Imprimir esta página
domingo, 11 maio 2014 08:30

Barómetro Forumenfermagem 2014 - Parte I | Os Enfermeiros na Sociedade

Escrito por 

No dia 12 de Maio de 2014 celebra-se mais um Dia Internacional do Enfermeiro e por isso, aproveitamos para apresentar os resultados do nosso Barómetro de Opinião dos Enfermeiros. Esta é a terceira edição desta iniciativa, marcada pelo lema do Conselho Internacional de Enfermeiros para esta efeméride "Enfermeiros: uma força para a mudança". Debruçamo-nos sobre vários assuntos relativos às condições de exercício e desenvolvimento profissional. Realçamos alguns indicadores de um país em crise quanto à gestão deste recurso fundamental em saúde que é também o seu maior grupo profissional, os enfermeiros. Tal como em anos anteriores (2010, 2011) recebemos centenas de respostas que nos podem ilucidar sobre aquilo que pensam os Enfermeiros perante a situação da profissão e do país.

 

Introdução

Este ano contamos com o apoio do site "Diáspora dos Enfermeiros" (Enf. Nuno Pinto) para a revisão do instrumento de recolha de dados e a divulgação do inquérito. A elaboração do Barómetro foi feita à margem de qualquer grupo/estrutura relacionados com a Ordem dos Enfermeiros (OE), Sindicatos associações profissionais e/ou partidos políticos, estando por isso isenta de qualquer pressão, juízos de valor ou interesses relacionados com tais grupos. O barómetro foi publicado no Forumenfermagem.org e divulgado aos seus utilizadores registados, de 29 Abril a 10 de Maio de 2014, após publicitação em newsletter e diversos blogues.

Este barómetro não pretende ser um estudo exaustivo e generalizável, não obedece aos critérios de validade científica das sondagens e não pretende representar com rigor as opções dos enfermeiros em geral nem dos enfermeiros utilizadores da Internet. Ele tem um valor meramente indicativo das preferências dos nossos membros registados. Foram obtidas 837 respostas pelo que acreditamos que os indicadores elaborados para este barómetro devem ser olhados com interesse por políticos, jornalistas e pelos representantes da profissão.

 

Amostra

A amostra é composta por 837 respostas válidas. O universo alvo é composto pelos 34150 indivíduos registados na nossa comunidade para os quais foi enviado mailing convidando a responder ao inquérito. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 837 inquiridos é de 3,35%, com um nível de confiança de 95%.

A seguir apresentamos a caracterização da amostra, com os dados mais relevantes e respectivos gráficos:

 

- Relativamente ao estudo de 2011 temos um aumento de inquiridos na faixa dos 31-40 anos e 41-50 anos. Contudo neste estudo continua a maioria dos inquiridos a situar-se na faixa etária entre 21-30 anos, mais precisamente 52%.

 

idade

 

- 69% são enfermeiros de cuidados gerais, 17% especialistas, 8% estudantes de enfermagem, 5% enfermeiros gestores e 1% docentes.

nível profissional

 

 

 

 

 

 

 

 

- Os enfermeiros que responderam são na sua maioria licenciados (85%) e mestres (12%). Os doutorados em enfermagem ou em área afim é equivalente (1% cada um). Após 15 anos da passagem (1999) a licenciatura como formação de base dos enfermeiros, o número de bacharéis entre os inquiridos é residual (1%).

 

nivel academico

 

Caracterização dos Profissionais

Entre os profissionais que responderam ao inquerito, 80% estão a exercer enfermagem em Portugal. Temos que o nível de inactividade é de 12% entre desempregados e o abandono da profissão para iniciar outra actividade. Temos 8% (n=61) de enfermeiros que migraram. Metade migra para o Reino Unido (4%), principal destino dos enfermeiros em mobilidade.

 

situação laboral país


 

A situação do país

Colocamos várias questões sobre a situação atual do país, alguma das quais foram também colocadas no Barómetro de 2011.Estas questões foram colocadas a todos os inquiridos (n = 837). A seguir apresentamos os resultados.

 

situacao país


Opinião dos enfermeiros portugueses que emigraram

Dos enfermeiros que estão a exercer fora de Portugal, 3 em cada 4 não pondera regressar nos próximos 2 anos. A maioria considera sentir-se profissionalmente realizado (65%), reconhecido (80%) e integrado socialmente (82%) no país de destino. O balanço global é positivo para quem decide sair de Portugal.

Tal como no Barómetro 2011, onde 76% dos enfermeiros que migraram apontavam a falta de oportunidades na sua área de qualificações como um motivo para sair do país, no Barómetro de 2014 esse número mantém-se nos 74%. A emigração de enfermeiros portugueses continua a ser "gerada por necessidade e falta de oportunidades para o exercício profissional" (Forumenfermagem, 2011:5). Muitos enfermeiros que emigraram (44%) não tinham à partida como ambição exercer no país de acolhimento, mas consegue-se perceber uma tendência para a possível idealização prévia do exercicio profissional no país de destino relativamente ao Barómetro 2011, quando, 56% dos enfermeiros migrantes nunca tinham ambicionado exercer no país de destino. O factor remuneratório é reconhecido como um aspecto importante para a decisão de emigrar para 74% destes enfermeiros.

 

O Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN, 2014:12) na sua publicação comemorativa do Dia Internacional do Enfermeiro 2014 aponta efeitos positivos mas também negativos para a oferta de recursos humanos nos sistemas locais/nacionais vulneráveis sujeitos a este tipo de pressão. Este organismo internacional reconhece que há uma necessidade de conhecer melhor o fenómeno e as suas específicidades, nomeadamente no cenário da livre circulação de enfermeirs dentro da União Europeia. Em termos gerais considera o ICN que:

A segurança da oferta também é afetada pela migração. A lacuna na oferta identificada pela OCDE pode ser preenchida por enfermeiros migrantes de outros sítios no sistema de saúde global. De facto, a Austrália, o Canadá e os EUA já indicaram que veriam a sua lacuna futura de competências a ser preenchida por enfermeiros de fora das suas próprias fronteiras (RCN 2012). O efeito desta migração sobre o sistema local/nacional pode ser tanto positivo (i.e. em termos de oportunidade para o indivíduo e o dinheiro gerado que é enviado para casa) ou negativo (i.e. em termos da perda de competências vitais num sistema de saúde habitualmente vulnerável). Alguns esforços estão a decorrer para minimizar os aspetos negativos da migração com a introdução das ações e recomendações da OMS mas continua uma área política fortemente debatida, muitas vezes com visões altamente polarizadas (Buchan 2008, DeLeon & Malvarez 2008). Como Kingma (2007) concluiu, num estudo global detalhado sobre a migração de enfermeiros, “A procura atual para trabalhadores é uma caça global altamente organizada para talento que inclui enfermeiros. Migração internacional é um sintoma dos problemas sistemáticos maiores que fazem com que os enfermeiros deixem os seus empregos. A mobilidade de enfermeiros começa a ser um assunto major apenas num contexto de exploração migratória ou falta de enfermeiros. Injetar enfermeiros migrantes num sistema de saúde disfuncional, aqueles que não têm a capacidade de atrair e reter funcionários de forma doméstica, não irá resolver a escassez de enfermeiros.” (p.1281)

 

Não existe uma contabilização do número de enfermeiros portugueses com experiência que migraram e que correspondem à perda de competências no sistema global de saúde. Como veremos mais à frente relativamente  à maioria dos enfermeiros inquiridos, muitos enfermeiros com experiência ponderam emigrar devido á degradação das condições do país. Esse fluxo já dá sinais de ter-se iniciado.  Apesar da amostra ser escassa, neste barómetro temos alguns indícios de que países como o Reino Unido têm vindo a apostar em enfermeiros jovens e com menos experiência, enquanto que outros como a Suiça apostam em enfermeiros com mais experiência. A saída de enfermeiros com mais de 5-10 e mais de 11 anos de experiência profissional já é uma realidade.

enfermeros migrantes por anos de experiencia

 

 

A seguir apresentamos os resultados de 10 questões que colocamos a estes enfermeiros.

migracao1

 

 

Perspectivas dos Enfermeiros Inactivos

Colocamos 10 questões específicas aos enfermeiros  inactivos.

Realçamos que 65% dos enfermeiros inactivos estão a pensar seriamente em migrar, nomeadamente como já vimos, para países desenvolvidos. O nosso Barómetro encontra que 74% dos enfermeiros inactivos acredita que vai ser díficil encontrar emprego nos próximos 3 a 6 meses. Mais do que ter visões rígidas e polarizadas sobre a migração/mobilidade dos profissionais, importa estudar os mecanismos pelos quais Portugal possa voltar a ser atractivo para os enfermeiros que hoje em dia não encontram oportunidades em Portugal.  Refere o ICN (2014:16) que:

 

Atritos dos trabalhadores devido à migração, preocupações de saúde, agitação civil e insatisfação geral com as condições podem sair caro, dado que os indivíduos precisam de ser substituídos e existe um custo de formação de substituição. A perda de experiência dos trabalhadores também é um custo de oportunidade e pode significar que conhecimento essencial é perdido do sistema. Existe uma necessidade crítica para planear de forma mais sistemática para esta transferência de conhecimento [...] Enquanto os reguladores profissionais se movem para manter registos de inscritos atualizados e consideram a revalidação, é importante planear reter as competências e abordar as necessidades deste recurso que é invisível mas importante..

 

Seguem-se as repostas às várias questões que colocamos:

 

inactivos

Eleições Europeias

Nas eleições europeias de final de Maio o voto em branco recolhe 17% das intensões. Partidos no seu conjunto convencem 18% com o PS e os partidos à esquerda a terem vantagem sobre o conjunto PSD-CDS.  Os indecisos são 51% e  14% refere que não vai votar

eleicoes parlamentares

 

Referências

 

ICN (2014). Enfermeiros: Uma força para Mudar – Um Recurso Vital para a Saúde: Dia Internacional do Enfermeiro 2014 – do original – <<Nurses: A force for change – A Vital Resource for Health: International Nurses Day 2014>>. Genebra. (tradução Ordem dos Enfermeiros). Online in http://www.ordemenfermeiros.pt/publicacoes/Documents/Kit_DIE_2014_VF_proteg.pdf

FORUMENFERMAGEM (2011). Barómetro Fórumenfermagem: Enfermagem, crise política e sociedade. Online in http://www.forumenfermagem.org/newsletter/BarometroForumenfermagem_2011.pdf

Ler 17391 vezes