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domingo, 02 dezembro 2007 04:48

Congresso APTFeridas 2007

Escrito por  Enf. Ana Sofia Dias & Enf. Pedro Miguel Machado

Os meios necessário para se iniciar uma Consulta de Pé Diabético eficaz são surpreendentemente simples... o mais importante é que existam profissionais motivados em impedir a catástrofe

 

O Congresso APTFeridas 2007 realizou-se no Fórum da Maia, nos dias 7, 8 e 9 de Novembro de 2007.

 

Os trabalhos foram iniciados com a mesa redonda moderada pelo representante da DGS, DR. Francisco George, intitulada “Epidemiologia das Feridas nos Cuidados de Saúde Portugueses”, onde foram apresentados os resultados do estudo epidemiológico das feridas crónicas na madeira na área dos cuidados de saúde primários pela Enf. Ana Gouveia. Deste estudo concluiu-se que 33% Úlceras são de grau III, tendo menos de 3 meses de duração. Dos utentes estudados 71% provinham do domicílio e 13% do hospital. Foi ainda apresentado pela Enfermeira Cremilde Rodrigues o diagnóstico de situação das feridas crónicas (úlceras venosas de perna) de 5 centros de saúde do porto, do qual se concluiu que existe grande número de utentes com úlcera da perna, sendo estes os que permanecem maior tempo em tratamento (existem casos de doentes com 25 anos de permanência) pois estas têm carácter recorrente e são úlceras de difícil cicatrização. Após o uso da terapia compressiva diminuiu o tratamento diário passando este a ser realizado semanalmente para 25 % dos utentes.

Concluiu ainda que com a terapia compressiva atingiram taxas de cicatrização de 69,84%, às 12 semanas com os seguintes benefícios para o utente:

  • diminuição do nº de deslocações;

  • diminuição do tempo dispendido;

  • diminuição dos custos inerentes às viagens;

  • melhor qualidade de vida, manifestada pela satisfação de poderem tomar banho ao fim de tantos anos, de não terem que se preocupar com o exsudado e odor da ferida.

 

No Simpósio Satélite a COVIDIEN apresentou umanova tecnologia o AMD, um antisséptico moderno de baixo custo, tendo um bom perfil de controlo bacteriológico e não tóxico e eficaz contra bactérias Gram + e Gram –  (htp://www.kendallamd.com).

A Dr. Teresa Garcia falou sobre a infecção de ferida crónica, referindo que todas as feridas crónicas estão por definição contaminadas.

O controlo bacteriano ocorre quando há desequilíbrio entre a carga bacteriana e a resposta imunitária aparecendo então a INFECÇÃO.

Factores de controlo da flora microbiana :

        • Temperatura

        • pH

        • humidade

        • competição microbiana

 

  • INFLAMAÇÃO – “…resposta local do tecido vascularizado agredido, caracterizado por alterações do sistema vascular dos componentes líquidos e celulares, bem como por adaptação do tecido conjuntivo vizinho.”

    Inflamação  ≠  infecção 
     

                • ocorre sempre que a ferida está a cicatrizar.

                • Fase normal da cicatrização

                • Sinais: calor, dor, rubor, edema e perda de função

     

    • CONTAMINAÇÃO – presença de microrganismos sem proliferação.

    • COLONIZAÇÃO – presença de microrganismos com multiplicação mas sem efeito clínico adverso (sem reacção do hospedeiro). As feridas crónicas estão sempre colonizadas por microrganismos.

    • INFECÇÃO – presença de microrganismos com proliferação e invasão do tecido vivo.

     

    A presença de microrganismos por si só na ferida não indica que existe infecção. 
     
      

    A infecção é de diagnóstico clínico, ou seja através dos sinais inflamatórios e sistémicos (febre, leucocitose, descompensação de doenças crónicas).  Só se realiza pesquisa microbiológica quando é importante saber os microrganismos presentes para se realizar terapêutica respectiva. Tem que se isolar os microrganismos etiológicos, colonizadores e contaminantes. Os Métodos bacteriológicos existentes são:

    • Biopsia – método invasivo;

    • Aspiração com agulha e seringa – em locas fechadas;

    • Zaragatoas – deve-se limpar a ferida com soro fisiológico para remover exsudado, rodar a zaragatoa várias vezes nos locais húmidos. Atenção o número de bactérias nos bordos das feridas é menor que no centro.

     

    Princípios básicos do tratamento da ferida infectada

          • Tratar a doença de base (ex. HTA, diabetes, patologia vascular) com o objectivo de melhorar a oxigenação dos tecidos.

          • Tratamento local – lavagem, desbridamento (reduz a inflamação e odor), colocação de material de penso adequado. Se infecção local utilizar iodo ou prata durante duas semanas. Na infecção sistémica usar antibiótico durante 1 a 2 semanas.

    NOTA: nunca utilizar antibioterapia tópica (gentamicina, clindamicina, norfloxacina), recorrer sempre à sistémica, devido à resistência dos microrganismos e às reacções adversas.  

    Para melhorar a informação do diagnóstico bacteriológico, deve-se:

    • limpar bem a ferida com soro fisiológico para remover o exsudado;

    • rodar a zaragatoa umas 10 vezes nos locais húmidos (numa área de 1cm2);

    • usar um meio de transporte  apropriado e que permita estudar os anaeróbios

    • interpretar o diagnóstico com sensatez.

    Concluiu então que a infecção é um problema comum nas feridas crónicas e que o diagnóstico rigoroso e o tratamento eficaz são um desafio para os profissionais, não esquecendo que estão em desenvolvimento muitas novas abordagens; deve-se pensar sempre em infecção quando há um atraso na cicatrização.

     

    Na Mesa redonda “Protocolos e Registos”,moderada por Anabela Gomes foi reforçada a importância do uso de protocolos com base científica através dos prelectores Ronald Boumans e Anneke Andriessen.

    Os protocolos ajudam a realizar o correcto, na altura correcta, para isso devem:

    • ter factos científicos,

    • basear na ciência,

    • têm que ser implementados antes para funcionarem depois,

    • todos os profissionais têm que saber quando usar, como usar e quando não usar,

    • deve ser usado uma guideline para desenvolver um protocolo local,

    • a eficácia dependente da implementação.

     

     

    Assistiu-se também a implementação de um protocolo informático por Enf. Vasco Ribeiro, Póvoa de Varzim a nível de Protocolo de tratamento de doentes com feridas.

    Moderada por Dinora Gil da Costa Cabral, a mesa redonda "Evidência em Cicatrização" contou com a participação de Helena Mota, Anneke Andriessen e  Gerhard Kammerlander dando a conhecer o site WFI Woundmanagement com publicações traduzidas para Português e respectivos acessos:

     

    Dr. José Neves moderou a mesa redonda intitulada “Úlceras de Perna”, na qual o Dr. Rocha e Silva apresentou o diagnóstico diferencial entre úlcera venosa, úlcera arterial, úlcera mista, úlcera neuropática, úlcera de pressão úlcera hipertensiva e úlcera neoplásica. Anneke Andriessen expôs a Fisiopatologia úlcera venosa e explicou as vantagens do uso da terapia compressiva, reforçando a importância do acolchoamento pois este permite distribuir a pressão, evitando lesões cutâneas e absorvendo o excesso de exsudado. A Pressão ideal ocorre quando a ligadura exerce pressão superior a 60 mmHg. O ideal é usar a ligadura rígida pois esta diminui a pressão exercida quando o indivíduo se encontra em repouso e aumenta quando está em movimento.

     

    Concluiu-se que:

    • Na terapia compressivaé muito importante o acolchoamento pois permite distribuir a pressão, evita lesões cutâneas e absorve exsudado. 

    • Pressão de 30 mmHg – reduz o edema, não ocorre oclusão pois é exercida uma pressão superficial, logo não se resolve o problema das veias profundas ou com componente linfática.

    • Pressão de 70 mmHg – é a melhor pressão para resolver a diminuição de refluxo nas veias profundas.

    • Pressão ideal – quando a ligadura exerce pressão superior a 60 mmHg.

    • Ligadura elástica – faz pressão activa e funcional, ou seja exerce pressão quando o doente anda ou quando está sentado.

    • Ligadura rígida – é o ideal pois diminui a pressão quando o indivíduo se encontra em repouso e aumenta quando está em movimento.

    • Para manter a úlcera fechada o doente tem que usar meias elásticas o resto da vida.

     

    No Simpósio Satélite Molnlycke, Enf. Nuno Esperanço falou sobre uma das problemáticas actuais: as úlceras de pressão; afirmando que segundo o Instituto de Qualidade em Saúde (2005) a prevalência média de feridas infectadas passou de 7 a 25% e apresentou também o conceito TIME.


    A Enf. Fátima Pascoal desenvolveu ainda a temática Feridas Infectadas, afirmando que:

      • Segundo alguns autores o ambiente microbiano de uma ferida é classificado segundo três categorias:

        • colonização

        • colonização crítica

        • infectada

         

      • O diagnóstico microbiano deve fazer-se quando há:

        • presença sinais locais d infecção

        • presença de sinais sistémicos de infecção

        • subida repentina da glicémia capilar

        • dor

        • extremidades neuropáticas

        • ferida limpa que não cicatriza em duas semanas

         

         

      • O diagnóstico diferencial pode ser realizado das seguintes formas:

        • Ferida superficial – zaragatoa - dá falsos positivos e falsos negativos.

          • biópsia

          • irrigação - irrigar com 1 cc de S.F. e aspirar 0,25 cc.

        • Ferida profunda – zaragatoa - dá falsos positivos e falsos negativos.

          • biópsia

          • irrigação - irrigar com 5 cc de S.F. e aspirar 5 cc.

        • Ferida fechada – punção guiada (1cc)

     

     

     

    Moderada por Dr. John Pretoassistiu-se à mesa redonda - “Feridas Cirúrgicas de Difícil Cicatrização ”, falando-se sobre o diferente tipo de tratamentos conforme o tipo de tecidos que a ferida apresenta:

        • Necrose e infecção – larvas, desbridamento

        • Granulação – alginatos, terapia de pressão negativa

        • eptialização - excerto, fibrina, retalho

     
    O último dia começou com a mesa redonda sobre o "Pé Diabético" (seguida do Simpósio Satélite Smith & Nephew) apresentando os seguintes dados:

    • Epidemiologia da diabetes segundo o IDF 2006:

          • em 2007 - 648 000 diabéticos em Portugal

          • em 2025 - 808 000 diabéticos em Portugal

       

    • Actualmente 2% a 5% dos indivíduos desenvolvem úlcera do pé.

    • pé em risco:

          • ausência de sensibilidade ao movimento

          • ausência de pulsos

          • deformidades dos pés

          • história de ulceração prévia

       

     

    "Os meios necessário para se iniciar uma Consulta de Pé Diabético eficaz são surpreendentemente simples...

    ... o mais importante é que existam profissionais motivados em impedir a catástrofe"

     

    Beatriz Serra, 1996, in O Pé Diabético e a Prevenção da Catástrofe, Luís Serra

     

     

    Os trabalhos encerraram com a Mesa Redonda Úlceras de Pressão, moderada por Paulo Alves e com a participação de Domingos Malta que esclareceu a audiência sobre as Técnicas de Psoicionamento e Gerhard Kamerlander sobre as Ajudas Técnicas.

     

     

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