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sexta, 01 dezembro 2006 02:57

III Congresso Nacional de Gerontologia

Escrito por  Enf. Sérgio Ferreira

Congresso organizado pelo CMSTATUS e presidido pela Doutoranda Cláudia Moura. Este encontro científico tinha como objectivo geral criar um espaço de intercâmbio para um debate sobre as problemáticas do envelhecimento, e contribuir para a informação e actualização dos conhecimentos sobre o «ser geronte» no presente e no futuro.

 

Sérgio Ferreira
Enfermeiro

 

Decorreu no passado mês de Novembro, nos dias 16 e 17, no Auditório Grande do Cinema Batalha no Porto, o III Congresso Nacional de Gerontologia. Congresso organizado pelo CMSTATUS e presidido pela Doutoranda Cláudia Moura. Este encontro científico tinha como objectivo geral criar um espaço de intercâmbio para um debate sobre as problemáticas do envelhecimento, e contribuir para a informação e actualização dos conhecimentos sobre o «ser geronte» no presente e no futuro.

Os trabalhos iniciaram-se com a sessão solene de abertura, com a saudação inicial a ser dada pela presidente do congresso, e a introdução ao congresso a ser feita pelo Dr. Pedro Carvalho, coordenador do congresso.

A conferência inaugural intitulada “Desafios do Século XXI: Animação Sociocultural e Gerontologia” foi apresentada pelo Professor Doutor Joaquim Parra Marujo. Esta prelecção pretendeu mostrar as características fundamentais do animador sociocultural, os objectivos e atitudes fundamentais na animação sociocultural. Foi também falado na empatia, que é a “capacidade para nos apercebermos do conteúdo subjectivo da mensagem objectiva do Idoso, ou seja, devemos Estar no Lugar dele a fim de compreender melhor aquilo que ele vive, como o vive, a fim de o ajudar a evoluir”. O sucesso da animação assenta na empatia e no respeito entre o animador e o idoso. Assim, o animador deve ter algumas atitudes demonstrativas de respeito, como por exemplo:

    • Utilizar linguagem apropriada

    • Chamar o idoso pelo nome

    • Respeitar a intimidade do idoso

    • Deixar o idoso tomar decisões

    • Enquanto está com o idoso dedicar-se totalmente a ele, evitando ser interrompido

    • Entre outras.

 

Os objectivos da dinâmica ocupacional assentam em:

    • Realizar actividades criativas e recreativas

    • Potenciar a imaginação, a capacidade artística e estética

    • Fomentar a inter-relação humana e a integração social

    • Favorecer o desenvolvimento psicomotor e a coordenação mente-mão

    • Desenvolver a capacidade lúdica, a espontaneidade e a curiosidade para dedicar-se a novas formas artísticas e artesanais


Seguiu-se a apresentação/ lançamento do livro “Século XXI – Século do Envelhecimento”, da autoria da Doutoranda Cláudia Moura. Como a autora diz no seu livro, “este livro tem como finalidade avultar o envelhecimento enquanto fenómeno social, que perfaz um dos maiores desafios contemporâneos do Século XXI”.

A primeira mesa redonda, moderada pelo Professor Luís Jacob, tinha como título “Envelhecimento, Saúde, Educação e Longevidade”. O primeiro tema desta mesa foi apresentado pelo Professor Doutor Mário Leston Bandeira, intitulado “Demografia, Envelhecimento e Políticas Sociais”. O Professor Doutor Germano de Sousa apresentou “A prestação de Cuidados de Saúde: Que desafios?”. A professora Doutora Maria da Graça Pinto terminou esta mesa redonda com a temática “Ao longo da Vida X Longevidade”.

A segunda e última mesa do primeiro dia de trabalhos, intitulada “Envelhecimento, Autonomia e Respostas Sociais”, moderado pela Dr.ª Carla Marvão. A Professora Doutora Luísa Pimentel falou sobre “A articulação entre as solidariedades: formais e informais no apoio ao idoso”. Falou-se na família, e no apoio que estas dão aos idosos, na realidade portuguesa. Todos nós como profissionais, não podemos esquecer que cuidar não é uma tarefa fácil e que cuidar de um familiar idoso tem implicações profundas na vida dos cuidadores e das pessoas que o rodeiam. Foi também debatido o que as famílias esperam das instituições e do estado. Assim, elas pretendem: apoios económicos e materiais / benefícios fiscais; serviços de qualidade, em horários mais compatíveis com as necessidades dos idosos e dos próprios cuidadores; e reconhecimento do valor do seu trabalho, traduzido em medidas concretas que o tornasse menos penoso, como por exemplo a flexibilidade laboral.

O segundo dia de trabalhos começou com a moderação da Doutoranda Isilda Ribeira a uma mesa onde se debateu “Envelhecimento Humano e Dignidade no Adeus à Vida” e “A Intervenção do Assistente Social: nos cuidados paliativos ao idoso”. No primeiro tema foram apresentadas questões fundamentais acerca do fim da vida e da aproximação da morte. Como pano de fundo, foi apresentado uma reflexão bioética sobre temas complexos, tais como: qualidade de vida, dignidade no processo de morrer e autonomia nas escolhas em relação à própria vida nos seus momentos finais. Este primeiro tema ficou a cargo da Dr.ª Helena Aitken. A Dr.ª Margarida Pires apresentou o segundo tema desta primeira conferência, dando conhecimento que o assistente social tem um papel importante na admissão do doente, na consulta e no internamento. Na admissão, avalia a situação familiar do doente, avalia a problemática social e disponibiliza à equipa o diagnóstico social do doente. Na consulta externa fornece apoio material/ instrumental, garante o apoio informativo, encaminha para redes de apoio e apoia emocionalmente. Durante o internamento, o assistente social tem um papel mais complexo, pois actua no acolhimento, durante todo o internamento e no momento da alta. Trabalha com a equipa, com o doente e com a família, sendo o responsável por no momento da alta avaliar as capacidades do sistema familiar, avaliar os recursos sociais exteriores,encaminhar de forma adequada para recursos exteriores, apoiar na reorganização do sistema familiar, entre outras tarefas igualmente importantes.

O segundo ciclo de conferências do dia foi moderado pelo Professor Doutor Fernando Almeida. A Professora Doutora Filomena Mendes apresentou “O Crescimento da População Idosa e o seu Impacto na Sociedade Portuguesa”. Foi dito que o número de idosos (indivíduos com mais de 65 anos) em Portugal é de 1 693 493, em que 42% são do sexo masculino e 58% do sexo feminino. Deste número total de idosos, 96.4% estão inseridos no seu seio familiar e apenas 3.6% estão institucionalizados. O Professor Doutor João Casqueira apresentou “A Questão dos Direitos Sociais e a Gerontologia”, onde expôs os direitos dos idosos na sociedade portuguesa actual, de acordo com os decretos-lei em vigor. O Professor João Marques da Silva patenteou os presentes com uma comunicação sobre “Economia e Gerontologia Social”. Mostrou que em termos económicos virá um período negro e que é urgente promover a formação e valorização humana dos jovens de hoje, e prepará-los para no futuro serem velhos mais solidários, interventivos e realizados; é necessário institucionalizar uma 3ª Área, de “Economia Social e Solidária”, que oriente as carreiras profissionais neste sentido, que já é uma realidade em países como Espanha, França e Inglaterra. O Dr. Pedro Carvalho, psiquiatra no Hospital Magalhães Lemos, falou sobre a “Importância da Farmacovgilância na Terceira Idade: Monitorização da Segurança dos Medicamentos”. O idoso está mais sujeito a efeitos laterais dos fármacos, sendo responsável por cerca de 10% das causas de internamento. Devido à diminuição da capacidade funcional de órgãos como fígado e rins, ocorre diferenças no comportamento das substâncias, comparativamente com o adulto jovem, em relação à absorção, distribuição dos fármacos, eliminação, maior sensibilidade. Tem ainda que se ter em atenção as interacções medicamentosas, devido ao idoso ser polimedicado. Assim, é importante o uso criterioso dos medicamentos no idoso. Os fármacos que mais frequentemente provocam efeitos secundários são os:

    • Digitálicos

    • Hipnóticos

    • Antidepressivos

    • Ansiolíticos

    • Diuréticos

    • Antidiabéticos

    • Anti-hipertensores

    • Anticoagulantes

    • Analgésicos

Assim, é importante estarmos atentos à:

    • Polimedicação do idoso

    • Adaptação das doses à idade e função dos órgãos

    • Ausência de resultados pela não adesão ou pela má compreensão da posologia

    • Presença de efeitos laterais pela suspensão de fármacos

    • Interacção com alimentos ou álcool

    • Recorrência à Automedicação

 

O terceiro ciclo de conferências do dia, primeiro da tarde, foi moderado pela Doutoranda Cláudia Moura. O Dr. Luís Marques falou sobre a “A Ansiedade e Suicídio no Idoso”, a Professora Doutora Lia Fernandes sobre “A Influência do Envelhecimento no Ritmo Vigília/ Sono: as alterações do sono mais frequentes”. O Dr. Joaquim Cerejeira falou sobre “Desordens Psiquiátricas no Idoso: Distúrbios da memória e esquecimentos benignos”. O tema “Reabilitação Cognitiva: Estratégias de intervenção” ficou a cargo do Doutorando Fernando Rodrigues.

A necessidade do sono muda com a idade e os idosos necessitam de muito menos horas de sono do que os jovens. O sono no idoso apresenta as seguintes características:

  • Mais fragmentado

  • Maior tempo de adormecimento

  • Mais mudanças de estadios (shifts)

  • Maior número de despertares

  • Menos tempo de sono profundo

  • Mais tempo de permanência no leito

  • Menor eficiência do sono

  • Sono insatisfatório

As causas da alteração do sono com a idade são:

  • Alterações intrínsecas nos mecanismos regulatórios do sono

  • Alterações nos ritmos circadianos (temperatura corporal)

  • Falta de referências exteriores (luz)

  • Alteração no horário das refeições

  • Factores ambientais (ruído, mudanças)

  • Emoções

  • Perturbações psíquicas

  • Doença física

  • Medicamentos 
     

 

A conferência de encerramento do congresso foi moderada pelo Dr. Pedro Carvalho, intitulada “Relações Intergeracionais: Enfoque religioso” apresentada por Frei Bernardo.

Este III Congresso Nacional de Gerontologia foi importante no debate de ideias sobre o envelhecimento da população portuguesa. No entanto, as temáticas apresentadas foram mais direccionadas para a área social, mas a troca de ideias e saberes é importante para crescermos como profissionais, mas acima de tudo como pessoas.

 

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