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terça, 07 janeiro 2020 16:58

Privação na primeira infância altera estrutura cerebral do adulto

A mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas.

A privação de estímulos, afectos, nutrição e higiene nos primeiros anos de vida tem consequências permanentes na formação do cérebro. E nem o facto de as vivências posteriores serem mais ricas é capaz de diminuir o impacte inicial.

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A conclusão é de um estudo de uma equipa de investigadores das universidades King’s College de Londres, de Southampton, de Bath (Reino Unido) e de Bochum (Alemanha), publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que prosseguiu as descobertas de uma outra investigação, designada de Adoptados Ingleses e Romenos, do King’s College, publicada em 2017 na revista científica The Lancet, que acompanhou vários órfãos romenos acolhidos por famílias britânicas desde os anos 90 do século passado.

Cerca de 30 anos depois, os cientistas observaram que, entre aqueles, os que, até aos três anos, tinham passado mais de seis meses em instituições romenas apresentavam, já adultos, transtornos do espectro autista, uma diminuída capacidade de interacção social (transtorno de personalidade anti-social), desconcentração ou hiperactividade. Comparados aos órfãos que passaram menos de seis menos em instituições romenas e com aqueles que passaram pelo sistema britânico, o estudo concluiu que aqueles apresentavam cérebros mais pequenos, cerca de 8,6%.

Agora, um novo estudo vai mais longe e acrescenta que as privações (de estímulos, afectos, higiene, alimentação) nos primeiros anos de vida podem ser associados a alterações na estrutura do cérebro, que não são reversíveis mesmo depois de as crianças serem enquadradas em ambientes saudáveis.

De acordo com a publicação, o grupo mais exposto a instituições com más condições revelou uma menor área de superfície e de volume no lóbulo frontal do lado direito, mas maior espessura, área de superfície e volume do lóbulo temporal inferior do mesmo lado. O primeiro facto, explicam os cientistas, foi relacionado com o tempo de exposição a condições deficitárias na primeira infância. Já o segundo parece ser de compensação, sendo que os indivíduos que manifestaram esta alteração apresentavam níveis mais baixos de défice de atenção/hiperactividade.

Cérebro elástico

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar dinamicamente em resposta às influências ambientais, promovendo ainda a recuperação do mesmo após lesões físicas ou insultos verbais. Porém, a mesma elasticidade que nos permite adaptar e reagir a factores negativos e positivos pode deixar o cérebro humano vulnerável quando exposto a experiências psicossociais adversas, como maus-tratos.

Segundo os investigadores, o cenário “pode ser especialmente verdadeiro durante a primeira infância, [período] caracterizado por mudanças rápidas e dinâmicas na estrutura e função do cérebro”. Além do mais, apesar de os indivíduos observados terem vivido durante mais de duas décadas em ambiente familiar estável, com adultos que lhes proporcionaram afectos e atenção total, os provenientes dos orfanatos romenos apresentavam graves problemas de saúde mental nos primeiros anos da idade adulta, sugerindo que as alterações que a privação provocou ao cérebro terão sido irreversíveis.

Estas descobertas, concluem, “são consistentes com a hipótese de que dificuldades severas e limitadas no tempo, vivenciadas nos primeiros anos de vida, podem ter um efeito adverso duradouro no desenvolvimento do cérebro que ainda é observável na idade adulta”.

Os órfãos de Ceausescu

O estudo teve por base a amostra final do estudo de 67 órfãos romenos, adoptados por britânicos, e 21 órfãos nascidos e institucionalizados no Reino Unido, no início da década de 1990, quando, meses após a queda de Nicolae Ceauşescu (1918-1989), o mundo foi surpreendido pelos relatos da existência de dezenas de milhar de crianças romenas que viviam em orfanatos, isoladas do resto da sociedade, sem condições de higiene, vítimas de maus-tratos e a sofrer de malnutrição.

Houve, na época, adopções em massa de muitos países, como foi o caso do Reino Unido, onde começaram a ser estudadas as crianças provenientes de tais ambientes. De acordo com os investigadores, os indivíduos observados foram institucionalizados nos primeiros dias de vida — muitas destas crianças eram abandonadas ou entregues aos orfanatos por pais que não conseguiam sustentar tantos filhos num país onde os contraceptivos eram proibidos e a natalidade encorajada —, tendo permanecido nesses espaços entre três e 41 meses.

FONTE - Público

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