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quarta, 13 novembro 2019 18:06

Sites de saúde partilham dados de pesquisas com anunciantes

O caso foi exposto pelo jornal britânico Financial Times, que analisou uma centena de sites de saúde que partilham nomes de medicamentos e pesquisas sobre sintomas com plataformas como o Facebook, Google e Amazon.

Apesar de a Internet dar a ilusão de anonimidade quando se pesquisa sobre problemas de saúde online, não há garantia de “sigilo profissional”. Há pelo menos uma centena de sites sobre saúde – incluindo o WebMD, o popular site de sintomas e informação médica – a partilhar informação privada e pessoal dos seus utilizadores com gigantes tecnológicas como o Google, o Facebook e a Amazon. Na prática, isto quer dizer que uma pesquisa sobre “artroses”, “demência” ou “efeitos secundários da pílula” pode levar alguém a ver publicidade sobre esses temas (por exemplo, de marcas de medicamentos ou seguros de saúde) noutros sites.

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O fenómeno foi exposto pelo jornal britânico Financial Times (FT) que analisou cem sites de saúde, desde fóruns online, a sites sobre paternidade, glossários de doenças, ou seguros de saúde. A maioria (79%) usava cookies – pequenos ficheiros colocados nos computadores dos visitantes, que permitem monitorizar informação para ser lida em visitas posteriores. São utilizados, por vezes, para melhorar a experiência do utilizador e o desempenho do site (o PÚBLICO, por exemplo, utiliza cookies para guardar as preferências dos leitores).

Só que no caso dos sites analisados pelo FT, muitos dos cookies eram utilizados para seguir a actividade online dos utilizadores noutros sites, e partilhar a informação recolhida com serviços de publicidade online. Poucos sites avisavam os utilizadores deste facto.

O destino mais comum da informação recolhida era a DoubleClick, o braço de publicidade do Google (era o destino da informação de 78% dos cookies analisados pelo FT). Mas também havia informação partilhada com Facebook, ou o departamento de marketing da Amazon, entre outros.

Estas empresas tendem a usar cookies para mostrar “anúncios lembrete”, com o objectivo de recordar o utilizador sobre um produto, serviço ou tema que pesquisou no passado. Pesquisar sobre viagens pode levar a que surjam anúncios de transportadoras aéreas. No extremo, porém, isto pode levar a que uma pessoa a pesquisar sobre tratamentos oncológicos veja publicidade a uma seguradora. Algumas destas situações podem não cumprir com o Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados (RGPD), que entrou em vigor em 2018 e impôs regras mais apertadas para a recolha e processamento de dados, particularmente na área da saúde.

Segundo o RGPD, dados sobre orientação sexual, vida sexual, dados biométricos e de saúde são considerados “sensíveis” e não deveriam poder ser utilizados para fins publicitários a não ser que o utilizador tenha dado o seu “consentimento explicito” ou tenha tornado os dados “manifestamente públicos” (por exemplo, se os publicar num fórum aberto quando fala sobre si mesmo).

“O RGPD só se aplica a pessoas identificáveis, é verdade. Mas o regulamento também considera que o uso do endereço de IP [uma série de números que identificam uma máquina numa rede informática] pode ser utilizado para identificar pessoas singulares por via electrónica. E se isto acontece, os utilizadores têm de ser informados,” explica ao PÚBLICO Paula Martinho da Silva, advogada da sociedade PLMJ.

O uso de cookies para fins publicitários também acontece em alguns sites de saúde em Portugal. Por exemplo, sites como o fórum De Mãe para Mãe (um site de informação e fórum sobre maternidade) ou o site Saúde CUF (que tem uma secção para pesquisar sobre problemas de saúde) partilham dados para fins publicitários. No entanto, estes sites clarificam que usam cookies para esse efeito. Por exemplo, o site Saúde CUF esclarece na página de políticas de privacidade: “Cookies publicitárias: Tratadas por nós ou empresas parceiras, permitem analisar os seus hábitos de navegação e preferências, com o objectivo de lhe mostrar publicidade exclusivamente relacionada com o seu perfil de navegação.”

Só que muitas daquelas páginas sobre políticas de privacidade tendem a ser ignoradas ou pouco visitadas. “Uma pessoa tem de saber exactamente as consequências de usar um determinado site”, acrescenta Martinho da Silva. “Particularmente quando falamos em dados de saúde que são dados sensíveis.”

O PÚBLICO contactou o Google, Amazon, Facebook – que recebem dados de sites de saúde para fins publicitários. Apenas o Facebook e o Google enviaram uma resposta sobre o tema (embora a equipa da Amazon também tenha dito que ia “averiguar o assunto”).

“Não queremos sites a partilhar informação pessoal sobre a saúde das pessoas connosco – é uma violação das nossas regras e não nos beneficia a nós ou às pessoas que usam o Facebook”, disse um porta-voz do Facebook em resposta a questões do PÚBLICO. “Estamos a proceder a uma investigação e vamos tomar medidas contra os sites que estão a violar os nossos termos.”

Em declarações ao FT, o Google nota que "não constrói publicidade a partir de perfis com dados sensíveis” e que os sites referidos pelo jornal são todos assinalados como “sensíveis” pela equipa do Google. Isto quer dizer que são excluídos da base de dados usada para enviar anúncios personalizados.

Num email enviado ao PÚBLICO, fonte oficial do Google nota ainda que “cookies de terceiros têm uma variedade de usos, desde permitir funções básicas no site como processamento de pagamentos, a introdução de vídeos, a oferecer e medir publicidade.”

O uso de dados de saúde pela empresa é um tema quente. Esta semana, uma reportagem do jornal norte-americano Wall Street Journal acusou o Google de recolher secretamente dados de pacientes em centenas de hospitais e centros de saúde dos EUA. Mais tarde, porém, o Google clarificou que se tratava de uma parceria com uma organização médica católica sem fins lucrativos para criar ferramentas para ajudar aquela associação a melhorar a qualidade e a segurança dos seus pacientes.

Há no entanto estratégias para evitar publicidade – sobre saúde ou outros temas – que tem como base a informação dos cookies. Além de não autorizar sites a recolher cookies (ao ler e não clicar imediatamente em “aceito” em mensagens e caixas de texto que surgem quando se acede a alguns site), pode-se optar pelo modo de navegação anónima no smartphone ou no computador, que impede que os sites registem os sites a que o utilizador acede e as pesquisas que faz. Na generalidade dos navegadores, fazer clique direito num link permite abri-lo em modo incógnito ou privado (o nome varia).

Além disso, a maioria dos navegadores online oferece uma opção para impedir sites de “seguir” um utilizador através de cookies. Em navegadores como o Chrome, Firefox, Edge e Explorer, a opção está nas definições de segurança e privacidade.

FONTE - Público

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