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quarta, 02 maio 2007 23:10

Mesa Redonda: Obesidade Infantil no Âmbito Regional

Escrito por  Enf. Cátia Duarte & Enf. Joel Monteiro

Nos últimos anos, num extenso número de países, verificou-se um crescimento alarmante da prevalência de excesso de peso e de obesidade na infância e adolescência, representando uma ameaça potencial à saúde, com consequências económicas graves para o Sistema Nacional de Saúde do país.

 

A obesidade é a forma mais frequente de doenças da nutrição encontradas nos países desenvolvidos. Actualmente, os problemas associados à obesidade suplantam problemas de saúde mais tradicionais tais como a subnutrição e as doenças infecciosas.

Segundo a IOTF (2005), a prevalência de obesidade, nos últimos 10 anos, nos países europeus, sofreu um acréscimo de 10% a 50%. Nos últimos anos, num extenso número de países, verificou-se um crescimento alarmante da prevalência de excesso de peso e de obesidade na infância e adolescência, representando uma ameaça potencial à saúde, com consequências económicas graves para o Sistema Nacional de Saúde do país.

Inserido neste âmbito, no passado dia 9 de Março de 2007, o Centro de Investigação Obesidade On-line do Instituto Superior Bissaya Barreto promoveu um fórum de discussão sobre a problemática da obesidade infantil intitulado “Mesa redonda – Obesidade infantil no âmbito regional”, que pode contar, entre outros, com a presença do Director Geral da Saúde, Dr. Francisco George.

  

 O Director Geral da Saúde, durante a sua prelecção, salientou a complexidade e dificuldade no tratamento desta doença, sem estatuto social adquirido e que já possui uma expressão epidemiológica, bem como a necessidade de uma prevenção e identificação precoce. “Não se pode limitar o combate da obesidade às intervenções cirúrgicas em adultos, uma vez que implica riscos e custos muito elevados”. Desenvolveu, também, o conceito de energia em saúde, como ponto impulsionador para um objectivo e/ou fim maior. “É necessário fontes de energia, como esta mesa, para impulsionar uma maior alavanca que é a luta contra a obesidade” referiu.

Durante toda a discussão, foram salientados aspectos que a nosso ver são fulcrais no combate à obesidade infantil, e que são:

    • Responsabilização das crianças para escolhas saudáveis;

    • Interacção e suporte à família;

    • Interacção com a comunidade.

 

Segundo as conclusões dum estudo levado a cabo pela Prof. Dr.ª Ana Rito, na região de Coimbra, a obesidade em Portugal tem génese em um estadio de desenvolvimento marcante, que é a idade pré-escolar. Isto reforça a necessidade urgente da prevenção precoce e de intervenções a larga escala, de modo a refrear este surto epidémico de obesidade infantil, e a evitar futuros problemas e riscos de saúde. É importante referir o programa levado a cabo nas escolas da Fundação Bissaya Barreto, onde se efectua uma vigilância periódica do estado nutricional, uma oferta de alimentação saudável, uma gestão do serviço alimentar (formação de profissionais e espaços de refeição criativos e alegres), educação alimentar (crianças e família) e prática de exercício físico. Ainda neste Distrito, é de salientar a abertura de uma consulta de obesidade infantil no Centro de Saúde de Cantanhede.

Na região da Madeira, e de acordo com os critérios da IOTF, apresentados pelo Dr. Bruno Sousa, verificou-se uma prevalência de 18,8% de excesso de peso e 9,4% de obesidade (estudo realizado em Junho de 2000). Dado os resultados obtidos, foi criado o programa Rede de Bufetes Escolares Saudáveis (ano lectivo de 2001/2002), o qual poderá ser aplicado em qualquer escola, mediante a inscrição voluntária da mesma. A nível hospitalar, foi criada uma consulta de obesidade infantil e a nível dos cuidados de saúde primários, foi criada uma consulta de nutrição.

Na região dos Açores, segundo a Dr.ª Rita Carvalho, foi implementado o Programa Regional de Luta Contra a Obesidade. Este programa tem tido alguma dificuldade em ser aplicado a todas as ilhas do arquipélago, devido à falta de profissionais de saúde e da pouca acessibilidade às mesmas, para além de haver pouca receptividade por parte das escolas e dos media.

Segundo a Mestre Elisabete Ramos, existe dificuldade em comparar resultados dos diferentes estudos efectuados em Portugal, uma vez que existe disparidade de critérios, quer de avaliação estato-ponderal (medida real ou referida), faixas etárias e índice de Cole ou da OMS. Deste modo, coloca-se em causa não o objectivo mas sim o que se poderá retirar destes trabalhos uma vez que as ilações neles incluídas são individuais e nunca passíveis de extrapolação.

O que há a salientar, relativamente a este assunto, na região do Alentejo, de acordo com o Dr. Pedro Santos, são os trabalhos desenvolvidos. Com um limite temporal de 2004-2010, foi criada uma Unidade Móvel de Rastreio (“Todos diferentes, todos saudáveis” – rastreio de Outubro de 2006), em que crianças com um percentil superior a 95 são encaminhadas para uma consulta de nutrição. Foram criadas parcerias com a Câmara Municipal de Évora, de Arraiolos e de Montemor-o-Novo, bem como com os media, para a realização de rastreios e acções de sensibilização/educação para a saúde, quer em feiras e mercados, naturalmente em conjunto com os Centros de Saúde. A referir, encontram-se projectos como: Agita-Portalegre, Tira-Kilos (só para mulheres, envolvendo actividade física e consulta de nutrição), Mexe-te (avaliação do IMC e percentagem de massa gorda em crianças com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos) e Activa-te (em Beja, direccionado para crianças dos 10 aos 17 anos).

De acordo com o Mestre João Breda, a televisão, por si só, não poderá ser assumida como um factor predisponente, uma vez que em classes sociais mais altas têm possibilidade/acessibilidade à prática de desporto (futebol, ténis, natação), relativamente a classes sociais mais baixas. Salientou ainda a Plataforma Nacional Contra a Obesidade, bem como a necessidade de uma abordagem sectorial e multidisciplinar, visto que o sector de saúde sozinho não é suficiente, sendo necessária a intervenção do Ministério da Educação, da Economia, entre outros. Um ponto de interesse referido foi a necessidade de promoção de saúde dos profissionais de saúde para assim servirem de exemplo, bem como a promoção de pós-graduações em obesidade, nomeadamente a nível da prevenção primária.

No Algarve, está a ser desenvolvido, desde 2005, um Programa Interinstitucional de Combate à obesidade, similar aos referidos anteriormente, envolvendo a ARS do Algarve, Hospital Distrital de Faro, Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, Direcção Regional de Educação do Algarve, AMAL e diferentes autarquias (16), e mais recentemente a FRAPAL e o Instituto Português do Desporto. Estes, numa primeira fase, levaram a cabo, segundo a Drª. Teresa Sancho, um estudo de prevalência de pré-obesidade e obesidade infantil, à semelhança, do desenho do estudo efectuado por Cristina Pádez, envolvendo 2111 crianças dos 7 aos 9 anos, de 15 escolas (públicas e particulares), de 9 Concelhos, escolhidas aleatoriamente. Verificou-se uma prevalência de 29,4% de excesso de peso, 20,5% de pré-obesidade e 8,9% de obesidade. Numa segunda fase, foi despoletada uma intervenção comunitária, que incluía:

  • Realização de workshops com as equipas de saúde escolar;

  • Tratamento das crianças identificadas;

  • Concepção e implementação de programas de escola activa (actividade física);

  • Concepção de materiais de educação para a saúde (livros, folhetos…);

  • Melhoria da qualidade nutricional das refeições escolares (elaboração de fichas técnicas para a confecção de refeições);

  • Participação em eventos diversos.

Por fim, há que salientar determinadas acções desenvolvidas nesta região, tais como Sopalândia (Centro de Saúde, autarquia e escolas de Loulé), Merendas Saudáveis (Centro de Saúde, autarquia e escolas de Olhão – com início no ano lectivo de 2005/2006), O Sr. Braz à Mesa (livro de receitas tradicionais, elaborado pelo Centro de Saúde de São Braz). 

 

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