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sábado, 16 março 2019 06:00

Entrar no nosso cérebro através de um neurónio gigante e de robôs pintores

Na nova exposição da Fundação Calouste Gulbenkian percorre-se uma narrativa sobre o cérebro desde o seu passado até ao futuro. Esta aventura pela complexidade da actividade cerebral abre ao público este sábado.

A partir deste sábado, entrar na Galeria Principal da Fundação Calouste Gulbenkian é como penetrar no nosso cérebro (ou no de animais). Há um neurónio gigante, desafios para a nossa memória ou uma experiência musical com a actividade do nosso próprio cérebro. No fundo, Cérebro: Mais Vasto Que o Céu é uma exposição interactiva sobre o cérebro para cérebros e pode ser vista até 10 de Junho. A entrada é cinco euros.

A propósito das comemorações dos 150 anos do nascimento de Calouste Gulbenkian este ano, decidiu fazer-se uma exposição de ciência. E por que se escolheu o cérebro? “Por ser uma das últimas fronteiras da ciência e ainda ter muitos problemas por resolver”, refere Rui Oliveira, cientista e curador científico da exposição. Quanto ao nome Cérebro: Mais Vasto Que o Céu, foi inspirado num poema da norte-americana Emily Dickinson. “Achávamos interessante trazer para a exposição essa componente cultural e mostrar a complexidade do cérebro recorrendo à sua beleza. Acho que o ‘cérebro é mais vasto do que o céu’ diz tudo sem termos de falar dos 86 mil milhões de neurónios.”

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Antes de entrarmos na exposição, Rui Oliveira faz-nos um aviso: “O objectivo é pôr-vos numa viagem ao cérebro desde o seu passado até ao futuro.” Portanto, percorreremos uma narrativa sobre o cérebro. “Quisemos apresentar o cérebro como uma das estruturas mais complexas que se conhecem, mas apresentar essa estrutura em três etapas.” Mas há uma premissa: cada visitante pode escolher o seu percurso e terá de ser pró-activo.

Ainda na porta de entrada da exposição, não existem factos: há uma experiência imersiva com uma instalação de vídeo do cientista e artista norte-americano Greg Dunn, a Self Reflected. Esta instalação – que funde dados neurocientíficos, manipulação algorítmica ou engenharia óptica para gravar meio milhão de neurónios em folhas de ouro – é uma representação artística das “coreografias neuronais do cérebro”, como descreve o próprio Greg Dunn no catálogo da exposição. Com cerca de três minutos, este vídeo é acompanhado por uma composição musical de Rodrigo Leão.

Self Reflected foi criado não para simplificar a funcionalidade do cérebro, mas para o representar com tanta fidelidade à sua complexidade original quanto possível, de modo a que o espectador tenha um entendimento visceral e emocional da sua beleza”, assinala o artista no catálogo. “O Greg Dunn pretende mostrar um cérebro aos nossos cérebros. Todos temos um cérebro e estamos aqui a ver o nosso cérebro”, constata o curador científico, acrescentando que optou por este início para que as pessoas não sintam que estão a ter uma aula logo à entrada.

Túnel com um neurónio

Depois de termos visto praticamente o nosso cérebro ao espelho, começamos então a percorrer a prometida narrativa. “No princípio, não havia cérebros”, anuncia-se profeticamente num placard. Afinal, esta primeira parte da história sobre o cérebro aborda a origem e evolução desta estrutura.

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Há um neurónio de 12 metros que reage à presença dos visitantes Daniel Rocha

Entre informações sobre as funções primordiais do cérebro ou sobre as suas partes constituintes, há um túnel com um neurónio gigante de 12 metros de comprimento suspenso do tecto. Enquanto passamos por baixo do túnel, este neurónio reage à nossa presença disparando sinais eléctricos sobre a forma de propagação de luz ao longo desta célula. “É aquilo que está a acontecer nos nossos neurónios quando estamos a processar informação. Por exemplo, a auditiva, sobre o que estou a explicar aqui...”, indica Rui Oliveira.

E a desmistificação destas células continua com a exibição de diferentes tipos de neurónios a três dimensões numa vitrina. “Parecem corais”, compara Rui Oliveira. “Queríamos dar a ideia aos visitantes de que os neurónios não são todos iguais e que existe uma grande diversidade de neurónios no nosso cérebro.”

Para que se possa “brincar” com estas células, há ainda uma peça interactiva com neurónios que fazem parte do EyeWire, um projecto que está a reconstituir a ligação entre neurónios da retina de ratinhos. Como esta também é uma exposição sobre o cérebro de animais, está exposto um fóssil do cérebro autêntico da espécie Fuxianhuia protensa, um artrópode encontrado no conselho de Chengjiang (China) com 500 milhões de anos.

Uma orquestra de cérebros

No segundo capítulo desta narrativa – intitulado Pense no Cérebro –, olha-se para o cérebro como sede biológica dos processos mentais e reflecte-se como a sua complexidade origina a experiência mental que temos do mundo e de nós desde a percepção, passando pela memória ou aprendizagem, até às emoções.

“Quisemos apresentar numa linha do tempo objectos históricos que estão ligados ao desenvolvimento do conceito de que a sede do pensamento e das emoções reside no cérebro”, explica Rui Oliveira, apontando para uma vitrina com um crânio trepanado ou primeiras edições de livros como As Paixões da Alma, de René Descartes.

PÚBLICO -
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Há vários objectos históricos, nomeadamente a capa da revista Science de 20 de Maio de 1994 com a reconstituição da trajetória da barra no crânio de Phineas Gage Daniel Rocha

Neste módulo podemos ainda enfrentar o chimpanzé Ayumu, que vive no Instituto de Investigação em Primatas da Universidade de Quioto (Japão) e que foi treinado para jogar a um desafio que aparece no ecrã da exposição e que se destina a estudar a memória: tocar, por ordem crescente, nos algoritmos de um a nove. “Nunca ninguém bateu o Ayumu”, avisa Rui Oliveira. Ou ainda sermos testados com o jogo do efeito de Stroop. Neste desafio, há palavras escritas com cores diferentes e o visitante tem de indicar a cor em que cada palavra está escrita.

Mas o clímax desta parte da narrativa é mesmo a instalação multimédia Orquestra de Cérebros. Ao mesmo tempo, quatro visitantes sentam-se para visualizar e ouvir a sua actividade cerebral. Como? Uma espécie de bandolete – com um sensor como os que são usados numa electroencefalografia – capta os sinais do cérebro que depois serão projectados em telas de grandes dimensões e “traduzidos” em sons por Rodrigo Leão. “Queremos que os visitantes tenham uma experiência com os seus próprios cérebros”, realça o curador científico.

Quem é o artista?

Na última etapa da exposição – Mentes para além do Cérebro –, viajamos pelo futuro. Como tal, aborda-se a forma como estamos a replicar o funcionamento cerebral na tecnologia, assim como as oportunidades e ameaças que isso representa. “Falamos da inteligência artificial, da robótica e das interfaces cérebro-máquina”, especifica Rui Oliveira, guiando-nos para a obra Bebot, do artista conceptual Leonel Moura.

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Cinco robôs estão permanentemente a pintar uma tela Daniel Rocha

Durante os três meses da exposição, robôs com um marcador estarão permanentemente a pintar telas de grandes dimensões. “Estima-se que consigam concluir uma tela por semana”, aponta Rui Oliveira. “Estes pintores robóticos tentam suscitar a questão de quem é o autor daquela peça: o Leonel Moura ou os robôs? Se forem os robôs, coloca-se a questão da criatividade.”

Ao lado de Rui Oliveira, Leonel Moura conta que começou a interessar-se pelos “rudimentos da então inteligência artificial” ainda no final do século XX. “Depois, passei para a robótica e percebi o potencial que estas tecnologias têm”, frisa. Sobre os seus robôs pintores, considera: “Não é tanto uma arte em que sou eu que estou a fazer, mas consigo que as máquinas criem qualquer coisa de original. Neste caso, fazem elas próprias a composição, que não está pré-determinada.”

Utilizando um algoritmo probabilístico, estes robôs têm sensores e começam a ver as cores a aparecer na tela. Depois, vão ter tendência a agregar-se à sua cor. “Há ainda o lado de performance com as luzes e os movimentos: parece uma coreografia”, salienta Leonel Moura. Criados para exposições de longa duração, estes robôs já estiveram a pintar numa outra exposição em Paris.

Ainda neste módulo, mostra-se como o interface cérebro-máquina pode ser aplicada no contexto lúdico ou clínico. Para isso, há um jogo de futebol mental – o Mindball – e uma explicação sobre os avanços a nível clínico da síndrome de encarceramento (em que os doentes só conseguem piscar os olhos). Num ecrã, o teste de Turing também coloca um desafio: há algum computador que nos consiga enganar e fazer passar-se por humano?

À saída, está a peça eXperiência do Cérebro Colectivo, do artista residente no Instituto Gulbenkian de Ciência Alaa Abi Haidar (conhecido como ALAgrApHY). Nesta instalação pretende construir-se um cérebro colectivo com as imagens que os visitantes coloquem nas redes sociais com a hashtag #collectivebrainx. “É uma metáfora para o cérebro colectivo que somos todos nós”, diz Rui Oliveira.

Há ainda uma programação complementar a esta exposição com sessões de entrada gratuita. No ciclo de conversas Encontros de Mentes Diversas, vários cientistas, artistas ou até um chefe de cozinha irão conversar sobre diferentes temas relacionados com o cérebro. Na primeira conversa – a 20 de Março (na próxima quarta-feira) às 18h30 – Greg Dunn e Suzana Herculano-Houzel (Universidade Vanderbilt, nos EUA) falarão sobre a complexidade do cérebro.

O cinema também entra nesta programação. A conferência de apresentação do ciclo Cérebro no Cinema será a 27 de Março às 18h30 com a presença de Sallie Baxendale (da Universidade College de Londres). O primeiro visionamento será com o filme O Meu Nome é Alice a 10 de Abril e depois haverá uma conversa com o neurologista Alexandre Castro Caldas (da Universidade Católica Portuguesa).

“Queremos chamar a atenção para o facto de todos termos um cérebro e ser com os cérebros que estamos a ver esta exposição. É uma exposição sobre o cérebro para cérebros. É uma meta-exposição”, brinca ainda o investigador principal do Instituto Gulbenkian de Ciência e professor do ISPA – Instituto Universitário. Rui Oliveira realça ainda que este foi um desafio entusiasmante e que todos os cientistas deveriam tentar comunicar ciência, pelo menos, uma vez durante a sua carreira. “Temos de saber transmitir à sociedade a importância daquilo que fazemos.”

E o que o fascina no cérebro? “Há aqui um quilo e pouco de massa orgânica que nos permite ter consciência da nossa existência. Acho que isto é fascinante.”

FONTE - Público

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