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domingo, 21 abril 2019 06:59

À sua saúde

Com a sustentabilidade do sistema de saúde seriamente ameaçada, não é com iniciativas platónicas que a podemos acautelar.

Os custos elevados, os desperdícios, a fraca qualidade do desempenho de muitas instituições, a desumanização crescente dos cuidados de saúde e a indiscutível e manifesta impossibilidade de obter consensos em cenários tão crispados onde proliferam manifestações de incompetência e falta de profissionalismo levam a que na área da saúde todos se sintam desconfortáveis e até ameaçados enquanto alguns participam alegremente em feiras de vaidades.

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Como é evidente, a necessidade de mudanças é imperativa. Sempre assim foi, mas numa altura em que a sustentabilidade do sistema de saúde está seriamente ameaçada, não é com iniciativas platónicas que a podemos acautelar. O cepticismo e a insatisfação dos doentes são bem conhecidos, a falta de confiança nas instituições de saúde prolífera, a coordenação relacional no trabalho deixa muito a desejar, a segurança do doente é a cada passo ameaçada e a educação dos profissionais tarda a acertar o passo com estas realidades.

Os sistemas de informação e comunicação falham excessivamente, a desconexão entre as pequenas reformas que vão sendo feitas é um facto, a ausência de políticas estruturadas manifesta-se, a supremacia da gestão sobre a liderança não se aceita e os novos tipos de pensamento e de mentalidade não surgem com a frequência desejada. Está assim criado um cenário de limitações que parece não ter ainda motivado o aparecimento de uma vaga de fundo que ajude a inverter esta difícil situação.

A melhoria da qualidade clínica e da segurança dos doentes, a aprendizagem contínua, a melhoria da cultura organizacional e a preparação de líderes para os mais diversos níveis do sistema são prioridades que reconhecidamente têm de ser contempladas por inteiro. Teremos de passar de desempenhos individuais e institucionais para modelos mais consistentes de motivação profissional que contemplem as melhores evidências disponíveis e proporcionem esperança para futuros mais promissores. Não são apenas indicadores nem métricas, por vezes de interesse discutível, que os permitirão vislumbrar a breve trecho. Para facilitar um maior entendimento de tudo isto é necessário recorrer a investigações qualitativas e quantitativas adequadas e não meros anúncios inconsequentes da sua necessidade.

Por razões conhecidas, mas nem sempre aceitáveis, a saúde está em questão. O que mais choca é o optimismo de alguns que, ocupando lugares de responsabilidade, se satisfazem com aspectos positivos de alguns indicadores que mais não são do que ilhotas de excelência que não bastam para caracterizar a situação que se vive na saúde. Nós não precisamos de quem diga o que está mal, mas de quem faça o que é preciso, disse magistralmente Agustina Bessa Luís. Mas isso não se consegue com retóricas estereotipadas, mas com um respeito profundo pela precisão semântica das palavras.

Há que mudar mentalidades e estruturas não adequadas para que a mudança surja de um modo eficaz. Ainda que isso possa pensar-se ser trabalho para uma geração, não podemos continuar a chegar tarde ao que é essencial e efectivamente dar os passos necessários para que a nobre tarefa de defender o sistema nacional de saúde seja um facto. É necessário dar voz à sociedade civil e criar a consciência de que o que está em causa exige uma mobilização global e cenários não crispados, o que significa que a política também necessita de se modernizar.

Neste processo global, as faculdades de medicina e outros estabelecimentos de saúde que preparam profissionais deverão alterar substancialmente os seus planos de estudo contemplando, para além dos clássicos aspectos biomédicos, o sector das ciências sociais. Temos de contrariar as mentalidades de “silo” e os egos proeminentes que tantas vezes asfixiam todas as tentativas sérias para nos modernizamos. A educação deve também ser dirigida para as competências, pois estas não são sinónimo de vitórias em processos eleitorais.

É então forçoso concluir que estamos necessitados de fazer uma revolução no bom sentido da palavra. Como neste jornal muito recentemente disse António Barreto, há fenómenos políticos, humanos, organizativos e outros que estão a necessitar de correcção. Para mim, que conheço “a pré-história e a história" desses problemas, devo dizer que não estou optimista. Com a minha longa trajectória tenho conhecido muitos mundos e devo confessar a minha inveja pela capacidade de alguns em ser felizes em ambiente de tanta precariedade. Para que também não cometa o pecado de fazer diagnósticos certos e depois não apontar terapêuticas, então direi ser urgente acabar com a promoção da mediocridade, a inversão de valores, o menosprezo pelas competências e a desvalorização das lideranças de base estável.

FONTE - Público

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