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quinta, 14 março 2019 18:35

Há cada vez mais drogas a circular nos esgotos de Lisboa e Almada

Aumento do consumo das substâncias ilícitas é uma tendência europeia. Num ranking de 73 cidades, Lisboa ocupa o 16.º lugar e Almada o 36.º.

Há mais drogas a circular nas cidades europeias e nas portuguesas também. A presença de cocaína, anfetaminas, ecstasy e metanfetaminas nos esgotos das cidades de Lisboa e Almada aumentou em 2018. O estudo mais recente sobre resíduos de droga nas águas residuais municipais, elaborado pelo grupo SCORE (Sewage Analysis CORe group Europe) em colaboração com o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), analisou amostras diárias das águas residuais de 73 cidades de 20 países europeus. Os dados foram revelados esta quinta-feira.

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De Lisboa a Atenas, de Copenhaga a Madrid, este é o maior projecto europeu realizado desde 2011 no domínio científico da análise de águas residuais. A análise dos esgotos permite estimar as quantidades e em que dias da semana as drogas são consumidas. Estas substâncias são libertadas na urina e acabam nos sistemas de águas residuais das cidades.

No caso do estudo de 2018, durante o período de uma semana, cerca de 46 milhões de pessoas foram analisadas para que fossem procurados vestígios de quatro drogas ilícitas: anfetamina, cocaína, MDMA (ecstasy) e metanfetamina. Em termos gerais, os resultados de 2018 apontam para um aumento na detecção de três destas substânciasnas amostras de águas residuais, em comparação com os valores de 2017.

No caso português, Lisboa e Almada foram as cidades portuguesas analisadas pelo estudo para o qual contribuíram profissionais da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses. Ao contrário do que aconteceu em 2017, o Porto não foi considerado para os resultados deste ano, uma vez que os valores da cidade estavam abaixo do nível de quantificação.

Mais cocaína

Em relação à cocaína, as águas residuais de Lisboa revelaram a presença de 454 miligramas (mg) diários por mil habitantes, um aumento significativo em relação aos 271 miligramas registados em 2017. Em Almada também se registou um aumento: 136mg diários contra os 82,4mg em 2017.

O estudo avaliou ainda a presença de anfetaminas nos esgotos nas duas cidades. Na capital, a quantidade detectada aumentou para 5,2mg diários por mil habitantes, contra os 3mg de 2017. Em Almada também se registou um aumento, ainda que ligeiro: 1,8mg (em 2017 foram detectados 1,3mg).

A presença de metanfetaminas em Lisboa, que em 2017 tinha sido abaixo dos valores de qualificação, disparou nos dados de 2018 para 1,8mg diários. Em Almada, o uso da substância tem tido uma evolução semelhante: em 2015 também estava abaixo dos níveis de qualificação, mas em dois já regista 1mg por cada mil habitantes.

Por fim, sobre o ecstasy, o estudo identificou nas águas residuais de Lisboa 49,3mg diários, um contraste com as 38,3mg diários de 2017. Em Almada, registou-se um aumento de 9,3mg para 10,5mg em 2018.

Nas quatro substâncias, sem excepção, a utilização das mesmas aumenta durante o fim-de-semana. Lisboa ocupa o 14.º lugar no ranking quanto à presença de cocaína nas águas residuais das 73 cidades avaliadas, uma subida de dois lugares em relação a 2017. Já Almada ficou em 36.º, mais 5 posições que em 2017.

Cocaína lidera consumos europeus

No caso da cocaína, os números mais recentes revelam um aumento dos vestígios de droga, dados que confirmam a tendência para um aumento do uso desta substância já verificado em 2017. Os dados revelam ainda que a cocaína terá um uso mais elevado em cidades do Ocidente e do Sul da Europa, em particular em cidades belgas, holandesas, espanholas e do Reino Unido. Apesar de a análise apontar para níveis muito baixos da utilização de cocaína nas cidades do leste da Europa, a tendência é que estes valores venham a aumentar nos próximos anos.

Os números do estudo mostram também que a maior parte das cidades analisadas revelaram um aumento de anfetaminas, sendo que os dados das sete últimas campanhas mostraram poucas mudanças nos padrões anteriormente observados.

As cargas de anfetamina detectadas nas águas residuais variaram consideravelmente consoantes os locais analisados, com os níveis mais altos a serem registados em cidades no norte e leste da Europa e os mais baixos nas cidade a sul. Quanto ao ecstasy, os dados apontam para um aumento dos vestígios da droga na maioria das cidades, em contraste com a estabilização que era tendência no ano anterior.

O consumo de metanfetaminas, tradicionalmente concentrado principalmente na República Checa e Eslováquia, está a ganhar força em países como Chipre, Alemanha (sobretudo no leste), Espanha, Finlândia e Noruega.

O estudo examinou também os padrões semanais do uso destas drogas. Os níveis de cocaína e o ecstasy subiram acentuadamente aos fins-de-semana na maioria das cidades. Nos dados de 2018 foi encontrado um padrão semelhante nas anfetaminas, o que sugere o uso recreativo, enquanto em anos anteriores os vestígios desta droga eram distribuídos de forma uniforme ao longo da semana.

A análise também concluiu que existem diferenças nas cidades dentro do mesmo país, o que pode ser explicado pelos aspectos sociais e demográficos de cada localidade, como a presença ou não de universidades e de áreas de diversão nocturna, ou o facto de serem centros turísticos ou de negócios com diferentes populações de dia e de noite.

Além dos padrões geográficos, a análise das águas residuais pode detectar flutuações nos padrões semanais do uso de drogas ilícitas. Mais de três quartos das cidades mostram maiores cargas de anfetaminas, cocaína e ecstasy durante o fim-de-semana (sexta a segunda-feira) do que durante os dias da semana. Por seu lado, o uso de metanfetamina é distribuído de forma mais uniforme durante toda a semana.

O grupo SCORE tem vindo a realizar campanhas anuais de monitorização das águas residuais desde 2011. Um total de 33 cidades já participaram em cinco ou mais das oito campanhas realizadas até agora, o que permite uma análise mais completa de tendências temporais do consumo de drogas com neste método.

FONTE - Público

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