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quinta, 21 março 2019 17:42

Médicos refutam acusações de negligência e Ordem envia declarações para o conselho disciplinar

Na quarta-feira o coordenador da Unidade de Medicina Nuclear pública acusou alguns colegas de negligência. Director de clínica privada assegurou que os exames feitos na região têm "qualidade" e médicos do serviço público garantem que acusações não têm fundamento.

O director da Clínica de Radioncologia da Madeira, Guy Vieira, afirmou esta quinta-feira, no parlamento regional, que a oncologia praticada na região é de “qualidade” e manifestou-se “chocado” com as acusações de má prática feitas pelo coordenador da Medicina Nuclear. O médico foi ouvido na Comissão Eventual de Inquérito ao Funcionamento da Unidade de Medicina Nuclear do Serviço de Saúde da Madeira (SESARAM).

“O tipo de declarações que foram proferidas ontem [quarta-feira], além de serem uma falsidade incrível, mais preocupante para mim, enquanto médico e sendo o foco o doente oncológico e o doente madeirense, é o alarme que isto causa na população”, disse Guy Vieira. O médico garantiu que os exames feitos na Clínica de Radioncologia, instituição privada que opera na região desde 2009, têm “qualidade”.

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Na quarta-feira, o coordenador da Unidade de Medicina Nuclear pública, Rafael Macedo, disse na comissão de inquérito que “alguns colegas são negligentes”, quer no sector público como no privado. Acusou-os de fornecerem tratamentos que “não são adequados” e apontou ainda deficiências nas fichas clínicas e no registo de doentes.

Rafael Macedo reafirmou que o serviço público continua a encaminhar utentes para o serviço privado, vincando ainda que existem serviços do SESARAM que funcionam “muito mal”, nomeadamente Hemato-Oncologia, Urologia e Ortopedia.

“Um médico vir dizer que é feita má prática, terá que o provar”, defendeu Guy Vieira.

Também o director do serviço de Hemato-Oncologia da Madeira, Fernando Aveiro, refutou as acusações feitas por Rafael Macedo, considerando que são “mentiras” e geram “alarme” na população. “Acusa os médicos do SESARAM de negligência por não fazerem um produto que está desaconselhado [por organismos internacionais e nacionais]”, disse Fernando Aveiro no parlamento regional, vincando que as declarações de Rafael Macedo não têm “qualquer fundamento”. “Onde é que está a negligência? Quem é que tem negligência? Negligência é não saber nada”, disse.

A comissão de inquérito ouviu ainda o director do serviço de Endocrinologia do SESARAM, Silvestre Abreu, que classificou as declarações do coordenador da Medicina Nuclear de “inverdades” e de “alarmismo desonesto”, sobretudo no que toca à negligência dos colegas. Silvestre Abreu disse, no entanto, que dá um “certo desconto”, apontando para eventuais “distúrbios” de Rafael Macedo, que crê vão ser avaliados pela Ordem dos Médicos.

Na sequência da audição a Rafael Macedo, o SESARAM decidiu “suspender hoje [quinta-feira] os exames de forma a que estejam reunidas todas as condições para a serenidade da prestação” dos serviços de Medicina Nuclear.

A Comissão Eventual de Inquérito ao Funcionamento da Unidade de Medicina Nuclear do Serviço de Saúde da Madeira (SESARAM) foi constituída a pedido da maioria social-democrata, na sequência de uma reportagem da TVI transmitida em Fevereiro. Esse trabalho jornalístico concluiu que o Hospital do Funchal encaminhava pacientes para fazer exames de medicina nuclear numa clínica privada, enquanto a sua própria unidade, inaugurada em 2013 e certificada em 2017, estava “praticamente parada”.

Queixa na Ordem dos Médicos

O director clínico da Clínica de Radioncologia da Madeira, que pertence ao Grupo Joaquim Chaves Saúde, disse que foi já apresentada queixa na Ordem dos Médicos contra Rafael Macedo por ter passado uma prescrição de exames “desnecessária” e, como tal, “falsa” à jornalista da TVI que fez a reportagem na clínica.

Guy Vieira disse que a instalação da radioterapia na Madeira trouxe um “ganho muito grande”, porque os doentes deixaram de se deslocar ao continente, onde permaneciam cerca de seis semanas em tratamento, vincando que o tratamento oncológico é tão bom na Madeira como em qualquer outra parte da Europa.

O responsável indicou que, ao nível da radioterapia, a clínica tratou 4118 doentes entre 2009 e Fevereiro de 2019. Por outro lado, confirmou que o serviço funcionou até 2015 com uma licença provisória, porque essa era uma “prática usual” à altura, ao passo que actualmente esse tipo de licença permite operar apenas ao nível de testes.

Guy Vieira disse ainda que a questão foi alvo de um processo de investigação criminal, entretanto arquivado pela Comarca da Madeira.

22 milhões de euros

Entre 2009 e 2018, o Governo Regional da Madeira pagou 22 milhões de euros ao Grupo Joaquim Chaves Saúde para a prestação de serviços, sendo que 1,5 milhões euros visaram a área da medicina nuclear e o restante — mais de 90% — cuidados de radioterapia, um serviço que o sector público não dispõe.

Foi este contrato que lançou suspeitas na opinião pública e motivou a constituição da Comissão Eventual de Inquérito ao Funcionamento da Unidade de Medicina Nuclear, formada por deputados do PSD, PS, CDS-PP, BE e JPP, e com um prazo máximo de funcionamento de 120 dias.

Fernando Aveiro garantiu que, desde 2018, todos os exames de medicina nuclear da sua especialidade são feitos no SESARAM, assegurando que os dossiês clínicos “estão completos”, pelo que as afirmações do coordenador da Medicina Nuclear deixaram os médicos e enfermeiros “muito desgastados”. "O serviço já foi auditado, não percebo a acusação”, disse, realçando que na Hemato-Oncologia não existe lista de espera, pois o SESARAM trata o doente oncológico como “prioritário”.

O responsável manifestou-se ainda “satisfeitíssimo” com a Clínica de Radioncologia da Madeira, considerando que é uma “mais-valia” para a Madeira. Por outro lado, também avalia de forma “bastante positiva” os exames feitos pela Unidade de Medicina Nuclear do SESARAM.

Fernando Aveiro explicou ainda que, entre 2017 e 2018, os gastos do SESARAM com medicamentos para o cancro aumentaram 22% e revelou dados do Instituto Nacional de Estatística referentes a 2017 em que a taxa de mortes por tumores malignos por 100 mil habitantes é de 2,3% na Madeira, uma das mais baixas do país. "O SESARAM, na área oncológica, está dotado de capacidade e organizado para fazer um excelente trabalho”, afirmou.

FONTE - Público

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