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quarta, 08 novembro 2006 17:24

Locas e sinus tractus: estratégias de sucesso

Escrito por  Enf. João Gouveia & Enf. Cristina Miguéns

As locas e os sinus tractus são complicações de feridas, que representam a perda de tecido sob a pele intacta à superfície

 

 

João Carlos Ferreira Gouveia

Enfermeiro Graduado do Centro de Saúde da Pampilhosa da Serra

 

Cristina Isabel Murta Miguéns

Enfermeira Chefe do Centro de Saúde da Pampilhosa da Serra

 

 

Introdução

As feridas cutâneas podem assumir variadas formas e dimensões, tornando por vezes o seu tratamento complicado e alvo de abordagens com resultados pobres em termos de tempo de cicatrização e taxas de sucesso. Assim, torna-se pertinente alargar os horizontes em termos da utilização de novos materiais no tratamento de feridas, à partida, problemáticas e com uma perspectiva de cicatrização muito prolongada em termos temporais.

Neste artigo, iremos abordar dois tipos de apresentação de feridas que pela sua amplitude ao longo dos tecidos subjacentes à ferida, levam a que muitas vezes não se tenha uma visão de toda a sua dimensão e por isso se subvalorize os recursos necessários a uma rápida cicatrização.

As locas e os sinus tractus são complicações de feridas, que representam a perda de tecido sob a pele intacta à superfície (Sussman et al, 2001).

Normalmente a sua distinção é feita de acordo com a extensão e direcção dos tecidos afectados. Assim, as locas, normalmente, envolvem os tecidos subcutâneos e seguem os planos fasciais junto aos bordos da ferida. Por outro lado, os sinus tractus surgem da separação dos planos fasciais, podendo atingir órgãos ou outras estruturas muito para além da zona abrangida pela ferida cutânea. Este tipo de feridas pode ocorrer devido a um processo de doença subjacente, infecção, a acumulação anormal dos níveis de fluidos sob a linha de sutura ou à presença de corpos estranhos nas margens da ferida (Miller et al, 1996).

De acordo com Baranoski et al (2004), um sinus tractus é “um canal que se estende de qualquer parte da ferida e pode passar através do tecido subcutâneo e músculo”. Este canal envolve uma área superior à superfície visível da ferida e pode resultar em espaço morto ou abcessos, com consequentes complicações associadas ao processo de cicatrização da ferida. Este tipo de ferida é muito frequente em deiscências cirúrgicas e o seu tratamento deve consistir no preenchimento do espaço vazio com um penso adequado à promoção da cicatrização, por forma a garantir uma cicatrização eficaz com aproximação dos bordos, sem perigo de encerramento em falso. Também Sussman et al (2001) referem que os túneis que se formam aquando do aparecimento das locas podem conduzir ao aparecimento de sinus tractus”.

No que se refere a locas, de acordo com Baranoski et al (2004), estas são resultantes da “destruição tecidular que ocorre à volta da do perímetro da ferida sob a pele intacta”. Também Sussman et al (2001) referem que “o escavar dos tecidos subcutâneos durante o desbridamento cria uma “cave” ou loca dos bordos da ferida”. De referir que as mesmas autoras defendem que as locas podem conduzir à separação dos planos fasciais.

 

 

Estudos de caso


> Caso Nº 1


O Sr. J. I., é um paciente com 40 anos, vitima de uma ferida no membro inferior esquerdo, por uma causa traumática, levando ao aparecimento de uma ferida incisiva com comunicação óssea, apresentando-se como uma loca. Após 30 dias de tratamento ambulatório com iodopovidona pomada + compressa seca, numa frequência de realização de pensos a cada 3 vezes por semana, verificou-se que não tinha existido qualquer evolução cicatricial, apresentando um leito sangrante, mas sem sinais de progressão a nível de profundidade e de aproximação dos bordos da ferida (Foto 1). Ao dia 30 (18/5/05) do tratamento standard, a ferida apresentava dimensões de 1,5 cm de comprimento e 1,3 cm de largura (área total- 1,3 cm2), com uma profundidade de 3 cm., tendo iniciado aplicação de um penso de espuma de poliuretano, mudando os pensos a cada 4 dias.

 

 

Foto 1

 


A 22/5/05, apresentava dimensões de 1,7 cm de comprimento e 1,6 cm de largura (área total- 2,7 cm2)*, com uma profundidade de 3 cm*. No dia 26/5/05, verificou-se um aumento esperado das dimensões, em virtude do aparecimento tecido viável dos planos mais profundos, anteriormente não acessíveis. Nesta fase, o produto utilizado teve uma função de limpeza e preparação de tecido viável. As dimensões eram de 1,9 cm de comprimento e 1,8 cm de largura (área total- 2,7 cm2)* (Foto 2). A nível da profundidade também não se verificou qualquer alteração.

 

 

Foto 2

 

 

A 30/5/05, verifica-se uma alteração muito substancial do tipo de tecido presente, com uma diminuição de 1 cm em termos de profundidade. De notar o aparecimento de tecido de granulação em grandes quantidades (Foto 3).

 

 

Foto 3

 

 


A 8/6/05, verifica-se uma ausência de profundidade, com dimensões de 1,1 cm de comprimento e 0,7 cm de largura (área total- 0,6 cm2)* (Foto 4). Nesta data, para além da inexistência de profundidade e qualquer contacto com outras estruturas, verifica-se a contracção dos bordos da ferida, indicando uma cicatrização total, sem existência de encerramento “em falso”. A partir desta data passou a realizar o penso 1 x por semana. Apresentou cicatrização total na data de 16/6/05 (Foto 5), com encerramento completo da ferida, existindo apenas uma coloração mais enegrecida da zona afectada. Deste caso, podemos retirar que em 30 dias (15 pensos), não foi obtido qualquer sucesso com a medida instituída (iodopovidona pomada + compressa seca), sendo que em apenas 25 dias (7 pensos) foi obtida a cicatrização total. Foi realizado follow-up após 30 dias, sem existência de recidiva. A análise de custos é feita mais adiante nesta artigo.

 

 

 

Fotos 4 e 5

 

 

 


> Caso Nº 2


A Sr.ª J. é uma paciente de 69 anos, sujeita a cirurgia abdominal (Foto 6), da qual resultou deiscência da sutura operatória com um sinus tractus de 5,5 cm de profundidade*. Apresentava duas feridas comunicantes entre si, com eliminação de conteúdo seropurulento em grande quantidade. Apresentava 1,3 cm de comprimento e 0,5 cm de largura*. Tinha indicação terapêutica para realização de penso diário com iodopovidona pomada, o que em face à utente viver longe do Centro de Saúde (12 km) levava a que os custos fossem incomportáveis para a utente. Foi tomada a decisão terapêutica, com a anuência da paciente, de realizar o penso com um penso de espuma de poliuterano para cavidades, em virtude do mesmo se ter indicação para utilização em deiscências pós-operatórias. No dia 12/8/05 (Foto 7), foi iniciada a colocação do penso de poliuretano para cavidades, associado a um penso de poliuretano sem adesivo, com mudança do penso a cada 3 dias.

 

 

 

 

Fotos 6 e 7

 

 


No dia 15/8/05 (Foto 8), a ferida apresentava-se com uma excelente evolução, com encerramento da ferida à direita na foto, e a ferida à esquerda da foto apresenta dimensões de 1 cm de comprimento e 0,5 cm de largura. De notar a contracção dos bordos da ferida, facto esse indicativo de evolução cicatricial positiva. A partir desta data, o penso passou a ser realizado apenas com o penso de poliuretano não adesivo.

 

 

Foto 8

 

 

A 22/8/05 (Foto 9) , a ferida apresenta-se totalmente cicatrizada, com ausência de libertação de exsudado, sendo referido pela paciente uma melhoria substancial da sua qualidade de vida, na realização das suas actividades de vida diária e no convívio social com outras pessoas.

 

 

Foto 9

 

 

 

QUADRO Nº1- Análise do custo-efectividade das medidas terapêuticas implementadas vs medidas standard (Estudo de caso nº1)

 

Tratamento standard

(A)

Tratamento com penso de espuma de poliuretano para cavidades

(B)

Relação económica

(A/B)

Kit de pensos

12 x 8€

7 X 8€

96€/56€

Penso de espuma de poliuretano para cavidades

5 cm X 5 cm

 

____________

 

2 X 6,44€

 

0€/12,88€

Transportes

(táxi)

 

12 X 17,5€

 

7 X 17,5€

 

210€/122,5€

Tempo de enfermagem

 

12 X 1,12€1

 

7 X 0,56€2

 

13,44€/3,92€

Ligadura elástica 10 cm X 10 cm

 

12 X 0,12€

 

7 X 0,12€

 

1,44€/0,84€

Penso de poliuretano com adesivo 10 cm X 10 cm

 

 

__________

 

 

7 X 2,4€

 

 

0€/16,8€

Tubo de pomada de iodopovidona

 

1 X 3,59€

 

__________

 

3,59€/0€

Saco de compressas esterilizadas 7,5 cm X 7,5 cm

 

 

12 X 0,14€

 

 

 

___________

 

 

1,68€/0€

TOTAL

326,15€

212,94€

326,15€/212,94€

 

 

1correspondente a 10´ de serviço de enfermagem, valor hora pelo índice 114
2correspondente a 5´ de serviço de enfermagem, valor hora pelo índice 114

 

 

 

QUADRO Nº2 - Análise do custo-efectividade das medidas terapêuticas implementadas vs medidas standard (Estudo de caso nº2) 

 

 

Tratamento standard

Tratamento com penso de espuma de poliuretano para cavidades

Relação económica

(A/B)

Kit de pensos

10 x 8€

4 x 8€

80€/32€

Penso de espuma de poliuretano para cavidades

5 cm X 5 cm

 

____________

 

2 x 6,44€

 

0€/12,88€

Transportes

(táxi)

 

12 x 9€

 

4 x 9€

 

108€/36€

Tempo de enfermagem

 

12 x 2,24€3

 

4 x 1,68€4

 

26,88€/6,72€

Penso de poliuretano 10 cm X 10 cm

 

 

__________

 

4 x 2,4€

 

0€/9,6€

Tubo de pomada de iodopovidona

 

1 X 3,59€

 

__________

 

3,59€/0€

Saco de compressas esterilizadas 10 cm X 15 cm

 

 

12 X 0,14€

 

 

 

___________

 

1,68€/0€

TOTAL

 

 

220,15€/97,2€


3correspondente a 20´ de serviço de enfermagem, valor hora pelo índice 114
4correspondete a 15´ de serviço de enfermagem, valor hora pelo índice 114

 

 

 

 

 

Conclusão

Como é possível verificar, existem actualmente medidas terapêuticas extremamente eficazes e com um custo-efectividade extraordinário, com poupanças elevadas de custos, como sejam de 34,71% no caso nº1 e de 55,85% no caso nº2, sendo que os argumentos neste artigo parece ser facilmente compreensível o rebater de argumentos de que as novas terapias de tratamento de pensos são caras. Pelo contrário, conseguem-se resultados num espaço de tempo mais curto, com poupanças de recursos materiais e humanos e um aumento da disponibilidade de tempo do paciente (menor nº de vezes para realização do penso) para outras actividades da sua vida diária.

Deve ser cada vez mais preocupação dos profissionais de saúde aliar um aumento da qualidade de cuidados com a melhoria dos indicadores quer de qualidade dos mesmos, quer de sucesso na cicatrização de feridas.

* avaliação com tecnologia Visitrak®

 

 

 

Bibliografia

BARANOSKI, Sharon; AYELLO, Elizabeth, A.- Wound Care Essentials: Pratice Principles, Philadelphia, Lippincott Williams & Wilkins, 2004, ISBN 1-58255-274-6
MILLER, M.; COLLIER, M.- Understanding wounds, EMAP Healthcare, 1996.
SUSSMAN, Carrie; BATES-JENSEN, Barbara M.- Wound Care, Gaithersburg, Aspen Publications, 2001, ISBN 0-8342-1973-5

 


Resumo

Existem feridas complicadas para as quais ainda se aplicam tratamentos tradicionais, que implicam pior taxa de cicatrização, com tempos de tratamento prolongados e custos acrescidos. Este artigo pretende comprovar que existem, hoje em dia, alternativas altamente compensatórias para as variáveis mencionadas, com ganhos importantes em termos de recursos humanos e materiais, implicando uma poupança económica significativa.

 

Palavras-chave
Sinus tractus
Loca
Custo-efectividade

 

Revistas

Artigos de Autor

 Revista Nursing

Revista Sinais Vitais

 

Revista Investigação em Enfermagem

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