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quinta, 14 novembro 2019 08:09

Em nome de um mundo sem diabetes

Em Portugal, estima-se em mais de um milhão o número de pessoas com diabetes, a esmagadora maioria tipo II. Inevitavelmente, todos conhecemos pelo menos uma pessoa com diabetes. Ou mais. Muito provavelmente, mais. Hoje é Dia Mundial da Diabetes.

O rapaz caminha em círculos à volta da sala. É magro e alto, demasiado magro e alto. O punho no ar fala por si e as lágrimas, apesar de presas, estão lá, à mostra, tal como a raiva, a fúria, a incredulidade do rapaz de punho no ar, aos socos no ar. A pele, cinzenta, macilenta, protesta em vão contra a doença e morre devagar. E talvez seja isto que o rapaz quer, morrer, e não necessariamente devagar. Por não poder ser como os outros, comer como os outros, à vontade, principalmente bolos, correr como os outros, despreocupadamente, sem ter de se picar todos os dias, de manhã à noite, do acordar ao deitar, primeiro para avaliar o nível de açúcar no sangue e depois a dose de insulina.

O rapaz tem diabetes tipo 1, estamos nas consultas externas de Santa Maria e a adolescência é, depois da infância, a pior idade para se viver com diabetes.

Peço desculpa, qualquer idade é a pior para se viver com diabetes. Mas entre crianças e adolescentes a incompreensão é maior, proporcional à angústia de quem se sente enganado, num repente sem chão onde andar, uma partida de Deus — e de muito mau gosto, por sinal.

A diabetes tipo I é congénita, nasce connosco, e caracteriza-se pela incapacidade do pâncreas em produzir insulina. Sem insulina, as células do nosso corpo não absorvem o açúcar no sangue, morrendo em consequência, dos olhos aos nervos nas pontas das mãos e dos pés, dos rins ao coração, não necessariamente por esta ordem e só para citar alguns exemplos de áreas do corpo particularmente sensíveis à falta de açúcar.
Cicatrizar feridas é mais difícil, principalmente ao nível dos pés, levando a infecções, gangrena e amputação de um ou dos dois membros inferiores.
Há um maior risco de acidentes cardiovasculares, insuficiência renal e cegueira.

O mesmo acontece na diabetes tipo 2. Fruto do excesso de peso e sedentarismo, o pâncreas não é capaz de produzir insulina em quantidade suficiente. Os riscos são, portanto, iguais e a redução de peso, exercício e medicação essenciais para controlar a doença.

Em Portugal, estima-se em mais de um milhão o número de pessoas com diabetes, a esmagadora maioria tipo II. Inevitavelmente, todos conhecemos pelo menos uma pessoa com diabetes. Ou mais. Muito provavelmente, mais.

Assim de repente, e sem pensar, tenho um familiar directo diabético, um amigo diabético e um colega no trabalho também diabético. O colega tem diabetes tipo 1, o familiar e o amigo têm diabetes tipo 2. É por demais evidente, por demais prevalente. Está no meio de nós, vive connosco e pode morrer connosco, assim é a diabetes, uma doença crónica contra a qual queremos lutar dia após dia.

Por isso este texto, por isso este apelo no sentido de aumentar a compreensão para uma doença cada vez mais comum nas sociedades modernas. A compreensão é essencial, a prevenção maior em nome de um mundo sem diabetes.

FONTE - Público

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