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quarta, 30 outubro 2019 09:14

Aumento dos casos de meningite W faz esgotar vacinas nas farmácias

Oito casos já este ano levaram a alerta, mas maioria é em adultos. Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda esta vacina apenas em casos muito específicos.

O aumento dos casos de infecção com estirpe rara de meningite está a fazer com que alguns pediatras portugueses aconselhem pais a imunizar os filhos e embora a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomende esta vacina apenas em casos muito específicos, a procura duplicou e causou uma ruptura de distribuição da vacina conjugada ACWY (vendida com o nome Nimenrix) em Portugal, noticia o Jornal de Notícias (JN) nesta quarta-feira.

A meningite de grupo W era esporádica até 2000, ano em que causou uma epidemia na Arábia Saudita. Desde então, disseminou-se em vários continentes e chegou à Europa pelo Reino Unido, afectando especialmente os adolescentes.

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Em 2019 registaram-se oito casos de meningite W em Portugal, de acordo com os dados fornecidos pela Direcção-Geral de Saúde àquele jornal; em 2018 foram cinco e em 2017 apenas um. Entre 2007 e 2016 houve quatro casos de doença causada pelo grupo W, segundo os dados da Sociedade Portuguesa de Pediatria. A DGS salvaguarda que a maioria dos casos de infecção foram registados em adultos, mas não especifica quantos.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda esta vacina, apesar de esta vacina estar fora do Plano Nacional de Vacinação (PNV), para “crianças e adolescentes com asplenia anatómica ou funcional, hipoesplenismo [referentes ao mau funcionamento do baço], défice congénito de complemento, e em terapêutica com inibidores do complemento (Eculizumab) [relacionados com doenças imunológicas]”; “viajantes com estadias prolongadas ou residentes em países com doença hiperendémica ou epidémica e sempre que exigido pela autoridade local” e ainda a título individual “nos esquemas recomendados nos resumos das características das vacinas"​.

De facto, apenas a vacina contra a meningite C está no PNV. A vacina ACWY (que oferece protecção contra quatro serogrupos de meningite) não está, custa cerca de 50 euros e está neste momento esgotada na maioria das farmácias do país, escreve o JN.

Questionado pela Lusa, o Infarmed reconhece que este ano observou “um aumento da procura da vacina Nimenrix na sequência de um aumento do número de casos de doença meningocócica infantil, que praticamente duplicou o seu consumo face ao ano anterior”. Diz também que conseguiu reforçar o abastecimento, “cuja distribuição rapidamente se escoou no prazo de uma semana, causando nova situação de previsão de ruptura”.

Esta situação está de momento a afectar todos os países onde a vacina se encontra comercializada, não obstante, está a ser emitida pelo Infarmed uma Autorização de Utilização Excepcional (QUE) para a vacina, que virá excepcionalmente da Holanda, o único país onde foi ainda possível adquiri-la”, esclarece. Segundo a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, a partir de segunda-feira a vacina já deverá estar disponível.

Sintomas confundidos com outras doenças

No documento de recomendações explica-se que a meningite de grupo W era esporádica até 2000, ano em que causou uma epidemia na Arábia Saudita. Desde então, disseminou-se em vários continentes, e, na Europa, chegou pela Inglaterra.

“O aumento do número de casos e mortes no Reino Unido levou à implementação, em 2015, de um programa de emergência, com administração da vacina conjugada ACWY a adolescentes, com o objectivo de controlar os casos e a transmissão da bactéria entre indivíduos.” Os diagnósticos eram “pouco comuns” com sintomas “atípicos” para a fase inicial da doença, como “vómitos e diarreia, nomeadamente em adolescentes”, continua a documento.

Nesse ano e no seguinte, o governo britânico promoveu uma campanha de vacinação junto dos estudantes, incluindo universitários, por estarem em contacto “com pessoas estranhas” aos seus círculos próximos que podiam “sem saber" ter o vírus, noticiava a BBC. A campanha teve grande sucesso, com uma redução de 69% dos casos esperados em relação aos observados.

Neste momento, a Sociedade Portuguesa de Pediatria considera fundamental “manter uma vigilância epidemiológica” devido ao aumento rápido do número de casos “em vários países da Europa”. “Esta informação é muito importante para suportar a definição de estratégias nacionais de vacinação de adolescentes.”

Segundo os dados do Centro Europeu de Prevenção de Doenças, em 2017 o serogrupo B foi prevalente (representa 51% dos casos na Europa), mas a mortalidade foi maior no serogrupo W (14%).

A meningite é uma infecção nas meninges, as membranas que envolvem o cérebro e a medula. Pode ser causada por vírus, bactérias, parasitas ou fungos. As virais são mais comuns, mas as bacterianas mais perigosas. Há vários serogrupos: A, B, C, W ou Y.

A maior letalidade do serogrupo W pode explicar-se pela falta de imunização e pelos sintomas que são facilmente confundidos com outras doenças: febre, cansaço, confusão, vómitos, diarreia e dores de cabeça — posteriormente podem também surgir manchas vermelhas na pele. De acordo com o pediatra Pedro Oom, ouvido pelo JN, os sintomas de “vómitos e diarreia” podem ser associados antes a uma gastroenterite, o que “distrai o diagnóstico”.

Maria João Simões, responsável pelo laboratório nacional de referência de Neisseria meningitidis do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge diz que “a maioria das estirpes do serogrupo W que circula actualmente em Portugal e um pouco por toda a a Europa tem características biológicas particulares que lhes conferem potencial de virulência elevado”, afirma ao JN. Afecta adultos e a idade avançada pode ser um aspecto negativo, uma vez que “taxa de letalidade ultrapassa os 30% em pessoas com mais de 65 anos de idade”. O atraso no diagnóstico “também pode conduzir a um aumento da mortalidade”.

A DGS fez saber que esta vacina não vai entrar no PNV “para breve”, mas que a “situação epidemiológica continua a ser acompanhada”. Já cinco países incluíram a vacina ACWY nos seus planos nacionais: Áustria, Grécia, Reino Unido, Itália e Holanda.

FONTE - Público

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