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domingo, 02 dezembro 2007 05:05

Suicídio na Adolescência

Escrito por  Enf. Ivo Marques & Enf. O. Eunice Jesus

O suicídio na adolescência surge como um choque, incompreensível, tendo em conta que o adolescente é considerado o futuro da sociedade, com um mundo por descobrir e, é este mesmo indivíduo que procura a auto destruição.

 

Ivo Marques

graduado

licenciado em enfermagem

Unidade de Cuidados intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Central do Funchal

 

O. Eunice Jesus

graduada

licenciada em enfermagem

Urgência Pediátrica do Hospital Central do Funchal

 

 

 

 

O seu rosto, marcado pelo sofrimento,

tinha-se congelado para todo o sempre a meio de um grito de terror.

 

Guillaume Musso in

E depois...

 

 

Introdução

Este trabalho surgiu do nosso envolvimento pessoal em situações de suicídio /tentativas de suicídio de jovens adolescentes, tanto no campo profissional como pessoal. O facto de que nem sempre a vida nos reserva o que dela esperamos e que os planos de vida nem sempre decorrem como planeamos é uma verdade incontestável. Mas será isso suficiente para que um jovem adolescente que esperamos que desempenhe um papel, na nossa vida ou até mesmo da sociedade, depositários de sujeitos mil e uma esperanças e projectos cometa um atentado sobre o seu bem mais precioso: a vida ? Fizemos uma revisão teórica sobre o que é dito sobre o tema na literatura disponível que passamos a apresentar. Esperamos que vos seja útil.

 

Adolescência

A adolescência é a fase de transição entre a infância e a idade adulta. Segundo Ferronha Correia (2001), é um fenómeno de transição social e psicológico que envolve profundas mudanças biológicas induzidas pela puberdade, mas as mudanças não se manifestam apenas a este nível, surgindo transformações psicológicas e sociais. O autor da ênfase no facto de que do processo de desenvolvimento da adolescência está presente na relação que os jovens estabelecem com o próprio corpo exprimindo-a por amor, ódio, alegria, vergonha, prazer, raiva. As alterações da imagem corporal é de tal forma, que o adolescente pode chegar a confundir a imagem corporal com a sua própria personalidade

Winlow-Brown (1998), salienta que o adolescente é marcado por profundas alterações não só físicas, como o crescimento acelerado, puberdade e maturidade sexual, mas também na capacidade cognitiva, expectativas sociais e desenvolvimento da personalidade. Assim enfrenta muitas escolhas e decisões de forma a atingir a fase de adulto jovem com a tão esperada independência financeira e individualização dentro da família de origem. A sua principal tarefa é a formação da identidade em que as relações de amizade desempenham um papel importante tendo em conta que o auto conceito é testados e influenciados pelas interacções sociais.

Augusto Correia (2007), realça que as expectativas escolares, sociais ou familiares pouco reais podem criar fortes sentimentos de rejeição com consequente sentimento exagerado de vida injusta por parte do adolescente

Para Wong (1999), a adolescência é caracterizada pela agitação, instabilidade emocional e variações de humor que tornam difícil lidar com eventos críticos especialmente se os coloca sob pressão.

O adolescente terá de se adaptar também ao mundo que o rodeia. Carlos Dias (2002), refere que a desidealização é uma tarefa essencial do adolescente. Ele terá de submeter aos ideais ao princípio da realidade para perceber como a realidade, de facto nos ensina que as coisas podem não ser como as projectamos.

 

Suicídio

Ao longo da História da Humanidade o suicídio não tem sido ponderado da mesma forma. Na Grécia antiga o suicídio era considerado uma ofensa para o estado, enquanto que na Roma Clássica era visto de uma maneira positiva ou até neutra. No século IV Santo Agostinho considerou-o pecado e São Tomas de Aquino no século XIII, salienta que só Deus tem o poder de dar a vida e por consequência só ele tem o direito de a tirar, recusando realizar funeral a quem se suicidasse. Rousseau, século XVIII dá-nos uma outra perspectiva, desresponsabilizando o suicida, já que defende que o Homem é bom por natureza, a sociedade é que o perverte, torna mau e criminoso. Segundo Daniel Sampaio (2002), só no século XX com os estudos realizados por Durkheim, Sigmund Freud e Kar Menninger é que o suicídio foi analisado sob as teorias sociológicas e psicanalistas.

Para a OMS o suicídio é um fenómeno complexo, multifacetado que necessita de estudo dos vários factores a ele associados e intervenção sob correcta metodologia objectiva.

Daniel Sampaio define (2002) o suicídio como a auto destruição fatalnprovocada pelo sujeito com intenção deliberada de por termo à vida.

Com base em estudos realizados pela OMS (2000), nos últimos 45 anos a taxa de suicídio aumentou cerca de 60% a nível mundial, sendo a terceira causa de morte entre os 15 e 44 anos (ambos os sexos). Apesar de tradicionalmente as taxas de suicídio serem mais elevadas no adulto do sexo masculino, a taxa entre jovens tem vindo a aumentar de uma forma tão significativa que encontra-se entre os grupos de alto risco em um terço dos países tanto desenvolvidos como em vias de desenvolvimento. Gail Stuart (2001), chama a atenção para o facto de a taxa de suicídios entre jovens triplicou nos últimos 30 anos, reforçando que o número real de suicidas pode ser duas ou três vezes superior, visto que nem todos os casos são notificados.

Com o desenvolvimento da sociedade, a perda da religiosidade, a medicina cientifica, a preocupação da sociedade, tem sido, como refere Francisco Elizari (1996), de ocultação social da morte, associando-a ao resultado do natural envelhecimento do corpo e processo de doença a ele associado. A medicina tem sido capaz de alterar o curso da natureza e prolongar a existência com problemas morais a ele anexos, assim como dificuldades familiares, económicas e jurídicas. Daí surge a preocupação por parte da bioética da desumanização da fase final da vida, esforço em promover uma morte digna e o interesse por uma morte digna tornou-se uma marca de cultura.

Em contradição a tudo isto somos confrontados com a procura voluntária da morte, por parte do adolescente. Como salienta Ferronha Correia (2001), o suicídio na adolescência surge como um choque, incompreensível, tendo em conta que o adolescente é considerado o futuro da sociedade, com um mundo por descobrir e, é este mesmo indivíduo que procura a auto destruição.

Wong (1999), refere que no suicídio do adolescente podem estar envolvidos factores biológicos, sociais e psicológicos, tais como situação familiar instável, stress económico, desintegração familiar e problemas médicos e psiquiátricos, entre eles a depressão e dependência de substancias químicas, que desempenham um papel importante. Sendo assim o risco de suicídio é maior entre os adolescente com depressão.

Gail Stuart (2001) salienta que por vezes os adolescentes optam por não aderir ao tratamento proposto por opção de não cuidar de si ou recusa admitir a seriedade do seu problema de saúde.

 

Significado do acto suicida

Para Sampaio (1995), o gesto suicida apesar de ser um acto individual está envolto de significado relacional. O suicida pode pretender matar-se,

pedir ajuda ou agredir alguém. O autor refere que a tentativa de suicídio do adolescente pode ser categorizada, em quatro tipos fundamentais:

  • Apelo - adolescente faz um pedido de ajuda;

  • Desafio

- em que o jovem pretende com o seu gesto contestar a autoridade parental;

  • Fuga -

O adolescente cai no isolamento familiar e social, excluindo-se do contacto com os outros; Renascimento . O adolescente pretende com a sua morte, renascer de forma diferente.

Sampaio (1995), define como factores predisponentes a uma tentativa de suicídio, uma história familiar, ou de pessoa significativa, de depressão ou suicídio; personalidade impulsiva, historia psiquiátrica ou de dependência de substancias químicas e acontecimentos importantes desfavoráveis. Na presença de um factor precipitante como uma situação de perda no contexto afectivo, estes factores levariam a que numa situação limite surja o comportamento suicidário.

Gail Stuart (2001), menciona que a importância atribuída aos factores desencadeantes depende da capacidade do adolescente tolerar o stress. Ele defende que todos os comportamentos auto destrutivos podem ser vistos como tentativas de evasão de situações de vida desconfortáveis ou intoleráveis, sendo a ansiedade fulcral para o comportamento auto destrutivo.

Gail Stuart (2001), descreve cinco domínios de factores predisponentes, sendo parte deles comuns aos descritos por Daniel Sampaio. Os domínios por ele descritos são: diagnósticos psiquiátricos (como transtornos de humor, abuso de substâncias e esquizofrenia); factores psicossociais e ambientais (diz respeito a apoio social, eventos de vida, doença crónica, vivência de luto recente, separação, perda de empregou, eventos de vida humilhantes); trocas e transtornos de personalidade (refere que os três aspectos da personalidade mais associados ao risco de suicídio são hostilidade, impulsividade e depressão); historia familiar (historia familiar de suicídio, é um factor de risco significativo para comportamentos auto destrutivos) e, factores bioquímicos (nível baixo de neurotransmissor cerebral seratonina 5HT).

O Núcleo de Estudos de Suicídio do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, do qual faz parte Daniel Sampaio (1995), define como perfil do adolescente suicida: Rapariga de 17 anos, estudante, com conflito familiar, com antecedentes de suicídio na família e/ou nos amigos, isolada, com insucesso escolar e baixa auto estima.

Amaral Dias (2002), realça a importância da .autópsia do suicídio. sendo esta realizada ao indivíduo que fez a tentativa de suicídio sem sucesso, estabelecendo significado para as fantasias que organizaram a ideia de suicídio enquanto que Augusto Correia (2006) destaca a importância de despiste precoce de sinais de alarme de comportamento suicida, entre eles, as ameaças de suicídio directa ou indirectamente; obsessão com a morte; produção criativa (poesia, literatura, etc.) referente à morte; alterações de personalidade ou aparência de forma drástica; sentimento exagerado de culpa, rejeição ou vergonha; alteração de padrões de sono e/ou alimentação; agravamento do desempenho escolar; distribuição de bens pessoais, sinais de depressão (isolamento, falta de motivação, diminuição de auto estima, entre outros).

 

Método

Segundo Wong (1999), a sobre dosagem de drogas a que facilmente têm acesso como barbitúricos e anti depressivo é o método de eleição dos adolescentes para as tentativas de suicídio. A intoxicação medicamentosa e corte de pulsos está maioritariamente associado ao sexo feminino, enquanto o uso de armas de fogo e automóveis são associados ao sexo masculino. O mesmo autor refere que a maioria dos actos suicidas são impulsivos, cometidos para chamar a atenção de algo significativo. Raramente planeiam o acto suicida porque querem morrer, os actos suicida bem sucedidos são cometidos normalmente de uma forma impulsiva ou acidental. O suicídio surge como a solução para o alívio do sofrimento. Amaral Dias (2002) salienta que mesmo que tenha tomado só duas aspirinas, ele quis chamar a atenção e isso significa que procura ajuda, respostas, está deprimido, angustiado ou as respostas do meio não são satisfatórias.

Winland- Brown explica que embora as raparigas tentem o suicídio com maior frequência, são os rapazes os mais bem sucedidos , provavelmente por usarem métodos mais violentos.

 

Intervenção

Diversos autores propõem medidas de intervenção de forma a diminuir as tentativas de suicídio:

Daniel Sampaio (2002), salienta a importância a promoção da saúde mental na adolescência através do reforço da auto estima juvenil e melhor comunicação entre gerações;

Ferronha Correia (2001), por outro lado, advoga que a avaliação dos factores de risco e a identificação dos condicionantes físicos, psíquicos e sociais, presentes na tentativa de suicídio é fundamental para a criação de estratégias de intervenção junto dos adolescentes. Algumas estratégias por ele sugeridas são:

  • Controle sobre os relatos de suicídio (por exemplo de actores ou músicos) não os descrevendo como um método de enfrentar problemas;

  • A descrição das sequelas pode ser factor dissuasor;

  • Divulgar redes voluntárias como SOS telefone amigo, SOS palavra amiga, centro SOS voz amiga;

  • Divulgar existência de consulta de crise para adolescentes (Hospital

  • Maria Pia) e departamentos de pedopsiquiatria.

  • Gail Stuart (2001), sugere algumas medidas de prevenção a aplicar aos adolescentes que já fizeram alguma tentativa de suicídio tais como:

  • Proteger o adolescente de infligirem danos a si próprio promovendo um ambiente seguro;

  • Envolver familiares/ pessoas significativas na recuperação;

  • Desenvolver estratégias de aumento de auto estima (atributos positivos devem ser reconhecidos com elogios legítimos)

  • Desenvolver estratégias de modo que o adolescente consciencialize os seus sentimentos, identifique-os e expresse-os de forma apropriada;

  • Mobilizar apoio social;

  • Limitar disponibilidade de substâncias químicas como medicação e álcool;

  • Consciencializar a população em geral sobre a importância e consequências da depressão

  • Diminuição da discriminação associada a cuidados psiquiátricos.

  • Augusto Correia (2007), define algumas medidas para promover sentimento de pertença, aceitação, e preenchimento:

  • Fazer novas amizades;

  • Praticar desporto;

  • Trabalho em regime de part time;

  • Associar-se a organizações com programas para jovens;

  • Incentivar permanência no tratamento psiquiátrico seja ele psicoterapia, terapia cognitiva, terapia interpessoal ou medicação;

  • Estabelecer relação de ajuda promovendo escuta activa e incentivar o adolescente a expressar os seus sentimentos.

 

Referencias bibliográficas

  • Correia Augusto (2007) A depressão e suicídio nos adolescentes. Ajudar os adolescentes deprimidos [consulta 9/04/2007] . URL: www.admd.pt/depressão/depressão_juventude/depressão _juventude.html

  • Correia, J. Ferronha (Outubro/Novembro/Dezembro 2001) O suicídio e a adolescência Nascer e crescer 10 (4) 279-284

  • Dias, Amaral. 2002 . O inferno somos nós, Lisboa : Quetzal

  • Elizari, Francisco Javier (1996) Questões de bioética. Vida em qualidade. Porto: Editorial Perpetuo Socorro

  • Sampaio, Daniel. 2002. Ninguém morre sozinho. O adolescente e o suicídio, 12ª Ed. Lisboa: Caminho.

  • Sampaio, Daniel (Junho, 1995) Para suicídio na adolescência . a propósito de uma experiência clínica. Nascer e crescer, 4(2) 78-80

  • Stuart, Gail (2001) Respostas de auto protecção e comportamento suicida in Start, Gail ; Loraia, Michele- Enfermagem psiquiátrica. Princípios e pratica (6ª ed). (417-437) Porto Alegre : Artmed editora

  • Winlow-Brown, Jill Elizabeth (1998) Adolescência e adulto jovem in Soresen e Lukma. Enfermagem fundamental . Abordagem psicofisiologica (258-267) Lisboa: Lusodidacta

  • Wong, Donna L. (1999) Whaley e Wong. Enfermagem pediátrica. Elementos essenciais à intervenção efectiva, 5ªed, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan

  • World Health organization Suicide prevention (SUPRE) [consulta: 22 /04/2007] Organização Mundial de Saúde.

URL:www.who.int/mental_health/prevetion/suicide/suicideprevent/en/index.html

 

 

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