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quarta, 10 outubro 2018 21:35

Árvores são mais eficazes a reduzir a poluição do que a tecnologia

Um estudo da Universidade de Aveiro chama a atenção dos agentes políticos para que, nos planos de ordenamento do território, estudem estratégias que incluam espaços verdes para melhorar o ar nas cidades.

Quando planeados e ordenados, segundo critérios científicos, os espaços verdes podem vir a melhorar o ar das cidades ao reduzir a concentração de poluentes e ter uma melhor eficiência em termos de custo — benefício do que as medidas tecnológicas, conclui uma investigação da Universidade de Aveiro. Que chama a atenção dos decisores políticos para o ordenamento territorial das zonas verdes nas cidades.

Nos últimos anos, melhorar a qualidade do ar nas cidades tem tido como ponto fulcral a evolução tecnológica. Mais recentemente, a aposta em soluções naturais tem vindo a ganhar força e apoio da União Europeia. Sandra Rafael é a autora da tese de doutoramento que foi, este mês de Outubro, publicada na revista Atmospheric Environment e dá conta de que as medidas a tomar devem ser analisadas, antes da sua implementação, tendo em conta que as cidades formam microclimas devido à sua morfologia urbana.

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A investigação teve a cidade do Porto, nomeadamente o Bairro do Batalhão dos Sapadores na Rua da Constituição, como foco do estudo de caso. Através do projecto CLICURB, a investigadora conseguiu uma parceria com a Câmara do Porto, que forneceu os dados necessários. “O principal objectivo deste estudo foi avaliar o efeito/influência de diferentes soluções baseadas na natureza na qualidade do ar”, apontou e acrescentou que “é um caso de estudo desafiante devido à sua dimensão e importância geográfica.” “Para além disso, é uma das áreas urbanas portuguesas com menor proporção de áreas verdes e azuis”.

Para o estudo, foram seleccionados dois dos principais poluentes das cidades, ambos provenientes dos transportes, e dos mais preocupantes para a saúde pública: o dióxido de azoto e as partículas em suspensão no ar que, pela sua pequenez, são facilmente inaladas. Tendo em vista a sua redução, “foram seleccionadas duas medidas: a implementação de um parque verde urbano e a implementação de telhados verdes”, aponta a investigadora.

O método de trabalho focou-se numa simulação em que um bloco de edifícios era substituído por uma área verde com 570 metros quadrados. Com a projecção, concluiu-se que, efectivamente, a existência de uma zona verde junto à Constituição reduziria as concentrações dos poluentes em quase 20%, embora os resultados variem consoante as condições meteorológicas.

Os resultados explicam-se pelo facto de as árvores serem elementos porosos (ao contrário dos edifícios) e, por isso, conseguirem levar à dispersão dos poluentes atmosféricos. “Além disso, é evidenciado neste estudo que os benefícios destas soluções estão directamente dependentes de um adequado ordenamento do tecido urbano”, aponta Sandra Rafael, reforçando que “isto significa que o planeamento do território, por exemplo, a selecção do local a aplicar estas soluções, a área dessa solução, entre outros factores, é imprescindível, requerendo que as medidas sejam avaliadas antes da sua implementação.”

A investigadora nota ainda a necessidade dos decisores políticos terem em linha de conta as conclusões e o conhecimento a que a investigação chegou uma vez que o planeamento dos espaços verdes se torna essencial para a melhoria da qualidade do ar. “Os resultados deste estudo reforçam a necessidade de integrar o conhecimento científico e as ferramentas que temos ao nosso dispor no planeamento urbano para optimizar o papel das soluções baseadas na natureza na melhoria da qualidade do ar e da qualidade de vida dos cidadãos.” “O próximo passo passa por transmitir o conhecimento científico que hoje existe aos decisores políticos, para que estes o possam integrar no planeamento urbano de forma eficaz”, remata.

Tendo em conta que os estudos sobre a qualidade do ar são um tópico de investigação novo, a autora acredita ter aberto um caminho a novos estudos na área.

Texto editado por Ana Fernandes

FONTE - Público

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