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domingo, 27 julho 2014 08:54

Dois empreendedores portugueses querem tornar a saúde acessível

Há cerca de um ano, quando bateram à porta do Centro Médico Girassol, na Amadora, Frederico Baptista e Tiago Mendonça quiseram sintetizar numa frase a ideia em que andavam a matutar há meses

“Explicámos que o objectivo era criar o primeiro cartão de saúde sem mensalidades”. Foi o contacto inaugural com um potencial parceiro. No início, sentiram “alguma resistência”, porque não havia nada do género, mas também perceberam que, para as clínicas, “o conceito era interessante para contrariar a queda de consultas” do sector privado devido à crise.

“A principal barreira era o facto de ainda não termos o site”, conta Frederico Baptista. Porque, na realidade, o cartão de saúde de Frederico e Tiago não é um cartão, é um site, a plataforma Facultatempo, em que as pessoas se registam (e já lá estão cerca de 20 mil) para poderem comprar consultas, a preços reduzidos, com os mais de quatro mil profissionais de saúde com que estabeleceram acordos. Depois de desenvolverem o site, “tudo se tornou mais fácil”. Hoje, sete meses depois de ter feito as primeiras vendas, a empresa já é contactada por clínicas interessadas em aderir à rede, garante o fundador.

“Além de sermos uma alternativa para quem não tem seguros ou cartões, somos um complemento para quem os tem, porque oferecemos outras especialidades”, diz Frederico Baptista. A rede inclui especialidades que os seguros de saúde não abrangem, como a psicologia, a fisioterapia ou a terapia da fala (cada consulta custa 25 euros), e também não exclui a franja etária dos idosos, que habitualmente é rejeitada pelas seguradoras.

Cerca de 80% dos inscritos são mulheres. “Mas é uma inscrição que vale por três ou quatro, porque marcam consultas, para elas, para os maridos, para os pais…”, conta o gestor. As consultas de medicina dentária (20 euros), a ginecologia, a pediatria, a dermatologia e a psiquiatria estão entre as mais procuradas (para todas as especialidades o preço é de 38 euros). A Facultatempo já tem parcerias nos distritos de Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Coimbra e Setúbal e em Agosto vai estrear-se em Santarém e Évora.

Mergulhar de cabeça
A ideia nasceu em Londres, para onde Tiago e Frederico emigraram em busca de oportunidades de trabalho e fizeram “um bocado de tudo, porque o mercado de trabalho é muito dinâmico”. Entre outras coisas, Tiago trabalhou na banca e Frederico em marketing e turismo. A ideia foi sempre regressar e, havendo a consciência de que seria “difícil encontrar emprego”, começou a ganhar forma a ideia de desenvolverem o seu próprio negócio.

“A dificuldade estava em encontrar um modelo de negócio que fizesse sentido para a época que vivemos”. Porque em Portugal tinham pessoas próximas “a atravessar problemas de saúde” e abundavam as notícias de dificuldades financeiras, de tempos de espera inconcebíveis no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e dos preços elevados dos seguros de saúde, as perguntas começaram a ganhar forma. Será possível baixar as mensalidades e os valores cobrados às pessoas para acederem a cuidados médicos? Será possível eliminar mensalidades e oferecer consultas mais baratas?

Ambos concordaram que a resposta era sim. E quando regressaram a Portugal, no final de 2012, já vinham com a convicção de que a ideia poderia dar um negócio. Em Janeiro, puseram mãos à obra. O investimento de “dezenas de milhares de euros” conseguiu-se entre o recurso às economias de ambos e a um crédito bancário. “Foi juntar tudo e atirarmo-nos de cabeça”, conta Frederico. Era necessário desenvolver o conceito e a plataforma, mas também ter certezas jurídicas. “Se é possível, se é legal, porque é que ainda ninguém se lembrou disto?”, era a questão que colocavam. Desfeitas as dúvidas quanto à legalidade, foi tempo de começar “a visitar clínicas e consultórios” e a testar o site. As primeiras vendas vieram em Janeiro de 2014. Nesse mês, venderam-se 30 consultas, neste último venderam-se “mais de 800”.

À procura de investimento
Apesar da tendência crescente, nenhum dos dois vive exclusivamente da Facultatempo, que está instalada no edifício da incubadora de empresas do Taguspark. “Cobramos margens muito pequenas e não temos escala suficiente”, diz o gestor. A negociação faz-se clínica a clínica, especialidade a especialidade, porque nem todos os médicos aceitam o protocolo e as mesmas condições.

“A nossa comissão pode ser de 4, 6, 8 euros, depende, mas daí ainda temos de tirar o IVA e a taxa da SIBS [do pagamento electrónico]”, explica. Têm a consciência de que poderiam “chegar a mais pessoas” se pudessem fazer “uma comunicação mais alargada do projecto”. Mas não há capital. E nas reuniões com potenciais investidores (como business angels) têm esbarrado naquilo que Frederico define como “preconceito contra o alvo”. “Em todas as reuniões dizem-nos que o projecto está bem estruturado e a ideia é boa, mas não se identificam com o target, porque vêem o serviço como sendo para a classe média baixa”.

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