Social:
terça, 04 março 2008 15:36

A Família em Cuidados Paliativos

Escrito por  Enf. Fernando Martins

Com a evolução que a sociedade ocidental tem vindo a sofrer ao longo dos séculos, verifica-se actualmente que cada vez mais os doentes em fase terminal passam os seus últimos momentos de vida no hospital; em vez de os passarem no seu ambiente familiar e mais acolhedor que é o seu domicílio.

 

Fernando Martins

Enfermeiro Nível I, Hospital d Santo Espírito de Angra do Heroísmo

 

O cuidar e a prestação dos cuidados é o elemento fulcral no dia-a-dia da enfermagem. Os enfermeiros desenvolvem a sua actividade profissional através do saber-saber, saber-fazer e do saber-estar.

Ao promover o cuidar está-se a assistir o cliente na satisfação das suas necessidades humanas, desde as básicas às mais complexas; esta actividade é desenvolvida maioritariamente num ambiente confortável, para que se possa promover o bem-estar. Não devendo exercer considerações acerca das suas convicções, emoções e dos seus sentimentos.

Citando GREEN (1984) Os cuidados de enfermagem consistem em ajudar o indivíduo a cumprir as tarefas de que ele próprio se ocuparia se tivesse a força, a vontade e o conhecimento, de forma a ajudá-lo a reconquistar a sua independência.

A prestação de cuidados aos doentes e ficar junto dos que morrem faz parte integrante das acções que diferenciam o Homem do Animal.

Sendo a agonia o combate entre a vida e o tempo que antecede a morte; até à década de 50 do século XX era um acontecimento que envolvia a família e os amigos do doente; este processo desenrola-se no domicílio do doente em questão. Como o hospital em si evoluiu como sendo um local onde se realizava a prestação de cuidados, proporcionava-se o ensino e a investigação. O processo da agonia e morte passou-se a desenrolar no hospital; visto este ser o local onde se encontravam os prestadores de cuidados, este processo é diferente do que se passava anteriormente em casa, primando principalmente pela ausência dos familiares e elementos mais significativos, mas marcado pela forte presença primordialmente dos enfermeiros e por vezes dos médicos. Verificando-se assim uma menor disponibilidade dos prestadores de cuidados para atender estas pessoas em fase terminal.

Segundo a Organização Mundial de Saúde cuidados paliativos são cuidados activos totais ao doente em que a doença não responde ao tratamento curativo. O controlo da dor, de outros sintomas e ainda de problemas de ordem psicológica, social ou espiritual, é primordial. O objectivo dos cuidados paliativos é a consecução da melhor qualidade de vida dos doentes e das suas famílias in (Cuidados Paliativos, Sinais Vitais, Coimbra, 2000, página 130).

Com a evolução que a sociedade ocidental tem vindo a sofrer ao longo dos séculos, verifica-se actualmente que cada vez mais os doentes em fase terminal passam os seus últimos momentos de vida no hospital; em vez de os passarem no seu ambiente familiar e mais acolhedor que é o seu domicílio.

Pela minha experiência na prestação de cuidados a utentes em estado terminal pude verificar este tipo de situação; ela acontece tanto com os adultos como com as crianças. Estas situações acontecem porque apesar de os familiares terem o conhecimento e a noção de que estão perante uma situação sem retorno, não se sentem capazes de prestar cuidados ao seu familiar, assistindo assim de forma impotente.

Porque não conseguem ou não sabem como intervir perante as alterações a nível gastrointestinal, por exemplo náuseas, vómitos, anorexia; quando apresentam alterações a nível do odor corporal, obstipação, desidratação, caquexia, astenia, mobilização entre outros.

Nota-se que antes de se atingir a fase agónica, as famílias querem e sentem a necessidade de terem o seu familiar em casa mas depois não conseguem. Por apresentarem problemas e necessidades psicológicas, sociais, fadiga, perturbações emocionais, depressão, ansiedade, angústia e culpabilidade levando todas estas situações ao burn out.

Por isso preferem que o seu familiar passe os seus últimos momentos no hospital; o que por vezes levanta vários problemas, caso não haja união familiar, existirá problemas no luto e desajustamento com a situação de perda. A depressão é uma das consequências mais comuns, por isso têm que se fazer a prevenção do luto patológico para que assim os familiares não atinjam o burn out.

Quando esta situação ocorre numa instituição hospitalar onde existem mais pessoas em situações semelhantes, os profissionais de saúde terão de repartir o seu tempo e atenção pelas situações urgentes e que necessitam de maior apoio. Os profissionais de saúde, principalmente os enfermeiros, que são quem lida mais directamente com a morte, antes de serem profissionais de saúde são pessoas com sentimentos, emoções e que após a vivência de muitas situações de fase terminal; caso não encontrem ou lhes seja proporcionado um escape para o acumular destes sentimentos irão ficar em burn out, por isso as instituições deveriam de apoiar os seus profissionais com estratégias para que este tipo de situação não aconteça; o que caso não se resolva poderá comprometer a qualidade dos cuidados.

Para que os doentes em fase terminal possam morrer num menor número nas instituições hospitalares dever-se-ia proporcionar as estas pessoas e respectivas famílias equipas multidisciplinares domiciliárias de cuidados paliativos para que esta fase possa ocorrer no melhor ambiente familiar; em que todos os rituais pré e pós morte sejam realizados num ambiente de calma e paz.

Sendo assim os cuidados paliativos são um desafio para toda a sociedade e para a enfermagem no século XXI.

 

BIBLIOGRAFIA:

CHANTAL NEVES, ISABEL NETO, MARGARIDA VIEIRA, E OUTROS, Cuidados Paliativos, Sinais Vitais, Coimbra, 2000;

 

Revistas

Artigos de Autor

 Revista Nursing

Revista Sinais Vitais

 

Revista Investigação em Enfermagem

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