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sábado, 05 janeiro 2008 14:23

IV Congresso Nacional de Gerontologia

Escrito por  Enf. Sérgio Ferreira

A gerontologia é uma disciplina científica que produz conhecimento para a intervenção. Estuda as mudanças da sociedade resultantes do envelhecimento da população e as mudanças físicas, mentais e sociais à medida que os indivíduos envelhecem.

 

Sérgio Ferreira
Enfermeiro

 

 

Enf. Sérgio Ferreira

Serviço de Medicina I

Hospital Infante D. Pedro, EPE – Aveiro 

 

Decorreu nos dias 12 e 13 de Dezembro, o IV Congresso Nacional de Gerontologia, organizado pela CMStatus – Gabinete de Congressos. Este congresso decorreu no emblemático Coliseu do Porto, local que marcou carreiras, inspirou gerações e elevou a arte e a cultura na cidade invicta.
 

Após a sessão solene de abertura, deu-se início ao I ciclo de conferências, moderado pelo Professor Doutor Levi Guerra. A Mestre Maria Irene Carvalho apresentou o tema “A multidisciplinariedade em gerontologia”. A gerontologia é uma disciplina científica que produz conhecimento para a intervenção. Estuda as mudanças da sociedade resultantes do envelhecimento da população e as mudanças físicas, mentais e sociais à medida que os indivíduos envelhecem. A gerontologia aplica esse conhecimento em políticas e programas sociais direccionados às pessoas idosas, com o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços e qualidade de vida. É multidisciplinar (Conjunto de disciplinas sem relação aparente entre si. O campo de aplicação de cada disciplina é restringindo pelas outras) e multiprofissional (Justaposição de especialistas estranhos uns aos outros. Conjunto de pessoas/profissionais que nada têm em comum. Colaboração em equipa, contributos dos vários profissionais, sem haver uma síntese). A doutoranda Michel Binet apresentou uma comunicação sobre “Gerontologia e Interagir Comunicacional”. A Professora Doutora Zaida Azeredo falou sobre “Gerontologia: Intervenção Familiar e Comunitária”. Na intervenção familiar e comunitária deverá haver um diagnóstico de situação de saúde (Descrição da situação de saúde, identificação e análise dos problemas existentes, factores condicionantes, e fazer o respectivo prognóstico), planeamento (Processo contínuo de alterações que se obtém de um modo definido ao longo do tempo com intenção de esclarecer e orientar uma política de saúde e social) e programação. É necessária a colaboração de múltiplos sectores e de diversas parcerias, organizadas de acordo com as necessidades da população e os recursos familiares e comunitários disponíveis. Assim, a intervenção comunitária e familiar assenta na educação, acções comunitárias (cooperação com a família, intervenção na habitação, transportes, acessibilidade a serviços, acções de inter-ajuda e autocuidado e desenvolvimento de políticas de saúde e sociais eficientes e eficazes. A comunicação seguinte, intitulada “Avaliação em Gerontologia: Aspectos relevantes para a enfermagem” esteve a cargo do Professor Doutor Carlos Sequeira, que apresentou alguns instrumentos de apoio à tomada de decisão (idoso), como por exemplo, o Índice de Barthel, o Índice de Lawton, o Índice de Katz, o Easy Care e o Mini Dependance Assessment (MDA).

 

Apresentou também instrumentos de apoio à tomada de decisão (cuidadores), que têm como objectivo monitorização das repercussões da prestação de cuidados. Os instrumentos validados para a população idosa portuguesa são o Índice de avaliação das estratégias de “coping” do cuidador - (CAMI), o Índice de avaliação da satisfação do cuidador – (CASI), o Índice de avaliação das dificuldades do cuidador (CADI) e a Escala de sobrecarga do cuidador (ESC). Para terminar o primeiro ciclo de conferências, a Mestre Carla Ribeirinho apresentou a comunicação “Gerontologia e Envelhecimento: Desafios Contemporâneos”. As pessoas idosas acumulam situações de desfavorecimento no domínio económico, devido aos baixos rendimentos, ao nível das habilitações literárias, dado que a maioria possui baixos níveis de instrução, na limitação no acesso a cuidados de saúde, bem como de condições de alojamento, com níveis de conforto e qualidade deficitários.

Após a pausa para o café, o Professor Doutor António Vinhal apresentou a conferência “Memória e Envelhecimento: Aspectos Cognitivos e Estratégias Preventivas”. Falou essencialmente de sistemas de memória e, por sistema de memória, entende-se uma estrutura organizada responsável pelo armazenamento e recuperação de informação, composta por componentes operativos elementares. Seguiu-se o intervalo para almoço.

A abrir os trabalhos da parte da tarde, o II ciclo de conferências moderado pela Mestre Ana Paula Barbeiro. O Professor Doutor António Rui Leal apresentou uma comunicação sobre “Prevenção e Reabilitação Física em Gerontologia”, e a Doutoranda Isilda Ribeiro uma comunicação intitulada “Enfermagem de Reabilitação: Que Percurso para a Qualidade de Vida do Idoso”. A Doutoranda Isilda Ribeiro defende que a enfermagem não deve focar a sua acção/cuidado na assistência ao idoso portador de doenças, mas sim actuar na promoção, educação, manutenção e recuperação da saúde deste ser. Deve respeitar a independência do idoso, primando a participação deste no processo de cuidado, pode ser considerada uma meta para a assistência qualificada e assim, cuidar do idoso sem o invadir e o possuir. A Reabilitação é um processo dinâmico, contínuo, progressivo e principalmente educativo, tendo como objectivos a restauração funcional do indivíduo, sua reintegração na família, na comunidade e na sociedade (RING, 1994). A reabilitação do idoso é um processo gradativo, contínuo, progressivo e principalmente educativo, que tem como objectivos a inserção e reintegração do indivíduo na sociedade. O enfermeiro e outros profissionais envolvidos, devem actuar junto do idoso e dos seus familiares, apoiando as suas decisões, ajudando-os a aceitar as alterações na imagem corporal quando existentes, num processo educativo e congruente às necessidades individuais. Um dos principais sistemas de apoio na reabilitação do idoso é a família.

Após a pausa para café da tarde, seguiu-se a mesa redonda “Envelhecimento e Empowement” moderado pela Dr.ª Isabel Santos. O Dr. Pedro Carvalho falou sobre “Saúde Mental: Promoção do Envelhecimento Activo e Saudável”. É importante a manutenção da actividade física e mental. Exercício físico adequado às patologias dos idosos,encorajar a realização de exercício com envolvimento mental (leitura do jornal, realização de quebra-cabeças, jogos de tabuleiro…), garantir apoio emocional e social (ir à Igreja, jogar com os amigos, fazer bolos com as vizinhas…), actividade aeróbica (andar, correr, andar de bicicleta, nadar, jogar golfe), actividade anaeróbica (levantamento de pesos, para melhorar função cardíaca e força muscular). Como disse o Dr. Pedro Carvalho no final da sua apresentação, a promoção do envelhecimento activo e saudável é um compromisso activo com a vida. O Doutorando J. António Moreira falou sobre o “Envelhecimento Activo: A Unidade Educativa de Interacção Sénior da ESSE Jean Piaget/ Nordeste. A Professora Doutora Lucília Gonçalves apresentou uma comunicação intitulada “Reforma: Implicações Sociais”. Com o aumento da longevidade, mais pessoas passam a depender, durante mais tempo da segurança social. Simultaneamente,Com a diminuição da natalidade, torna-se cada vez mais reduzido o número de contribuintes para o sustento do sistema, o que é susceptível de gerar um desequilíbrio de forças e de recursos.Nas sociedades em as actividades intelectuais são mais valorizadas,ser idoso é sinónimo de sabedoria e experiência, e, por isso, as pessoas ao chegarem (à reforma) a essa etapa da vida, não perdem o seu estatuto de papel activo. Assim, por exemplo, nas sociedades orientais, o idoso é visto com respeito e admiração, símbolo de experiência de vida, representante da prudência do saber acumulado e da reflexão. Por outro lado, nas sociedades capitalistas, em que se idolatra a produção e aliena o trabalhador do processo de produção, a reforma é frequentemente vivenciada como perda do próprio sentido de vida, uma espécie de morte social. Assim, nestas sociedades, ser idoso “é sobreviver”, sem projectos, impedido de lembrar e ensinar, sofrendo diversidades de um corpo que se degrada à medida que a memória se vai tornando cada vez mais viva, a velhice, que não existe para a pessoa, mas somente para o outro. Na nossa sociedade actual, ser idoso significa deixar de ser economicamente produtivo e, portanto, condição para ser desconsiderado e muitas vezes alvo de abandonos. A reforma, não é necessariamente um acontecimento negativo, entendido por muitos como descanso e recompensa merecidos após uma vida de trabalho. Assim chegou ao fim o primeiro dia de trabalhos.

O segundo dia de trabalhos, iniciou-se com a conferência “Sexualidade, Afectos e Máscaras na Velhice: Mitos e Realidades”, apresentada pelo Professor Doutor Manuel Damas e moderada pela Mestre Susana Lucas. Foi uma apresentação muito interessante e cativante sobre uma temática ainda tabu na nossa sociedade actual. Citando Henderson, “A sexualidade é um complexo de reacções, interpretações, definições, proibições e normas que é criado e mantido por uma dada cultura”. O Professor Doutor Manuel Damas defendeu acerrimamente que é urgente desmistificar a verdade pretensamente absoluta de que, nos mais velhos, a actividade sexual, se existente, deve ser direccionada para a meiguice e o carinho, como finalidades absolutas e exclusivas. Durante a sua apresentação falou ainda das alterações físicas do homem e da mulher, bem como das condicionantes das actividades sexuais nos idosos, como por exemplo, patologia osteo-articular, cardiovascular, dor crónica, incontinência urinária, neoplasias, cirurgias, hábitos alcoólicos, entre outros. Seguiu-se a pausa para o café.

A II mesa redonda do congresso, intitulada “Ética, Qualidade de Vida e Instituições”, teve como conferencistas o Doutor Nuno Grande, “Questões Éticas na Intervenção Gerontológica”; Dra. Susana Espadaneira, “Envelhecer no Domicílio: Serviços e Recursos de Apoio ao Idoso”; “Qualidade de Vida do Idoso Institucionalizado: Humanização e Profissionalismo das Equipas Multidisciplinares”, pela Doutoranda Cláudia Moura e “Envelhecimento Activo: Importância da Animação/ Ocupação nas Instituições” apresentado pelo Professor Doutor Parra Marujo. O Doutor Nuno Grande falou sobre questões éticas, Individualidade Projecto de Vida – Personalidade – de Ortega Y Gasset, importância da individualidade e bem-estar do idoso – características bio psico sociais. A Dra. Susana Espadaneira falou sobre os objectivos e áreas de intervenção da empresa da qual é directora técnica, a Comfort Keepers. A Doutoranda Cláudia Moura falou da sua experiência com idosos institucionalizados, uma apresentação que incidiu no que podemos e devemos fazer para melhorar a qualidade de vida do idoso institucionalizado. Defendeu que quando se sabe que um idoso vai entrar numa instituição, deve haver um planeamento da entrada do idoso na instituição, através de uma reunião multidisciplinar e informar/ comunicar a entrada aos outros idosos da instituição. Deve-se saber quais os motivos e agentes intervenientes da entrada do idoso, bem como o percurso de vida do idoso. A qualidade de vida do idoso só se consegue com humanismo e profissionalismo de todos os prestadores de cuidados envolvidos. O professor Doutor Parra Marujo fez uma apresentação cativante sobre a animação/ocupação nas Instituições, interagindo constantemente com a plateia, exemplificando alguns exercícios que se podem fazer para não deixar o idoso parar.

Os trabalhos chegaram ao fim com a conferência de encerramento apresentada pela Dra. Maria de Lurdes Quaresma, intitulada “Gerontologia Social: Questões do Caso Português”, em que se falou sobre o envelhecimento em Portugal e se falou dos números do envelhecimento neste nosso país.

Penso que este congresso foi muito interessante, cativante, com apresentações que tiveram a capacidade de prender a atenção de uma vasta plateia. Foi um congresso direccionado para profissionais e estudantes de diversas áreas: Gerontologia, Serviço Social, Educação Social, Psicopedagogia, Medicina, Psicologia, Enfermagem, Sociologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia e outros intervenientes no âmbito gerontológico. Penso que mais congressos com temática gerontológica são importantes para as mentalidades que só mais recentemente se têm preocupado com esta temática. Para finalizar, um agradecimento à CMStatus que convidou o forumenfermagem a estar presente no IV Congresso Nacional de Gerontologia.

 

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