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sábado, 09 novembro 2019 13:11

Carta aberta ao Presidente Marcelo e a todos os portugueses

Esta carta e os conselhos que ela contém são para o Sr. Presidente, mas também para todos os portugueses com elevado risco cardiovascular. Para todos vós tenho uma mensagem de alerta, mas também de esperança.

Caro Sr. Presidente:

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Tenho acompanhado pela comunicação social que foi recentemente submetido a um cateterismo cardíaco, onde terão sido detetadas e tratadas algumas lesões das coronárias. Se esta informação for correta, significa que o Sr. Presidente, tal como milhares de portugueses, tem uma doença cardiovascular.

Queria aproveitar este facto para, na sua pessoa, me dirigir a todos os que têm também doenças cardiovasculares e também aos muitos outros que têm fatores de risco cardiovascular.

As doenças das artérias coronárias estão quase sempre associadas à presença de um ou mais fatores de risco cardiovascular não controlados: colesterol elevado, hipertensão arterial, diabetes, excesso de peso, sedentarismo, tabagismo. Muitos destes fatores de risco são frequentes na nossa população (mais de 40% dos portugueses são hipertensos e cerca de 2/3 dos adultos têm colesterol elevado) e isso explica que as doenças cardiovasculares sejam a principal causa de morte e uma das principais causas de incapacidade dos portugueses.

Muitas vezes estes fatores de risco tendem a ser desvalorizados pelas pessoas e até por alguns profissionais de saúde. Quantas vezes se diz a minha tensão está mais ou menos” ou o meu colesterol está ligeiramente elevado”; ora não existe tensão arterial mais ou menos – a tensão arterial ou está controlada ou não está controlada – e o mesmo se passa com o colesterol, a diabetes e os outros fatores de risco. Quanto menos valorizados são os fatores de risco, mais provável é que eles não estejam controlados e, dessa forma, que o doente tenha um risco cardiovascular desnecessariamente alto.

Gostaria, a este propósito, de deixar bem claro alguns princípios básicos do risco cardiovascular e da sua otimização em doentes que já têm, como o Sr. Presidente, doença coronária, bem como as pessoas de muito alto risco cardiovascular:

Hipertensão arterial – todos os doentes que, como o Sr. Presidente, têm ou já tiveram problemas nas artérias coronárias (mesmo que tenham feito tratamento por cirurgia cardíaca ou angioplastia), devem ter uma tensão arterial inferior a 140/90 mm Hg (vulgo 14/9).

Colesterol – o valor mais importante não é o colesterol total, mas sim o chamado mau” colesterol ou colesterol LDL, o qual deve estar sempre abaixo de 55 mg/dL. Para que este valor de colesterol LDL seja atingido e mantido é obrigatório tomar medicação diariamente e a maior parte dos doentes só consegue obter estes valores baixos de colesterol LDL se fizer terapêutica de associação (ou seja, se tomar dois ou mais medicamentos para baixar o colesterol). Se o seu LDL está acima de 55 mg/dL fale com o seu médico para a sua terapêutica ser intensificada.

Diabetes – para que um doente diabético esteja bem controlado, os seus níveis de açúcar no sangue (glicemia) devem estar próximos dos valores de um indivíduo normal. A glicemia em jejum deve estar próxima de 100 md/dL e 2h após uma refeição deve estar próxima de 140 mg/dL. Infelizmente a maior parte dos diabéticos tem valores bem mais elevados, o que traduz um mau controlo da sua diabetes. Esse controlo também pode ser avaliado através da hemoglobina glicada ou A1c, que deve ser inferior a 7%. Porém, num doente coronário ou de alto ou muito alto risco cardiovascular, não basta a diabetes estar controlada, é muito importante que a diabetes seja tratada com medicamentos que protejam o coração, como os inibidores da SGLT-2 ou os análogos da GLP-1. Pergunte ao seu médico se está ou não a fazer pelo menos um destes medicamentos, pois isso faz toda a diferença em termos de risco cardiovascular.

Tabagismo –​ fumar, muito ou pouco, charutos ou cigarros, com filtro ou sem filtro, duplica o risco cardiovascular de qualquer doente. Dito de outra maneira, qualquer fumador, mesmo que fume só dois ou três cigarros por dia, têm o dobro do risco de ter um enfarte ou AVC do que um não fumador. Se, porém, deixar de fumar, o seu risco cardiovascular reduz-se imediatamente para metade. Se é fumador e doente coronário ou de alto ou muito alto risco cardiovascular, procure imediatamente ajuda para deixar de fumar.

Sedentarismo e estilo de vida – Portugal é um dos países europeus com mais pessoas com excesso de peso, obesidade e sedentarismo. Curiosamente, os países do Norte da Europa, apesar do seu clima mais frio, são aqueles em que as pessoas fazem mais exercício físico e têm uma vida menos sedentária. Na nossa vida, quase tudo são boas desculpas para não fazer atividade física: está frio, está calor, está a chover, não tenho tempo, os ginásios são muito caros... Por outro lado, muitos são os portugueses que acham que são muito ativos, só porque estão sempre em movimento em casa ou no emprego. Ora atividade física não é isto, atividade física é algo diferente, como caminhar em passo acelerado, andar de bicicleta, nadar ou correr. Estas ou outras atividades devem ser feitas com uma intensidade tal que nos cansem – sim, se alguma atividade não é feita até ao ponto de gerar cansaço, não conta como atividade física, pois o que não nos cansa quase não gasta calorias –​ o Sr. Presidente e a generalidade dos portugueses deve fazer atividade física pelo menos 30 minutos por dia, durante pelo menos cinco dias por semana, a uma velocidade tal que no final fique cansado e transpirado, mas não exausto.

Obesidade – E o que dizer da alimentação? Poucos são os portugueses que admitem que comem muito ou que comem mal. A questão não é comer muito ou comer pouco, a questão é se eu em cada dia gasto ou não tudo o que como. Se eu como mais do que o que gasto, engordo; se eu gasto mais do que aquilo que como, emagreço. Muitos portugueses têm excesso de peso ou obesidade porque não gastam o (muito ou pouco) que comem. Quais são os alimentos que mais engordam? Ao contrário do que muitos pensam, não são as gorduras, mas sim os hidratos de carbono (que têm mais do dobro das calorias das gorduras). Quais são os principais hidratos de carbono da nossa alimentação? Para além dos doces, alimentos como o pão (mesmo que integral), a fruta (mesmo que verde), o arroz, a batata e a massa, têm muitas calorias, pelo que devem ser consumidos em pequenas quantidades, especialmente em doentes coronários diabéticos ou com excesso de peso ou obesidade. Para além disso, é importante consumir muitos vegetais e fibras, eliminar os refrigerantes e moderar o consumo de bebidas alcoólicas.

Sei que muitos dos que lerem esta carta quererão saber quem são as pessoas que têm mais risco cardiovascular – a resposta é simples: aqueles que já tiveram eventos cardiovasculares (enfartes, AVCs), os que já têm manifestações de doença (problemas nas coronárias, carótidas, aorta, artérias das pernas...), os diabéticos, os que têm insuficiência renal, os que têm vários fatores de risco cardiovascular não controlados e os idosos (muitos dos que têm mais de 65 anos e quase todos os que têm mais de 70 anos são, mesmo se saudáveis, pessoas de elevado risco cardiovascular, pelo que todos os conselhos e recomendações desta carta também são para eles).

Esta carta e os conselhos que ela contém são para o Sr. Presidente, mas também para todos os portugueses com elevado risco cardiovascular, para os que têm sintomas e para os que acham que são saudáveis (apesar da tensão arterial, do colesterol, dos cigarros que fumam, da idade que já têm), para os que tomam medicamentos e para os que não tomam (mas deviam tomar, diariamente e para o resto da vida), para os que já tiveram eventos cardiovasculares ou internamentos e para aqueles que acham que as doenças só acontecem aos outros. Para todos vós tenho uma mensagem de alerta, mas também de esperança: se todos os fatores de risco forem controlados, mais de 90% dos eventos cardiovasculares são evitáveis. Controlar a tensão arterial, o colesterol, a diabetes e todos os outros fatores de risco cardiovasculares é hoje possível com medicação ao alcance de todos.

Sr. Presidente, portuguesas e portugueses, façam o rastreio do vosso risco cardiovascular e cumpram diária e escrupulosamente toda a medicação necessária e todas as outras indicações médicas para o controlo dos fatores de risco cardiovascular.

Saúde!

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

FONTE - Público

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