcelino e Figueiras (2007) e Grilo e Pedro (2005) sugerem, no seu estudo, a necessidade de implementar outras medidas de carácter mais prático, como são o gozo de períodos de descanso e de férias sem vencimento, a adopção de técnicas de relaxamento, a realização de momentos de descontracção durante o serviço, o hábito de partilha frequente de sentimentos sobre experiências potencialmente traumatizantes entre os elementos da equipa e ainda uma boa relação interpessoal no local de trabalho.

Numa fase posterior e menos desejável, uma vez que o grande objectivo é a prevenção da instalação da patologia, é necessário recorrer aos métodos e técnicas actualmente preconizados pela bibliografia, como tratamentos de eleição nas vítimas de PPST. Para Santos (2005) existem dois tipos diferentes de tratamento, aplicáveis consoante a gravidade dos sintomas manifestados. Assim, nas situações ligeiras a moderadas pode recorrer-se à terapia de grupo, enquanto que nas situações mais graves está indicada psicoterapia cognitivo-comportamental e ainda medicação antidepressiva como adjuvante, quando necessário.

Desta descrição é  possível perceber que o tipo de tratamento adoptado para as situações ligeiras a moderadas, acaba por ser semelhante ao tipo de medidas sugeridas por Marcelino e Figueiras (2007) em relação à prevenção de PPST, nomeadamente no que toca à partilha e expressão de sentimentos e emoções acerca das situações potencialmente traumáticas, entre os elementos da equipa. Contudo, uma das diferenças reside no facto das primeiras requererem a orientação de um profissional devidamente preparado, nomeadamente um psicólogo, enquanto que as segundas podem ser mais informais/ espontâneas, surgindo da iniciativa dos elementos da equipa.

No que diz respeito à  psicoterapia cognitivo-comportamental, pode dizer-se que este método representa um passo em frente no tratamento das PPST. Silva e Serra (2004) clarificam este método, ao explicar que enquanto a psicoterapia cognitiva isolada visa compreender e ajudar a modificar a atribuição de significados aos acontecimentos da realidade, dando oportunidade ao indivíduo para contactar com novas visões da mesma situação, a psicoterapia cognitivo-comportamental não procura somente o pensamento mais racional, mas sim expor a vitima às situações interpretadas de forma errada como sendo de risco, ajudando-a a modificar a representação que tem das mesmas a nível emocional. Também para este método é indispensável a intervenção de um técnico devidamente habilitado para o implementar, no sentido de promover o alcance de resultados satisfatórios.

Como nota final, importa sublinhar que desde 2004 o INEM conta com um serviço denominado Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC), cujos psicólogos, para além de serem accionadas para prestar apoio a vítimas de situações extremamente traumatizantes, incorporam no seu referencial de actividades o apoio aos profissionais do instituto, nomeadamente ajudando “(…) as equipas de emergência em situações potencialmente traumáticas.”. (INEM, 2009, p.1) Este facto demonstra que apesar da realidade descrita em termos de prevalência de PPST nos EEPH ser pouco conhecida/ reconhecida ao nível da sociedade em geral e até mesmo dos próprios profissionais, o INEM é conhecedor deste risco real associado ao exercício de emergência pré-hospitalar, assumindo uma postura de preocupação perante os seus profissionais.

Conclusão:

Realizando uma leitura sequencial deste artigo, é possível perceber que segundo os resultados e conclusões dos estudos apresentados, a situação real vivenciada pelos EEPH, ainda que pouco animadora ao nível da prevalência das PPST e das consequências que estas acarretam a nível pessoal, familiar, social e laboral, já começam a surgir sinais de estarem criadas condições para se realizar um trabalho sério de prevenção e de tratamento das vitimas de PPST. É de salientar que o INEM, enquanto principal organismo regulador da Emergência Médica Pré-Hospitalar em Portugal, criou o CAPIC, um serviço que tem estipulado numa das suas principais linhas de actuação, o apoio psicológico aos seus profissionais. Este marco reveste-se de extrema importância e representa um olhar sério para o futuro, uma vez que o Comitê do PHTLS (2007) prevê que as vítimas de trauma grave continuem a aumentar nos próximos anos. Resta apenas fazer votos que um dia estejam criadas as condições para que todos os profissionais e voluntários das restantes instituições de socorro do nosso país, para além do INEM, possam beneficiar destas medidas preventivas e dos tratamentos apresentados, como um direito adquirido.

 

Referências bibliográficas:

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